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sábado, 23 de maio de 2015

O Cristianismo no Japão - Parte 5 : As Razões da Perseguição

Embora nunca cheguemos a compreender plenamente as razões que levaram os poderosos Xoguns a proibir a prática e difusão da Fé Cristã, temos algumas pistas para entender melhor toda aquela terrível perseguição.

Em primeiro lugar, há o receio da anexação do país como colônia estrangeira, como ocorreu em vários (de fato, quase a totalidade) países asiáticos. Com certeza, as informações sobre esses fatos não eram do desconhecimento de Hideyoshi Toyotomi ou dos Xoguns do clã Tokugawa.

Em segundo lugar, e talvez a mais temida, é a mudança do comportamento de um cristão convertido: ele ama Deus acima de tudo e, portanto, procura ser fiel às Suas Palavras, o que significa ser contrário ao pecado e às injustiças, mesmo que estas venham do seu superior hierárquico... E o fiel cristão, tendo como meta a felicidade eterna, não teme o sofrimento nem a morte quão terríveis sejam. Esta atitude deve ter chocado de frente com a prática do bushi-do (caminho do samurai), onde o subordinado muitas vezes era obrigado a se sacrificar pelo seu superior, numa atitude idolátrica...

Segundo história, Hideyoshi, visitando Hakata, hospedou-se no palácio do “daimyo” Cristão Arima e, ao 'escolher' as belas jovens para passarem a noite com ele, teve a recusa de todas, cristãs, que preferiram manter a pureza à dar-se ao poderoso deste mundo. Isto o preocupou sobremaneira, pois o fato das “simples” mulheres recusarem o maior mandatário do país num ambiente extremamente machista, era para ele um absurdo.

Nossa Senhora do Japão

Assim como Cristo foi crucificado pelo temor dos 'poderosos' de Israel que se sentiram ameaçados pelas Suas mensagens de paz, caridade e fraternidade, os “poderosos” japoneses que viviam numa sociedade extremamente classista e injusta, sentiram ameaçados pelo Seu apelo de um mundo mais humano, justo e digno.

Hoje, os verdadeiros cristãos sentem o mesmo peso e ameaça de um mundo igualmente injusto e excludente, apesar de todo o progresso tecnológico alcançado pela humanidade, pois esta tecnologia que, ao mesmo tempo em que possibilita a democratização do conhecimento, pode se tornar o grande meio de controlar o povo e afastá-lo do caminho da felicidade eterna.

 Precisamos refletir mais que nunca os exemplos daqueles que viveram a fé até às últimas conseqüências e convertermo-nos cada vez mais, a fim de alcançarmos a verdadeira meta da criatura humana, isto é, sermos co-herdeiros do Reino de Deus e participantes da natureza divina, não pelo nosso mérito, mas unicamente pelo mérito de Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Redentor.

Fonte

O Cristianismo no Japão - Parte 4 : O Trabalho Missionário e Cronologia

 Eis algumas descrições do trabalho missionário no começo do século XX:

Duas obras de grande importância foram estabelecidas pelos missionários, o hospital de leprosos em Gotemba, fundado por M. Testewaide e um outro em Kumamoto por M. Corre. Os missionários foram logo seguidos por numerosos e valorosos assistentes.

Em 1873 vieram as Dames de St-Maur. Fundaram inicialmente um orfanato em Yokohama, e um outro em Tóquio em 1875; mais de 700 pessoas eram assistidas ao mesmo tempo. Atualmente possuem um orfanato e três escolas, uma delas em Shizuoka, para nível médio, e um curso de língua estrangeira e de artes para nível superior, com 180 alunos.

Em 1877 vieram as Filhas do Menino Jesus de Chauffailles. Elas possuem orfanatos e escolas particulares em Osaka, Kobe, Kyoto, Nagasaki e Okayama. As Filhas de S. Paulo de Chartres vieram em 1878; possuem escola primária e internato em Hakodate, Tóquio, Sendai, Morioka e Yatsushiro, com mais de 800 alunos.

Em 1888 os Padres Marianistas se estabeleceram em Tóquio. O seu progresso foi lento e laborioso, porém ininterrupto. Possuem atualmente escola primária e secundária com 802 alunos, dos quais 71 são Católicos e 29 catecúmenos; e um curso de língua estrangeira para adultos com 100 alunos. Destes 802 alunos, 140 são filhos de generais, almirantes, oficiais superiores, embaixadores, ministros, cônsules, deputados e senadores. Há 19 professores europeus e 26 japoneses. Cinco padres marianistas conduziam cursos na universidade, na escola da nobreza, na escola de cadetes, e escola militar. Além disso possuíam em 1893 uma escola comercial com 380 alunos em Nagasaki; outra em Osaka em 1898 com 498 alunos; em Yokohama (1902) uma escola primária com cursos comerciais para estrangeiros e eurasianos de todas as nacionalidades, com 120 alunos. Em todas estas escolas, a caridade, o zelo, a amizade e o esporte florescem. Os religiosos nativos são solicitados principalmente entre os antigos Cristãos de Kyushu e para atendê-los foi construída uma casa em Urakami no ano de 1910.

Em 1896 os Trapistas de quatro nacionalidades diferentes vieram a Hokkaido. No período de doze anos, limparam uma área de 1000 acres dos quais 620 se tornaram produtivas e formaram uma colônia com mais de 100 pessoas.

As religiosas da mesma Ordem vieram da França em 1898. O início foi penoso, mas hoje não têm dificuldades em recrutar pessoas dentre os velhos Cristãos de Nagasaki. Estão engajadas na indústria de queijo e apesar do tropeço inicial têm progredido muito.

Em 1905 toda a ilha de Shikoku foi entregue aos Dominicanos espanhóis. Esta é a quinta divisão eclesiástica do Japão, com 300 membros.

Os franciscanos  retornaram em 1906. Estão em Sapporo e Hakodate, e são em 9: cinco alemães, 2 canadenses e um francês engajados em ensinar línguas e ministério.

Os padres da Palavra Divina de Steyl vieram em 1907. Consistiam de sete alemães e um austríaco.  Lecionam alemão, inglês, francês e chinês, e pregam o Evangelho.

Em primeiro de janeiro de 1908, 12 religiosos do Sagrado Coração, ingleses, belgas e franceses, abriram uma casa de ensino superior em Tóquio.

No dia primeiro de julho as cinco Servas do Espírito Santo da Alemanha e Áustria vieram a Akita, onde possuem um jardim da infância, internato, escola de corte e costura e línguas alemã e francesa.

Em primeiro de setembro chegaram as irmãs franciscanas da França, México e Itália a Sapporo, onde estabeleceram escolas de costura e bordados, de economia doméstica, e um dispensário. As irmãs da mesma Congregação cuidam de um leprosário em Kumamoto.

Finalmente em 17 de outubro três padres Jesuítas inglês, alemão e francês se estabeleceram em Tóquio para criação de escola de Educação superior e jornalismo.

Assim a Igreja Católica una na fé, com os seus corpos religiosos de todo o país e de todas as Congregações possui no Japão um caráter verdadeiramente universal.

Monumento aos 26 Mártires erigido no local do martírio em Nagasaki.

Cronologia

1549 – Francisco Xavier chega ao Japão.

1551 – Francisco Xavier deixa o Japão.

1573 – Nobunaga Oda depõe o xogunato Ashikaga e inicia a era Azuchi Momoyama.

1576 - A fé Católica é reconhecida pelo governo central. Construção das primeiras igrejas.

1582 – Envio de mensageiros japoneses ao Vaticano. Oda é traído e morto, assume Hideyoshi Toyotomi.

1587 – O Cristianismo é proibido, porém, somente no papel.

1590 – Retorno dos mensageiros ao Vaticano e introdução da imprensa gráfica.

1591 – Publicação de “Heike Monogatari” e “Doutrina Cristã” em Amakusa.

1593 – Chegada dos Franciscanos e o início dos atritos com os Jesuítas.

1596 – Nova perseguição aos Cristãos.

1597 – Martírio dos 26 Cristãos em Nagasaki.

1598 – Morre Toyotomi.

1600 – Batalha de Sekigahara e derrota dos aliados de Toyotomi.

1603 – Ieyasu Tokugawa inicia o xogunato – Era Edo.

1609 – Início do comércio com a Holanda.

1612 – O Cristianismo é colocado fora-da-lei.

1613 - Masamune Date envia um representante ao Papa Paulo V.

1614 – Expulsão de 148 Cristãos para a Manila e Macau, entre eles, Ukon Takayama.

1616 – Morte de Ieyasu e a ascensão de Hidetaka.

1623 – Morte de Hidetaka e a ascensão de Iemitsu. Acirramento da perseguição aos Cristãos.

1638 – Revolta de Shimabara e expulsão dos portugueses.

1639 – Fechamento dos portos japoneses.

1640 – Instituição oficial da Inquisição.

1664 – O governo ordena a conversão e o cadastramento da população nos templos budistas.

1792 – Fim da Inquisição.

1865 - Reaparecimento dos Cristãos ocultos que se apresentam ao Padre Petitjean no dia 17 de março, em Nagasaki.

1867 - Recomeço da perseguição: milhares de cristãos são torturados e exilados.

1873 – Reconhecimento do Cristianismo.

1889 - Reconhecimento da liberdade religiosa na Constituição.

O Cristianismo no Japão - Parte 3 : Perseguições e Resistência

Em 5 de fevereiro de 1597, vinte e seis Cristãos, após caminharem de Osaka a Nagasaki (cerca de 800 km), foram crucificados, mostrando na oportunidade a coragem e alegria na fé cristã, pregando e cantando até o fim.

Após a morte de Hideyoshi a paz reinou durante quinze anos. Os cristãos se multiplicavam e a Fé se manifestava em grandes frutos: 130 Jesuítas, alguns sacerdotes seculares, e cerca de 30 religiosos das ordens de S. Francisco, S. Domingos e Sto. Agostinho trabalhavam lado a lado.

Em 1609 e em 1613 chegaram os protestantes holandeses e ingleses inimigos dos Católicos portugueses e espanhóis. Em 1613 a perseguição recomeçou. Naquele ano o nobre de Sendai, Masamune Date, enviou Rokuemon Asakura como embaixador ao Papa Paulo V e ao Rei da Espanha, na companhia do franciscano Sotero.

