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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Idade Média e Revolução Científica por James Hannam
Poucos temas são tão abertos ao mal-entendido como a relação entre fé e razão. O confronto contínuo do criacionismo com evolução obscurece o fato de que o cristianismo, na verdade, teve um papel muito mais positivo a desempenhar na história da ciência do que comumente se acredita. Na verdade, muitos dos alegados exemplos de religião travar o progresso científico são falsos. Por exemplo, a Igreja nunca ensinou que a Terra é plana e, na Idade Média, ninguém pensava assim. Papas não tentaram proibir o zero, dissecação humana ou pára-raios, muito menos excomungaran o cometa Halley. Ninguém, tenho o prazer de dizer, foi queimado na fogueira por idéias científicas. No entanto, todas essas histórias são ainda defendidas regularmente como exemplos de intransigência clerical em face do progresso científico.
É certo que, Galileu foi levado a julgamento por afirmar que é um fato que a Terra gira em torno do sol, ao invés de apenas uma hipótese como a Igreja Católica exigia. Ainda assim, os historiadores descobriram que até mesmo seu julgamento foi mais um caso de egoísmo papal do que conservadorismo científico. Dificilmente merece a ofuscar todo o apoio que a Igreja tem dado à investigação científica ao longo dos séculos.
Esse apoio levou várias formas. Um deles foi simplesmente financeira. Até a Revolução Francesa, a Igreja Católica foi a principal patrocinadora da pesquisa científica. A partir da Idade Média, ela pagou por padres, monges e frades para estudar nas universidades. A igreja ainda insistiu que a ciência e matemática devem ser uma parte obrigatória do currículo. E depois de algum debate, aceitou que a filosofia natural grega e árabe foram ferramentas essenciais para a defesa da fé. Por volta do século XVII, a ordem dos jesuítas havia se tornado a organização científica líder na Europa, publicando milhares de documentos e difundindo novas descobertas em todo o mundo. As próprias catedrais foram projetadas para também serem observatórios astronômicos para permitir a determinação cada vez mais precisa do calendário. E, claro, a genética moderna foi fundada por um abade trabalhando com ervilhas no jardim monástico.
Mas o apoio religioso para a ciência tomou formas mais profundas também. Foi só no século XIX que a ciência começou a ter qualquer aplicação prática. A tecnologia tinha aberto seu próprio caminho até a década de 1830, quando a indústria química alemã começou a empregar seus primeiros doutorados. Antes disso, a única razão para estudar a ciência era curiosidade ou piedade religiosa. Os cristãos acreditam que Deus criou o universo e determinou as leis da natureza. Estudar o mundo natural era admirar a obra de Deus. Isto poderia ser um dever religioso e inspirar a ciência quando havia poucas outras razões para se preocupar com isso. Foi a fé que levou Copérnico a rejeitar o universo ptolomaico; que levou Johannes Kepler a descobrir a constituição do sistema solar; e que convenceu James Clerk Maxwell a que pudesse reduzir o eletromagnetismo a um conjunto de equações tão elegantes.
Dado que a Igreja não tem sido um inimigo para a ciência, é menos surpreendente descobrir que a era que estava mais dominada pela fé cristã, a Idade Média, foi um momento de inovação e progresso. Invenções como o relógio mecânico, vidros, impressão e contabilidade entraram em cena no período medieval tardio. No campo da física, os estudiosos descobriram teorias medievais sobre movimento acelerado, a rotação da Terra e da inércia incorporada nas obras de Copérnico e Galileu. Mesmo a chamada “idade das trevas”, nos anos 500 a 1000, eram realmente um tempo de antecedência após a calha que se seguiu à queda de Roma. A produtividade agrícola aumentou com o uso de arados pesados, colares de cavalo, a rotação de culturas e moinhos de água, levando a um rápido aumento da população.
Foi somente durante a “Iluminismo” que começou a se propagar a falsa ideia de que o cristianismo tinha sido um sério obstáculo para a ciência. Voltaire e seus companheiros filósofos se opunham à Igreja Católica por causa de sua estreita associação com a monarquia absoluta da França. Acusar os clérigos de deter o desenvolvimento científico foi uma forma segura de fazer um ponto político. Os porretes foram posteriormente retomados por TH Huxley, o buldogue de Darwin, em sua luta para a livrar a ciência de qualquer tipo de influência clerical. O criacionismo fez o resto do trabalho em convencer o público de que o cristianismo e a ciência estão fadados ao antagonismo perpétuo.
No entanto, atualmente, a ciência e a religião são as duas forças intelectuais mais poderosas do planeta. Ambas são capazes de fazer um bem enorme, mas suas chances de fazê-lo são muito maiores se puderem trabalhar juntas. A atribuição do Prémio Templeton para Lord Rees é um pequeno passo na direção certa.
James Hannam
PhD em História e Filosofia da Ciência da Universidade de Cambridge e é o autor de A Gênese da Ciência: Como a Idade Média cristã lançou a Revolução Científica (publicado no Reino Unido como Filósofos de Deus: Como o Mundo Medieval lançou as bases da ciência moderna).
O Gênese da Ciência:
Como a Idade Média cristã lançou a Revolução Científica está disponível agora.
Finalista do Prêmio Livro da Ciência da Royal Society
“Bem-pesquisado e extremamente agradável”. -New Scientist
“A jornada do espírito através de séculos de desenvolvimento científico… capta a maravilha do mundo medieval, sua curiosidade inspiradora e sua força engajadora”. – Sunday Times
“Este livro contém muito material valioso resumido com louvável clareza… James Hannam tem feito um bom trabalho de derrubar uma caricatura da época.” Sunday Telegraph
Fonte: http://blogs.nature.com/soapboxscience/2011/05/18/science-owes-much-to-both-christianity-and-the-middle-ages
Tradução: Emerson de Oliveira
Postagem original: A ciência deve muito ao Cristianismo e a Idade Média
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
A natureza da luz na História.
Na antiga Grécia já eram conhecidos e estudados alguns fenômenos ópticos, tais como, reflexão, refração, decomposição da luz em prismas e havia também alguns grupos que definiam a natureza da luz conforme o preceito básico que defendiam.
O filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) foi a primeira pessoa, que se tem notícia, a adotar a natureza ondulatória da luz, pois para ele a luz era uma espécie de fluído imaterial que chegava aos nossos olhos, vindo dos objetos visíveis, através de ondas.
Empédocles (492-432) considerava que a luz era parte de um dos quatro elementos, o fogo, sem contudo se confundir com este. Contrariamente a Pitágoras (582-500), que pensava ser a visão causada exclusivamente por algo emitido pelo olho, Empédocles acreditava que os corpos luminosos emitiam algo que encontrava os raios emanados dos olhos. Alguns filósofos antigos, adeptos do atomismo, consideravam a luz um fogo visual composto de partículas, diferentes, no entanto, das que compunham o restante dos objetos por serem bem menores. Tal concepção foi adotada por Epicuro (342-270), mas anteriormente havia sido modificada por Anaxágoras (500-428) que substituiu as partículas, semelhantes aos objetos, por partículas com propriedades individuais, tal como a cor, por exemplo.
Euclides (330-270) foi partidário e grande defensor da teoria pitagórica que dizia ser a luz proveniente do olho, demonstrou, baseado na ideia de raio luminoso e da propagação retilínea, as leis da reflexão. Ptolomeu (90-147 ou 168?) tinha as mesmas concepções sobre a luz que Euclides, pensava que a cor era uma propriedade inerente aos corpos e fez estudos sobre campo visual e refração da luz demonstrando que uma moeda oculta no fundo de um copo poderia ser vista caso este fosse preenchido com água.
Não foram somente os gregos que estudaram a luz e seu comportamento, há indícios de que tanto os árabes como os chineses conheciam alguns princípios básicos da Óptica. Os chineses utilizavam espelhos côncavos como queimadores na vida prática e o árabe Ibn Al-Haytham (965-1039), conhecido como Alhazen, fez vários estudos nessa área.
Al-Haytham rejeitava o princípio grego de que a luz emanava do olho, para ele a luz era emitida por uma força autoluminosa que constituía uma fonte primária, no entanto, a luz também poderia ser emitida por uma fonte secundária, caso das partículas de poeira que compõem um facho de luz solar, em ``forma de esfera'' (ver o princípio da ondas secundárias de Huygens). Al-Haytham descreveu as cores como sendo independentes dos objetos, mas presentes na luz, ou seja, misturadas a ela e nunca visíveis sem ela. É a Al-Haytham que devemos a introdução do conceito de ``raio de luz'' graças às suas explicações coerentes sobre alguns fenômenos ópticos.
Robert Grosseteste (1168-1253) concebia a luz como a primeira forma de matéria-prima a ser criada, uma substância física que se propagava a partir de sua fonte, de onde surgiam as três dimensões do espaço. Inspirado nos trabalhos de Al-Haytham estudou a Óptica, que considerava uma ciência física básica, e muito contribuiu para o avanço da ciência. Leonardo da Vinci (1452-1519) também se interessou pela luz, mais do ponto de vista científico do que artístico, o que o levou a estudar fenômenos ópticos e a conhecer a câmara escura, precursora da máquina fotográfica e filmadora.
René Descartes (1596-1650) foi outro grande cientista que se interessou em desvendar a natureza da luz. Sua opinião era a de que a luz era uma emissão de caráter corpuscular ligada a uma emissão vibratória. Para ele a luz não possuía caráter material, mas sim o meio através do qual a luz se propagava - o éter. Embora Descartes tenha esclarecido a atual da Lei da Refração da luz, ele se equivocou em relação à velocidade da luz ao dizer que esta aumentaria em meios mais densos do que menos densos.
Numa época em que fervilhavam idéias, em 1665 um fenômeno interessante surge dos experimentos do padre Francesco Grimaldi (1618-1663) quando este examinava a sombra de um objeto delgado em uma câmara escura provocada por uma luz forte ao atravessar um pequeno orifício. Ao invés de uma imagem nítida o padre observou a formação de uma sombra mais larga e composta de partes claras e escuras, sobre isso afirmou, ``um corpo luminoso pode tornar-se obscuro quando se acrescente luz à luz que recebe''. O fenômeno descrito é o de difração e levou Grimaldi a uma concepção vibratória da luz. Através dessa concepção ele explicou que a formação de cores quando a luz atravessa o prisma é decorrente da ``mudança de velocidade do movimento vibratório, que essas diferenças de cor são produzidas pelas vibrações de um fluído que atua sobre o olho com velocidades diferentes, assim como a diversidade dos sons é devido à vibração do ar de rapidez desigual''.
A relação das cores com o movimento vibratório levou Robert Hooke (1635-1703) a afirmar que o movimento da luz é produzido por ondas perpendiculares à linha de propagação. Temos aqui uma referência à transversalidade do movimento ondulatório que não foi aceita na época nem pelos defensores da teoria ondulatória da luz, dentre os quais podemos destacar Christiaan Huygens que publicou no ``Tratado sobre a luz'' em 1690, uma explicação para o fenômeno da reflexão e refração baseado no conceito de frente de ondas, atualmente conhecido como Princípio de Huygens. Este princípio diz que:
na propagação destas ondas, cada partícula do éter não só transmite o seu movimento à partícula seguinte, ao longo da reta que parte do ponto luminoso, mas também a todas as partículas que a rodeiam e que se opõem ao movimento. O resultado é uma onda em torno de cada partícula e que a tem como centro.
Como vemos, a luz, para este cientista, constitui-se num movimento ondulatório que se propaga pelo éter semelhantemente ao som que se propaga pelo ar. Huygens tentou explicar também no Tratado um fenômeno bastante intrigante observado pelo dinamarquês Erasmo Bartolim (1625-1698) em 1669, a dupla refração produzida no cristal da Islândia. Ele dizia que o raio ``extraordinário'' característico do fenômeno, corresponderia à uma onda elipsoidal que se sobrepunha à onda esférica, correspondente ao raio ordinário. Huygens, além de não conseguir explicar a cor através de seu modelo ondulatório, afirmou que a velocidade da luz era mais lenta em meios mais densos, o que provocou a contestação por parte de alguns físicos. Edmond Halley (1656-1742), por exemplo, questionou de que forma a luz poderia voltar à velocidade anterior depois de atravessar um meio mais denso, mas ninguém o fez de forma tão presunçosa como Isaac Newton, que queria saber por que, já que a luz era onda, ela não se curvava ao redor dos objetos, quer dizer, queria saber por que existia a sombra se a luz, como onda, poderia contornar o objeto e iluminar o que estivesse por trás deste.
Newton apresentou à Royal Society, em 1672, um estudo sobre a dispersão da luz, baseado em experimentos que fazia com prismas. Tais experimentos motivaram controvérsias no meio científico, pois naquela época a experimentação deveria ser utilizada para confirmar ou negar algum tipo de teoria. Impulsionado por esta controvérsia, pela ausência de explicação plausível para existência da sombra geométrica e também pelo fato de ser um atomista, propôs um modelo corpuscular para explicar a natureza da luz.
(Credita-se a Heron de Alexandria (século II a.C.) a Lei da Reflexão, pois este percebeu que um raio de luz, ao incidir num espelho, é refletido com ângulo igual ao raio incidente. É possível que Newton tenha se posicionado a favor da teoria corpuscular ao relacionar o fenômeno descrito anteriormente com o fato de que uma bola, correndo num plano horizontal, ao bater num obstáculo, retorna formando com o obstáculo o mesmo ângulo que tinha ao chocar-se.)
Newton declarou que a luz branca era composta de uma mistura de várias cores, tal afirmação foi decorrente dos vários experimentos realizados com o prisma, conforme já citamos. Essas cores correspondiam a uma variedade de partículas, cada tipo correspondente a uma cor. Sobre a reflexão e a refração, Newton propôs um engenhoso sistema de ``ajustes de fácil reflexão e de fácil refração'' que eram provocados por ``forças'' que atuavam sobre os corpúsculos e foi dessa forma que ele também explicou o fenômeno de difração da luz, descoberto por Grimaldi, as bordas dos objetos atuavam sobre os corpúsculos da luz fazendo com que houvesse a inflexão da mesma.
Embora hoje saibamos que estava errado, estas explicações foram bem articuladas, diferentemente das relacionadas com o fenômeno da dupla refração no cristal da Islândia. Newton também não foi bem sucedido ao afirmar que a velocidade da luz aumenta quando esta passa de um meio menos denso para um meio mais denso.
Estava montado o grande palco onde ocorreu a mais célebre discussão a respeito da natureza da luz, de um lado Huygens e seu modelo ondulatório, de outro Isaac Newton e seu modelo corpuscular. O conceito de corpúsculo, ou partícula, é completamente diferente do conceito de onda; uma partícula transporta matéria, uma onda não, uma partícula pode se locomover no vácuo, uma onda necessita de um meio para se propagar (nesse período era o que se pensava), uma onda atravessa obstáculos menores que seu comprimento, uma partícula não, enfim, para a Física Clássica ou a luz era uma coisa ou outra, consequentemente, ou aceitava-se o modelo ondulatório ou aceitava-se o modelo corpuscular, um descartava o outro e foi o que aconteceu por um certo período.
O modelo de Newton prevaleceu sobre o de Huygens porque, além de sua explicação para as cores da luz ser bem coerente, sua fama pesou muito na escolha do ``melhor'' modelo, tanto que pode ser percebido através dos seguintes versos, escritos em 1860:
Você pensa que Newton disse uma mentira,
Aonde você espera ir quando morrer?
