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terça-feira, 23 de junho de 2015

A Virgem Vestal de Pietro Saja



As vestais eram, na Roma Antiga, as sacerdotisas que cultuavam a deusa romana Vesta. O grupo era restritamente feminino e formado por meninas de 6 a 10 anos que serviam à deusa durante 30 anos.
As virgens vestais eram vistas como símbolos de pureza, e qualquer atentado a elas representava também um desrespeito aos deuses e à sociedade romana. Durante os 30 anos de reclusão as mulheres eram desobrigadas de casar e ter filhos e, mais do que isso, deviam preservar sua castidade e virgindade.

Acontece que a virgem retratada por Saja quebrou o seu voto de castidade e, por isso, foi condenada a ser enterrada viva. Perceba a expressão triste da moça, bem como a posição dos seus braços e ombros, largados sobre as suas pernas.

A única luz que irradia no ambiente é oriunda de uma pequena janela e ilumina a face da virgem.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O Buda em Pé


Um 'Buda para os Romanos'
Publicado em História Viva, Agosto de 2013.

Buda em Pé
O 'Buda em Pé'
Dos séculos 1 ao 3, o mundo euro-asiático era dominado por quatro grandes impérios: Roma no Ocidente, Pártia no Médio Oriente, Kushan na Ásia central e Norte da Índia, e a Dinastia Han na China. Esses quatro grandes impérios possuíam dinâmicas relações de trocas comerciais e políticas, articuladas por um grande sistema viário e marítimo, que hoje conhecemos como Rota da Seda. Por ela, trafegavam mercadorias, culturas, religiões, e se estabeleciam os contatos necessários à manutenção de um delicado equilíbrio político que impunha ordem nesse mundo.
A importância e profundidade desses contatos têm vindo à luz nos últimos vinte anos, quando a academia começou a prestar mais atenção na importância de ressaltar os diálogos interculturais na humanidade. Antes disso, víamos apenas esporádicos estudos sobre as relações entre Oriente e Ocidente, muitos deles contaminados pelo colonialismo e pelo imperialismo do século 19 e 20. Iniciativas como a da UNESCO, de realizar um grande resgate da história da Rota da Seda, apresentaram ao mundo um panorama da Antiguidade muito diferente daquele com o qual estávamos acostumados: os povos antigos se comunicavam, interagiam, trocavam experiências, e estavam longe de serem sociedades estanques e separadas.
Um desses fenômenos de diálogo cultural e religioso mais importantes – e ainda, muito pouco conhecido – é o da presença budista no mundo romano. Durante alguns séculos, os budistas tentaram entrar no mundo romano, e buscaram se estabelecer nele. Como disse Greg Woolf, estudioso das religiões, o Budismo era uma das ‘religiões mundiais’ – ou, religiões proselitistas, universalistas e interculturais – , que tinha apoio do império Kushan para estender sua fé por outras regiões. Nesse período – o séc. 1 ao 3 d.C. – os budistas ‘competiram’, junto com várias outras religiões, por fiéis no Mediterrâneo, na Partia, na Índia e na China. A história dos budistas no mundo romano, porém, é quase um caso a parte. Para desenvolver mecanismos pelos quais pudessem se comunicar com o imaginário ocidental, os budistas teriam empregado motivos artísticos greco-romanos para criarem uma imagem de Buda acessível a esse mundo romanizado. Essa é a controversa história de como uma das mais famosas representações de Buda – o ‘Buda em Pé’ – teria surgido, justamente, para converter os ocidentais, antes de tornar-se um cânone na iconografia budista.