No ano seguinte foi publicado o edito de destruição pelo novo Xogun do império, Ieyassu Tokugawa. Foi decretado que o catolicismo deveria ser abolido e o mesmo foi renovado pelo seu sucessor Hidetaka em 1616.

A conseqüência foi terrível. Em 1622 aconteceu o "grande martírio" de 42 Cristãos a 2 de setembro em Nagasaki, dos quais 27 decapitados e o restante queimados. No ano seguinte, sob Iemitsu, a perseguição se tornou mais furiosa e se estendeu por todo o império.

A crueldade e o refinamento das torturas deste período não têm paralelo nem mesmo na história dos primeiros tempos do Cristianismo. O número exato das vítimas é desconhecido. (Cerca de 280000 martírios entre 1614 e 1735, segundo Kiyoshi Inoue no seu livro "A História do Japão"). Na província de Arima, em 1637, 37000 Cristãos, pressionados ao extremo, se revoltaram e se fecharam na fortaleza de Shimabara, sob a liderança de um jovem de 16 anos chamado Tokisada Konishi, mais conhecido como Amakusa Shiro, e foram dizimados com a ajuda da artilharia holandesa no dia 28 de fevereiro, não sendo poupados nem um bebê de um ano de idade nem a sua mãe...

Estandarte usada por Amakusa Shiro e seus companheiros em Shimabara. Lê-se em português: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento".

Em 1640 quatro embaixadores portugueses vindos de Macau a Nagasaki foram pressionados a se apostatarem e, ao se recusarem, foram mortos. Treze de seus subordinados foram devolvidos a Macau com a advertência de que "... Enquanto o sol aquecer a terra, nenhum Cristão ousará entrar no Japão. Que todos saibam. Nem mesmo o Rei da Espanha, ou Deus dos Cristãos, nem o próprio Shaka (Buda), aquele que desobedecer esta proibição pagará com a sua cabeça."

Assim o Japão permaneceu fechado por dois séculos, durante os quais a perseguição continuou no seu interior. Um prêmio era colocado à cabeça dos Cristãos estrangeiros e nativos. Cada ano a população era chamada para calcar o seu pé sobre a imagem de Cristo e da Nossa Senhora gravada em placa de bronze (fumiê) confeccionada com material retirado das antigas igrejas.

Nesta época somente alguns mercadores holandeses eram permitidos a permanecer no Japão, confinados como prisioneiros na ilha de Dejima em Nagasaki, a fim de manter o comércio com os japoneses.

Em 1642 cinco Jesuítas que se infiltraram em segredo foram mortos após torturas horrendas. Foram seguidos em 1643 por cinco outros com o mesmo destino, e, uma tentativa por parte dos Dominicanos de Filipinas em 1647 não teve melhor sorte.

Se foram feitas outras tentativas não sabemos. A última tentativa conhecida é a de Abbé Sidotti, um missionário italiano que, em 1708, chegou ao Japão sozinho, com idade de 40 anos. Levado ao governador de Nagasaki, foi ali interrogado e a mando do Xogun, conduzido a Edo (Tóquio) onde foi condenado à prisão perpétua no local que ainda é denominado "Christian Zaka" (a Ladeira dos Cristãos). Enquanto esteve prisioneiro, converteu e batizou dois carcereiros e faleceu após cinco anos de cativeiro em 1715. O erudito Hakuseki Arai, intérprete do governo no caso Sidotti, escreveu a sua história (Seiyou Kibun - A História Ocidental) que foi publicada na obra "Missions Catholiques"  em 1884.

Entretanto, apesar da perseguição, alguns sinais vagos e esporádicos indicavam que nem todo o Cristão do Japão havia desaparecido. Os missionários coreanos tentaram muitas vezes confirmá-los sem sucesso, pois desde 1838 era impossível  penetrar o "império misterioso" de quaisquer dos lados.

O interesse na missão japonesa, no entanto, continuou a crescer, e, em abril de 1844 Padre Forcade foi enviado ao Japão como missionário. Ele permaneceu nas ilhas de Okinawa com o catequista chinês Ko. Foi seguido pelos Padres Leturdu, Adfnet, Furet, Murmet, Gerard e Mounicou da Société des Missions Etrangères (Sociedade das Missões Estrangeiras) de Paris. Aguardaram por catorze anos em Okinawa e em Hong Kong, procurando todos os meios de alcançar as ilhas principais. Durante estes anos de espera e de sofrimento, batizaram dois japoneses. Finalmente em 8 de outubro de 1858 foi assinado um tratado entre a França e o Japão e ratificado em 22 de setembro de 1859. Os missionários estavam livres para residir em portos livres e terem igrejas para o serviço dos estrangeiros.

Padre Girard foi nomeado provisoriamente Superior da missão e para a ratificação do tratado foi a Edo como intérprete com o Cônsul Geral, de Bellecourt.

Os três portos livres de Hakodate, Yokohama e Nagasaki foram logo ocupados. Os trabalhos e a permanência nestes locais eram difíceis pois o preconceito e hostilidades aos estrangeiros ainda não havia desaparecido no país. Padre Mermet construiu uma casa e uma igreja em Hakodate e Padre Furet fez o mesmo em Nagasaki. No início ensinavam Francês para fazer amizade com os habitantes e preparar o  futuro.

Em 17 de março de 1865, houve na nova igreja de Nagasaki um acontecimento memorável: quinze Cristãos se apresentaram ao Padre Bernard-Thadée Petitjean, assegurando-lhe que havia muitos outros, cerca de 50.000 ao todo. É fácil imaginar a alegria que acompanhou esta descoberta após mais de dois séculos de espera e paciência. Havia três características com os quais estes descendentes dos mártires reconheceram os novos missionários como os sucessores dos seus antigos padres: a autoridade do Papa de Roma, a veneração à Bem-Aventurada Virgem e o celibato do clero. No ano seguinte (1866) Padre Petitjean foi nomeado Vigário Apostólico do Japão.

O ardor extremo renovado dos Cristãos atraiu a atenção e estimulou o velho ódio. Em julho de 1867, recomeçou a perseguição. 40.000 fiéis de Urakami, próxima à Nagasaki foram exilados para várias províncias. A mesma prescrição foi estendida a outras cidades, e em todo o lugar a opção dada aos Cristãos era a apostasia ou o exílio, e a grande maioria confirmou a sua fé. Não houve derramamento de sangue, mas os tribunais foram severos. Cerca de um terço dos exilados morreram no exílio ou não regressaram. Em março de 1873, enquanto a embaixada do governo japonês viajava pela Europa, os exilados foram restituídos às suas casas e a perseguição cessou para dar lugar à tolerância. Daí em diante o governo permaneceu silencioso em relação à religião desde que se mantivesse a ordem pública. Em maio de 1876 o Japão foi dividido em dois Vicariatos Apostólicos, sul e norte; Monsenhor Petitjean foi indicado Vigário Apostólico do sul e Monsenhor Osouf, do norte.

Por volta de 1878 foram permitidos aos missionários  viajar mais de dez léguas do porto ao interior do país por meio de passaportes oficiais. Mais tarde alguns deles se tornaram itinerantes e por meio deles o Evangelho foi pregado e difundido com sucesso admirável em quase todas as cidades e vilas num espaço de quinze anos. Os preconceitos diminuíram, e as conversões se multiplicavam, e as opiniões se inclinavam para a liberdade religiosa.

Em 11 de agosto de 1885, uma carta do Papa Leão XIII ao Imperador do Japão foi recebida com grande honra, e em 18 de dezembro do mesmo ano, um representante do imperador assistiu respeitosamente à cerimônia fúnebre de Afonso XII, Rei da Espanha. Em março de 1888, foi criado o Vicariato Apostólico da região central do Japão, com Monsenhor Midon como o seu Vigário.  Finalmente em 11 de fevereiro de 1889, veio a promulgação da nova Constituição do império e o autêntico reconhecimento da liberdade religiosa.  No ano seguinte, no vigésimo quinto aniversário da descoberta dos Cristãos, foi realizado o primeiro sínodo dos Bispos em Nagasaki. Durante seis semanas aconteceram festividades incomparáveis em que a Igreja do Japão celebrou com arrebatamento de alegria e gratidão o milagre da sua ressurreição.

Em abril de 1891, foi criado o Vicariato de Hakodate com o Monsenhor Berlioz como o seu Vigário. Em 15 de junho do mesmo ano a hierarquia eclesiástica foi estabelecida com um Arcebispo de Tóquio e três sufragâneos, a saber, os Bispos de Nagasaki, Osaka e Hakodate.

Com a chegada da liberdade religiosa, o zelo dos japoneses para a religião decresceu e as conversões se tornaram menos freqüentes. Porém, a educação Católica, benevolente, e trabalhos humanísticos se desenvolveram e cresceram sem oposição, e mais, o progresso numérico nunca se interrompeu. Em 1860 havia dois missionários no Japão; em 1870, um Vigário Apostólico, 40 missionários, 27 religiosas (irmãs), e 23000 Cristãos; em 1890, 79 missionários, 15 sacerdotes locais, 27 Marianistas, 59 irmãs, e 42387 Cristãos; em 1900, 1 Arcebispo e 3 Bispos, 115 missionários, 32 sacerdotes locais, 62694 Cristãos, 93 religiosos e 389 religiosas (estrangeiras e locais).

A imprensa escrita acompanhou a pregação oral. Uma revista Católica, "Kyoto Bambo", fundada em 1881, que continuou sob vários nomes, explicava a religião, respondia a perguntas e fornecia notícias de interesse para os Cristãos. Quase tudo que é relevante à vida, educação, filosofia e teologia Cristã eram tratados em mais de cem trabalhos. Vários trabalhos menores e dois imensos dicionários para o estudo da língua japonesa foram também publicados pelos missionários.

O Cristianismo no Japão - Parte 2 : Breve História do Cristianismo no Japão

Cidade de Tsuwano, um dos locais visitados por S. Francisco Xavier e um dos destinos de exílio da última perseguição aos Cristãos.