Derrubar um mito nunca foi fácil, por isso aceitar o modelo contrário ao de Newton foi um trabalho bastante árduo enfrentado por alguns cientistas tendo à frente Thomas Young (1773-1829). Motivado pelo estudo da visão, Young questionou várias afirmações da teoria corpuscular de Newton. Ele não via nexo na explicação newtoniana quando pensava no fato de que a luz tinha a mesma velocidade mesmo sendo emitida por corpos diferentes e porque certos corpúsculos eram refletidos e outros refratados, pensava que uma teoria ondulatória explicaria bem melhor esses fenômenos.
Young considerou que se a luz fosse ondas, elas poderiam, assim como as ondas do mar, anularem-se umas às outras ou intensificarem-se e foi nesse sentido que trabalhou para explicar o fenômeno da interferência, estudado por ele através do experimento da dupla fenda. Além da explicação sobre interferência luminosa, explicou, de forma bem simples, como eram formados os conhecidos ``anéis de Newton'' supondo que cada cor correspondia a um determinado comprimento de onda próprio. Interessante que Young utilizou dados do próprio Newton em seus trabalhos, como pode ser observado nos originais. Quanto ao fenômeno da difração e da dupla refração, as explicações de Young deixaram a desejar, por isso foi feito um desafio para que se apresentasse à Acadèmie des Sciences uma teoria matemática para explicar os fenômenos.
Na época, muitos cientistas ainda aclamavam a teoria corpuscular de Newton como a correta para explicar a natureza da luz e foi através desta teoria que Étienne-Louis Malus (1775-1812) ganhou um prêmio ao explicar o fenômeno da reflexão da luz ocorrida em determinados ângulos em certas superfícies polidas, semelhante ao observado na dupla refração, apelidando-o de ``polarização'' (observar no original de Newton uma relação com este nome), Malus levou um prêmio da Acadèmie.
O prêmio para a explicação matemática do fenômeno da difração foi para Augunstin Fresnel (1788-1827), defensor da teoria ondulatória da luz. Fresnel, utilizando raciocínios matemáticos, explicou a propagação retilínea da luz, as leis de Descartes (refração) e a difração. Um episódio interessante ocorreu durante uma demonstração de Fresnel, o matemático Denis Poisson (1781-1840), partidário da teoria corpuscular, previu uma coisa absurda caso a teoria de Fresnel estivesse correta, um ponto brilhante deveria aparecer no centro da sombra projetada de um disco circular. Para verificar tal ocorrência, montou-se um dispositivo experimental e, para surpresa de muitos, verificou-se o fato.
Esses acontecimentos quase (quase) sepultaram a teoria corpuscular da luz, mas faltava ainda uma explicação para a dupla refração, ou polarização, a partir da teoria ondulatória e uma comprovação da alteração da velocidade da luz em meios de diferentes densidades.
A explicação do fenômeno da polarização da luz baseado no modelo ondulatório tropeçava no próprio modelo, pois acreditava-se que as ondas da luz eram longitudinais, no entanto, uma mudança de conceito estava por vir quando François Arago (1786-1853) juntou-se a Fresnel e, juntos, observaram um fato estranho: dois feixes polarizados não interferiam um com o outro, como se esperava. Arago noticiou o fato a Young que não tardou em presumir que, ao invés de longitudinais, as ondas da luz eram transversais. Arago e Fresnel continuaram o estudo e, pelas palavras de Arago, chegaram à seguinte conclusão:
...(estas propriedades da luz) conduzem diretamente à solução da seguinte questão: como se efetuam as ondulações da luz? No sentido da linha segundo a qual se popagam, ou perpendicularmente a essa linha? Este último modo de propagação parece resultar das nossas experiência; contudo julguei tão difícil admiti-lo que resolvi deixar ao meu colaborador sozinho o ``atrevimento'' dessa dedução.
Podemos perceber, por estas palavras, o quanto a mudança de ondas longitudinais para transversais era difícil. Tal dificuldade decorria da existência de um meio através do qual as ondas luminosas deveriam se propagar -- o éter, mas isso é uma outra história.
Bem, esses acontecimentos se deram por volta de 1819, foi preciso esperar até 1862 para que Léon Foucault realizasse o experimento para verificar a velocidade da luz na água. O resultado mostrou que, na água, a velocidade da luz era menor do que no ar, veredicto totalmente contrário à previsões do grande Isaac Newton. Deu-se então o sepultamento da teoria corpuscular da luz. (Vamos ver, mais para frente, que o cadáver corpuscular não estava completamente morto!)
Michael Faraday (1791-1862), um cientista bastante dedicado à experimentação, demonstrou que um campo magnético podia inverter os planos de polarização da luz (Efeito Faraday) e alertou James Clerk Maxwell (1831-1879) sobre a relação entre a luz e os fenômenos eletromagnéticos. Este, aproveitando-se dos trabalhos matemáticos de Fresnell, chegou a certas equações que expressavam o comportamento de uma corrente elétrica e de seu campo magnético associado, tal qual as já determinadas para expressar o comportamento ondulatório da luz. Em 1864, ele chegou à conclusão de que ``luz e magnetismo são resultados de uma mesma substância, (...) a luz é um distúrbio eletromagnético propagado através do campo de acordo com as leis do eletromagnetismo.''
A novidade do trabalho de Maxwell foi demonstrar que a luz era uma onda eletromagnética e que, portanto, com as ondas eletromagnéticas deveriam ocorrer os fenômenos de reflexão, refração, enfim, todos os que ocorrem com a luz. Embora estes conhecimentos fossem de real importância, faltava-lhes ainda o aval da comprovação experimental, realizada por Henrich Hertz (1857-1894).
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| Oscilador construido por Hertz |
Hertz montou um oscilador constituído de quatro esferas metálicas unidas duas a duas por uma haste ligada aos terminais de uma bobina de Ruhmkorff (Figura 1), de onde conseguiu produzir ondas eletromagnéticas e provar que estas possuíam a mesma velocidade da luz e podiam sofrer reflexão, refração, polarização, difração e interferência. Além disso, Hertz também descobriu que outros tipos de ondas poderiam ser produzidas e, com isso, descobriu as ondas de rádio e as microondas. Sua contribuição foi crucial para a compreensão dos trabalhos de Maxwell e inaugurou a era do eletromagnetismo, uma era de grande desenvolvimento tecnológico e sócio-econômico.
Um fenômeno assaz interessante foi percebido por Hertz por ocasião de suas atividades experimentais, ele notou que faíscas no transmissor aumentavam a sensibilidade do detector. Com a morte prematura de Hertz, seu auxiliar Philip Lenard (1862-1947) identificou a incidência de radiação ultravioleta juntamente com as faíscas, montou então um experimento para verificar o fenômeno e, através deste, percebeu que a luz arrancava cargas elétricas (ainda não fora descoberto o elétron) de uma placa emissora.
Lenard chegou às seguintes conclusões:
- as cargas elétricas possuem velocidades iniciais finitas, mesmo num campo nulo e não dependem da temperatura;
- a intensidade da luz não influi na velocidade das cargas, mas sim sua freqüência;
- o efeito é observado a partir de uma determinada freqüência;
- o número de cargas emitidas depende da intensidade da luz.
Era inviável explicar o fenômeno a partir da teoria ondulatória da luz, principalmente no tocante à relação entre a freqüência da luz e a velocidade das cargas.
Vamos dar uma pausa nesta história (enquanto a teoria corpuscular revira na tumba), voltar um pouquinho no tempo (aqui podemos) e narrar uma outra história tão cativante como esta.
Referências:
A Natureza da Luz - Onda ou Partícula
http://fisica.cdcc.usp.br/Professores/Einstein-SHMCarvalho/node5.html
CDCC/USP - Setor de Física
Armand Gibert. Origens históricas da Física Moderna. Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1982
Christiaan Huygens. Tratado sobre a luz. In: Cadernos de História e Filosofia da Ciência, suplemento 4/1986
Colin A. Ronan. História Ilustrada de Ciência. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987. Vol III.
André C. S. Martins. A História do Éter. Disponível no site http://www.casadacultura.org/andre_masini/ensaios/historia_do_eter.html
Max Jammer. The conceptual development of quantum mechanics. McGraw-Hill, 1966. In: Zanetic e Mozena, 2004
George Gamow. Treinta años que conmovieron la física. Ed. Universitária de Buenos Aires, 1974
Jaglidsh Mehra e Helmut Rechemberg. The historical development of quantum theory. Springer-verlag, New York, 1982
O ano miraculoso de Einstein: cinco artigos que mudaram a face da física. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001
Zanetic e Mozena, 2004 - Max Jammer
Zanetic e Mozena, 2004 - G. N. Lewis
Niels Bohr. Física atômica e conhecimento humano. Rio de Janeiro: Contraponto, 1995
Alberto Gaspar. Física -- ondas, óptica e termodinâmica. São Paulo: Ed. Ática, 2000
Dicionário Houaiss
Schenberg, Mário. Pensando a física. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1984
Martins, Roberto. Intervenção na mesa-redonda: Influência da história da ciência no ensino de física. Cad. Cat. Ens. Fís., 5 (número especial), jun/1988
Hosoume, Yassuko. Proposta de um modelo "espontâneo" de movimento. Tese de doutoramento, FEUSP, 1986
Abrantes, Paulo Cesar Coelho. L'epistemologie dans l'enseignement de la physique. Un example: la théorie de la relativité restreinte. Mémoire de Maitrise. Université de Paris X, Nanterre, Paris, 1978
Erica Regina Mozena e Maria José P. M. de Almeida. Atividade Prática e Funcionamento de Textos Originais de Cientistas na 8a Série do Ensino Fundamental. Trabalho apresentado na forma de pôster no XIII SNEF (Simpósio Nacional de Ensino de Física) de 25 a 29 de janeiro de 1999 na Universidade de Brasília ? DF, disponível no site: http://www.sbfisica.org.br/rbef/vol/num3/v22_426.pdf
Sonia Maria Dion. O diálogo com documentos originais da ciência em sala da aula: uma proposta. São Paulo, 1997. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo
abaldini S. e Rossi O. Using Historical Papers in Ordinary Physics Teaching at High School. Science & Education, n. 3, p. 239-242, 1993. Citado por Dion, 1997
Leibniz, Gottfried Wilhelm. Carta a Louis Bourquet de 22 de março de 1714. Citada por Merton, R. K. Ref. 1
Maxwell, James Clerk. In: Campbell, L. e Garnett, W. The life of James Clerk Maxwell, Mac-millan, London, 1884, pág. 162. Citado por Merton, R. K. Ref.1
Eduardo de Campos Valadares. Ensinando Física Moderna no segundo grau: efeito fotoelétrico, laser e emissão de corpo negro. Caderno Catarinense de Ensino de Física, v. 15
Rosa Pujol. Educacion Cientifica para la ciudadania em formación. In: Alambique, n. 32, abril, 2002
Eduardo Adolfo Terrazan. A inserção da Física Moderna e contemporânea no ensino de Física na escola de 2o grau. Caderno Catarinense de Ensino de Física, v. 9
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Mitos e verdades em ciência e religião: uma perspectiva histórica
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| Deus como Geômetra O frontispício da Bíblia Moralisada |
Quando o tema é “Mitos e Verdades na Ciência e na Religião”, é lamentável o fato de que após anos, décadas de pesquisas realizadas por historiadores na História da Ciência e da Religião, os mesmos mitos antigos que temos corrigido repetidamente continuam a ter vida própria e a ser amplamente conhecidos pelo público em geral. Um dos maiores desafios, eu creio, para retificar a compreensão do público acerca da ciência e da religião atualmente é esclarecer os mitos que ainda persistem desde o passado.
O público leigo, na medida em que pensa de alguma maneira a respeito dos problemas relacionados à ciência e à religião, tem a certeza de que a religião institucionalizada sempre se opôs ao progresso científico; testemunhas disso são Copérnico, Galileu, Darwin, Freud, John Thomas Scopes. Eles sabem que a ascensão do Cristianismo exterminou a antiga ciência, que a Igreja Cristã Medieval suprimiu o crescimento da Filosofia Natural, que os cristãos medievais ensinavam que a Terra era plana, que a Igreja proibiu autópsias e dissecações durante a Idade Média e o Renascimento.
Por outro lado, os religiosos sabem que a ciência teve papel preponderante na corrosão da fé por intermédio do Naturalismo e do antibiblicismo. Se quisermos que o público passe a ter uma visão renovada no que concerne ao relacionamento entre ciência e religião, acredito que devamos dissipar os antigos mitos que continuam a se passar por verdades históricas. E aqui devo deixar claro que me refiro a “mitos” no seu bom e antigo sentido original, como ficção ou meia-verdade, não no sentido dos complexos estudos antropológicos e religiosos; assim, deixemos isso já definido.
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| John William Draper Escritor do livro "A História do Conflito entre a Ciência e a Religião", lançado em 1870. |
Draper argumentou que a antipatia do Vaticano pela ciência deixou suas mãos impregnadas de sangue. Pode parecer estranho o porquê de alguém – sendo um proeminente químico, fundador e primeiro Presidente da Sociedade Americana de Química, muito ativo no desenvolvimento da fotografia nos Estados Unidos – ter passado tanto tempo escrevendo um livro inteiro acusando os católicos. Draper tinha um filho pequeno que adoeceu gravemente e que possuía um livro favorito. A irmã de Draper, que era freira católica, vivia com eles e, antes que o menino viesse a falecer, tirou o livro dele porque ela não o achava suficientemente edificante. Pouco depois da morte, ela colocou o livro no lugar onde o menino sentava-se à mesa de jantar e Draper nunca a perdoou por isso. Essa parece ter sido, em grande parte, a fonte de sua animosidade contra o Catolicismo.
Draper ignorou ou depreciou as contribuições científicas de muitos devotos católicos, de Copérnico e Galileu a Galvani e Pasteur.
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| John Heilbrion - The Sun in The Church: Cathedrals as Solar Observatories |
A razão pela qual a Igreja inicialmente se interessou tanto pelos observatórios foi para estabelecer a data para a Páscoa, mas no final das contas esses observatórios foram utilizados para estudar a geometria do sistema solar bem como outros assuntos de interesse geral da Astronomia. Além disso, hoje sabemos que a escola médica Papal, San Viansa, atualmente a Universidade de Roma, foi durante anos, décadas e até mesmo séculos, no início do período moderno, a pioneira em estudos de anatomia e fisiologia.
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| Andrew Dickson White History of the Warfare of Science with Theology in Christendom Livraria Cultura |
White acreditava que algumas das batalhas mais sangrentas foram travadas entre os séculos XVI e XVII durante o período da assim chamada revolução científica, quando poderosos líderes da Igreja repetidamente tentaram silenciar os pioneiros da ciência moderna. Copérnico, ele disse, que havia ousado localizar o sol no centro do sistema solar, arriscou sua própria vida para publicar suas concepções heréticas e escapou às perseguições apenas por causa de sua morte. Muitos de seus discípulos tiveram um destino menos feliz. Giordano Bruno foi queimado vivo como um monstro da impiedade; Galileu foi torturado e humilhado como o pior dos incrédulos; Kepler foi caçado igualmente por Protestantes e Católicos. Andreas Vesalius, o médico do século XVI que estabeleceu os fundamentos da anatomia moderna ao insistir em cuidadosas dissecações diretas no corpo humano, pagou por sua temeridade, tendo sido caçado até a morte. A última vítima nessa duradoura guerra contra a ciência, disse White, foi essa instituição, a Universidade de Cornell, e seu arrogante reitor, Andrew Dickson White.