Os antecedentes históricos

Para compreendermos como essa história começou, é necessário voltar um pouco mais no tempo. Desde o século 4 a.C., após as conquistas de Alexandre na Índia, comunidades helênicas se estabeleceram numa vasta região, que hoje compreende o norte da Índia, parte do Paquistão e do Afeganistão. A instalação desses gregos nunca foi tranquila: em breve, eles já formavam os chamados reinos ‘greco-indianos’, que lutavam entre si constantemente, e contra o restante dos reinos indianos. Em termos culturais, porém, essa relação parece ter frutificado – especialmente, em relação os budistas. Os budistas se destacavam como uma religião favorável ao diálogo intercultural, interétnico e social; afinal, já fazia séculos que eles lutavam contra o sistema de castas tradicional indiano, e defendiam que a libertação espiritual era acessível a qualquer um. É provável que, em função dessa abertura, gregos (sempre considerados estrangeiros naquelas terras) e budistas tenham estabelecido um contato rico e fértil, que se manifestou principalmente no plano intelectual e artístico. Um exemplo fantástico dessa relação é, por exemplo, oMilinda Panha (ou, Diálogos com o Rei Menandro), que trata de um suposto diálogo entre um rei grego e um sábio budista sobre religião e filosofia. No fim, Menandro, o rei grego, teria se convertido ao budismo. Mas, se não podemos comprovar a veracidade dessa história, por outro, percebermos que no campo das artes, os budistas realmente investiram na absorção de padrões helênicos na formação de sua iconografia.
Uma destacada escola artística budista, a escola de Gandhara, especializou-se em adaptar motivos gregos ao âmbito indiano. Dela, nasceram magníficos Budas diretamente inspirados nos estilos helênicos, mas mantendo certas especificidades (sinais religiosos, posturas, gestos) que denotavam seu caráter budista. A escola de Gandhara tornar-se-ia, pois, a principal ‘representante’ dessa fusão ‘Oriente-Ocidente’, ou ‘Índia-Mediterrâneo’. Contudo, não sabemos ao certo quanto tempo essa adaptação demorou, nem quando surgiram as primeiras obras. Os diversos conflitos na região, as destruições patrimoniais sistemáticas, as evidências arqueológicas de que dispomos, e a separação das peças conservada nos museus de seus contextos original, torna difícil precisar, cronologicamente, a origem e o desenvolvimento dessa iconografia. Quase todas as peças de que dispomos hoje datam do início do século 1 d.C. – nessa época, o mundo já havia mudado bastante, e o Mediterrâneo tinha outro dono: Roma.

As relações entre Roma, Índia e os budistas

Na passagem dos séculos 1 a.C para o 1 d.C., a Rota da Seda se consolidou como a principal via de intercâmbio euro-asiático. Os contatos econômicos e culturais atingiram um novo patamar de intensidade nunca antes visto na história mundial, graças à estabilidade das fronteiras terrestres. Vias marítimas ligando Europa, África, Arábia, Índia e China foram desenvolvidas e aperfeiçoadas, possibilitando um aumento significativo do comércio marítimo. Nesse ínterim, Roma e Índia aprofundaram seus contatos, o que fica evidenciado tanto na literatura da época, quanto pelas descobertas arqueológicas.
Segundo o historiador Floro, Augusto (63 a.C. – 14 d.C.) recebeu uma embaixada indiana; geógrafos como Estrabão e Ptolomeu (séc.s 1 –2 d.C.) descreviam os meios para se chegar à Índia; um manual de navegação chamado Périplo do Mar Eritreuensinava como chegar a duas colônias romanas instaladas na Índia; Plínio Velho (23 a 79 d.C.) cita inúmeras vezes a Índia em suaHistória Natural; Filóstrato (170[?] a 250[?] d.C.) afirmou que Apolônio de Tiana, famoso e misterioso pensador de origem grega, estudara durante anos na Índia; e outras inúmeras citações aparecem aqui e acolá na literatura romana. Notável, porém, é o fato dos romanos saberem diferenciar os budistas dos outros indianos: o padre cristão Clemente de Alexandria (150 a 215 d.C.) sabia diferenciar os seguidores de ‘Bouta’ dos ‘brâmanes’, e o escritor gnóstico Bardasano (Bardesanes, 154 a 222 d.C.) fora enviado pelo imperador Heliogábalo para investigar as doutrinas indianas, chamando os budistas de ‘sramanas’ (outro dos nomes dos seguidores de Buda). Como os romanos sabiam, tão detalhadamente, essas diferenças?
A presença romana na Índia foi marcante. A arqueóloga Rose Cimino (1998) fez um abrangente levantamento das evidências materiais tanto da presença romana na Índia quanto dos vestígios indianos no Ocidente. Mais recentemente, Warwick Ball (2000) e Raoul McLaughlin (2010) demonstraram que o intercâmbio entre romanos e indianos era extremamente ativo. Produtos ‘exóticos’ vindos da Índia como especiarias, ervas e temperos já eram famosos nos mercados mediterrânicos; por seu turno, os indianos importavam jóias, vidros e perfumes. Isso tudo, claro, apenas no nível comercial. Mas as trocas também existiam no plano das idéias.
Como dissemos antes, grande parte da Índia, no século 1 d.C. fora tomada pelos kushans, povo oriundo do noroeste da China (hoje, província de Xinjiang). O império Kushan estava espremido entre o império Han ao leste e a Pártia ao Oeste, e mantinha contato marítimo direto com a África e a Arábia. Interessados em afirmar seu poder perante os outros impérios, os Kushans decidiram empregar métodos de representação já conhecidos naquela época, apropriando-se de representações de poder aparentemente ‘comuns’ a essas culturas. Um exemplo é a cunhagem: diversas moedas kushans representam seus soberanos em posturas e gestos de poder, amplamente conhecidos, no mundo greco-romano e na Pártia. Algumas delas vinham com inscrições em grego; e ao que tudo indica, esses soberanos pretendiam se representar, perante o mundo mediterrânico, como semelhantes aos imperadores romanos e partos. Uma inscrição kushan descoberta em Ara, na região do Punjab, nos informa que o imperador Kanishka I  (127? a 150? d.C.) se proclamara um ‘kaisara’ – mais precisamente, um ‘César’. Ou seja: os kushans, aparentemente, estavam importando modelos romanos do ocidente, e se valendo da experiência helênica anterior, para construírem suas próprias representações de poder.