S. Francisco Xavier chegou ao porto de Kagoshima, na ilha de Kyushu, Japão, em 15 de agosto de 1549, dia de Assunção de Nossa Senhora, com dois companheiros e três neófitos. Pela coragem da sua pregação, a sua santidade e os seus milagres, renovou as maravilhas da era apostólica. Pregou em Hirado, Yamaguchi, Bungo e Funai, porém não conseguiu encontrar-se com o Imperador nem adentrar Miyako (atual Kyoto), a residência imperial. Ele partiu para a China em 20 de novembro de 1551. Havia no Japão, então 3000 fiéis, sendo o regime feudal favorável à evangelização. Ordinariamente, quando um senhor feudal se convertia, grande parte dos seus vassalos também o seguia.

O xogun Nobunaga Oda, terrível inimigo dos sacerdotes budistas se simpatizou com os Cristãos e se tornou amigo dos missionários. Quando ele foi morto, havia no país mais de 200.000 fiéis e 250 igrejas.

Os três príncipes de Bungo, Arima e Omura enviaram uma embaixada à Europa em 20 de fevereiro de 1582 que alcançou Lisboa em 10 de maio de 1584, e Roma em 23 de março de 1585. Os embaixadores presenciaram a coroação do Sixto V e receberam os títulos de cavaleiros e de nobreza.

Hideyoshi Toyotomi, sucessor de Nobunaga, a princípio favoreceu os Cristãos, mas instigado pelos budistas, se convenceu que os missionários eram espiões das nações imperialistas e lançou o edito de prescrição da religião Cristã em julho de 1587, embora ainda não partisse de fato para a perseguição.

Os missionários então se ocultaram e, ao longo de 10 anos batizaram mais 65.000 pessoas totalizando 300.000 fiéis e 134 religiosos (1597). Em 1593 três Franciscanos foram enviados pelo Rei da Espanha, sendo bem acolhidos por Hideyoshi.

Entretanto, houve, logo a seguir, o incidente "San Felipe": um galeão espanhol ao naufragar próximo de Tosa, teve as suas cargas confiscadas pelo governo japonês, e, num acesso de raiva, o seu capitão disse que os missionários estavam preparando o caminho para a conquista do país.

A partir daí Hideyoshi se tornou mais cauteloso e irado contra os Cristãos, e em 9 de dezembro de 1596, nove religiosos foram presos e forçados a relacionar os nomes dos Cristãos japoneses. Todos se prontificaram a dar a vida pela Fé.

Fonte



O Cristianismo no Japão - Parte 1 : Os Mártires Cristãos no Japão

Não há em toda a história da Igreja um povo merecedor de tamanha admiração nos anais do tão glorioso Mundo Cristão, nem um martirológio tão extenso quanto o povo da terra do sol nascente.

Em janeiro de 1552, S. Francisco Xavier descreveu o espírito proselitista dos primeiros neófitos. “Eu os vi, escreveu ele, regozijarem-se do nosso êxito, manifestando um zelo ardente na pregação da fé e no batismo aos pagãos que se convertiam”. Ele anteviu também os obstáculos que estancaria o progresso da fé em certas províncias, o absolutismo deste ou daquele “daimyo” (senhor feudal), uma classe da elite guerreira muito independente do Mikado (Imperador) e em revolta com a sua autoridade suprema. De fato, na província de Hirado, onde se converteram centenas de fiéis, e onde seis anos mais tarde mais de 600 pagãos seriam batizados em três dias, uma mulher Cristã (a protomártir) foi decapitada por orar diante da cruz.

Em 1561 o “daimyo” local forçou os Cristãos a abjurarem da fé, “porém eles preferiram abandonar todas as suas posses e viver em Bungo, pobres com Cristo, que ricos sem Ele”, escreveu um missionário em 11 de outubro de 1562.

Sob o xogunato de Yoshiaki, Nobunaga Oda, apoiado por Koremasa Wada, um Cristão, subjugou grande parte das províncias e restaurou a unidade da monarquia, realizando aquilo que S. Francisco Xavier havia desejado.

Em Miyako (atual Kyoto) a fé foi reconhecida e uma igreja construída em 15 de agosto de 1576. Mais tarde a Igreja continuou a se espalhar sem oposição notável, e os “daimyo” seguiam a liderança do Mikado (Oguimachi, 1558~1586) e Nobunaga Oda. A tolerância e o favorecimento da autoridade central impulsionou a difusão da religião Cristã e, desta época, apenas casos isolados de martírio são conhecidos.

São Francisco Xavier
Somente em 1587, quando já havia 200.000 Cristãos no Japão, foi promulgado um edito de perseguição, ou melhor, de prescrição, por Hideyoshi Toyotomi, diante da surpresa de todos. Hideyoshi fora instigado por um intolerante sacerdote budista chamado Nichijoshonin zeloso pela religião da sua raça e também se impressionado com a inflexibilidade do Daimyo Cristão Ukon Takayama e Pe. Coelho que se recusaram a abandonar a fé cristã para seguirem-no como seu soberano. Vinte e seis residências e 140 igrejas foram destruídas; os missionários condenados ao exílio, porém estes foram suficientemente astutos para se esconderem ou se dispersarem. Eles nunca duvidaram da fidelidade e constância dos seus convertidos; os assistiam em segredo e em dez anos houve outros 100000 convertidos. Conhecemos desta época dois martírios, um em Takata e outro em Notsuhara; porém muitos outros Cristãos foram despojados de seus bens e reduzidos à pobreza.

 A primeira perseguição sangrenta data de 1597, e é atribuída a duas causas:

  1. Quatro anos antes, alguns religiosos de Castela, Espanha, chegaram de Filipinas e, apesar da decisão da Santa Sé, a par da situação delicada criada pelo edito, se juntaram a 130 Jesuítas que agiam com grande precaução. Muito embora tivessem recebido toda a admoestação caridosa, eles se colocaram a trabalhar de forma muito indiscreta, e violaram os termos do edito mesmo na própria capital;
  2. Uma caravela de Castela apanhada pela tempestade na costa do Japão foi confiscada sob as leis então vigentes. Algumas artilharias foram encontradas nela e as suscetibilidades japonesas foram excitadas ainda mais pelas mentiras do capitão, de tal modo que se espalhou a idéia de que os Castelhanos estavam planejando anexar o país.

Foi elaborada uma lista de todos os Cristãos em Miyako e Osaka, e em 5 de fevereiro de 1597, 26 Cristãos, dentre eles seis missionários franciscanos, foram crucificados em Nagasaki. Entre os 20 Cristãos nativos havia garotos de 15, 13 e 12 anos.

“O fruto surpreendente do sacrifício generoso de vossos 26 mártires” (escreveu um missionário Jesuíta) “é que os Cristãos recém-convertidos e outros de fé madura foram confirmados na fé e esperança da salvação eterna; eles se decidiram a dar as suas vidas em nome de Cristo. Os próprios pagãos que assistiram ao martírio foram tocados ao contemplar a alegria daqueles bem-aventurados que sofriam nas suas cruzes e a coragem com que enfrentaram a morte”. Dez anos antes, este mesmo missionário havia profetizado que “da coragem do povo japonês, auxiliada pela graça de Deus, se espera que a perseguição inaugure uma corrida ao martírio”.

De fato, os costumes nacionais e religiosos daquele povo predispunham-nos a sacrificar as suas vidas com um fatalismo singular; em alguns de seus costumes estabelecidos, como o suicídio religioso, o “hara-kiri”, desenvolveram uma expectativa à morte; porém se a graça não destrói a natureza, ela a exalta, e a sua fervorosa caridade e o amor ao Cristo levavam os neófitos japoneses a exageros que os missionários tinham que refrear.  Quando este amor a Cristo se consolidou no meio do sofrimento escolhido livremente, tornou-se mais fácil para os fiéis darem ao Salvador a máxima prova do amor sacrificando as suas vidas numa morte cruel em Seu Santo Nome. “As cinqüenta cruzes, ordenadas para a montanha sagrada de Nagasaki, multiplicadas por dez ou cem, não foram suficientes”, escreveu um missionário, “por causa de todos os fiéis que desejavam o martírio”.

As associações (kumi) eram formadas sob o patrocínio da Bem-Aventurada Virgem com o objetivo de preparar os membros pela oração e mortificação até o sangue, para estarem prontos para sacrificar as suas vidas pela fé. Após a perseguição de 1597, houve casos isolados de martírio até 1614, que totalizaram cerca de 70.

Os reinados de Ieyasu Tokugawa, mais conhecidos nos anais Cristãos como Daifusama, e os seus sucessores Hidetaka e Iemitsu, foram os mais implacáveis.

Não temos ainda a informação clara e exata das causas que levaram àquelas perseguições que duraram por mais de três séculos com alguns breves intervalos de paz. 


quinta-feira, 18 de julho de 2013

A desvirilização do Japão e a acentuada queda de interesse sexual do país

Japoneses antes e depois
"Se no Século XIX os Samurais largaram as armas - forçados - os japoneses de hoje largaram o pênis: voluntariamente.”

 Essa genial frase de tom fálico inicialmente publicada no site “reflexoesmasculinas" é uma síntese inteligente - melhor do que eu seria capaz de elaborar - sobre um dos últimos fenômenos sociais que ganhou expressão na mídia japonesa e se espraiou nesse lado do mundo de modo distorcido, como não poderia deixar de ser, pelo sensacionalismo da mídia ocidental. Trata-se dos homens herbívoros. Quem não está antenado na trágica situação do Japão e assiste a uma matéria de cinco minutos no Jornal da Globo falando que japoneses não querem mais sexo, já conclui: Ah, os japoneses são bizarros. Não satisfeito com o senso comum, fui pesquisar e descobrir que o comportamento dos herbívoros é sim bastante excêntrico, porém vou mostrar como ele é de certa forma justificável (fora da lógica de chegar sempre na conclusão de que japoneses são malucos, então pode se esperar de tudo) e indica caminhos até então inéditos para a ainda muito tradicional sociedade nipônica.
Os homens japoneses estão apresentando traços comportamentais que em qualquer outro tempo seria o suficiente para taxá-los como afeminados ou mesmo homossexuais. Justamente eles, que marcaram em pedra o arquétipo do macho rude e viril. Desde os tempos dos leais samurais, passando pelas atrocidades sanguinárias do Exército Imperial nas Guerras Mundiais, até chegar no executivo workaholic que agredia sexualmente as parceiras de trabalho quando as mulheres ainda engatinhavam com o movimento feminista no arquipélago. Esses caras foram sucedidos por homens impactados pela estagnação econômica que paira sobre o Japão desde o início dos anos 90,  que reagem à crise com um comportamento diametralmente oposto em relação ao estereótipo do macho japonês.