A despeito dos numerosos livros e artigos questionando a interpretação de White, sobretudo a elegante refutação de Jim Moore publicada no fim dos anos 1970, o conflito metafórico mantém-se popular, não apenas entre o público em geral, mas igualmente nas comunidades científica e religiosa. Segundo o meu conhecimento ou de meus colegas que trabalham com a história da revolução científica, nenhum cientista perdeu sua vida por causa de suas concepções científicas. Muito embora a Inquisição italiana, de fato, tenha incinerado o copernicano do século XVI Giordano Bruno, porém, em razão de suas concepções heréticas em relação à divindade ou não divindade de Cristo e não porque ele acreditasse na infinitude do universo ou por ele ser copernicano. Ele defendia a ideia de que Cristo não possuía um corpo humano e que sua morte na cruz foi mera ilusão, o que fez com que algumas autoridades eclesiásticas ficassem um pouco desgostosas com ele. Ele também tinha outras ideias heréticas.
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| Galileu |
Após sua condenação, ele não foi encarcerado, mas ficou detido em regime de prisão domiciliar, primeiramente na Villa Medici em Roma, depois no Palácio do Arcebispo em Sienna onde ele permaneceu por um longo período e, então, finalmente em sua própria casa de campo nos arredores de Florença. Não acredito que nenhum de nós gostaria de ficar detido em prisão domiciliar durante qualquer período de tempo, embora esse tenha sido um destino bastante diferente daquele atribuído a ele de acordo com tantos estudos populares sobre a vida de Galileu. Também sabemos, por intermédio de Andrew Dickson White e muitos outros, que ao longo da Idade Média a igreja ensinava que a Terra era plana e que devemos ao bravo e heroico Cristóvão Colombo a prova empírica de que o mundo era na realidade esférico, ao navegar até a América do Norte. Infelizmente, uma das pessoas responsáveis por essa concepção foi um ilustre intelectual do século XIX, daqui da Universidade de Cambridge, William Whewell, que popularizou essa visão em sua história das ciências indutivas.
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| William Whewell, O homem que popularizou a história das ciências indutivas |
No início do século XIX, o psicólogo Sigmund Freud observou que a ciência já tinha infligido três grandes ataques contra o ingênuo amor próprio da humanidade. O primeiro foi associado ao astrônomo do século XVI Nicolau Copérnico, quando foi constatado que a Terra não era o centro do universo, mas apenas uma pequena partícula em um sistema de mundo de uma magnitude dificilmente concebível.
O segundo, de acordo com Freud, foi associado a Charles Darwin, assim que sua pesquisa biológica roubou do homem seu peculiar privilégio de ter sido especialmente criado e o relegou a um descendente do mundo animal.
De maneira vaidosa, Freud observou que o desejo do homem pela grandiosidade está sofrendo agora o terceiro e mais amargo golpe, dessa vez pelas mãos dos psicanalistas, como ele mesmo, que estavam demonstrando que os seres humanos se comportam sob a influência de necessidades inconscientes. No entanto, Freud não precisava ter se preocupado tanto com o sofrimento psíquico causado pela ciência moderna. O copernicanismo tinha efetivamente desalojado os seres humanos do centro do cosmos, mas esse foi um deslocamento positivo. De acordo com a cosmologia aceita naquela época, o centro do universo era o pior lugar para se estar e, se procurarmos na literatura, raramente encontramos pessoas reclamando por terem sido desalojadas desse terrível centro do universo. Elas tinham muitas outras objeções, talvez bíblicas, vivenciais também, mas a preocupação de ter sido desalojado é apenas uma outra ficção que começou a ser propagada.
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| Charles Darwin e Freud |
O historiador Peter J. Bowler disse que “o maior triunfo do Darwinismo era que ele em pouco tempo estabeleceu uma ruptura total entre ciência e religião”. Interessante, mas bastante modesto quando comparado com o que o falecido Ernst Meyer disse em um de seus últimos livros antes de sua morte, “O que é a Evolução” (What Evolution is), onde ele diz: “Não é de se estranhar que a ‘Origem’ (das Espécies) tenha causado tamanho tumulto. Ele quase que sozinho efetivou a secularização da ciência”.
Há alguns estudos tentando avaliar o impacto da ciência e particularmente do Darwinismo sobre a perda da fé no século XIX, e claramente algumas pessoas abandonaram suas crenças por conta do Darwinismo, porém, Charles Darwin não o fez. Novamente, como Jim Moore mostrou há anos, em um dos mais comoventes ensaios que li na história da ciência e que honestamente me levou às lágrimas, ele conta a história de como Darwin perdeu sua fé. Primeiro ele perde seu pai, que era um médico maravilhoso, e de acordo com a teologia cristã, por seu pai não ser um crente, ele queimaria para sempre no inferno. Como um Deus justo poderia fazer uma coisa dessas? Em seguida, seu irmão morre. O golpe final em suas crenças religiosas foi quando, aos 10 anos de idade, sua filha Annie adoeceu. A Sra. Darwin estava grávida, assim Charles Darwin levou a filha para a hidroterapia, da qual ele já havia se beneficiado, e permaneceu junto à filha até que ela sucumbiu e faleceu. Ele ficou tão desconsolado que não pôde sequer estar presente no funeral. Darwin acreditava que se houvesse um Deus onisciente, um Deus onipotente que pudesse ter salvado a vida de Annie, por que não o faria? Portanto, foram essas experiências muito pessoais pelas quais ele passou, e não a doutrina da seleção natural, que o impeliram a abandonar o Cristianismo.
Há alguns anos, uma socióloga britânica chamada Susan Budd estudou as biografias de cento e cinquenta secularistas e livre-pensadores britânicos que viveram entre 1850 e 1950. Um dos problemas no estudo da secularização é o de aprender o bastante sobre os indivíduos para contar o que aconteceu. Porém, na literatura dos livre-pensadores, muitas vezes seus obituários contêm as histórias de como eles perderam a fé, o que era uma coisa interessante de se registrar. Dessa forma, ela tinha uma base de dados raramente disponível para as pessoas que tentam encontrar respostas para tais questões. Ela descobriu que apenas dois dos seus sujeitos mencionaram ter lido Darwin ou Huxley antes de perder a fé. A maioria dessas pessoas perdeu a fé por razões muito semelhantes àquelas que tinham destruído a fé de Darwin no Cristianismo, por razões muito pessoais, questionando sobre a origem e a natureza do pecado, do castigo eterno e questões desse tipo.
Não é de se surpreender que muitos cristãos e outros religiosos tenham ficado ofendidos pelas caracterizações negativas e, em grande parte injustificadas, que retratavam o Cristianismo como o grande inimigo do progresso científico. Eles chamaram a atenção para o fato que a Europa cristã deu origem à ciência moderna e que uma grande maioria daqueles que contribuíram para a ciência era cristã declarada. Alguns apologistas cristãos (não vou nomeá-los agora) foram longe na tentativa de reformular a relação histórica entre a ciência e o Cristianismo como um compromisso essencialmente harmonioso, argumentando que a ciência poderia somente ter se desenvolvido em uma cultura como a cristã, em que a crença em um cosmos ordenado, criado e regulamentado por um ser divino era amplamente difundida.
Pouquíssimos historiadores da ciência apoiariam essa explicação e uma das razões é bastante óbvia – para sustentá-la, é preciso excluir todas as realizações dos gregos, muçulmanos e judeus, no período anterior à revolução científica ou mesmo durante, e afirmar que o que eles estavam fazendo não era ciência. Andrew Cunningham tem exercido influência marcante na historiografia da ciência nas últimas décadas, demonstrando que a ciência na verdade era inexistente até os séculos XVIII ou XIX. Antes disso, tivemos a filosofia natural, a história natural e a medicina: essas foram as formas de investigação da natureza. A ciência como nós a conhecemos, significando o estudo da natureza, exclusivamente o estudo do mundo natural, não surgiu até bem mais tarde. Talvez essa seja uma questão discutível, quanto aos gregos e aos muçulmanos terem feito uma ciência genuína, porque é anacrônico falar dessa maneira, mas eles estavam fazendo muito daquilo que mais tarde os filósofos cristãos e os historiadores naturais fizeram. Ainda que os cristãos, como já assinalei, muitas vezes contribuíram fundamentalmente para o crescimento da ciência nos séculos XVI, XVII e assim por diante, creio que seja presunçoso da parte dos cristãos alegarem que somente o Cristianismo poderia ter produzido a ciência como a conhecemos hoje.
Como muitos sabem, provavelmente eu tenha trabalhado muito mais do que uma pessoa de bom senso deveria, na história dos antievolucionistas que dos criacionistas, e gostaria de compartilhar alguns dos mitos que decorrem dessa área da minha pesquisa.
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| Inherit the Wind |
Ao longo dos anos, centenas de milhares, se não foram milhões de pessoas, assistiram à peça ou ao filme “O vento será sua herança”. Ele passou a ter a reputação de um retrato fiel do que historicamente aconteceu há alguns anos. Um grupo de historiadores financiado pelo governo federal propôs normas nacionais para o ensino de história dos Estados Unidos e, na década de 1920, esse grupo de eminentes historiadores sugeriu que os professores do ensino médio mostrassem esse filme para que os estudantes pudessem entender a mentalidade dos fundamentalistas que se opuseram à evolução no início do século XX.
Isso seria adequado se o filme “O vento será sua herança” exibisse alguma semelhança ao evento histórico em Dayton, em 1925. Como vocês provavelmente sabem, o anti-herói foi William Jennings Bryan, um político norte-americano muito popular que tinha sido o candidato democrata à presidência em três ocasiões distintas e foi um dos mais conhecidos e queridos políticos dos Estados Unidos (não querido o suficiente para ganhar as eleições, mas querido em alguns círculos). Ao contrário do que mostra o filme, e que a maioria dos americanos acredita hoje, Bryan, que participou do julgamento, não era um criacionista no sentido em que agora conhecemos.
Desde meados do século, conseguimos mais ou menos identificar os criacionistas como pessoas, que acreditam em uma história da Terra jovem, sem que nada tenha acontecido há mais de 6 ou 7 mil, talvez 10 mil anos atrás. E essa é a forma como Bryan é descrito; ele insiste na criação do mundo no ano de 4004 a.C., no dia 22 de outubro, creio eu. Um dos diálogos importantes do filme acontece quando Clarence Darrow, o famoso advogado agnóstico que estava questionando Bryan no banco das testemunhas, perguntou-lhe se ele poderia ser preciso e parece-me que Bryan disse (a Terra foi criada) às 9h; Darrow retruca “no horário padrão do leste ou no das Montanhas Rochosas?”; é claro que isso sempre causa gargalhadas.
A transcrição do julgamento de Scopes está disponível desde o final de 1925 em uma versão barata, portanto prontamente disponível para qualquer historiador. Se você levar em conta o interrogatório de Bryan feito por Darrow, quem se surpreendeu foi Darrow. Ele achava que Bryan acreditava em uma criação especial recente e Bryan continua repetindo: Não, não acreditamos, e em dado momento, exaltado ele diz: “Não nos importamos se a semana da criação durou 6 mil anos, 600 mil anos ou 600 milhões de anos, isso não tem importância”. E ele estava certo. Os fundamentalistas que se opuseram à evolução nos anos 1920 – pelo menos aqueles que escreveram e expressaram suas opiniões acerca do tema – quase todos aceitavam a evidência da geologia histórica em relação à antiguidade da vida na Terra.
Apenas após os anos 1960 é que esse movimento criacionista da Terra jovem parece ter sido aceito pela maioria dos criacionistas.Bryan foi convidado a Dayton pelo líder da Associação Mundial dos Fundamentalistas Cristãos, um pastor Batista chamado William B. Riley. Riley viajou pelo país pregando a mesma mensagem que Bryan estava transmitindo no banco das testemunhas, de que os dias do Genesis obviamente simbolizam longos períodos geológicos e de que não havia problema algum para os fundamentalistas cristãos aceitarem isso. Onde eles estabeleceram o limite – Riley, Bryan e outros líderes fundamentalistas – foi no ponto concernente à evolução humana e sobretudo por causa das suas implicações morais. Apesar de tudo, dizer aos jovens que eles descendem dos animais e que não deveriam ficar tão surpresos quando se comportassem como eles; e Deus sabe que da década de 1920 os jovens americanos estavam se comportando de forma muito semelhante aos animais (mas apenas nos anos 1920!).
Não consigo resistir a fazer outro aparte neste momento sobre os criacionistas e suas concepções, porque continuo ouvindo isso pelo menos uma vez por semana e lendo a respeito disso pelo menos a cada duas semanas. Há uma percepção estranha em outros países de que os criacionistas defendem a ideia de que Deus criou todas as espécies. Bem, eles podem tê-la defendido em dado momento, mas dificilmente encontraremos algum criacionista que defenda isso nos últimos cinquenta anos. Percebo aqui alguns colegas das ciências biológicas dizendo: cara, se eu pudesse conversar com algumas dessas pessoas e mostrar a elas o que temos descoberto em campo, ou no laboratório, que demonstram o desenvolvimento até de uma nova espécie, isso certamente os convenceria a abandonar suas crenças. O problema é que eles não acreditam nisso. Eles abandonaram essa concepção há pelo menos meio século e por uma razão muito boa. À medida que mais e mais fundamentalistas e criacionistas aceitavam a perspectiva da criação da Terra jovem, eles tinham de encontrar uma maneira de explicar uma enorme quantidade de dados geológicos, então os criacionistas da Terra jovem recorreram ao Dilúvio de Noé, que durou cerca de um ano, de forma que eles comprimem toda a coluna geológica a aproximadamente um ano de história da Terra.
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| Arca de Noé |
Não há zoólogo no mundo que não seja criacionista, que conceba a evolução agindo tão rápido. Ele chama essa microevolução – qualquer coisa que ocorra em um período de tempo originariamente criado ou preservado pelo tempo na Arca é a microevolução em oposição à macroevolução. Assim, não há nenhuma evidência de que os zoólogos encontrarão mudanças relativamente pequenas no mundo orgânico que convencerão um criacionista da Terra jovem a abandonar suas concepções. Eu sei que é uma notícia triste, mas tenho de compartilhá-la!
Finalmente, quero dizer algumas palavras sobre a globalização do movimento da criação. Enquanto estava vivo, o paleontólogo americano Stephen Jay Gould viajou ao redor do mundo em diversas ocasiões e frequentemente era indagado sobre esse fenômeno americano conhecido por criacionismo. Quando Gould, até mesmo na hora de sua morte, assegurava a essas plateias estrangeiras que não tinham com o que se preocupar, porque essa era uma bizarrice americana única (termo dele para isso) e que não haveria nenhuma possibilidade no mundo de ela se espalhar para fora dos Estados Unidos. Infelizmente isso aconteceu; sou um historiador e não deveria ser arbitrário naquilo que digo; ela se espalhou para fora dos Estados Unidos.
Deixem-me mostrar alguns dos exemplos mais interessantes; alguns de vocês devem saber que a Austrália, principalmente na costa do Pacífico, tornou-se uma autoridade no movimento antievolucionista desde 1980 e um dos fundadores do movimento australiano estabeleceu residência há alguns anos nos Estados Unidos, próximo a Cincinnat, Ohio, e criou um gigantesco império lá e está prestes a inaugurar um museu criacionista que custou 25 milhões de dólares. Seu nome é Ken Ham – alguns de vocês podem tê-lo escutado falar quando viajou pela Grã-Bretanha em 2004 e, pelo que sei, atraiu um número significativo de expectadores aqui. A Coreia do Sul possui um movimento criacionista surpreendentemente amplo e ativo e, nos últimos anos, começou a enviar missionários criacionistas a outros países, incluindo a costa oeste da América do Norte e também a Indonésia.