Moeda de Kanishka com a imagem de Buda

Moeda de Kanishka com a imagem de Buda

Augusto da Prima Porta
Augusto da Prima Porta
A idéia não é exagerada: como nos mostrou Paul Zanker (1988), em seus estudos sobre arte e ideologia no início do império romano, Augusto iniciou um programa de renovação visual em Roma, que se destinava a propagar o culto a sua imagem em todas as partes do império. Algumas representações mais famosas, como a de Augusto de armadura (Augusto da Prima Porta) ou Augusto vestido com uma toga pontifícia (Augusto da via Labicana) espalharam-se rapidamente, e esses motivos continuariam sendo reproduzidos nas vias públicas, e mesmo nas casas mais abastadas, durante séculos depois. É bem provável, portanto, que os kushans buscassem inspiração nesses modelos, que os permitiriam ser identificados pelos romanos e, ao mesmo tempo, os diferenciavam de partos e chineses.

O ‘Buda Romano’

E foi nesse contexto que os budistas, amparados pela proteção dos soberanos kushans, também produziram algumas de suas magníficas obras de arte em Gandhara e em outras regiões. Se pudermos admitir que os modelos romanos estavam sendo copiados pelos kushans, porque não admitir, também, que os budistas utilizassem o mesmo expediente para criar uma imagem capaz de dialogar com o Ocidente? Essa hipótese foi aventada desde as primeiras explorações européias na arte budista indiana. Em 1876, James Fergusson propusera que existiria uma arte ‘romano-budista’, o que foi referendado pela análise de outro especialista, Vincent Smith, em 1889. Depois, Alfred Foucher (1907) propôs a primazia helênica sobre a iconografia budista, gerando debates intermináveis que perduraram ao longo do século 20. Benjamin Rowland (1960) manteve a idéia da influência romana, graças à descoberta de depósitos arqueológicos romanos na Índia, e Wladimir Zwalf (1996) seguiu um caminho semelhante. Por fim, Ball (2000) propôs uma solução para a disputa: aceitar que esses elementos seriam, justamente, ‘greco-romanos’, e como estavam inseridos no contexto da época, foram sendo adaptados às circunstâncias político-religiosas. Isso faz sentido, pois não elimina a possível influência grega na iconografia budista, e aceita a incorporação dos modelos romanos como uma adequação temporal e contextual.
É aqui, portanto, que chegamos ao ponto principal: poderiam os budistas ter ‘importado’ imagens romanas para criarem suas representações de Buda? Um dos modelos que mais nos chama a atenção é a semelhança entre o Augusto da Via Labicana e o modelo de estátua do ‘Buda em Pé’. A estátua da via Labicana foi feita para promover o culto ao Genius Augusti – ela apresenta Augusto vestido com uma toga pontifícia, em pé, com o braço esquerdo coberto, e na mão direita provavelmente trazia uma patera – pequena tigela usada para derramar leite ou vinho como oferenda aos deuses. Augusto é representado como o Pai da Pátria e de todas as famílias, protetor, que traz a paz e a tranqüilidade. Essa imagem foi reproduzida nos mais diversas regiões do império, e foi encontrada mesmo em diversas casas romanas. Torna-se bastante razoável supor que os budistas tenham conhecido essa representação, e se inspiraram nela para criar o modelo do ‘Buda em Pé’.