Soushoku Danshi

Falo dos Soushoku Danshi (literalmente “garotos come-grama"), termo adaptado como homens herbívoros, cunhando em 2006 pela colunista Maki Fukasawa e popularizado pelo livro “Os homens herbívoros e afeminados que estão mudando o Japão" de Megumi Ushikubo, presidente da consultoria de marketing Infinity. Esses homens são assim chamados pela sua falta de interesse por sexo (não come carne, daí o herbívoro) e pela negação da vida estonteantemente competitiva e acelerada de tempos passados. Algumas de suas características principais seriam:
Não têm uma postura tão competitiva em relação ao trabalho como os homens de gerações anteriores; Têm consciência de moda e comem de modo balanceado para ficar magros e caber em roupas mais apertadas; Tem amigas mulheres, são ligados às mães e vão às compras junto com elas (se aproveitando do poderio econômico dos pais); Não se interessam em namoros, garotas ou mesmo fazer sexo (optando por um prazer solitário com brinquedos eróticos); São muito econômicos e adoram cupons de promoção, declarando que os que não poupam os centavos são estúpidos. Seus principais interesses passam a flutuar temas como fotografia, gastronomia, jardinagem, moda, desenho e coisas do gênero. Abrem mão de tudo o que possa custar um desgaste físico e/ou psicológico por essas pequenas particularidades inofensivas.
“Os homens japoneses na faixa dos vinte aos trinta e poucos anos parecem desinteressados em fazer carreira e apáticos com os rituais do encontro amoroso, sexo e casamento. Eles gastam a maior parte em roupas e cosméticos como as mulheres, vivem com suas mães e sentam na privada para urinar. Alguns estão até mesmo usando sutiã. O que está acontecendo com a masculinidade do país?” (Takuro Korinaga, economista)

Soushoku Danshi

Curiosamente a agitação crítica em cima da percepção inicial de uma anormalidade no comportamento masculino não surgiu das ciências sociais, mas sim do mercado. Nas palavras da marketeira Megumi Ushikubo:

“Nos anos 80 os rapazes tinham que comprar um carro, caso contrário as garotas não olhariam para eles. Nós éramos líderes em consumo. Recentemente as empresas estão perguntando, por que os garotos não estão mais interessados em carros? E por que as garotas estão nos dizendo que elas não estão interessadas em rapazes que gastam seu dinheiro com carros?

Uma companhia de consultoria subsidiária da Dentsu (a maior companhia publicitária do país) chamada Media Shakers estimou dados alarmantes: 60% dos homens de 20 anos, e 42% dos homens entre 23 e 34 anos consideram-se herbívoros. Dados de diversas fontes afirmam o dito. A empresa de relacionamentos Partner Agent mostra uma pesquisa onde 61% dos homens solteiros na casa dos 30 anos se auto-intitulam herbívoros. Um empresa de apólices de seguro chamada Lifenet fez uma pesquisa online com uma amostragem de mil homens solteiros na faixa dos 20 e 30 anos, e aqui também, 75% da amostra se definiu como um homem herbívoro.
A reportagem feita pelo Jornal da Globo afirma: “Entre os jovens de 16 a 19 anos, 36% dos rapazes se descreveram indiferentes ou com aversão a sexo. Mas eles também podem reclamar delas. Entre as japonesas da mesma faixa etária, o desinteresse ou aversão ao sexo chega a 59%. O percentual cresceu em relação a mesma pesquisa feita em 2008: aumentou 19% entre os homens e 12% entre as mulheres."

Homens herbívoros
Em tempos de metrossexuais e David Beckham, por que tanto alarde com os comedores de grama? A resposta é simples. Esse comportamento não é apenas uma afronta às tradições do homem japonês, mas também um fato determinante que está ajudando a manter o Japão na crise, sem oferecer a mínima perspectiva de mudança, uma vez que ele sangra dois problemas cruciais para o futuro do Japão: A baixa natalidade e o esfriamento da demanda interna no mercado de consumo japonês. Os herbívoros seriam o resultado, o protesto (sempre silencioso dos jovens japoneses) contra os valores que alimentaram o crescimento japonês no pós-guerra, como a exacerbação do materialismo e a competitividade desumana. Como gatos escaldados, eles negam aquilo que os alçaram ao topo do mundo.
Essa apatia demonstrada por parte dos homens japoneses já está incomodando a ala feminina do país. Diante de homens que não tomam a iniciativa (por medo de sofrer a ferida narcísica da rejeição), não demonstram interesse por sexo e racham a conta do restaurante, parte das mulheres estão fazendo elas próprias esse papel. Tomam elas mesmas a iniciativa e, apelidadas de mulheres carnívoras, passam a praticar a arte do konkatsu, a busca por um parceiro (20% delas se consideram carnívoras, mas ainda sim essa voracidade não pode ser comparada com os tempos da bolha econômica). Apesar disso, as carnívoras costumam renegar os herbívoros, pois gostam do perfil do macho.

John Greenaway, professor canadense com muito contato com alunos asiáticos, estudante de inglês no país, afirma que as japonesas são muito mais sociáveis, práticas e ativas que os homens do país. Os homens japoneses, mesmo quando herbívoros, se aproveitam das condições no Japão que ainda favorecem o homem, e se mantém passivos, enquanto as mulheres que vão em busca de algo, o fazem de modo mais proativo. A diferença é que no exterior essa proatividade é facilmente igualada, quando não superada, por pessoas de diversas etnias e elas passam uma imagem até conservadora.
Shigeru Sakai do Media Shakers opina que esses homens não tomam a iniciativa por uma dificuldade de auto-expressão. Cercados de eletrônicos, geralmente sem nenhum irmão em casa, e falando com os amigos mais por mensagens de texto e redes sociais, suas habilidades sociais tendem a definhar. Mimados desde o berço, não toleram a frustração e não dão a cara ao tapa na arte da conquista.

 “Eu não tomo a iniciativa com mulheres, eu não falo com elas. Eu adoraria se uma garota falasse comigo, mas eu nunca tomo o primeiro passo.” (Yukihiro Yoshida, estudante de Economia)

Men’s Fudge, a revista dos herbívoros

É importante ouvir as opiniões dos próprios herbívoros, e o grupo olha para a questão através de outras lentes. Eles não enxergam a situação como um problema (ao contrário de empresas, governo e mulheres). Herbívoro seria um rótulo muito amplo, que abarca uma diversidade de homens e comportamentos diferentes. Seria a soma dos homens que não estão mais dispostos a bancar o preço de viver a imagem do homem feliz empregado numa grande empresa. São pessoas que ligam menos para as cobranças da sociedade, para os papéis sociais, para o arquétipo da masculinidade japonesa. Eles ditam os caminhos de suas próprias vidas.

“As pessoas que cresceram na era da bolha realmente sentiram que eles foram derrubados.Eles trabalharam tão duro e isso tudo não deu em nada. Então os homens que vieram depois deles mudaram.” Megumi Ushikubo

 Há uma crítica tanto ao padrão do homem japonês quanto à monetarização do amor ao modo ocidental (mencionado na explicação do fenômeno moe), que exigem um homem másculo que trabalha como um burro de carga para conquistar a fêmea com mimos caros. Os japoneses tiveram que se adaptar tantos às rígidas posturas sociais da sociedade nipônica quanto aos hábitos ocidentais importados pela ficção, como abrir a porta do carro ou puxar a cadeira para a mulher se sentar primeiro. A mistura dessas culturas, alimentada por uma rede comercial voraz, é insustentável para muitos dos japoneses que se resignam e vão buscar relacionamentos na internet, nos mangás, nos RPG’s virtuais (ou em casos mais extremos, se casando com um travesseiro).
Existem uma série de fatores que são levantados por toda uma espécie de pensadores, mas o foco acaba sempre desaguando na situação econômica do país, resultando numa cultura que adoece pouco a pouco. Vou apresentar algumas visões para depois focar, de fato, na parte financeira que parece oferecer uma justificativa mais plausível.

Homens herbívoros

Uma ala sempre presente no pensamento japonês é a defensora dos fenômenos sociais do país como consequência de suas próprias raízes, diminuindo a importância da ocidentalização em sua gênese, encontrando paralelos culturais no Japão pré-Restauração Meiji. É o caso do professor de Filosofia da Universidade de Osaka Masahiro Morioka ao afirmar que esse padrão andrógino também era comum durante os pacíficos anos da Era de domínio do clã Tokugawa (1603-1868), onde o Japão conheceu inéditos 260 anos de absoluta paz interna. Nesse período foi comum meninos serem criados como meninas, usando vestimentas femininas (acreditava-se que era um meio saudável de desenvolvimento); haviam os onnagata no teatro Kabuki (homens interpretando papéis femininos) e o shunga(pornografia do período Edo onde homens e mulheres só se distinguiam pelos genitais, pois os homens também vestiam roupas femininas, penteando os cabelos como elas). A erosão dos papéis sociais não seria, então, um fenômeno novo no Japão.
Morioka continua argumentando que esse novo ciclo herbívoro seria uma maior aceitação das fraquezas e limitações masculinas, uma vez que ser homem no Japão é uma árdua tarefa inimaginável no Brasil, essa terra do improviso, do jeitinho e do imediatismo. As pressões sociais em cima do homem japonês são demasiadamente pesadas. Ele prossegue com uma afirmação muito interessante: Não são os herbívoros que estão pervertendo o “espírito japonês", ao contrário, eles seriam os responsáveis pela regressão a um estado humano mais nipônico. Distorcidos foram os seus pais e avós que aceleraram as coisas no Pós-guerra - através de métodos absolutamente ocidentais - como um modo de afirmação perante os estrangeiros enquanto buscavam o mesmo padrão de vida dos americanos. Passado o limite do crescimento econômico do país, o retorno às raízes seria inevitável.