Uma das mais surpreendentes áreas a acolher calorosamente o criacionismo foi a Rússia. Com a queda da União Soviética, representantes do Ministério da Educação russo iniciaram o contato com os criacionistas americanos convidando-os a escrever livros didáticos e a visitá-los, a fim de aconselhá-los a como ensinar o criacionismo nas escolas russas, pois eles tinham uma justificativa histórica bastante interessante. Eles viveram nos dias em que o lysenkoismo foi imposto à biologia russa e agora queriam liberdade acadêmica e que não apenas o neodarwinismo fosse ensinado aos jovens russos; assim, convidaram a raposa para que entrasse no galinheiro. Somente nos últimos três ou quatro anos, os ministros da educação da Holanda, da Itália e de dois países da Europa Oriental, excluindo a Rússia, vêm defendendo o ensino do criacionismo ou Desenho Inteligente (Intelligent Design). A Ministra da Educação da Holanda, há um ano ou dois, mostrou-se favorável ao ensino do Desenho Inteligente porque, como ela própria disse, esta é uma concepção que poderia unir Cristãos, Muçulmanos e Judeus.
Certamente, ninguém esperava que essa bizarrice americana se difundisse em culturas não cristãs. Mais uma vez, um dos movimentos antievolucionistas mais ativos e bem-sucedidos hoje no mundo está localizado em Estambul, na Turquia. Ele se chama Instituto de Pesquisas Científicas, ou BAV, que é presidido pelo carismático membro da comunidade científica religiosa, chamado Harun Yahya; seu nome verdadeiro é Adnan Oktar, mas ele adotou o pseudônimo Harun Yahya. Ele está ativo desde 1990. Sua formação inicial foi em design de interiores e, posteriormente, filosofia, mas nunca permitiram que ele se graduasse na universidade que frequentava, mas é certamente bastante brilhante e carismático. Ele decidiu, segundo ele, diferentemente da maioria das pessoas no mundo muçulmano, tentar harmonizar os ensinamentos islâmicos, os ensinamentos do Corão, com a ciência moderna.
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| The Evolution Deceit |
Ora, certamente, o Reino Unido será poupado dessa bizarrice americana porque não existem cristãos suficientes lá para sucumbir aos truques do criacionismo e certamente essa parece ter sido a percepção até recentemente, mas tem havido certa atividade nos últimos anos, no campo criacionista. John Polkinghorne, Colin Russell e outros têm feito oposição a essa ameaça, mas fiquei bastante surpreso ao ver os resultados publicados no The Guardian, não faz muito tempo, de uma enquete com o povo britânico. As enquetes nos Estados Unidos, dependendo de quais enquetes, apontam que pouco mais de 50% dos americanos acreditam que os primeiros seres humanos foram criados há não mais de 10 mil anos (esse número vem crescendo nos últimos anos), dois terços dos americanos acreditam que o criacionismo deveria ser ensinado nas escolas públicas e apenas cerca de 10% dos americanos não se identificam de alguma maneira como teístas. Mas, e no Reino Unido? Esse levantamento, publicado no The Guardian, mostrou que uma minoria de cidadãos britânicos acreditava na evolução formal, 21%, se bem me lembro, acreditavam na evolução teísta e 20% dos britânicos disseram ser criacionistas. Para alguém como eu, parece que a cada dia o Reino Unido está se tornando cada vez mais parecido com os Estados Unidos.
Endereço para correspondência:
Ronald L. Numbers
Department of Medical History and Bioethics University of Wisconsin 1300 University
Avenue Madison, Wisconsin 53706
E-mail: rnumbers@wisc.edu
1 Este artigo é baseado numa conferência proferida em 11 de maio de 2006 no Howard Building do Downing College na Universidade de Cambridge, Reino Unido. Faz parte das atividades do Faraday Institute for Science and Religion da mesma universidade. O texto original encontra-se na página www.st-edmunds.cam.ac.uk/faraday/Lectures.php. Os tópicos abordados no presente artigo são desenvolvidos de modo mais completo em um livro recente editado pelo prof. Ronald L. Numbers, que é tema de uma resenha nesta edição da Revista de Psiquiatria Clínica: Galileo Goes to Jail and Other Myths about Science and Religion. Ronald L. Numbers (Org.). Harvard University Press, 2009.
2 Tradução autorizada pelo autor.
Ronald L. Numbers, Ph.D
Hilldale Professor of the History of Science and Medicine, University of Wisconsin-Madison, Estados Unidos. Presidente da International Union of the History and Philosophy of Science, Division of History of Science and Technology
Tr2: Alexandre Sech Junior, Cristiane Sshumann Silva
Revisão da tradução: Alexander Moreira-Almeida
Artigo original no Logos Apologética
domingo, 28 de agosto de 2011
O Islã e as Ciências Médicas
Hajji Sheikh Muhammad Ragip
1. - Origem do Islam
Historicamente, pode-se dizer que a religião islâmica surgiu a partir do ano 610 d.C., com o início da revelação do Sagrado Alcorão. O profeta Muhammad (saws) meditava, solitariamente, em uma gruta nas montanhas de Hira, distante alguns quilômetros da cidade de Meca, na hoje Arábia Saudita, quando, em uma experiência visionária, apareceu o Anjo Gabriel (as), ordenando-lhe ler as primeiras palavras do Livro Sagrado. Trêmulo e febril, o Profeta (saws) não compreendeu a experiência extraordinária pela qual passava e que mudaria o curso da história. Encontrou em sua fiel esposa Khadija apoio e suporte para assimilar os difíceis momentos iniciais da revelação. A partir de então, durante 23 anos, o anjo trouxe gradativamente, da Fonte infinita para a realidade humana, a palavra divina, na forma de um livro revelado.
Nesta época, Meca era dominada pela idolatria e costumes selvagens. A mensagem trazida pelo Profeta Muhammad (saws) afirmando a existência de Deus Uno e Único, que ordenava justiça e tolerância, comportamento ético e humanitário, respeito aos direitos dos seres humanos, homens e mulheres, encontrou forte oposição. Os primeiros muçulmanos foram maltratados e humilhados enfrentando perseguições, torturas e assassinatos. Em 622 d.C., buscando melhores condições de sobrevivência, retiraram-se da cidade de Meca para a cidade de Medina, com apoio e suporte de seus habitantes. Este ano, 622 d.C., dá início ao calendário islâmico. A partir de Medina, a religião islâmica consolidou-se e iniciou sua expansão. Num período de menos de cem anos já estendia-se pelo norte da África, península ibérica na região do atual Portugal e Espanha, até o extremo oriente, chegando às fronteiras da Índia e China. Justiça, respeito à lei, tolerância e espírito democrático foram fatores que facilitaram esta expansão, levando os muçulmanos a serem bem recebidos nas regiões a que chegavam. Nos séculos que se seguiram o Islamismo contribuiu para o desenvolvimento do saber humano em diversas áreas como medicina, astronomia, álgebra, filosofia, resgatando a obra dos pensadores gregos do passado.
1.1 - Fontes do Islam
A fonte fundamental da qual derivou toda a civilização islâmica é o Sagrado Alcorão. Registros históricos comprovam, e pesquisadores (não islâmicos) reconhecem, que o Sagrado Alcorão não sofreu alterações e mantém-se até hoje na forma exata como foi revelado, sendo que foi registrado por escrito durante a vida do Profeta (saws) e não após sua morte. Ao lado deste situam-se as tradições proféticas, os hadith, que são as decisões, silêncios e exemplos do Profeta Muhammad (saws) face às situações e circunstâncias com que se deparou na vida cotidiana. Como o Profeta (saws) sempre se reportava à mensagem revelada, sendo considerado em suas ações como o Alcorão vivo, na verdade a fonte primária e essencial é o Livro Sagrado.
Além do Alcorão e dos hadith com o tempo desenvolveram-se as escolas de jurisprudência (fiqh) islâmica. Também são consideradas fontes do Islam. Tornaram-se necessárias pois, embora o Alcorão contenha prescrições específicas para o comportamento certo e errado, em muitas áreas da atividade humana, suas injunções não cobrem todas as situações particulares que surgem na vida prática. Adicionalmente, trata-se de um livro revelado para ser válido e atual até o final dos tempos, sendo assim, é específico apenas nas prescrições que devem se manter imutáveis, em qualquer época, e, nos demais casos, apresenta as diretrizes gerais.
Situações que não podem ser esclarecidas através do Sagrado Alcorão, nem através dos hadith, nem através das escolas de jurisprudência (fiqh), considerados nesta ordem, são definidas através do consenso da comunidade islâmica, buscado pelo estudo e análise dos juristas islâmicos. Este é um ponto importante a ser observado, pois os avanços da ciência em geral e da medicina em particular, têm disponibilizado recursos, como transplante de órgãos, engenharia genética, clonagem e outros, que envolvem questões éticas significativas. O posicionamento diante destas novas tecnologias, na comunidade muçulmana, se dá sempre a partir da Escritura Sagrada, dos hadiths e das escolas de jurisprudência, interpretados através da análise jurídica, quando não há clareza suficiente.
2. - Contribuições do Islam para o desenvolvimento das ciências médicas
Na era pré-islâmica, a Arábia, em sua maior parte desértica, era habitada por tribos nômades de beduínos, com algumas comunidades estabelecidas nos pontos de disponibilidade de água e nas intercessões das rotas comerciais. Esta população era caracteristicamente tribal, inculta, envolvida em freqüentes escaramuças, movidas pela disputas ou pela vingança contra seus inimigos. Possuíam um tipo de medicina elementar, oriunda basicamente da experiência prática, herdada dos ancestrais, sem qualquer tipo de elaboração sistemática.
Com o advento do Islam, o Sagrado Alcorão e as tradições proféticas estabeleceram princípios que valorizam o conhecimento, a busca da cura para as moléstias, diretrizes para o atendimento médico e diretrizes para o paciente buscar sua cura. Os hadith trouxeram também ditos e tradições que foram denominados "Medicina Profética", prescrevendo as virtudes da dieta, remédios naturais, o tratamento simples para dor de cabeça, febre, dor de garganta, conjuntivite e outras. Trouxeram também prescrições para evitar o contato com pessoas infectadas por doenças contagiosas como a lepra, instituindo controles para entrada e saída de áreas sujeitas a epidemia ou praga. Trouxeram também um grande número de tradições agrupadas sob o título "Medicina Espiritual", baseada em preces ou na recitação de versos do Sagrado Alcorão, para prover cura.
A expansão islâmica, e o contato com o saber acumulado em sociedades de cultura mais elaborada, inaugurou uma das eras áureas da humanidade em termos de desenvolvimento nas artes e nas ciências dando origem ao que pode ser considerado, do ponto de vista histórico, à "Medicina Islâmica". Este resultado é conseqüência direta de alguns princípios islâmicos que nortearam o contato dos muçulmanos com outros povos, como veremos a seguir.
2.1 - Princípios que nortearam o desenvolvimento da civilização islâmica
Importância fundamental atribuída à aquisição do conhecimento:
A primeira palavra do Sagrado Alcorão revelada ao profeta Muhammad (saws) foi
"Lê" (Surata 96:1).
Como seres humanos, conscientes, temos obrigação de ler e estudar. Em outra passagem do Alcorão lê-se:
"Poderão, acaso, equiparar-se os sábios com os insipientes?" (Surata 39:9).
Em uma tradição profética (hadith), o profeta (saws) aconselha:
"Busque o conhecimento mesmo que seja necessário ir tão longe quanto a China",
em outro hadith afirma:
"A busca de conhecimento é obrigatória para todo muçulmano", e ainda:
"A tinta dos eruditos tem maior valor que o sangue dos mártires".
Proibição da destruição:
Em caso de guerra é expressamente proibida a destruição desnecessária de plantações, rebanhos, edifícios, propriedades, ou o ataque a mulheres, crianças e velhos indefesos. O respeito a estes princípios permitiu a preservação da cultura dos povos conquistados.
Tolerância com outras religiões:
Os cristãos e os judeus são considerados, no Islam, como os povos do livro, isto é sua religião teve origem em uma mensagem revelada, um livro sagrado, como no caso dos muçulmanos. Estudos (não islâmicos) tendo como base a análise dos estilos literários e os registros históricos, demonstram que o texto original da Torah (Pentateuco do Velho Testamento) dos judeus, os Salmos de Davi, e outros livros do Velho Testamento, foram escritos por diferentes autores, em diferentes épocas. O Evangelho de Jesus Cristo ( as) foi registrado muitos anos após a revelação. Portanto, sofreram distorções, acréscimos e supressões introduzidas por seres humanos, ao longo dos séculos, isto é, não são mais retrato fiel da mensagem original revelada. Apesar disto, sua origem inicial é divina e portanto deve ser respeitada. Também as outras religiões devem ser respeitadas pois, segundo um hadith, desde Adão existiram 124.000 profetas mensageiros, portanto nunca se pode afirmar com certeza que determinada crença não teve origem divina em seu primórdio. Nunca houve conversão pela força no mundo islâmico, uma vez que isto está interditado no Sagrado Alcorão:
"Não há imposição quanto à religião" (Surata 2:256).
Respeito ao diferente:
No Alcorão é revelado que diversidade humana entre povos faz parte do esquema divino e tem um propósito:
"Ó Humanos, ..., vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros." (Surata 49:13).
2.2 - Fases da civilização islâmica
Balizados por esses princípios, os conquistadores muçulmanos assimilaram as culturas dos povos com os quais entraram em contato, sendo que a influência da civilização islâmica pode ser categorizada em três grandes fases:
A renascença islâmica:
A grosso modo foi o período compreendido entre o início do Islam, no século 7 d.C. e o início do declínio da dinastia Abássida em meados do século 9 d.C. Caracterizou-se, na fase de expansão, entre os séculos 7 d.C. e 8 d.C., pelo contato com diferentes povos e culturas, desde o Oceano Atlântico, no lado ocidental, até as fronteiras da China no oriente. Neste período ocorreram as grandes traduções, para o árabe, do conhecimento de persas, romanos, gregos, sírios, nos mais diversos ramos de conhecimento como matemática, astronomia, astrologia, ética, mecânica, física, filosofia, arquitetura, geometria, e na medicina: oftalmologia, cirurgia, uso de drogas medicinais, ginecologia, psicoterapia e muitos outros. Foram traduzidas obras de Euclides, Aristóteles, Arquimedes, Pitágoras, Teodesius, Ptolomeu, e na medicina, as obras de Galeno, de Hipócrates, e outros. Esta reunião de conhecimento, de fontes culturais tão diversas, sob a tutela de uma única nação, trouxe uma nova dimensão para o saber humano, uma vez que conhecimentos dispersos em diferentes povos foram colocados sob uma única administração, permitindo sua apreciação em conjunto, e sua consolidação.
O período do apogeu:
Período do século 9 d.C. ao século 16 d.C., no qual todas as ciências, incluindo a medicina, atingiram o ápice de seu desenvolvimento. A partir das obras traduzidas, novos conhecimentos foram acrescentados, decorrentes das pesquisas e estudos de sábios como Rhazes, Abulcassis, Avicenna, Averroes, Al-Nafis, e muitos outros, em grandes centros como Córdoba na Andaluzia, Baghdad, Damasco, Cairo.
O declínio:
A partir do século 16 d.C., início da renascença européia, a civilização islâmica entrou em declínio, porém o conhecimento acumulado no mundo islâmico foi traduzido para os idiomas europeus e tornou-se fonte importante para os desenvolvimentos e descobertas que em última análise culminaram nas ciências e medicina modernas. Muitas obras, inclusive dos filósofos gregos, não estavam mais disponíveis nas versões originais, somente sendo possível recuperá-las a partir das traduções para o árabe.