Augusto da Via Labicana
Augusto da Via Labicana

Buda em Pé de Gandhara
Buda em Pé de Gandhara
O modelo do ‘Buda em Pé’ também foi representado em estátuas, afrescos e pinturas. Ele traz Buda envolto num ‘samghati’, espécie de manto ou toga, que envolve todo o seu corpo, e que até então não aparecia em nenhum outro motivo na arte indiana. Outro detalhe é o gesto das mãos: a mão esquerda fica sempre para baixo, envolta no manto, enquanto a mão direta representa um gesto espiritual – na Índia, chamado de mudrá – que no caso do ‘Buda em Pé’, quase sempre apresenta o Vitarka mudrá (gesto de ensinamento) ou o Abhaya mudrá (gesto de paz, de tranquilização). Ambos, pois, se destinam a pacificar ou a esclarecer. A única diferença marcante é quanto à cabeça – Buda, em geral, é representado com seu halo divino, o ‘chakra’, e uma protuberância na cabeça, ‘usnisha’, que teria surgido quando ele atingiu o nirvana. Os artistas budistas não fizeram por menos: fizeram dessa protuberância um elegante coque de cabelos. Por fim, no formato de estátuas, tanto o Augusto da via Labicana quanto o ‘Buda em Pé’ estão assentados sobre plataformas floridas – pode ser um mero detalhe decorativo, mas a similaridade instiga ainda mais a associação entre as duas. Note-se a extrema semelhança do estilo e dos padrões na representação budista com as formas artísticas ocidentais. É quase irresistível a tentação de admitir que ambas se aproximam bastante uma da outra.
Provavelmente, os budistas esperavam criar uma associação entre um popular motivo romano e a imagem de Buda, tornando-o mais familiar aos olhos mediterrânicos. O ‘Buda em Pé’ também trazia, consigo, uma mensagem pacificadora e familiar, o que o aproximava ainda mais do Augusto da Via Labicana, e concedia a Buda uma certa ‘dignidade imperial’.

Mas o que aconteceu depois?

Apesar desse notável esforço dos budistas de criarem um ‘Buda para os romanos’, as tentativas de estabelecer uma comunidade no mundo mediterrânico não foram bem sucedidas. Entre os séculos 1 e 3 d.C., o mundo romano era palco de inúmeras disputas religiosas, e não faltavam ‘religiões mundiais’ para competirem com os budistas. No entanto, uma dessas religiões acabaria por vencer todas as outras: o Cristianismo. A ascensão dos cristãos varreu do mapa diversas religiões orientais que perambulavam pelo Mediterrâneo, e os budistas perderam tudo o que, possivelmente, tinham conquistado por lá. Contudo, o modelo do ‘Buda em Pé’ permaneceu dentro do cânone iconográfico budista, tornando-se uma de suas representações mais populares e autênticas. Além disso, se as portas do Ocidente foram fechadas, tanto a China como Sudeste Asiático estavam abertos, e receptivos, a vinda dos missionários indianos. Começava aí uma nova etapa da história do Budismo, que levaria para a China suas férteis experiências interculturais, e que iria revolucionar o panorama religioso e artístico chinês nos séculos vindouros através de sua riquíssima iconografia ‘indo-greco-romana’.