“Antigamente, os homens japoneses tinham que ser passionais e agressivos, mas agora essas característica são desagradáveis. Nossos membros tem uma personalidade muito branda. Eles simplesmente aproveitam do que gostam sem preconceitos, eles não são limitados por expectativas.” Yasuhito Sekine

Propaganda da Nivea com foco nos homens, em transporte japonês


Outro ponto que destaco é o excesso de paz. Com a submissão das forças armadas japonesas ao Exército Americano que limita as ações militares do país, e com as políticas de segurança interna, a afirmação da masculinidade se torna supérflua quando o assunto é segurança física. Não há mais a necessidade do macho agir como um soldado no campo de batalha, ainda nas palavras de Morioka. A quantidade de assassinatos per capita cometida por jovens adultos no Japão é a mais baixa do mundo! “Além disso, os valores da sociedade que fazia homens cometerem atos violentos estão desaparecendo. Os homens não precisam mais ser violentos, é por isso que podem ser herbívoros”. Se os EUA vive achando alguma guerrinha por aí e tem seu país recheado com veteranos de guerra de todas as idades; se na Coréia do Sul o alistamento militar é assunto estratégico pelo conflito com os norte coreanos; no Japão a afirmação da masculinidade - no que tange a sobrevivência literal - se torna cada dia mais inútil.
O último assunto levantado pelo filósofo que eu sinto necessidade de citar é a distinção entre ser herbívoro e ser gay. Claro que há gays entre os herbívoros e eles se expressam desse modo. É verdade que a Wishroom já vendeu milhares de sutiãs masculinos, mas certamente uma ampla parcela dos compradores são homossexuais que também se definem como herbívoros, e também não quer dizer que eles saem por aí todos os dias usando sutiã, talvez em um ou outro caso. A mídia dá foco em peculiaridades sem importância, não mostra as origens da situação e ainda cria uma imagem fantasiosa e ridícula de uma nação (o mesmo para a mídia japonesa, que adora um sensacionalismo para dizer o quanto o país está perdido). Herbívoro não é gay, o buraco é mais embaixo, como Morioka diz, os herbívoros procuram o “amor hetero enquanto tornam-se unisex”.
Algumas explicações, de origens feministas, afirmam que a situação seria o desabrochar de uma nova masculinidade, que não precisa mais reprimir seu lado feminino para agradar às convenções sociais.

“Não é que os homens estão se tornando mais femininos, o conceito de masculinidade que está mudando.” Katuhiko Kokobun

Por outro lado, muitos defendem que esse florescimento do lado feminino dos homens ou retorno às origens é pura balela feminista ou ufanista, o problema seria de origem econômica mesmo, pois a geração mais bem instruída da história do Japão não está encontrando perspectivas de futuro nem segurança de emprego. Com muitos homens ganhando menos de dois mil dólares mensais na cidade com o mais alto custo de vida do planeta, tendo acesso à tecnologia e tendo que conviver com a ala feminina que no Japão é abertamente materialista e gananciosa, muitos homens passaram a dar a mínima para o que a sociedade espera deles, pois se resignaram em sua condição miserável.
A questão é que eles não são assexuados, apenas não estão mais dispostos a pagar o preço para ter acesso a uma mulher que valha a pena. Eles simplesmente não querem mais morrer de trabalhar para comer alguém. O interesse por sexo indubitavelmente continua, basta ver a saúde do mercado pornográfico japonês. A queda na venda de preservativos que persiste desde 1999, ano onde se deu o boom da internet no arquipélago, é sinal correlato de virtualização da sexualidade, não de sua extinção.

Candidatos japoneses

O problema é falta de segurança financeira. No período do crescimento, as empresas japonesas ofereciam polpudos salários e um plano de carreira para toda a vida, com reais chances de crescimento dentro da hierarquia corporativa. Era muito mais seguro alimentar o ímpeto consumista das mulheres sabendo que o pagamento seguramente cairá na conta todos os meses. E não venham me chamar de machista, porque o enjo kosai dos anos 90 está ai para provar que muitas japonesas estavam dispostas até a se prostituir por seus desejos materialistas quando a fonte secou. Nos tempos áureos da economia, o emprego funcionava na base do seishain (emprego permanente), mas agora com a crise, mesmo a mão de obra qualificada do país está sendo contratada na base do haken (contrato). A segurança financeira foi parar na mesma lama na qual a economia do país se atolou. Essa situação incomoda muitos os jovens trabalhadores japoneses, os quais, segundo pesquisa da Mitsubishi, 64% deles gostariam de permanecer no mesmo emprego de modo estável.
Não está sendo viável, para a maioria deles, sustentar a utopia da vida feliz, aquele modelo do American Way, do pai de família casado e empregado numa instituição de renome. Está cada vez mais difícil sustentar a condição de macho alfa, rico, bonito, com status e bom de cama, num país em crise onde todos os outros homens tem a mesma educação básica e origem étnica semelhante (dificuldade de achar um diferencial para se destacar). São pessoas que assumem sua incapacidade de competir. Os riscos de tantos esforços são grandes demais, sem oferecer garantias de retorno no futuro.


Como ficam as mulheres ?
As mulheres, com as mesmas oportunidades trabalhistas garantidas pela legislação, não se vêem mais na obrigação de casar para garantir seu sustento e saciar seus desejos de consumo, logo, ficam mais exigentes quando o assunto é casamento. Ao mesmo tempo em que os homens estão achando cada vez mais dificuldades para encontrar um bom salário num emprego estável. A pobreza no Japão está crescendo e o país já é dono do segundo pior índice de pobreza relativa, superado apenas pelos americanos (segundo relatório da Organisation for Economic Co-operation and Development). Sentiu o drama?
Essa mulheres, ainda querendo o nível de vida dos tempos de bonança e com iguais oportunidades de trabalho (ao menos na teoria) que as fazem fugir do matrimônio, estão ajudando a criar um sério problema. Uma geração inteira de solteironas que chegarão sozinhas na velhice (um sério problema social no Japão, onde alguns idosos morrem e ficam 15 anos em decomposição na casa sem que ninguém perceba) e um monte de homens de meia-idade que ainda não perderam a virgindade (25% dos japoneses na faixa dos 30 anos seguem virgens). Eles tampouco vão fazer esse serviço em inferninhos, alguns deles porque estão condenando justamente a monetarização dos relacionamentos, a maioria porque não tem dinheiro mesmo. Os prostíbulos japoneses são caros e frequentemente cobram mensalidade de seus frequentadores. Enquanto os que tem dinheiro para bancar a farra também não procuram o serviço, alegando estarem fisicamente exaustos demais, por causa do trabalho, para mesmo pensar no assunto.


O economista Takashi Kadokura cruzou diversas informações e traçou conclusões perigosas. 30% das mulheres afirmaram se recusar a sair com homens que ganham menos de 10 mil reais mensais. Quase metade da totalidade delas se recusariam a casar com alguém com rendimentos anuais inferiores a 80 mil reais. O problema é que apenas 1,5 milhões de japoneses na faixa etária dos herbívoros possuem rendimentos nessas especificações, enquanto existe um volume três vezes maior de mulheres esperando, no mínimo, mais do que isso. Conclusão, pelo menos 2/3 delas continuarão sozinhas se não diminuírem suas expectativas e exigências, fortemente enraizadas por questões culturais e pela libertação proporcionada pelo movimento feminista. Além disso, a baixa natalidade do povo japonês cobra de toda mulher casada no mínimo um rebento, uma pressão inaceitável para muitas mulheres, até pelos prejuízos na construção de uma carreira sólida numa economia em frangalhos.
Os resultados já são estatisticamente verificáveis. Entre 1975 e 2005 o nível de homens solteiros na faixa dos 30 anos subiu de 14% para 47% enquanto nas mulheres de 8% para 32%. Se o comportamento não mudar, o governo precisará intervir para evitar um colapso. As soluções seriam tentar oferecer salários mais equitativos e diminuir a jornada de trabalho que, exasperante, prejudica a interação social. Mas, como propor diminuição da jornada de trabalho se o país já está economicamente em situação trágica?


As empresas japonesas estão preocupadas pois o padrão de consumo dessa geração não acompanha os desejos das gerações passadas. Caem as vendas, sobretudo dos produtos de luxo e status, como carros e bebidas. O Japão perde expressão mundial a cada dia, já que o mercado externo se torna cada dia mais hostil (crise na zona do euro e na economia americana, além da concorrência dos coreanos e chineses em ascensão) e o mercado interno se recusa a consumir (tanto por ter menos dinheiro para gastar como por recusa aos tempos de consumismo desenfreado). O governo, então, está desesperado porque isso alimenta um ciclo vicioso. Sem dinheiro as pessoas casam menos, se casam menos tem menos filhos, se nascem menos crianças, como sustentar a idosa população japonesa, a mais longeva do planeta? (isso só está sendo lindo para o setor de cosméticos, que dobrou seu mercado potencial com a adesão masculina em massa ao cuidado pessoal).
Além disso, As escolas japonesas que moldaram tantos funcionários competentes hoje são uma barreira para a criatividade, individualismo e empreendedorismo que poderiam ajudar o país nesse momento.

Quem vai pagar a conta ?
Esse cenário desesperador afetou a mentalidade dos jovens. Sem estabilidade financeira, sem conseguir mulher, vendo o Japão na beira do precipício, eles se resignaram. Os herbívoros são a expressão maior da desilusão. São homens menos ambiciosos, incapazes de devolver o Japão ao lugar que lhe coube no passado. Não querem trabalhar até a morte como seus pais (ao ver que o projeto fracassou e ao sentir a ausência deles em sua função paterna), nem sustentar mulheres que depois de casadas racionam sexo mas não param de gastar (Japão sempre liderando a lista mundial dos insatisfeitos sexuais e lanterna na lista de frequência do ato).
São jovens que simplesmente abrem mão voluntariamente da riqueza para não precisar se prender à burocracia e ao sofrimento silencioso dentro de uma empresa. São jovens que já não enxergam mais nexo em ficar exibindo aos demais o quanto eles se esforçam, o quão samurais corporativos eles são, bastando fazer as coisas direito. Há uma negação da veneração dos padrões tradicionais do sucesso. Os herbívoros se recusam a colocar o trabalho na frente de suas próprias vidas, ignorando, por exemplo, as saídas para beber após o expediente, ato essencial para fazer seu nome no mundo corporativo japonês. Eles preferem pagar o preço de não lamber as bolas do chefe. São eles os primeiros responsáveis por mesclar cultura ocidental com os preceitos confucionistas. Essa situação foi permitida pelos pais dos herbívoros que, sabendo da vida dura que levavam, encorajaram os filhos a escolher sua própria profissão, permitindo aos jovens deliberar sobre suas próprias existências. O resultado foi esse.