2.3 - Nomes de destaque no desenvolvimento das ciências médicas
A seguir veremos alguns nomes de destaque que permitirão apreciar, mesmo que superficialmente, a extensão da contribuição da civilização islâmica para o desenvolvimento da medicina.
Rhazes:
Nome completo: Muhammad ibn-Zakariyya al-Razi. Nascido em 865 d.C. em Ray, subúrbio de Tehran, faleceu em 925 d.C. Iniciou seus estudos com música, tornando-se exímio tocador de alaúde, dedicando-se posteriormente à filosofia e à medicina, ciência na qual fez suas maiores contribuições. Recebeu também formação em física e química. Seu primeiro cargo de destaque foi o de médico da corte do príncipe Abu Saleh Al-Mansur, soberano de Khorasan. Posteriormente mudou-se para Baghdah, onde tornou-se médico chefe no hospital da cidade, e médico da corte do Califa. Designado para definir o local da construção do hospital, espalhou pedaços de carne pendurados em vários pontos da cidade, e depois examinou seu estado de putrefação, recomendando a construção do hospital no local onde a carne apresentou menor decaimento. Com este procedimento, pode ser considerado o primeiro médico a inferir a putrefação bacteriológica da carne, sugerindo o papel ambiental que o ar desempenha no desenvolvimento das infecções. Há registro de 56 trabalhos na área médica atribuídos à Rhazes, entre eles podem ser citados:
"Al-Hawi", que significa Texto Completo. Trata-se de uma enciclopédia de conhecimento médico, com 22 volumes, baseados em sua experiência e observações pessoais.
"Al-Mansuri", dedicado ao seu patrono o califa Al-Mansur, composto por dez tratados, incluindo todos os aspectos referentes à saúde e doença. Refere-se a três campos da medicina: Saúde pública, medicina preventiva e tratamento de doenças específicas, enunciando sete princípios para a preservação da saúde: 1. Moderação e equilíbrio no movimento e no repouso, 2. Moderação no comer e no beber, 3. Eliminação dos excessos, 4. Aperfeiçoamento e adequação dos locais de habitação, 5. Evitar ocorrências excessivamente nocivas antes que se tornem incontroláveis, 6. Manter a harmonia nas ambições e nas resoluções, 7. Aquisição de resistência através do cultivo de bons hábitos incluindo exercícios.
Rhazes descreveu os diferentes tipos de febre, afirmando que a febre pode ser um sintoma de doença ou uma doença em si mesma. Introduziu o mercúrio como droga terapêutica, pela primeira vez na história, o qual foi posteriormente adotado na Europa. Enfatizou que a vontade de curar-se, do paciente, é fator importante no processo de restabelecimento, sem o qual as mãos do médico estão atadas. Sua obra teve enorme impacto na Medicina Islâmica, e se tornou texto básico nas escolas médicas por muitos anos.
Ali ibnul-Abbas:
Al-Majusi, conhecido como Haly Abbas no ocidente, faleceu em 994 d.C., foi um renomado médico em Baghdah, diretor do hospital Adud-Dawlah. Sua obra, "Livro completo da arte médica" tornou-se texto básico no ensino da medicina, tratando de temas como: anatomia, classificação e causas das doenças, sintomas e diagnósticos, urina, catarro, saliva, pulso como auxiliares no diagnóstico, manifestações externas visíveis das doenças e doenças internas como febre, dor de cabeça, epilepsia, sinais indicativos de morte ou recuperação, higiene, dieta, terapia com drogas simples, terapias para febres, doenças da respiração, digestão, reprodução, cirurgia, ortopedia, tratamento com medicamentos compostos.
Abulcassis:
Abu al-Qasim Khalaf ibn al-Abbas al-Zahrawi, conhecido como Abulcassis no ocidente, nasceu em Córdoba, então capital da Andaluzia, em 930 d.C, falecendo em 1013 d.C. Foi eminente cirurgião, sendo que uma de suas obra Äl-Tastif, em trinta volumes, trata dos princípios gerais da medicina, os elementos e a fisiologia dos humores, tratamento sistemático das doenças, da cabeça aos pés, e um volume dedicado inteiramente a todos os aspectos da cirurgia. Foi o primeiro livro texto de cirurgia com ilustrações de instrumentos utilizados, até então publicado. Seu prestígio foi tal que foi utilizado em escolas de medicina na Europa até o século 17 d.C. Ele enfatizava a importância do conhecimento de anatomia e fisiologia como essenciais antes de levar adiante qualquer cirurgia:
"Antes de praticar cirurgia deve-se adquirir conhecimento de anatomia e das funções dos órgãos, de forma a compreender sua forma, conexões e limites. Deve-se estar familiarizado com nervos, músculos, ossos, artérias e veias. Se não se compreende anatomia e fisiologia pode-se cometer erros que resultarão na morte do paciente. Eu presenciei alguém fazendo uma incisão no pescoço de um paciente, pensando tratar-se de um abcesso, quando tratava-se de um aneurisma, levando o paciente à morte."
Algumas operações são realizadas hoje em dia da mesma maneira que ele descreveu quase 1000 anos atrás, como, por exemplo, varicose, redução de fraturas cranianas, retirada de feto morto com fórceps. Descreveu a ligadura das artérias, utilizou cauterização para estancar sangramento, descreveu e realizou traqueotomia em situação de emergência, escreveu sobre ortodontia, extração de dentes, fixação, reimplantação, dentes artificiais, descreveu 200 instrumentos cirúrgicos dentais.
Em sua época a cirurgia foi uma especialidade respeitável praticada por médicos renomados, enquanto que na Europa, menosprezada, era praticada por barbeiros e açougueiros, tendo sido banida das escolas de medicina (Conselho de Tours em 1163 d.C.)
Avicenna:
Abu-Ali Husayn ibn-Abdallah ibn-Sina, conhecido no mundo ocidental como Avicenna, aclamado por alguns historiadores com o maior médico de todos os tempos, nasceu em Bukhara, na Ásia Central, em 980 d. C, falecendo em 1073 d.C. Um prodígio, aos 10 anos já havia memorizado o Sagrado Alcorão, aos 16 dominava várias ciências como matemática, geometria, lei islâmica, lógica, filosofia e metafísica. Aos 18 já havia aprendido tudo que havia por saber em medicina, tornando-se, logo em seguida, primeiro ministro e médico da corte do governante de Bukhara. Escreveu seu primeiro livro aos 21 anos. Nos 30 anos que se seguiram escreveu mais de 100 livros, 16 deles em medicina. Sua obra "Kitab al-Qanun fi al-Tibb", conhecida como "O Canon da Medicina", composta por cinco volumes foi traduzida para o latim e foi utilizada como livro texto de medicina em escolas da Europa cristã até o século 16 d.C. Em seus cinco volumes trata de: Princípios gerais e teorias da medicina, drogas simples organizadas em ordem alfabética, doenças localizadas da cabeça aos pés, doenças generalizadas do corpo, drogas compostas. Foi também considerado um grande filósofo.
Averroes:
Ibn-Rushud, conhecido com Averroes, nasceu em Granada em 1126 d.C., falecendo em 1198 d.C. Estudou filosofia, medicina e lei, sendo profundamente influenciado pela obra de Aristóteles. Entre suas obras tem-se "Al-Kulliyat fi al-Tibb", um sumário da ciência médica em sua época, e "Al-Taisir", versando sobre medicina prática e descrições clínicas de doenças.
Al-Nafis:
Ala'el-din ibn-al-Nafis, nasceu no vilarejo de Kersh próximo a Damasco, falecendo em 1288 d.C. Aprendeu medicina e filosofia em Damasco e passou a maior parte de sua vida no Cairo. Foi médico, lingüista, filósofo e historiador. Foi o primeiro chefe do hospital Al-Mansuri no Cairo e decano da escola de medicina em 1284 d.C. Em sua obra escreveu 10 livros de medicina. Em "Sumário do Canon", baseado nos escritos de Avicena, revê e corrige alguns conceitos deste e de Galeno. Contrariando a escola de Alexandria (310 a.C - 250 b.C) e Galeno (131 d.C. -210 d.C.) afirmou que:
"...o sangue da câmara direita do coração deve chegar à câmara esquerda, mas não há caminho direto entre elas. O septo do coração não é perfurado e não há poros visíveis com pensam alguns, ou invisíveis como pensou Galeno. O sangue da câmara direita deve fluir através da artéria venosa (artéria pulmonar) para atingir a câmara esquerda do coração".
2.4 - Contribuições em áreas específicas
A seguir são sumariamente descritas algumas contribuições dos muçulmanos em ramos específicos da medicina.
Farmacologia - Química - Al-Quemia:
Ciência que recebeu grande ênfase na civilização islâmica, com o desenvolvimento de técnicas para refinamento de drogas, medicamentos e extratos, através da destilação, cristalização, solução, sublimação, redução, calcinação.
A farmacologia fixou suas bases no século 9 d.C., com Yuhanna ibn Masawayh (777-857 d.C.), que começou o estudo científico e sistemático das aplicações terapêuticas. Posteriormente, seus seguidores desenvolveram métodos de confirmar a efetividade das drogas através da experimentação com pessoas, bem como aprimoraram métodos de prognóstico e diagnóstico.
A proliferação de droguistas levou à regulamentação da profissão, instituindo-se a concessão de licenças para exercício da função, através de aprovação em um exame de proficiência. Farmácia tornou-se uma profissão independente e separada da medicina e da alquimia. Inspetores aplicavam penas severas aos boticários que adulteravam drogas. Médicos eram proibidos de comerciar medicamentos ou conservar estoques em farmácias.
Com as técnicas desenvolvidas foram introduzidas novas drogas como: Cânfora, sena, madeira de sândalo, ruibarbo, almíscar, mirra, cássia, tamarindo, noz-moscada, alume, babosa, cravo-da-índia, coco, noz-vômica, cubeba, acônito, âmbar cinzento, mercúrio e outras.
A influência dos muçulmanos no desenvolvimento da química e farmácia modernas está registrada no grande número de palavras e expressões derivadas do árabe, como: Droga, álcali, álcool, aldeído, alambique, elixir, xarope, e outras. Criaram extratos aromáticos de água de rosa, água de flor de laranjeira, casca de limão e laranja, alcatira, e outros ingredientes.
Bacteriologia:
Já na época do profeta Muhammad (saws), no início do século 7 d.C., hadith prescreviam instruções para evitar o contato com doenças infecciosas, como por exemplo a lepra, ou para evitar entrar ou sair de uma área assolada por uma epidemia ou praga, ajudando desta forma a minimizar a propagação da doença.
Já citamos anteriormente o procedimento de Rhazes ao espalhar carne fresca em Baghdah para, verificando seu decaimento, escolher o local mais apropriado para construção de um hospital. Rhazes foi também o primeiro a utilizar suturas de seda e álcool para hemostasia, bem como o primeiro a utilizar álcool como anti-séptico.
Avicenna sugeriu a natureza contagiosa da tuberculose. Também recomendou a aposição de vinho em feridas, o que tornou-se prática comum na Idade Média.
Anestesia:
Avicenna foi o introdutor da idéia do uso de anestésicos por via oral. Em seu Cânon de Medicina, Avicenna escreveu, relativamente a anestésicos:
"Se for necessário levar uma pessoa à inconsciência, rapidamente, de forma a tornar a dor suportável, no caso de procedimentos dolorosos em um membro, coloque água de joio em vinho, ou administre fumária, ópio, hioscíamo (doses de meio dracma de cada); noz-moscada, agáloco cru (quatro grãos de cada). Adicione isto ao vinho, e tome tanto quanto for necessário para a finalidade. Ou ferva hioscíamo negro em água, com casca de mandrágora, até tronar-se vermelha. Adicione isto ao vinho."
Os árabes foram os introdutores da "Esponja Soporífica", largamente utilizada como anestesia na Idade Média. A esponja era encharcada com aromáticos e narcóticos para ser sorvida e depois colocada sob as narinas do paciente, como anestésico antes de uma cirurgia.
O desenvolvimento e utilização dos anestésicos foi uma das razões que levou ao aperfeiçoamento da cirurgia como especialidade médica no mundo islâmico, enquanto que na Europa foi banida das escolas de medicina por ser rudimentar.
Cirurgia:
A cirurgia no Islam foi praticada em três modalidades: Vascular, geral e ortopédica. Abriam a cavidade abdominal e drenavam a cavidade peritoneal da mesma forma que o procedimento moderno. A primeira colostomia é atribuída a um cirurgião anônimo de Shiraz. Abcessos no fígado eram tratados com punctura e exploração.
Abulcassis (930-1013 d.C.) é considerado o mais renomado cirurgião da Medicina Islâmica. Foi o primeiro cirurgião na história a utilizar algodão nos curativos cirúrgicos para controle de hemorragia, como enchimento nas fendas das fraturas, como enchimento vaginal nas fraturas de púbis e em procedimentos dentários. Introduziu o método de remoção de pedras dos rins por incisões na bexiga urinária. Foi o primeiro a ensinar a posição litotômica em operações vaginais. Descreveu a extirpação de veias varicosas, de forma tão detalhada e precisa como na moderna cirurgia. Em cirurgia ortopédica introduziu o que hoje é denominado método Kocher de redução de deslocamento de ombro.
Avicenna descreveu o tratamento cirúrgico de câncer de forma bastante precisa mesmo para os padrões atuais. Afirmou que a extirpação deveria ser larga e vigorosa, todas as veias ao redor do tumor deveriam ser amputadas, se isto não fosse suficiente a área afetada deveria ser cauterizada.
Psicoterapia
Enquanto na Europa a doença mental era tratada como possessão demoníaca, na civilização islâmica foram feitos importantes avanços, antecipando, em muitos séculos, o desenvolvimento da saúde mental iniciada a partir do século 19 no mundo ocidental.
Najab ud din Muhammad, contemporâneo de Rhazes, através da observação cuidadosa de seus pacientes, elaborou a mais completa classificação de doenças mentais de sua época. Suas descrições incluíam: depressão, tipos de neurose obsessiva, priaprismo combinado com impotência sexual, psicose persecutória, mania, e outras.
Avicenna reconheceu o que denominou "psicologia fisiológica" no tratamento de doenças envolvendo emoções. Desenvolveu um sistema de associar mudanças na freqüência cardíaca, tomada no pulso, com sentimentos interiores, antecipando a associação de palavras trazida por Jung muitos séculos depois. Constam referências de que tratou um paciente com doença grave, sentindo seu pulso e recitando em voz alta o nome de províncias, cidades, bairros, ruas e pessoas. Verificando como mudava seu pulso, à medida que as palavras eram mencionadas, Avicenna deduziu que o paciente estava apaixonado por uma jovem, cuja residência Avicenna foi capaz de localizar, através da verificação do pulso.
No século 8 d.C., em Fez no Marrocos, foi construído um asilo para pessoas mentalmente doentes, da mesma forma em Baghdah em 705 d. C., no Cairo em 800 d.C., em Damasco e Alepo em 1.270 d.C. O tratamento incluía banhos, drogas, carinho e cuidados, musico-terapia e terapia ocupacional. Conjuntos musicais e coros especiais eram organizados diariamente para entreter os pacientes.