Para ler:

André Bueno, Interações Euroasiáticas na formação da iconografia budista: um estudo sobre os processos de interação cultural entre os mundos greco-romano e sino-budista e a formação de símbolos interculturais na antiguidade. UNIRIO, 2012 (no prelo).

Gilles Beguin, Buddhist Art: An Historical and Cultural Journey, 2009.

Raoul Mclaughlin, Roma e o Oriente Distante, 2012 (original, 2010).
Warmick Ball, Rome and East, 2000.
Wladimir Zwalf, Buddhism: art and faith, 1996.



domingo, 12 de junho de 2011

Análise do Fascismo pelo tradicionalista Julius Evola


O simbolismo do Fascio

O fascio é um simbolo de origem etrusca que é associado ao poder e à autoridade.
Na Roma Antiga, era usado em cerimónias oficiais - jurídicas, militares e outras - precedia a passagem de figuras da suprema magistratura, abrindo caminho em meio ao povo.
Constitui-se de um feixe de varas de bétula branca, simbolizando o poder de punir, amarradas por correias vermelhas (fasces), símbolo da soberania e união. O machado de bronze simboliza o poder de vida e morte.

Abaixo uma estátua de uma criança segurando o fascio.

Roma, basilica di san Marco, angelo della tomba del cardinale Aloisio Priuli

O fascio se tornou mais tarde símbolo do movimento Fascista, doutrina totalitária desenvolvida por Mussolini na Itália, no qual, a própria nomenclatura se inspira.

Esse simbolismo tradicional, e até nostálgico e mitológico, vivia no imaginário e no sonho italiano, que no passado, fora o berço de um dos maiores e mais influentes impérios da Antiguidade.

Para Julius Evola, o que caracteriza a mitologização é a idealização. Para ele, que por vezes se mostra relativamente simpático ao movimento, o Fascismo é legítmo apenas na medida em que foi uma manifestação e re-assumpção da grande tradição política européia, fomentada no plano espiritual, político e social.

Essa fomentação, para Evola, representa tudo o que a Europa buscava antes da Revolução Francesa.
A ascenção do Terceiro Estado que, para ele, foi o início do fim que levou a tradição européia a sua atual prostração.

Para Evola, a origem do Fascismo está relacionada com a crise da idéia de Estado - da autoridade e do império, originária das ideologias do Risorgimento, movimento que buscou entre 1815 e 1870 a unificação da Itália, que antes era uma coleção de pequenos Estados submetidos a potências estrangeiras.

Do Risorgimento formou-se um Estado secular, de influência maçônica e de governo liberal(que Evola considera medíocre) com uma monarquia enfraquecida (parlamentar e constitucional).
O Estado então se tornou desprovido de mito no sentido positivo, aboliu a idéia superior orientadora e organizadora e tornou-se fraco mediante as eminentes sugestões revolucionárias do Quarto Estado, ou seja, a revolução socialista marxista.

Litor romano
A admiração Evoliana.

Com a ascenção do fascismo, a idéia de Estado, com uma base para um governo forte, afirmou o puro princípio da autoridade e da soberania política.
Se orientando no trinômio "autoridade, ordem e justiça", do qual para ele, inegavelmente, criou grandes Estados europeus.
Evola mostra-se um tanto fascinado com o retorno dessa idéia de poder e da autoridade.

O imperativo ideal fascista se dá em combater o sistema de incompetência peculiar à democracia e substituí-lo por um princípio de solidariedade, energia e unidade num mundo que sentia e sente os efeitos das influências deletérias da consciência de classe, partidismo, do regime de influentes e incompetentes trapaceiros políticos, para além dos antagonismo entre os capitalistas monopolistas, os mercados e as forças do trabalho no sistema de inspiração liberal.

Para Evola, outro aspecto positivo é o sistema corporativista. O corporativismo é um sistema político que atingiu seu completo desenvolvimento teórico e prático na Itália Fascista. De acordo com seus postulados o poder legislativo é atribuído a corporações representativas dos interesses econômicos, industriais ou profissionais, nomeadas por intermédio de associações de classe, que através dos quais os cidadãos, devidamente enquadrados, participam na vida política.