"Tudo o que queremos sentir é que nosso trabalho tenha um propósito. (…) Fazer um grande esforço para ser algo que eu não sou apenas não é para mim. Eu quero ser natural, apenas ser eu mesmo.” Takeuchi

Quero deixar claro que as reivindicações dos herbívoros não são apenas fruto de mimos em demasia, algumas são bem legítimas. Um exemplo tolo. Gostar de comer sobremesa. Sobremesa era coisa de mulher no Japão. Se um homem comprar um pedaço de bolo, o atendente fornece dois garfos pois infere que ele só está comprando para comer junto com a namorada, pois homem não compra bolo. O homem japonês tinha que gostar de bebidas e comidas apimentadas. Hoje eles comem bolo. São fracos por isso?!? Por assumir que gostam de doces? Estão afirmando-se assertivamente do jeito que a sociedade rígida permite. É uma revolução interna e slienciosa que estava sendo esperada no Japão há tempos. O conservadorismo está sendo minado pouco a pouco em suas estruturas. O Partido Liberal Democrata em 2009 teve sua soberania política abalada após mais de 5 décadas de poder ininterrupto, cedendo espaço para um partido de centro-esquerda.
Igualmente o interesse pela moda não tem tanto a ver com frescura, mas como resultado da desilusão com o mundo, com a política, com a economia e com os rumos do país. Na desesperança com o macro, os herbívoros se refugiam no micro, naquilo que conseguem alterar com pequenas ações, sua própria existência. A postura, ao contrário do que aparenta, não é simplesmente hedonista, ela é revestida por uma casca traumatizada.

Cristopher Lasch
Enxergo um paralelo entre a realidade japonesa e aquilo que o antropólogo americano Cristopher Lasch enxergou na sociedade ocidental (da qual o Japão faz parte, no caso) ao definir o conceito de Cultura do Narcisismo. Quando as ilusões levantadas pela contracultura nos anos 60 morreram (de transformar o mundo com ações e engajamento político), e o mundo percebeu que os valores modernos não deram conta de resolver os problemas globais, as pessoas experimentaram um enorme sabor de impotência e desencanaram, cuidando de suas próprias vidas, afinal, era a única coisa que lhes restavam (daí os anos 70 e 80 como expressão do supérfluo). Acompanhe o raciocínio e veja se não encaixa perfeitamente:
“Após a ebulição política dos anos sessenta, os americanos recuaram para preocupações puramente pessoais. Desesperançados de incrementar suas vidas com o que interessa, as pessoas convenceram-se de que o importante é o auto-crescimento psíquico: entrar em contato com seus sentimentos, comer alimentos saudáveis
(…) aprender a se “relacionar”, superar o “medo do prazer”."A inflação corrói os investimentos e as poupanças. À medida que o futuro se torna ameaçador e incerto, só os tolos deixam para o dia seguinte o prazer que podem ter hoje
(…) A auto-preservação substituiu o auto-crescimento como o objetivo da existência

(…) Esperam não tanto prosperar, mas simplesmente sobreviver, embora a própria sobrevivência necessitada vez mais de ganhos maiores.”
Outros pensadores da modernidade, podem contribuir ainda na mesma linha de pensamento, como Jurandir Freire Costa (válido ressaltar que eles não são pensadores do Japão, o país apresenta suas particularidades):

"O indivíduo moderno é um indivíduo violentado, antes de ser narcisista.”
Freire Costa

 Portanto, os herbívoros seriam mesmo um problema? Esse comportamento, a alegação de não ligar para o que os outros pensam, seria uma evasiva para justificar a incapacidade de competir pelos melhores postos ou seria uma reação saudável aos excessos do Japão? É natural que o Yamato trate o problema como uma doença social, pois isso afeta a economia e o futuro do país, mas, até que ponto a economia deve guiar cegamente os rumos da nação? Devemos condenar pessoas que buscam seu modo próprio de viver a vida, uma vez que a manutenção da condição de potência mundial do Japão é notoriamente insustentável? Se a reação é excessiva no sentido oposto, não seria um sinal de que a exposição ao trauma foi forte demais, deixando claro que um retorno ao antigo caminho não é a resposta para essas questões? Isso só os japoneses nos responderão no decorrer da História.
Me questiono se, no longo prazo, a situação é realmente tão ruim para as mulheres. Isso pode variar de acordo com o que elas esperam do relacionamento. Antes o homem japonês era o provedor carnívoro, ele trazia muito dinheiro para a casa, mas ficava o tempo todo fora de casa, fazendo hora-extra ou bebendo com os companheiros de trabalho. A família era afetivamente negligenciada (e os herbívoros são filhos desses pais nada presentes). Os herbívoros tem menos dinheiro, mas procuram tratar esposa e família de modo mais humano e presente. Se ela espera um pai de família que banque seus prazeres ao mesmo tempo que a deixe livre para dar seus pulos por aí, é um desastre. Se elas esperam uma adesão do homem ao papel moderno do pai (que progressivamente perde a expressão no ocidente), no longo prazo os resultados poderão ser positivos.

“Os homens japoneses eram machos e sexistas. E negligenciavam suas esposas, então é bom que eles estejam descobrindo seu lado feminino e aprendendo a colaborar.” (Yuko Kawanishi, sociólogo)


Apenas para situar os navegantes, os herbívoros nada tem a ver com os otaku, apesar de serem ambos  faces do mesmo dado (nem falo moeda porque há outros aspectos problemáticos). Ao contrário do otaku que foge da sociedade, mas permanece fazendo parte dela com sua voracidade consumista, o come-planta permanece ligado à sociedade mas privilegia o espiritual em relação ao material, uma postura budista, que faz parte da amálgama cultural japonesa (argumento que joga ao lado do filósofo Morioka).
O medo dos países vizinhos é que o Japão exporte esse comportamento através do gigantismo de sua cultura pop. Obras sobre o assunto já foram traduzidas no leste e sudoeste asiático, inclusive em regiões com o mesmo problema de natalidade, como Taiwan, onde a taxa fica abaixo de 1 (Japão tem 1,3 e já é muito baixo), um dos menores índices da história da humanidade. O mangá Otomen (trocadilho entre otome - menina sonhadora - e men, para simbolizar o personagem herbívoro) já foi licenciado até no Brasil pela Panini.
Apenas quero deixar claro que o tom do post pode ter soado machista em alguns pontos. Seria natural, pois eu estou falando sobre a visão de mundo desses homens, correspondendo ela com a verdade ou não. Finalizo o post com a citação que eu li hoje por acaso na Folha, numa coluna sobre os pontos positivos do ócio, que cabe muito bem aqui, pois não me espantaria se saísse da boca de um herbívoro. Com a palavra, Karl Kraus:
"Se o lugar aonde quero chegar só puder ser alcançado subindo uma escada, eu me recusarei a fazê-lo. Porque lá aonde eu quero realmente ir, na realidade já devo estar nele. Aquilo que devo alcançar servindo-me de uma escada não me interessa"

Fontes:
The Herbivore’s Dilemma (Alexandra Harney)
Low-income bachelors victims of widening ‘sex gap’  (Kuchikomi - Japan Today)
In Japan, ‘Herbivore’ Boys Subvert Ideas Of Manhood  (Louisa Lim)
The rise of Japan’s ‘girlie man’ generation (Philip Delves Broughton)
Blurring the boundaries  (Tomoko Otake)
Japan’s Generation XX (David McNeill)
No Japão, os “herbívoros” enterram a moda dos machões viris e dominadores (Philippe Mesmer)
Cultura do Narcisismo (Cristopher Lasch)
Época Negócios
Reuters
Se você for proprietário dos direitos autorais de alguma das imagens usada no post, me informe que eu retiro assim que possível.
Artigo original: Os homens herbívoros do Japão: São realmente um problema ?

domingo, 4 de dezembro de 2011

A semeadura portuguesa no Japão


Inda outra muita terra se te esconde,
Até que venha o tempo de mostrar-se;
Mas não deixes no mar as ilhas, onde
A natureza quis mais afamar-se;
Esta meia escondida, que responde
De longe à China, donde vem buscar-se,
É Japão, onde nasce a prata fina,
Que ilustrada será co’a Lei divina.
(Os Lusíadas, Canto X, CXXXI)

O sistema educacional brasileiro, refém da máfia dos cursinhos, se limita a explorar a História do Japão a partir do seu processo de industrialização na segunda metade do século XIX. Menciona a Restauração Meiji, os zaibatsus e o holocausto nuclear no final da Segunda Guerra, pois caso caia alguma questão sobre o país em algum vestibular, o assunto não fugirá desses três temas. Se alguém teve a felicidade de conhecer algo a mais, deve isso ao professor ou ao seu interesse particular. Por conta disso, ficamos com uma perspectiva não apenas pequena mas também antiquada da História do velho Yamato. É quase um consenso que o processo de ocidentalização do país se deu quando os Estados Unidos obrigaram o país a abrir suas fronteiras para o comércio exterior em 1853. Era até mesmo no Japão. A Historiografia, porém, está revolucionando alguns pontos nas últimas décadas e o Japão não está excluído desse onda. Estudos, ainda em execução, estão contrariando as verdades de ontem e evidenciando que o processo de ocidentalização não foi iniciado pelos americanos, foi por eles apenas corroborado e escancarado. A primeira semente de cunho ocidental (científica) teria sido plantada no arquipélago milenar pelos portugueses, mais especificamente pelos padres jesuítas, nos séculos XVI e XVII.

É fato conhecido que Portugal, até então dono do monopólio comercial marítimo, foi o primeiro país europeu a entrar em contato com o Japão ainda no século XVI com dois objetivos declarados, comerciais e religiosos, na ânsia de reverter o estrangulamento comercial do Mediterrâneo e cristianizar os novos mundos. Fluíram para o solo nipônico uma infinidade de mercadores lusitanos e missionários da Companhia de Jesus. Historiadores de prestígio, incluindo George Sansom, sempre afirmaram que apesar de Portugal, e posteriormente, Espanha, Holanda e Inglaterra, terem introduzido algumas inovações na sociedade japonesa, como a arma de fogo, a influência ocidental desse período seria um capítulo menor na multimilenar história japonesa, servindo como uma breve nota de rodapé sem expressão, principalmente pela repressão movida contra o Cristianismo no período Tokugawa (1603 - 1868). Essa visão está mudando.