Oftalmologia
Uma das contribuições mais importantes foi de Ibn al Haytham (965-1039 d.C), conhecido como Alhazen. Em sua obra "Enciclopédia Ótica", demonstrou que a luz incide na retina da mesma forma que incide em uma superfície, em uma sala escura, através de uma abertura, provando assim que a visão acontece quando raios de luz passam dos objetos para os olhos e não dos olhos para os objetos, como pensavam os gregos. Apresentou experiências relativas ao ângulo de incidência e de reflexão, afirmou que a imagem formada na retina é levada ao cérebro através do nervo óptico.
Rhazes foi o primeiro a reconhecer a reação da pupila à intensidade luminosa, Avicenna foi o primeiro a descrever o número exato de músculos extrínsecos do globo ocular.
Na área cirúrgica oftalmológica, destaca-se como contribuição da civilização islâmica, a extração da catarata. Ammar ibn Ali, de Mossul, desenvolveu um método em que uma agulha metálica era introduzida na esclerótica, e as lentes extraídas por sucção. Este método foi redescoberto na Europa no século 19.
2.5 - Desenvolvimentos de escolas médicas e hospitais
Uma das mais importantes contribuições da civilização islâmica foi o desenvolvimento dos hospitais.
Na antigüidade, não havia hospitais, como conhecemos hoje. Na Europa da Idade Média, os doentes eram agrupados em locais anexos a templos, administrados por sacerdotes. O tratamento baseava-se principalmente em orações e invocações, ou práticas supersticiosas.
No Império Persa, por outro lado, no século VII, a cidade de Jundishapur, abrigava uma universidade com escola médica e hospital, desde o século VI, fundada pelo imperador Khusraw Anushirwan (531-579 d.C.). Quando conquistada, no califado de Hadrat Ummar em 638 d.C., a escola médica e o hospital já estavam bem estabelecidos. Os tratamentos baseavam-se principalmente na análise científica e na tradição de Hipócrates. Com o advento do Islam, a universidade continuou a desenvolver-se. Harith ibn Kalada, contemporâneo do Profeta ( saws), o primeiro médico muçulmano, de que se tem registro, recebeu sua formação na escola e no hospital de Jundishapur. A escola prosperou durante o califado ommíada, sendo que seu hospital e centro médico se tornaram o modelo para a construção das escolas médicas islâmicas e hospitais islâmicos. No califado abássida, o califa Al-Mansur, fundador da cidade de Baghdah, levou Jirjis Bukhtyishu, médico cristão da escola de Jundishapur, para Baghdah, elegendo-o médico da corte, iniciando o processo de migração, para Baghdah, de eminentes médicos e cientistas. Por volta da segunda metade do século VIII, Baghdah já começava a se destacar como centro político do califado. Muitos centros médicos e hospitais foram estabelecidos e desenvolvia-se intensa atividade intelectual e científica. A extensão do império islâmico, abrigando diferentes culturas sob a mesma administração, estimulou o avanço do conhecimento da época.
No mundo islâmico a educação médica era séria e sistemática. O candidato ao estudo de medicina iniciava-se através de um treinamento em ciências básicas. Seu aprendizado incluía anatomia, alquimia, ervas medicinais, conhecimentos farmacêuticos. Muitos hospitais mantinham jardins como fonte de medicamentos e drogas para os pacientes e para treinamento de seus estudantes. Em Baghdah, o estudo de anatomia, além das aulas teóricas e ilustrações, incluía a dissecação de macacos e estudo de esqueletos. O treinamento básico era completado com a admissão do candidato como aprendiz em um hospital, onde integrava-se a um grupo de estudantes sob a orientação de um jovem médico. Neste período a ênfase dos estudos era em farmacologia, toxicologia e uso de antídotos.
Após o treinamento básico iniciava-se o treinamento clínico sob a orientação de médicos renomados e instrutores experientes. O estudo incluía terapêutica, patologia, observação clínica, exames físicos, treinamento em diagnóstico. Na realização de exames físicos os estudantes eram orientados a examinar e registrar as ações dos pacientes, seus excrementos, a natureza e a localização de suas dores, os inchaços de seu corpo, a cor e textura de sua pele, se quente ou fria, se seca ou úmida, se flácida, se havia amarelidão no branco dos olhos, se podia inclinar as costas.
Após este período de instruções nos hospitais os estudantes eram designados a atendimento fora do hospital, sob supervisão de seus instrutores. Muita ênfase era atribuída à clareza e brevidade na descrição de uma doença, e na correta discriminação de cada elemento.
Após completarem seus cursos, muitos estudantes complementavam sua formação sob a orientação de especialistas, aprofundavam o treinamento clínico, ou a prática de procedimentos cirúrgicos, ortopedia, e outros.
Concluído o treinamento, o médico recém-formado não estava apto a iniciar sua prática até ser aprovado em um exame de licenciatura.
Esses exames foram estabelecidos a partir de 931 DC, em Baghdad, pelo Khalifa Al-Muqtadir. Neste primeiro ano, mais de 860 médicos foram examinados, somente em Baghdad, e a partir daí o exame passou a ser exigido e administrado em muitos outros lugares. Foram criados comitês para licenciatura, sob a administração de um Inspetor Geral, o mesmo, já mencionado, que também verificava pesos e medidas praticados por comerciantes e farmacêuticos e exercia controle de qualidade de drogas e produtos vendidos em farmácias e boticários. No exame de licenciatura, o médico chefe aplicava um exame oral e prático, se o jovem médico fosse aprovado, o Inspetor Geral lhe administrava o juramento de Hipócrates e lhe entregava sua licença.
A título de ilustração, segue o conselho dado por Ali ibnul-Abbas (Haly Abbas-994 d.C.) para os estudantes de medicina:
"Entre as coisas que cabem ao estudante desta arte (medicina) está que deve constantemente atender em hospitais e casas de doentes, prestar incessante atenção às condições e circunstâncias dos internos, em companhia dos mais perspicazes professores de medicina e inquirir freqüentemente sobre o estado dos pacientes e os sintomas que aparecem neles, tendo em mente o que leu sobre as modificações e o que indicam de bom ou mal.
2.5.1 - Características dos hospitais na civilização islâmica
Num período em que a Europa estava imersa em barbárie, tendo sido caracterizado como a "Era Negra", no mundo islâmico o conhecimento e a civilização floresciam, o que se refletiu no aperfeiçoamento dos hospitais, que adquiriram algumas características específicas decorrentes dos valores muçulmanos, como:
Ausência de distinção em função da raça, religião ou formação:
Não havia qualquer restrição ao atendimento de pessoas em função de sua raça, religião ou formação. Da mesma forma, a administração do hospital era exercida pelo governo e não por organizações religiosas, sendo os cargos de direção exercidos por médicos, independentemente de sua fé. Os profissionais médicos exerciam suas atribuições sem qualquer restrição à sua religião, raça, ou origem, sendo a preocupação fundamental o bem estar dos pacientes.
Alas separadas:
Alas separadas para pacientes do sexo masculino e feminino. Da mesma forma pacientes com doenças diferentes eram alocados em alas diferentes, especialmente no caso de doenças infecciosas. (Hadith da quarentena).
Enfermeiros separados por sexo:
Enfermeiros homens para tratamentos de homens e enfermeiras mulheres para tratamento de mulheres.
Facilidades de banho e suprimentos de água:
Necessidade decorrente da obrigação muçulmana de orar cinco vezes ao dia, mesmo em caso de doença, caso em que a oração pode ser feita na cama. A oração deve ser precedida pela ablução, lavando-se as mãos, o rosto, a cabeça e os pés, e em algumas circunstâncias de banho completo. Consequentemente os hospitais deveriam dispor de abundante suprimento de água, para pacientes e funcionários, inclusive com facilidades para banho.
Qualificação para exercício da medicina:
Apenas médicos licenciados tinham permissão para pratica da medicina.
Centros de treinamento
Os hospitais também eram centros educacionais, para formação e treinamento de novos médicos, intercâmbio de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento da medicina. Continham extensas bibliotecas, auditórios para congressos e conferências, hospedagem para estudantes e funcionários.
Registro dos pacientes
Os hospitais islâmicos introduziram o procedimento de registrar os dados dos pacientes, seus sintomas e os cuidados médicos ministrados.
Desenvolvimento de medicamentos
Novas drogas e medicamentos foram desenvolvidos, aproveitando o afluxo de novos componentes e substâncias decorrente do contato dos muçulmanos com outros povos e seu comércio com a China, Filipinas, África negra, Índia e Europa .
2.5.2 - Hospitais como serviço público gratuito
Os hospitais e centros médicos eram construídos com recursos providos pelos governantes, vizires, califas, sultões, governadores, e mantidos através de um sistema conhecido como Waqf, o equivalente a fundações, a partir de doações dos fiéis. Um dos pilares do Islam é o zakat, contribuição anual de 2,5% do patrimônio líquido de cada fiel, para fins de caridade. Estes recursos eram utilizados pelos governos para manutenção de organizações caritativas, como os hospitais. Todo o tratamento era gratuito, e todos os cidadãos, independentemente de raça ou credo, poderiam fazer uso dos serviços. Muitos poucos hospitais, na civilização islâmica, eram privados. A título de ilustração segue a transcrição de texto de um documento de constituição da Waqf.
"O hospital deve manter todos os pacientes, homens e mulheres até que se restabeleçam completamente. Todos os custos são por conta do hospital quer a pessoa venha das proximidades ou de terras distantes, sejam residentes ou estrangeiros, fortes ou fracos, baixos ou altos, ricos ou pobres, empregados ou desempregados, cegos ou com visão, doentes física ou mentalmente, instruídos ou iletrados. Não há qualquer condição a ser considerada ou qualquer pagamento; nenhuma objeção é feita ou mesmo indiretamente insinuada pelo não pagamento. Todo o serviço é através da magnificência de Allah, O mais generoso".
2.5.3 - Um exemplo de hospital islâmico
Por todo o mundo islâmico foram construídos hospitais: na Síria, no Iraque, na Pérsia, no Norte da África, na Andaluzia, em Damasco, em Baghdah, no Cairo, em Qayrawan, em Marakesh, em Granada.
As instalações eram suntuosas e confortáveis, incluindo o mobiliário. Um dos maiores hospitais, foi o Hospital Mansuri, no Cairo, concluído em 1248, sob o governo de Mansur Qalun. Sua capacidade total era para 8.000 pessoas. Atendia diariamente 4.000 pacientes. Homens e mulheres eram admitidos em alas separadas. Não havia qualquer restrição quanto ao credo, raça ou nacionalidade, ninguém era rejeitado. Não havia limite para o tempo de permanência. O paciente recebia alimentação e uma quantia em dinheiro para compensar sua ausência do trabalho durante o tratamento. O tratamento de pacientes com problemas mentais incluía sessões de músico-terapia. Havia alas separadas para cirurgias, febres, doenças dos olhos. Possuí sua própria livraria, salas de leitura, uma mesquita para muçulmanos e uma capela para cristãos. Este hospital serviu por 700 anos, a partir de sua construção.
3- O Islam e algumas questões atuais relativas à saúde e a vida humana:
Em um hadith (tradição profética), transmitido por Ibn Majah, por Tirmizi e por Abu-Dawud, quando um beduíno perguntou ao profeta (saws) se deveria buscar tratamento para sua doença, o profeta (saws) respondeu:
"Sim, servos de Allah busquem tratamento; Allah não enviou uma doença sem estabelecer uma cura para ela."
Em decorrência deste hadith, todo tratamento disponível deve ser utilizado. Se não há tratamento conhecido que possibilite a cura, deve-se pesquisar e descobri-lo. Neste sentido, estimula-se a que as ciências médicas não se limitem a nenhum ramo específico de cura. Há incentivo para investigação e aplicação de tratamento em todas as áreas: auxílio espiritual, psicológico, físico, ajuste nutricional, farmacêutico com ingredientes naturais ou sintéticos, cirurgia, terapia por radiação, individualmente ou combinação de vários tratamentos.
Todo tratamento, no entanto, deve estar submetido às orientações estabelecidas na Shariat (Lei Revelada). Como afirmado no item 1, as fontes desta lei são o Sagrado Alcorão, os hadith (tradições proféticas), a jurisprudência (fiqh) islâmica e finalmente, o consenso da comunidade.
O desenvolvimento de novas tecnologias, na área médica, nem sempre permite uma interpretação clara e direta, a partir desta fontes, dos limites da aplicabilidade de um novo tratamento, o que pode dar origem a alguma controvérsia, que perdura até que se estabeleça um entendimento consensual.
Nos itens a seguir, serão apresentados alguns tópicos que se destacam no mundo atual e o posicionamento mais aceito no mundo islâmico.
3.1 - Transplante e doação de órgãos.
O transplante pode ser efetuado com algumas restrições:
Não podem ser utilizados órgãos de cadáveres, pois isto é considerado profanação do corpo. Há alguma controvérsia quanto à definição do momento da morte, sendo praticamente consenso que a morte cerebral é o indicador mais preciso. Também há alguma divergência sobre se a restrição se aplicaria ao caso de órgãos ainda vivos em pacientes clinicamente mortos. Há quem advogue que, neste caso, se o órgão ainda está vivo, poderia ser utilizado, desde que esteja individualmente vivo no momento da retirada.
A doação de órgãos entre vivos é considerada como caridade, porém a venda de órgãos é interditada. A autorização prévia do doador é pré-requisito indispensável, mesmo no caso de pacientes que entram em estado de morte clínica. Não há restrição quanto à utilização de órgãos de animais para salvar uma vida, mesmo que de suínos, uma vez que neste caso a necessidade revoga a proibição. O uso de tecido de feto é legítimo, desde que, para sua utilização, não tenha sido provocado aborto.
3.2 - Transfusão de sangue.
É permitida.
3.3 - Autópsia
De maneira geral é proibida, por ser considerada profanação do corpo. Em caso de exigência legal é permitida.
3.4 - Suicídio assistido e Eutanásia
O suicídio é interditado, qualquer que seja a circunstância:
"Ó fiéis, ...não cometais suicídio, porque Deus é misericordioso para convosco." (Surata 4:29)
A eutanásia é considerada como assassinato:
"... quem matar uma pessoa, sem que tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade; quem a salvar, será reputado como se tivesse salvo toda a humanidade." (Surata 5-32)
3.5 - Atendimento médico a pessoas de sexo oposto, atendimento ginecológico.
O atendimento médico a pessoas de sexo oposto é assunto sujeito a certa polêmica e opiniões contraditórias, principalmente quando envolve o exame de parte íntimas.
Desde os primórdios do Islam, no tempo do profeta Muhammad (saws), já houve registro de tratamento dado a pacientes de sexo oposto. Na batalha de Uhud, há referência expressa a uma senhora de nome Nussaaiba Bint Kaab, que quando a situação ficou crítica, abandonou seu equipamento médico, e pegando espada e escudo, deixou suas companheiras que davam atendimento a feridos, para lutar na defesa do Profeta (saws ). Na coleção de hadith de Bukhari há referência a uma senhora, Rubayyie bint Mu'awwidh ibn Afra, que provia tratamento aos feridos, juntamente com outras mulheres.
Na jurisprudência (fiqh) islâmica são encontradas várias referências à permissão de um médico homem, em caso de necessidade, examinar qualquer parte do corpo de uma mulher. Como exemplo de juristas que definiram esta posição tem-se: Ibn Quadam, século VIII, autoridade da escola Hanbali de jurisprudência (fiqh), em seu livro "Al- Mughni"; Ibn Abdeen da escola Hanafi, e outros como; Ibn Muflih no livro Al-Adab al-Shar'iah; Ibn Hamdan; Al-Qadi, e outros.