Esse espírito corporativista simboliza para ele uma re-assumpção do espírito que era a força motriz das antigas corporações e das empresas antes delas serem comprometidas por um lado pelos desvios e abusos de poder do capitalismo tardio, gerando uma consciência marxista que se espalhou pelas massas trabalhadoras.

O corporativismo fascista recolheu princípios de uma solidariedade anti-classista na ordem produtiva, superando ao mesmo tempo o liberalismo e o socialismo, numa concepção orgânica.

O primado do princípio político sobre a economia, e não o contrário.

Análise do sindicalismo e Autarcia

Apesar dos caracteres posititvos do corporativismo, o requerimento da praxis do regime foi apenas levada a meio.
No corporativismo fascista existiam ainda réstias da consciência de classe pois não houve a coragem de assumir uma posição claramente anti-sindicalista.

A dualidade empregador-empregado não foi superada onde deveria ter sido, nas próprias empresas, através de formas orgânicas originais.

O sindicalismo foi ineficiente, um parasita superstrutural estatal moldadado por um pesado centralismo burocrático.
O reconhecimento do sindicato representou um passo atrás e não um passo a frente, uma verdadeira demagogia legalizada.

O "passo-a-frente" para Evola foi representado na legislação laboral Nacional-Socialista que excluia o sindicalismo e ao mesmo tempo, conseguiu uma eficiente reconstrução da economia com a adequada satisfação da necessidade de justiça social.

Outro ponto criticado do fascismo é a Autarcia, o qual Evola defende.
Autarcia, é uma sociedade que se basta a si própria em termos económicos. Tem implícita a ideia de que um país deve produzir tudo aquilo de que necessita para consumir, não ficando dependente das importações.
O conceito de Autarcia tem origem na Antiguidade clássica, nas escolas estóicas, aonde era considerada como um imperativo da ética de independência e auto-soberania.

Manter o nível geral de vida relativamente baixo se necessário, para que se possa ser tão libre quanto possível das ataduras do capital e economias estrangeiras, é uma idéia sã e viril.

A Italia tem recursos naturais limitados.
Um sistema de autarcia e austeridade no contexto de uma economia de consumo equilibrada ao invés de uma de produção forçada e do supérfluo.
Contraposição da aparente prosperidade geral e uma vida quotidiana descontraída, com atroz saldo da dívida da balança estatal, uma extrema instabilidade, uma inflação progressiva e uma invasão de capital estrangeiro - invasão com o intúito encantador e hipócrita de "apoio ao desenvolvimento de áreas subdesenvolvidas".

A crítica do Totalitarismo.

Totalitarismo é um sistema político no qual o Estado, normalmente sob controle de uma única pessoa, político, facção ou classe, não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regulamentar todos os aspectos da vida pública e privada.

Segundo Evola, esse foi o primeiro dos diversos desvios que o fascismo teve quando era vigente.
O ideal de autoridade defendida por Evola era algo muito mais relacionada ao livre reconhecimento e lealdade a superioridade e muito menos impositivo.

Não deve ser equiparado a um pedagogo insuportável e invasivo.
Deve ser fruto de uma livre adesão e respeito mútuo e não interferência no que é estritamente pessoal e irrelevante para o propósito da ação comum.

A idéia formulal de "Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado", para ele, torna o princípio de autoridade central indiscutível degenerada.
Esta idéia totalitária é reconhecível em um estado Soviético, dada suas premissas materialistas, mecanicistas e coletivistas, não em um sistema tradicional que se baseia em valores espirituais.

O Estado tradicional de Evola deve ser orgânico, não totalitário, e era nesse sentido que o regime fascista deveria ser guiado.

Um estado orgânico é um estado diferenciado e articulado, admite zonas de autonomia parcial, coordena e subordina a uma unidade superior forças cuja liberdade, no entanto, respeita.


Em busca de um nacionalismo purificado

Evola defende que a idéia tradicional da preeminência do Estado, qual ele viu germinar e morrer na ascenção do Fascismo, deve ser reassumida, reelaborada, repensada.

Uma precisa oposição ideal entre Estado e a "sociedade", reunindo nesta última todos os valores, interesses e disposições que dizem respeito ao lado físico e vegetativo de uma comunidade, não organizados em uma ideia superior.