Pretendo, com esse post, mostrar como se procedeu a presença lusitana no Japão, explicar a razão da expulsão dos ocidentais para, enfim, detalhar como os portugueses (e posteriormente os holandeses) deram o primeiro passo na ocidentalização do país. Aviso de antemão, o foco do texto é História, ele pode ficar truncado em alguns momentos e exigir um repertório mínimo do assunto para melhor compreensão. Farei o possível para tornar o texto mais fluido, mas não abrirei mão da carga informativa.

O Japão católico

Nossos irmãos da Europa tiveram uma sorte grande quando aportaram no Japão. Esse pequeno país insular e exótico, que conhecia e mantinha relações comerciais apenas com China, Coréia, Índia e algumas regiões do sudoeste asiático, estava numa crise interna muito significativa. Costurado por guerras feudais, em crise diplomática com China e Coréia, o caminho para novos parceiros de negócios estava aberto para os portugueses. Se o comércio de Lisboa foi muito bem vindo, o Cristianismo cunhado no outro lado da moeda portuguesa também foi inicialmente bem recebido. Calcula-se que no chamado Século Cristão, entre 800 mil a 1 milhão de japoneses se converteram ao catolicismo, quando a população do país era estimada em 20 milhões. Estão nessa gama inclusive muitos daimios, alguns apenas para agradar os portugueses, outros abraçando a fé cristã para valer.

Existem várias explicações para a adesão maciça de uma religião importada em um país asiático e milenar. Citarei as apresentadas pelo livro Choque luso no Japão dos séculos XVI e XVII de José Yamashiro. Os líderes militares do país estavam com problemas de relacionamento com os mosteiros budistas e usaram o Cristianismo como uma ferramenta de represália interna; os jesuítas eram intelectuais e defendiam bem o Evangelho em japonês, mantendo uma postura moral irrepreensível, fato que contrastou com a corrupção e acomodação moral dos bonzos budistas na época, onde o Xintoísmo local estava em decadência e o Confucionismo ainda não havia conhecido seus melhores momentos (O Cristianismo encontrou um hiato na religiosidade local); os japoneses são muito receptivos com as culturas alheias e assimilam sem maiores problemas manifestações estrangeiras; além, é claro, da necessidade de agradar os novos parceiros europeus que não se contentariam apenas com o comércio, sem a pregação da fé cristã. Essa fonte de renda era essencial para bancar as guerras feudais e a unificação do país.

A expulsão dos missionários; A perseguição aos cristãos

A sorte do Cristianismo começa a mudar nas mãos dos artífices da unificação japonesa. Se Oda Nobunaga foi benevolente com os jesuítas, pois o conhecimento de mundo necessariamente vinha da Companhia de Jesus, Hideyoshi Toyotomi mudou essa postura, decretando a expulsão dos missionários das terras japonesas.

Nesse ponto da História, o Japão já era cobiçado pelas quatro potências marítimas europeias da época. Hideyoshi já estava muito bem informado sobre as reais intenções da aproximação lusitana. Sabia da submissão da China, Índia, Java, Sião e outras regiões às feitorias dos europeus, tinha conhecimento das guerras religiosas em curso no Velho Continente e fora informado sobre a grandeza do Império Ibérico na América. Ele calculou muito bem os riscos de permitir a penetração cristã no país. Se alguns daimios convertidos se unissem às potências dos Bárbaros do Sul (como ficaram conhecidos os europeus), o país, machucado por suas crises internas, corria o sério risco de cair em mãos estrangeiras. Nagasaki já estava em mãos católicas, onde os portugueses gozavam de poder de extraterritorialidade.

Com a chegada dos espanhóis chegaram juntos os franciscanos, agostinianos e dominicanos, entrando em conflito com os jesuítas no território japonês. Mais do que isso, com a chegada dos ingleses e holandeses vieram também os anglicanos e protestantes, tecendo intrigas sobre os católicos com os chefes militares. Pior, navios mercantes da Holanda e Inglaterra vinham preparados para canhonear navegações ibéricas no Mar do Japão. Toyotomi, e posteriormente o clã Tokugawa, não gostaram nem um pouco dessa projeção dos problemas europeus nos seus domínios e exigiram a expulsão de todos os religiosos cristãos. Seu descontentamento com os lusitanos foi alimentada pela recusa portuguesa de fornecer navios para ajudar o Japão na campanha militar contra a Coréia. Nesse período os primeiros mártires foram mortos no arquipélago.

O regime da família Tokugawa intensifica a repressão aos ocidentais, principalmente nas mãos de filho e neto de Ieyasu. O país se fechou politicamente em 1639, proibindo a saída ou a volta de japoneses, a entrada de estrangeiros e mesmo o comércio externo, reduzido a uma feitoria holandesa (que nesse ponto já levava vantagem sobre os decadentes portugueses) por onde se dava também o ponto de contato com a China. Tudo o que tinha relação com o Cristianismo foi predadoramente destruído. Pessoas eram mortas, livros queimados, crianças batizadas eram passadas no fio da espada. Missionários que continuavam entrando clandestinamente no Japão para pregar a fé cristã, já sabendo do seu trágico destino, eram barbarizados, torturados e mortos. A repressão ao Cristianismo foi implacável, situação explorada pela saga filler do Rurouni Kenshin, a saga dos Cristãos de Shogo Amakusa.

Essa repressão bem sucedida ao Cristianismo criou a impressão de aniquilação da influência ocidental no Japão da época, principalmente porque a documentação do período foi destruída por ordem dos Tokugawa. Isso está mudando, pois muitos documentos jesuítas guardados no Vaticano, Lisboa e Madri estão vindo a tona nos últimos anos. Os portugueses não deixaram no Japão apenas vinho ou igrejas, mas a semente do pensamento ocidental.

O legado dos jesuítas

Os jesuitas eram intelectuais, a despeito da visão deturpada que temos da ciência nos tempos áureos de Igreja Católica (ainda que os enviados ao Japão fossem bem inferiores aos enviados para a China, esses sim, de primeiro escalão educados em Roma). De todos os melhores matemáticos que a humanidade já conheceu, 5% pertenceu à Companhia de Jesus (sendo que ela durou apenas pouco mais de dois séculos). Nas universidades europeias, as quais, muitas das melhores diretamente vinculadas ao Vaticano, se desenvolveu a ciência ocidental.

Esses padres pensadores, como deixa claro o livro de Yamashiro anteriormente citado, apresentaram aos japoneses a visão de mundo ocidental, como o racionalismo, o empirismo e o humanismo, que exerceram enorme influência no pensamento nipônico, ainda preso às visões de mundo tradicionais e míticas dos chineses e indianos. Os japoneses, através dos jesuitas, "encontraram, ainda, pela primeira vez, uma concepção sistemática da natureza como objeto definido do conhecimento humano". E essa postura científica é sim derivada da religião, pois o Cristianismo, como os gregos, crê num universo ordenado, passível de observação e mensuração pela lógica humana (afinal, seríamos feitos a imagem e semelhança de Deus). Para o economista e historiador Thomas Woods, essa concepção ajudaria a justificar o fato das brilhantes sociedades chinesa e islâmicas não terem acompanhado o desenvolvimento científico ocidental. Foram muito inventivos, é verdade, mas o ambiente religioso deles não era favorável para o desenvolvimento maior das ciências abstratas, como a Física. Os árabes, que por muito tempo estiveram na frente do Ocidente, simplesmente estacionaram seu progresso intelectual, enquanto os cristãos deram sequência ao seu labor, seja na Europa, na América ou na China (e quero deixar bem claro aqui que não sou católico, tampouco cristão).

Os japoneses aprenderam com os portugueses - e posteriormente com os livros holandeses - o estágio técnico-científico da Europa. Assimilaram a Física, Astronomia, Geografia (os portugueses dominavam esses assuntos, também pela famosa Escola de Sagres), Medicina, Cosmogonia, além da Arte da Guerra e as Belas Artes da Renascença.

"Não há paralelo, passado ou presente, em qualquer país, para o conhecimento que a Europa tem de astronomia" (Yamagata Banko)

Shuntaro Ito, professor da Universidade de Tóquio, está entre os que defendem essa assimilação da ciência européia, das noções de empirismo, como a justificativa para o imediato desenvolvimento do Japão após a abertura dos portos forçada pelo Comodoro Perry da Marinha Americana. Isso justificaria a supremacia japonesa na Ásia. Seus intelectuais e homens da ciência já estavam habituados com as noções técnico-científicas que levaram a Europa ocidental e os Estados Unidos para o topo do mundo. Eles conseguiram assimilar as novidades do século XIX com uma velocidade inédita, não perderam tempo com divagações confucionistas. Em poucas décadas de extenuante dedicação para alcançar o Ocidente, atingiram o ponto de potência colonialista do continente e deram uma surra no Império Russo, fato que espantou o mundo. O poderio econômico e tecnológico do Japão dos nossos dias deve, muito mais do que se suporia, à corte de Lisboa e aos padres lusitanos do século XVI (não apenas, pois tinham italianos e espanhóis também entre os representantes da Companhia de Jesus no Japão).

Vejam o depoimento de Nishikawa Joken em 1712 - muito após a expulsão dos ocidentais, e muito antes da abertura política - na obra Discussões sobre os princípios da Astronomia. A semente, definitivamente, estava plantada:

"Os portugueses e holandeses são mestres na arte da navegação. A sua técnica é superior à da China. Embora nós não naveguemos nos oceanos ou até muito longe, temos que admitir que a geografia é um ramo da astronomia, e que por meio da geografia podemos medir e provar muitas coisas em astronomia, por exemplo, o meridiano, o equador, a eclíptica, as estações, as durações da noite e do dia, e que todas estão apoiadas em medidas geográficas."