A seguir transcrevemos um posicionamento quanto a este tema, proferido por Ahmad ibn Naqib al-Misri (d. 769 d.C.), com os comentários do Sheikh Nuh 'Ali Salman:
"É permitido olhar e tocar para aplicação de sangria e tratamento médico (comentário: Quando há necessidade real. Uma mulher muçulmana quando necessitar de atenção médica deve ser tratada por uma médica muçulmana, se não houver nenhuma, por uma médica não muçulmana. Se não houver nenhuma, então por um médico muçulmano, se não houver nenhum, então por um médico não muçulmano. Se o médico for do sexo oposto, seu esposo ou parente com o qual não seria lícito o casamento deve estar presente. É obrigatório seguir esta ordem na seleção do médico. As mesmas regras se aplicam ao muçulmano, homem, em relação a ter um médico do mesmo sexo e mesma religião: o mesmo sexo tem precedência sobre a mesma religião.)"
Na conceituação do significado preciso de "necessidade real", além da imperiosa necessidade de tratamento, há quem inclua o tempo necessário para encontrar o médico adequado, face à urgência requerida, a qualificação do médico face ao tratamento necessário, e, principalmente nos casos de risco de vida, a reputação do médico e sua experiência e proficiência demonstrada.
3.6 - Inseminação artificial e outras técnicas de reprodução assistida.
O casamento, no Islam, é considerado um contrato entre marido e mulher, e entre estes e Allah. Assim qualquer técnica de reprodução deve envolver somente os dois cônjuges, e o requerido respeito à Shariat (Lei Divina), que estabelece por exemplo, a importância da linhagem:
"Ninguém pode ser suas mães exceto aquelas que os geraram." (Surata 58:2)
"Ele foi Quem criou os humanos da água, aproximando-os, através da linhagem e do casamento, em verdade, o teu Senhor é Onipotente." (Surata 25:54)
Assim as técnicas de reprodução artificial são permitidas, se forem aplicadas em um casamento válido. Por exemplo, é lícita a inseminação artificial utilizando o esperma do marido, que após fertilizar o óvulo da esposa (no útero ou em tudo de ensaio) é implantado no útero da esposa. A utilização de mãe substituta não é permitida por não ser possível definir quem será a mãe (Surata 58:2), e também pela questão da linhagem.
3.7 - Métodos anticoncepcionais
São permitidos os métodos que não sejam danosos, não provoquem aborto e que não provoquem a esterilidade. Sua utilização deve ser precedida da concordância de marido e mulher.
Embora permitidos não são estimulados por implicarem em interferência com o processo natural de reprodução. São justificáveis quando há motivos racionais e necessidades reais.
A esterilização permanente não é permitida, só sendo aceitável nos casos de indicação médica justificável.
3.8 - Aborto
Como regra geral, o aborto não é permitido.
Há consenso, na jurisprudência (fiqh) islâmica, de que, a partir do momento em que começam as manifestações dos sinais de vida pelo feto, o aborto é proibido.
Com relação ao período que antecede as manifestações dos primeiros sinais de vida, não há consenso. Alguns juristas advogam que, não havendo vida, não há crime. Outros, pelo contrário, sustentam que eliminar a possibilidade de uma nova vida é crime, e portanto o aborto seria proibido já a partir do momento em que se constata que houve concepção.
Também não há consenso quanto ao que seriam as primeiras manifestações dos sinais de vida. A este respeito muitas vezes é citado um hadith do Profeta Muhammad (saws), relatado por Abu 'Abd-ur-Rahman, Abdul-lah Ibn Mas'ud (40 hadith Nawawiyah), transcrito a seguir:
"certamente que a criação de cada um de vós ocorre no ventre de vossa mãe: durante quarenta dias na forma de um broto, depois como um coágulo por um período igual, depois como um pedaço de carne por período igual, então é enviado um anjo que lhe sopra o espírito e lhe estabelece quatro assuntos: a duração de sua vida, seu sustento, suas obras e se será feliz ou desgraçado,..."
No passado, muitos juristas islâmicos não consideravam crime o aborto antes dos primeiros 120 dias da concepção, e sim como uma ação que não era nem lícita nem ilícita, mas que deveria ser evitada. Após os 120 dias, passaria a ser considerado assassinato, pois a partir deste momento o feto já seria um ser humano completo, física e espiritualmente. Porém este posicionamento nunca foi consensual, renomados juristas sustentavam que não há neste, e em nenhum outro hadith, qualquer orientação que implique que o feto antes dos 120 dias seja descartável.
Com o avanço tecnológico, mais se conhece a vida intra-uterina, o que tem levado à possibilidade de detecção dos primeiros sinais de vida a momentos cada vez mais próximos da concepção.
O aborto somente é aceitável, em qualquer caso, se a continuidade da gravidez implicar na morte da mãe.
3.9 - Circuncisão masculina
A circuncisão é recomendada para crianças do sexo masculino. Se não feita na infância é recomendado que seja feita, mesmo após a adolescência.
Recentes pesquisas têm demonstrado o efeito higiênico propiciado pela circuncisão masculina.
A Associação Médica Islâmica da África do Sul relata que a tribo africana de Xhosa, que pratica a circuncisão, tem uma menor taxa de disseminação de AIDS que os Zulus, que não praticam a circuncisão. Ambas as tribos não são muçulmanas, portanto o fator religioso não interferiu na constatação, e vivem em condições ambientais similares. Outro estudo (Daniel, 1986) indica que o revestimento interno de um pênis ereto não circuncidado cobre no máximo 50% da superfície da glande, o que facilita a ruptura da pele macia, aumentando o risco de infeção..
3.10 - Engenharia genética
Permitida para curar uma doença, por exemplo, através da eliminação de um gene. A clonagem, em princípio, não é aceita, principalmente em função da questão da linhagem.
3.11 - Uso de medicamentos contendo álcool ou produtos à base de suínos.
Com relação ao uso do álcool como medicamento, em um hadith transmitido por Muslim, Abu-Dawud e Tirmidhi relata-se que o Profeta Muhammad (saws), inquirido por um homem que ingeria vinho como medicamento, respondeu:
"Esse não é um medicamento e sim uma doença"
Em outro hadith, transmitido por Abu-Dawud:
"Allah fez surgir a doença e mostrou a cura, e para cada doença existe uma cura. Portanto, tome remédios mas não use nada que seja ilícito"
Desta forma, a utilização de medicamento contendo álcool só é lícita para salvar uma vida, e desde que não haja alternativa. O mesmo se aplica a utilização de suínos. Esta permissão é decorrente do princípio de que a necessidade permite exceções, princípio de jurisprudência (fiqh) derivado das diretrizes do Sagrado Alcorão:
"...Porém, quem, sem intenção nem abuso, for compelido a isso, não será recriminado, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo." (Surata 2:173)
3.12 - Homossexualidade
Nos anos recentes as pesquisas médicas têm estudado a questão da homossexualidade, buscando identificar suas causas, se genéticas ou adquiridas. Já foram observadas diferenças em regiões do cérebro de homossexuais e heterossexuais. Não é conclusivo, se estas diferenças são causa ou conseqüência da prática homossexual. No entanto, mesmo que a preferência tenha origem genética, isso em nada altera o ponto de vista islâmico, uma vez que a conduta é abominada. No Islam a homossexualidade (masculina ou feminina) é considerada perversão e não deve ser praticada, em nenhuma circunstância.
"Dentre as criaturas, achais de vos acercardes lascivamente dos varões, deixando de lado o que vosso Senhor criou para vós, para serem vossa esposas? Em verdade, sois um povo depravado!" (Surata 26:165 a 166)
3.13 - Tratamento a aidéticos.
A perspectiva islâmica é a da ênfase na prevenção, através do estímulo ao modo de vida correto. Após estabelecida a doença seu tratamento deve seguir o curso normal, sem qualquer discriminação ao paciente.
4. - Prevenção da AIDS
O impacto da contaminação por HIV é significativamente menor nos países islâmicos relativamente aos países não islâmicos. A seguir tem-se alguns dados comparativos, publicados pela OMS - Organização Mundial de Saúde em conjunto com a UNAIDS - Programa da Nações Unidas em HIV e AIDS. Analisa-se também a abordagem islâmica relativa à prevenção da AIDS transmitida via sexual, em confronto com o enfoque ocidental.
4.1- Impacto da AIDS em países islâmicos versus países não islâmicos.
Praticamente todos os países do Oriente Médio estão entre os mais representativos da aplicação dos princípios islâmicos ao modo de vida, dada a ênfase e aderência da população à Shariat (Lei Islâmica), mesmo nos países que não a adotam com Lei Civil. Nesta região, a tradição islâmica é um traço muito forte e presente em todas as relações humanas.
4.2 - Abordagem islâmica para prevenção da AIDS
O mundo ocidental passou, por muitos séculos, submetido ao conceito de que a sexualidade tem a função exclusiva de procriação para perpetuação da espécie, sendo condenada, e reprimida, a pratica sexual como fonte de prazer. Na segunda metade deste século, estudos científicos da sexualidade e seus aspectos psicológicos e fisiológicos e, também, os movimentos de libertação da mulher, levaram a construção de um novo paradigma, caracterizando o que foi denominado "Revolução sexual". O prazer passa a não ser mais condenável, pelo contrário, passa a ser estimulado como necessário a uma vida saudável e equilibrada. A forma e métodos para a prática de relação sexual consensual entre adultos passa a ser considerada assunto estritamente pessoal, dizendo respeito apenas ao indivíduo e suas preferências, sem qualquer implicação social mais ampla.
Refletindo este contexto, o modelo ocidental para prevenção da AIDS, quanto ao aspecto sexual, está fundamentado na preservação dos resultados dessa "revolução". O ambiente cultural em que se situa é o da mais ampla liberalidade, com incentivo à tolerância, mesmo aos comportamentos sexuais mais exóticos, poucos anos atrás, classificados como pervertidos. Esta postura reflete-se na produção intelectual, artística, educacional, bem como na publicidade, na propaganda e nos meios de comunicação em geral. As estratégias preventivas, obviamente não estão dissociadas destes condicionantes e tendem a não enfatizar o questionamento da conduta sexual e das preferências, e sim oferecer meios de proteção alternativos.
Será este enfoque adequado para o contexto islâmico? Por exemplo, campanhas, veiculadas em meios de comunicação de massa, estimulando o uso de preservativo nas relações sexuais, seriam aceitáveis e eficientes numa comunidade que vive o modo islâmico de vida?
No contexto islâmico, ao contrário do mundo ocidental, a prática sexual como fonte de prazer sempre foi incentivada. No Islam a sexualidade não é considerada apenas em sua função reprodutiva. Além desta função sagrada, o desfrutar do prazer sexual é parcela importante da vida conjugal. Um hadith (40 hadith Nawawiyah), afirma:
"... em cada ato sexual entre vós há caridade"
Outro exemplo: Uma mulher muçulmana pode solicitar o divórcio, perante a corte de justiça, se seu marido não satisfizer suas obrigações sexuais.
Assim, no mundo islâmico, nunca houve repressão à expressão da sexualidade conjugal, sendo considerada como função natural e importante da vida humana. Por outro lado, a manifestação da sexualidade, embora assunto privado, que diz respeito apenas à intimidade do casal, tem, no mundo islâmico, condicionantes sociais. Ë submetida a limites, definidos pela Shariah (Lei Divina), revelada através do Sagrado Alcorão, e explicada nas tradições proféticas, que levam à proteção da família, como ambiente saudável para educação dos filhos e formação de um tecido social estável e equilibrado. Adicionalmente, há restrições e orientações específicas que dizem respeito à higiene na prática sexual.
No Islam, a sexualidade só é aceita sob o instituto do casamento, sendo a sua prática, fora desta limitação, sujeita a severas punições, tanto para o homem como para a mulher. Não é permitida a relação sexual anal e o sexo vaginal durante a menstruação. A pratica homossexual é proibida e punida. Há também a prática de tradições de caráter higiênico como: A circuncisão para os homens (vide item 3.9 ) e a ablução total (banho) após a relação sexual.
Neste contexto a estratégia de prevenção da AIDS adotada no mundo ocidental encontra severas restrições. Por exemplo, o incentivo ao uso de preservativos. Na sociedade islâmica o preservativo só têm função como método anticoncepcional entre cônjuges (só podendo ser utilizado com a concordância de ambos). Estimular seu uso, como proteção contra o contágio via relação sexual, seria o mesmo que admitir a possibilidade do sexo extra conjugal ao incentivar os meios de sua pratica segura, o que seria inadmissível na sociedade islâmica.
Deve ser observado que na cultura islâmica não há contemporização com os objetos e ações considerados nocivos. O álcool, por exemplo. Considerado deletério, e proibido, segundo a Shariat, com base em ayats do Sagrado Alcorão, tem uso interditado, quer seja como bebida, quer seja em pequenas quantidades em produtos culinários, quer seja em medicamentos (seu uso médico só é permitido em casos de extrema necessidade, em que não há outra alternativa). O princípio é que, quando algo é nocivo, tudo o que o induz, estimula ou promova também é nocivo.
As transgressões são punidas, pois em questões como estas prevalece o bem maior, isto é, o respeito à Lei Revelada, que tem como uma das conseqüências preservar a saúde da coletividade e a estabilidade das relações sociais. A punição, visa educar o indivíduo e exemplificar para o coletivo. Quando um indivíduo pratica um ato interditado, as conseqüências de sua ação escapam ao domínio individual, pois influenciam a comunidade através de seu exemplo.
Como ilustração desse aspecto, das implicações coletivas da prática individual, certa vez o Profeta (saws) foi procurado por um jovem que, alegando não conseguir controlar-se, pedia permissão para praticar relações sexuais fora do casamento. O Profeta (saws) lidou com ele, através da razão, perguntando-lhe se ele aprovaria alguém praticando sexo ilegal com sua mãe, com sua irmã, filha ou esposa. A cada vez que ele respondia não, o Profeta (saws) afirmava que a mulher com quem ele planejava manter relações sexuais poderia ser a mãe, irmã, filha ou esposa de alguém. O homem compreendeu as implicações de seu desejo e arrependeu-se.
Esta postura islâmica está alicerçada em um modo de pensar milenar, com base na Lei revelada do Sagrado Alcorão e nas tradições proféticas. Faz parte de um sistema complexo e coerente, com ramificações em todas as atividades intelectuais, sociais e culturais.
Em conseqüência, o procedimento ocidental parece estranho e encontra fortes críticas no meio islâmico. Para o muçulmano típico, este modo de pensar e agir é considerado contraditório, pois permite a promoção de condutas nocivas e ao mesmo tempo despende enorme esforço, com elevados custos, para reduzir o efeito deletério destas condutas, em detrimento do bem comum da sociedade como um todo.
Os dados apresentados no item 4.1 parecem apontar para uma ineficiência da estratégia ocidental de prevenção. Países do primeiro mundo, com sistemas educacionais avançados, que dedicam enorme esforço e alto investimento em medidas preventivas, apresentam elevada incidência. Por exemplo, os Estados Unidos (tabela 5), com uma taxa de 609,7 pessoas por 100 mil habitantes. Valores muito acima (4.554 % maior) da taxa de 13,1 pessoas por 100 mil habitantes observada nos países do Oriente Médio com forte aderência ao modo de vida islâmico (tabela 1).
Para finalizar, considere-se, a título de exemplo da tradição islâmica, um hadith em que o Profeta (saws) afirma:
"Se ahishah ou fornicação (sexo fora do casamento) e todos os tipos de relação sexual pecaminosas tornarem-se desenfreados e abertos, praticados sem inibições em qualquer grupo ou nação, Allah irá puni-los como novas epidemias (ta'un) e novas doenças que eram desconhecidas de seus antepassados e gerações anteriores."