Ideia que não se encontra nem democracia burguesa, de direito natural nem no socialismo pois ambos se limitam a entender o mundo unicamente em seus processos econômicos.

Para Evola, outro erro do fascismo, é incitar um nacionalismo apelando aos meros sentimentos de pátria e povo e associando a um "tradicionalismo" limitado a um conservadorismo do tipo burguês, púdico, catolizado e convencionalista.

Para ele, o sentimento de pátria e nação tem caráter pré-político, não inteiramente distinto do mero sentimento de família.

Pátria e nação, palavras usadas através de uma retórica vazia e desonesta, com fins táticos e eleitorais negando o possível conteúdo superior que pode ser reunido por um nacionalismo purificado.

Benito Mussolini - Cartaz Fascista
A questão da Diarquia, a demagogia fascista e o populismo

Diarquia é uma forma de governo compartilhada por dois chefes de Estado.
Evola escreve que várias críticas foram dirigidas a partir de vários pontos de vista a respeito da diarquia, ou seja, a coexistência da Monarquia e de um tipo de ditadura no período Fascista.

Para muitos que estavam empolgados com o movimento mussoliano, a aceitação fascista da instituição monárquica se coloca como uma "falha revolucionária".

A diarquia tem caráter tradicional.
Desde a Roma Antiga admitia-se em casos de necessidade, como recurso não-revolucionário, uma dualidade de poder. Em outras constituições tradicionais sempre vemos relações equivalentes à do Rei e do Duce, Rei e Imperador, a coexistência de uma autoridade máxima de um território e um governador (no sentido militar).
O primeiro encarnando o puro, intangível e sagrado princípio da soberania, e o segundo aparecendo como aquele que, em períodos tempestuosos ou em vista de exigências particulares, executava deveres excepcionais numa posição arriscada que, devido à própria natureza da sua função, não podia aproveitar ao rex.

O plano do rei é um plano abstrato, sagrado e dirigido aos princípios puros.

O Fascismo se enveredou pelo caráter populista, digno de um Bonaparte, com a inclinação democrática/demagócica de ir "ao encontro do povo", aproveitando-se de sua adulação, e excitando as forças emocionais e irracionais das massas.

A obediência dos suditos, num plano ideal, deve se basear em um "pathos de distância" (Nietzche), porque sentem que estão na presença de alguém que é quase de outra natureza.

Tanto o Ducismo e o Hitlerismo discursam em uma orientação moderna e anti-tradicional, pois o respeito e autoridade se dá pela idéia (falsa) de igualdade do lider, que na essência se pauta na idéia de "popular", sendo "um de nós" e representa (falsamente) a "vontade do povo".

A diarquia deve ser considerada apenas como uma doutrina, abstraindo qualquer consideração sobre a situação presente, homens e coisas. Não existem hoje reis que se atrevam a intitular-se como tal que não pela vontade do povo, e, se existissem, ninguém lhes obedeceria.

A questão do "partido único"

O verdadeiro Estado não reconhece a partidocracia de um regime democrático e parlamentar.
Partido significa parte, e implica portanto uma multiplicidade.
Partido único seria a parte que pretende tornar-se o todo, ou, uma facção que elimina as outras sem se elevar a um plano superior, precisamente porque se continua a considerar como partido.

Só pelo conceito puro de "partido" denota-se um empecilho a um sistema realmente orgânico e monolítico.
Então, mais do que um partido, precisaremos de falar de uma espécie de "Ordem", remetendo-se a função que, noutros tempos, a nobreza teve enquanto classe política - até o período dos europeus centrais.

Nem Rússia, nem América

O que deve ser reassumido do Fascismo, como clara palvra de ordem, é a oposição tanto à Russia como à America.

Cartaz Fascista contra os Aliados
"O trabalho dos Libertadores" 
Essas duas nações líderes representam no mesmo grau a anti-tradição e a negação dos valores superiores do legado europeu.

Cabe aos tradicionalistas, por falta de uma representatividade de uma "terceira via", infelizmente, a defesa interior, espiritual, subjetiva.
A defesa interior do capitalismo (americanismo) e do comunismo, já teria grande significado.

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