Os jesuítas presentes no Japão criaram escolas, construíram Santas Casas, onde tratavam os pacientes (incluindo leprosos) ao modo ocidental, inseriram a cirurgia, ensinando as práticas aos que mostravam interesse. Frequentemente organizavam debates de argumentação lógica com os bonzos e intelectuais japoneses, justamente ao modo de São Tomás de Aquino (profundo conhecedor da Filosofia Grega), um dos maiores intelectuais que esse mundo conheceu. E ensinam nas escolas que a Igreja pregava a ignorância. O primeiro a defender a importância dos estudos jesuítas na ciência japonesa foi Mikami Yoshio, o mais prolífero historiador japonês da ciência.

Palavras oriundas do português que são usadas no Japão:

Kappa = Capa; Shabon = Sabão; Koppu = Copo; Castera = bolo de Castela; Pan = Pão; Kabocha = Abóbora da Camboja; Tempura = Tempero

Gravuras











Fontes:
Choque Luso no Japão dos séculos XVI e XVII - José Yamashiro
O Kenkon Bensetsu e a Recepção da Cosmologia Ocidental no Japão do séc. XVII - Henrique Leitão e José Miguel Pinto dos Santos
The Introduction of Western Cosmology in Seventeenth-Century Japan: The Case of Christovao Ferreira - Shuntaro Ito
Postagem original: http://otakismo.blogspot.com/2011/08/ocidentalizacao-do-japao-uma-semeadura.html
Imagens: http://www.theapricity.com/forum/showthread.php?t=22809

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Yukio Mishima - Harmonia entre Pena e da Espada


O escritor e dramaturgo Yukio Mishima (Kimitake Hiraoka - 1925-1970) é decerto um dos personagens japoneses mais icônicos do século XX por escancarar de modo excêntrico as contradições de um país milenar que avançava na estrada do progresso sem vislumbrar, um pouco que seja, a vista pelo retrovisor, nem mesmo o velocímetro.

Mishima, educado como um samurai, viveu e morreu como um, tendo entrado na escola enquanto o Japão militarista 'entrava' na China. Sem a atenção do pai, que o queria formado em engenharia a despeito de seu talento pelas artes, e cuidando de uma avó doente e possessiva, Kimitake refugiava-se na literatura para aguentar a opressão do dia-a-dia, e justamente por isso criou seu nome artístico, na intenção de esconder do pai suas atividades. Influenciado por obras como o Hagakure do século XVII ("o ventre de onde nasceu minha escrita"), sua produção ganha destaque imediatamente após o cessar da segunda guerra mundial, onde descreve a situação política e social do país, ocupado pelas forças americanas, com esmero literário.

Toda a sua obra é permeada por paradoxos. Beleza e morte, amor e rejeição, oriente e ocidente são alguns exemplos. Seu tema central era a dicotomia entre os valores tradicionais japoneses e a pobreza espiritual da vida contemporânea, que tornara o Japão moderno porém infértil. Homem híbrido, era o exemplo vivo do japonês no pós-guerra, que mesmo quando defende o retorno aos valores tradicionais, não o faz sem a onipresente influência ocidental. Mishima falava inglês fluentemente (até como forma de auxílio na tentativa de levar o prêmio Nobel), apreciava pensadores ocidentais como Oscar Wilde e mesmo seu estilo literário era temperado com pitadas de ocidente, caso de Mar Inquieto, onde muitos críticos vêem notória influência dos escritos gregos.


Criança anêmica, Mishima se sentia eternamente culpado por fingir uma tuberculose quando estava gripado, fato que fez o médico das forças armadas considerá-lo como inadequado ao exército, e que levou Yukio a se preparar para uma guerra que nunca veio, no papel de um legítimo samurai. Como homem, casou e virou pai de dois filhos para poder dar sequência à linhagem familiar apesar de homossexual. Como escritor, criticou o sedentarismo daqueles que viviam da pena, defendendo que palavras devem gerar ação. Como samurai, aperfeiçava corpo (mestre em kendô e karatê) e mente enquanto lutava para reunir seu povo e incitá-lo à rebelião contra o que estava sendo feito com o Japão.

"Japan will disappear, it will become inorganic, empty, neutral-tinted; it will grow wealthy and astute." Mishima

Como afirma Jordi Mas, pesquisador de Ásia Oriental de Barcelona, ele "temia que o progresso econômico se conseguisse em detrimento da própria cultura", enquanto o japonês, recentemente humilhado na guerra, era amparado pelos americanos e se embriagava com trabalho e bem-estar material. Mishima reclama o direito do povo japonês desfrutar de soberania e justiça social, conservando as tradições, sem alienar a adaptação do país à técnica industrial.

A cultura tradicional japonesa foi fortemente suprimida pela ocupação americana, que via nisso uma forma de jogar as últimas pás de terra nos valores nacionalistas e militar-expansionistas do Japão, assim como abrir espaço para valores pacifistas, liberais e progressistas (e ao American Way of Life, naturalmente). A censura americana, vinda da Seção de Informação e Educação Civil (ligada ao Comando Supremo de Forças Aliadas do general McArthur), reprimiu manifestações artísticas que remetiam ao passado feudal japonês, como o teatro Kabuki, além da proibição do ensino de artes marciais japonesas.

Enquanto muitos estavam ocupados demais assistindo aos filmes de Hollywood e desenhos de Hanna Barbera, alguns japoneses mostravam-se particularmente incomodados com a presença americana e sua censura. Entre os anos 50 e 70, houve um crescimento das manifestações culturais que remetiam ao nacionalismo de outrora. Nesse período se popularizaram os dramas de samurais produzidos pela Toei. Alguns exemplos de produção da época são o livro Requiem for Battleship Yamato de Mitsuru Yoshida e os filmes Os Sete Samurais de Akira Kurosawa e Japan's Longest Day de Kihachi Okamoto.

Não foram apenas os artistas e intelectuais, mas o próprio governo japonês fez o possível para revitalizar a cultura tradicional do país, imprimindo a arquitetura nas obras públicas, investindo em preservação de pontos históricos, trazendo de novo à luz os teatros No e Kabuki, bem como a cultura samurai, até hoje presente nas escolas e universidades japonesas. Em 1966, publicou o Program of forming desirable image of Japanese, onde fixou características do "japonês ideal", bastante influenciado pelo Bushido, código de conduta dos samurais ("caminho do guerreiro"). Citarei o conteúdo do programa quando falar sobre o sistema educacional japonês.

Mishima, no entanto, foi mentor da mais simbólica tentativa de restituir aquele Japão que não existia mais. Em 25 de Novembro de 1970, acompanhado de 4 membros do Tatenokai (milícia de estudantes patrióticos que estudavam artes marciais sob a tutela de Mishima), todos vestidos com os uniformes do Exército Imperial, renderam o comandante Masuda do quartel general das forças de Auto-defesa de Tóquio (mataram oito soldados resistentes na invasão). Mishima, então, fez um discurso patriótico para cerca de dois mil soldados, convocando-os a lutar contra a constituição japonesa, escrita por americanos, e a favor da restituição do poder imperial. Diante da indiferença dos militares, Mishima cometeu o Seppuku (suicídio ritual dos samurais) após gritar 3x: "Longa vida ao Imperador!".

"Perfect purity is possible if you turn your life into a line of poetry written with a splash of blood."Mishima.

Sua morte é considerada o protesto derradeiro contra a decadência da sociedade japonesa. É preciso entendê-lo para não cair no erro de acusá-lo de simples fanático. O membro Emílio da comunidade Literatura Japonesa no Orkut sintetizou isso corretamente: "Ao leitor desavisado, descontextualizado e globalizado o patriotismo soa anacrônico e panfletário. Mas vale lembrar que Mishima vivia no Japão militarmente ocupado pelos americanos.". Yukio teve sua cabeça moldada no auge do militarismo, não se deve esquecer.

Mishima dedicou sua vida à pátria e à nação. Lutou contra a materialização do espírito de um povo que deixou de ser soberano. Protestou "contra a inoperância, a apatia do amorfo Exército Japonês, que, como se sabe, não é mais que uma polícia, mais destinada a reprimir o povo, do que uma milícia capaz de salvaguardar a Nação.".

O ato radical do escritor invocou uma estranha apreensão em alguns japoneses. Apesar da consciência do extremismo no ato de Mishima, esses japoneses pararam para pensar sobre aonde estavam indo ao se preocuparem em produzir tanta riqueza enquanto se sentiam tão vazios e culturalmente desconectados das tradições do país que construiram a visão de si mesmos. A maioria dos japoneses, no auge da apologia ao consumo, viram no ato apenas mais uma das excentricidades de Mishima e um péssimo exemplo. A recepção no ocidente, carente de ídolos românticos, foi muito mais forte, descobrindo a força da obra completa de Mishima antes do próprio Japão, que apenas o reconheceu devidamente após revisitar seu legado nos anos 80, tentando entender o que os gaijins viam de importante nele.

"A morte é uma espécie de castigo eterno, infligido à materializada sociedade ocidental que vive afastada da natureza. Para nós não o é, de modo absoluto, uma vez que nos consideramos parte integrada da natureza. Devido a isso, a morte, aos olhos do meu povo, é um prêmio, algo assim como a transformação, a liberdade da matéria. Morrer é partir, não desaparecer. Outrora, o mundo cristão, creio, tinha igual ou semelhante filosofia. E foi então que logrou consolidar-se. Pois bem: nós queremos recuperar plenamente esse estilo de vida e aplicá-lo a uma grande política nacional e popular. O contrário seria o mesmo que aceitar a hibernação indefinidamente da alma japonesa." Yukio MIshima
"Sempre ouça seu espírito. É melhor estar errado que simplesmente seguir o convencional. Se você está errado, não importa, você aprendeu algo e crescerá mais forte. Se você tiver razão, você deu outro passo para uma vida superior." Trecho do Hagakure, obra que mais influenciou a escrita de Mishima.



FONTES:
Forming nationalistic mentality of Japanese youth by Japanese ruling circles with use of bushido ideology (Andrei Vasil’evich Golomsha)
Mishima: O hara-kiri do silêncio - Política», n.º 26, pág. 12, 31.01.1971
YUKIO MISHIMA: A 20th Century Samurai
Mishima, el último samurai - Anna Zaera
No país do sol nascente - Giovanna Bartucci
Os samurais - History Channel
http://www.culturajaponesa.com.br/htm/cinemajapones.html
Postagem original http://otakismo.blogspot.com/2011/03/yukio-mishima-e-crise-de-identidade.html

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