Este hadith, transmitido e autenticado por Ibn Majah e outros eruditos, trazido a mais de 1.400 anos, é de impressionante atualidade. Tem implícito o conceito de mutação no uso da palavra al-jadidah, novas doenças. Também afirma que estas doenças atingirão proporções epidêmicas, isto fica claro pelo uso da palavra ta'un, que significa especificamente "praga", mas é utilizada genericamente, em árabe, para indicar qualquer epidemia. Fornicação sem inibição é uma clara referência a um ambiente caracterizado pela sedução praticada de forma pública, estimulando a atividade sexual descontrolada.
5. - Conclusão
A religião islâmica surgiu no ano 610 d.C com o início da revelação do Sagrado Alcorão, em Meca, na atual Arábia Saudita. Trouxe, deste o início, princípios de valorização do conhecimento, de tolerância e respeito aos diversos povos, culturas e religiões. Como conseqüência, a civilização islâmica contribuiu não só para a recuperação do conhecimento dos povos da antigüidade clássica, como também criou os meios e condições para sua ampliação e desenvolvimento. As ciências médicas foram beneficiárias diretas deste contexto, em suas diversas áreas, como Al-Chemia, farmacologia, bacteriologia, anestesia, cirurgia, psicoterapia, oftalmologia, ortopedia, desenvolvimento de hospitais e escolas médicas.
Após o declínio da civilização islâmica, este conhecimento foi transferido para a civilização ocidental, traduzido do árabe para os idiomas europeus, contribuindo para o avanço da ciência, inclusive na medicina.
As orientações para tratamento médico, como todas as atividades na cultura islâmica, tem como fonte principal de diretrizes, as orientações do Sagrado Alcorão, seguido pelas tradições do Profeta Muhammad (saws), a jurisprudência islâmica (fiqh) e o consenso da comunidade. Questões como transfusão de sangue, autópsia, eutanásia, métodos anticoncepcionais, aborto, circuncisão, e muitas outras são consideradas à luz destas fontes. Os contínuos avanços do conhecimento humano, das ciências e, mais especificamente, da medicina têm trazido novas técnicas com implicações éticas, quem devem ser avaliadas sob o mesmo prisma, na verificação de sua aplicabilidade aos valores e modo de vida islâmico. Por exemplo, temas como: os novos métodos de reprodução, transplante, engenharia genética e outros.
Com relação aos métodos de prevenção da AIDS, verifica-se que o enfoque ocidental está em oposição ao valores e modo de pensar islâmico, principalmente em decorrência dos princípios que estruturam cada sociedade. Observa-se ainda que os países com aderência ao modo de vida islâmico apresentam número significativamente menor de pessoas contaminadas por 100.000 habitantes, relativamente aos países da Europa e Américas.
Hajji Sheikh Muhammad Ragip al-Jerrahi
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Syed, Ibrahim B. Islamic Medicine: 1.000 years ahead of its times. Islamic Medicine. Edited by Shahid Athar.
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1. - Origem do Islam
Historicamente, pode-se dizer que a religião islâmica surgiu a partir do ano 610 d.C., com o início da revelação do Sagrado Alcorão. O profeta Muhammad (saws) meditava, solitariamente, em uma gruta nas montanhas de Hira, distante alguns quilômetros da cidade de Meca, na hoje Arábia Saudita, quando, em uma experiência visionária, apareceu o Anjo Gabriel (as), ordenando-lhe ler as primeiras palavras do Livro Sagrado. Trêmulo e febril, o Profeta (saws) não compreendeu a experiência extraordinária pela qual passava e que mudaria o curso da história. Encontrou em sua fiel esposa Khadija apoio e suporte para assimilar os difíceis momentos iniciais da revelação. A partir de então, durante 23 anos, o anjo trouxe gradativamente, da Fonte infinita para a realidade humana, a palavra divina, na forma de um livro revelado.
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| Gravura otomana retratando o momento da revelação pelo anjo Gabriel do Alcorão para o profeta Maomé. |
1.1 - Fontes do Islam
A fonte fundamental da qual derivou toda a civilização islâmica é o Sagrado Alcorão. Registros históricos comprovam, e pesquisadores (não islâmicos) reconhecem, que o Sagrado Alcorão não sofreu alterações e mantém-se até hoje na forma exata como foi revelado, sendo que foi registrado por escrito durante a vida do Profeta (saws) e não após sua morte. Ao lado deste situam-se as tradições proféticas, os hadith, que são as decisões, silêncios e exemplos do Profeta Muhammad (saws) face às situações e circunstâncias com que se deparou na vida cotidiana. Como o Profeta (saws) sempre se reportava à mensagem revelada, sendo considerado em suas ações como o Alcorão vivo, na verdade a fonte primária e essencial é o Livro Sagrado.
Além do Alcorão e dos hadith com o tempo desenvolveram-se as escolas de jurisprudência (fiqh) islâmica. Também são consideradas fontes do Islam. Tornaram-se necessárias pois, embora o Alcorão contenha prescrições específicas para o comportamento certo e errado, em muitas áreas da atividade humana, suas injunções não cobrem todas as situações particulares que surgem na vida prática. Adicionalmente, trata-se de um livro revelado para ser válido e atual até o final dos tempos, sendo assim, é específico apenas nas prescrições que devem se manter imutáveis, em qualquer época, e, nos demais casos, apresenta as diretrizes gerais.
Situações que não podem ser esclarecidas através do Sagrado Alcorão, nem através dos hadith, nem através das escolas de jurisprudência (fiqh), considerados nesta ordem, são definidas através do consenso da comunidade islâmica, buscado pelo estudo e análise dos juristas islâmicos. Este é um ponto importante a ser observado, pois os avanços da ciência em geral e da medicina em particular, têm disponibilizado recursos, como transplante de órgãos, engenharia genética, clonagem e outros, que envolvem questões éticas significativas. O posicionamento diante destas novas tecnologias, na comunidade muçulmana, se dá sempre a partir da Escritura Sagrada, dos hadiths e das escolas de jurisprudência, interpretados através da análise jurídica, quando não há clareza suficiente.
2. - Contribuições do Islam para o desenvolvimento das ciências médicas
Na era pré-islâmica, a Arábia, em sua maior parte desértica, era habitada por tribos nômades de beduínos, com algumas comunidades estabelecidas nos pontos de disponibilidade de água e nas intercessões das rotas comerciais. Esta população era caracteristicamente tribal, inculta, envolvida em freqüentes escaramuças, movidas pela disputas ou pela vingança contra seus inimigos. Possuíam um tipo de medicina elementar, oriunda basicamente da experiência prática, herdada dos ancestrais, sem qualquer tipo de elaboração sistemática.
Com o advento do Islam, o Sagrado Alcorão e as tradições proféticas estabeleceram princípios que valorizam o conhecimento, a busca da cura para as moléstias, diretrizes para o atendimento médico e diretrizes para o paciente buscar sua cura. Os hadith trouxeram também ditos e tradições que foram denominados "Medicina Profética", prescrevendo as virtudes da dieta, remédios naturais, o tratamento simples para dor de cabeça, febre, dor de garganta, conjuntivite e outras. Trouxeram também prescrições para evitar o contato com pessoas infectadas por doenças contagiosas como a lepra, instituindo controles para entrada e saída de áreas sujeitas a epidemia ou praga. Trouxeram também um grande número de tradições agrupadas sob o título "Medicina Espiritual", baseada em preces ou na recitação de versos do Sagrado Alcorão, para prover cura.
A expansão islâmica, e o contato com o saber acumulado em sociedades de cultura mais elaborada, inaugurou uma das eras áureas da humanidade em termos de desenvolvimento nas artes e nas ciências dando origem ao que pode ser considerado, do ponto de vista histórico, à "Medicina Islâmica". Este resultado é conseqüência direta de alguns princípios islâmicos que nortearam o contato dos muçulmanos com outros povos, como veremos a seguir.
2.1 - Princípios que nortearam o desenvolvimento da civilização islâmica
Importância fundamental atribuída à aquisição do conhecimento:
A primeira palavra do Sagrado Alcorão revelada ao profeta Muhammad (saws) foi
"Lê" (Surata 96:1).
Como seres humanos, conscientes, temos obrigação de ler e estudar. Em outra passagem do Alcorão lê-se:
"Poderão, acaso, equiparar-se os sábios com os insipientes?" (Surata 39:9).
Em uma tradição profética (hadith), o profeta (saws) aconselha:
"Busque o conhecimento mesmo que seja necessário ir tão longe quanto a China",
em outro hadith afirma:
"A busca de conhecimento é obrigatória para todo muçulmano", e ainda:
"A tinta dos eruditos tem maior valor que o sangue dos mártires".
Proibição da destruição:
Em caso de guerra é expressamente proibida a destruição desnecessária de plantações, rebanhos, edifícios, propriedades, ou o ataque a mulheres, crianças e velhos indefesos. O respeito a estes princípios permitiu a preservação da cultura dos povos conquistados.
Tolerância com outras religiões:
Os cristãos e os judeus são considerados, no Islam, como os povos do livro, isto é sua religião teve origem em uma mensagem revelada, um livro sagrado, como no caso dos muçulmanos. Estudos (não islâmicos) tendo como base a análise dos estilos literários e os registros históricos, demonstram que o texto original da Torah (Pentateuco do Velho Testamento) dos judeus, os Salmos de Davi, e outros livros do Velho Testamento, foram escritos por diferentes autores, em diferentes épocas. O Evangelho de Jesus Cristo ( as) foi registrado muitos anos após a revelação. Portanto, sofreram distorções, acréscimos e supressões introduzidas por seres humanos, ao longo dos séculos, isto é, não são mais retrato fiel da mensagem original revelada. Apesar disto, sua origem inicial é divina e portanto deve ser respeitada. Também as outras religiões devem ser respeitadas pois, segundo um hadith, desde Adão existiram 124.000 profetas mensageiros, portanto nunca se pode afirmar com certeza que determinada crença não teve origem divina em seu primórdio. Nunca houve conversão pela força no mundo islâmico, uma vez que isto está interditado no Sagrado Alcorão:
"Não há imposição quanto à religião" (Surata 2:256).
Respeito ao diferente:
No Alcorão é revelado que diversidade humana entre povos faz parte do esquema divino e tem um propósito:
"Ó Humanos, ..., vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros." (Surata 49:13).
2.2 - Fases da civilização islâmica
Balizados por esses princípios, os conquistadores muçulmanos assimilaram as culturas dos povos com os quais entraram em contato, sendo que a influência da civilização islâmica pode ser categorizada em três grandes fases:
A renascença islâmica:
A grosso modo foi o período compreendido entre o início do Islam, no século 7 d.C. e o início do declínio da dinastia Abássida em meados do século 9 d.C. Caracterizou-se, na fase de expansão, entre os séculos 7 d.C. e 8 d.C., pelo contato com diferentes povos e culturas, desde o Oceano Atlântico, no lado ocidental, até as fronteiras da China no oriente. Neste período ocorreram as grandes traduções, para o árabe, do conhecimento de persas, romanos, gregos, sírios, nos mais diversos ramos de conhecimento como matemática, astronomia, astrologia, ética, mecânica, física, filosofia, arquitetura, geometria, e na medicina: oftalmologia, cirurgia, uso de drogas medicinais, ginecologia, psicoterapia e muitos outros. Foram traduzidas obras de Euclides, Aristóteles, Arquimedes, Pitágoras, Teodesius, Ptolomeu, e na medicina, as obras de Galeno, de Hipócrates, e outros. Esta reunião de conhecimento, de fontes culturais tão diversas, sob a tutela de uma única nação, trouxe uma nova dimensão para o saber humano, uma vez que conhecimentos dispersos em diferentes povos foram colocados sob uma única administração, permitindo sua apreciação em conjunto, e sua consolidação.
O período do apogeu:
Período do século 9 d.C. ao século 16 d.C., no qual todas as ciências, incluindo a medicina, atingiram o ápice de seu desenvolvimento. A partir das obras traduzidas, novos conhecimentos foram acrescentados, decorrentes das pesquisas e estudos de sábios como Rhazes, Abulcassis, Avicenna, Averroes, Al-Nafis, e muitos outros, em grandes centros como Córdoba na Andaluzia, Baghdad, Damasco, Cairo.
O declínio:
A partir do século 16 d.C., início da renascença européia, a civilização islâmica entrou em declínio, porém o conhecimento acumulado no mundo islâmico foi traduzido para os idiomas europeus e tornou-se fonte importante para os desenvolvimentos e descobertas que em última análise culminaram nas ciências e medicina modernas. Muitas obras, inclusive dos filósofos gregos, não estavam mais disponíveis nas versões originais, somente sendo possível recuperá-las a partir das traduções para o árabe.
2.3 - Nomes de destaque no desenvolvimento das ciências médicas
A seguir veremos alguns nomes de destaque que permitirão apreciar, mesmo que superficialmente, a extensão da contribuição da civilização islâmica para o desenvolvimento da medicina.
Rhazes:
Nome completo: Muhammad ibn-Zakariyya al-Razi. Nascido em 865 d.C. em Ray, subúrbio de Tehran, faleceu em 925 d.C. Iniciou seus estudos com música, tornando-se exímio tocador de alaúde, dedicando-se posteriormente à filosofia e à medicina, ciência na qual fez suas maiores contribuições. Recebeu também formação em física e química. Seu primeiro cargo de destaque foi o de médico da corte do príncipe Abu Saleh Al-Mansur, soberano de Khorasan. Posteriormente mudou-se para Baghdah, onde tornou-se médico chefe no hospital da cidade, e médico da corte do Califa. Designado para definir o local da construção do hospital, espalhou pedaços de carne pendurados em vários pontos da cidade, e depois examinou seu estado de putrefação, recomendando a construção do hospital no local onde a carne apresentou menor decaimento. Com este procedimento, pode ser considerado o primeiro médico a inferir a putrefação bacteriológica da carne, sugerindo o papel ambiental que o ar desempenha no desenvolvimento das infecções. Há registro de 56 trabalhos na área médica atribuídos à Rhazes, entre eles podem ser citados:
"Al-Hawi", que significa Texto Completo. Trata-se de uma enciclopédia de conhecimento médico, com 22 volumes, baseados em sua experiência e observações pessoais.
"Al-Mansuri", dedicado ao seu patrono o califa Al-Mansur, composto por dez tratados, incluindo todos os aspectos referentes à saúde e doença. Refere-se a três campos da medicina: Saúde pública, medicina preventiva e tratamento de doenças específicas, enunciando sete princípios para a preservação da saúde: 1. Moderação e equilíbrio no movimento e no repouso, 2. Moderação no comer e no beber, 3. Eliminação dos excessos, 4. Aperfeiçoamento e adequação dos locais de habitação, 5. Evitar ocorrências excessivamente nocivas antes que se tornem incontroláveis, 6. Manter a harmonia nas ambições e nas resoluções, 7. Aquisição de resistência através do cultivo de bons hábitos incluindo exercícios.
Rhazes descreveu os diferentes tipos de febre, afirmando que a febre pode ser um sintoma de doença ou uma doença em si mesma. Introduziu o mercúrio como droga terapêutica, pela primeira vez na história, o qual foi posteriormente adotado na Europa. Enfatizou que a vontade de curar-se, do paciente, é fator importante no processo de restabelecimento, sem o qual as mãos do médico estão atadas. Sua obra teve enorme impacto na Medicina Islâmica, e se tornou texto básico nas escolas médicas por muitos anos.
Ali ibnul-Abbas:
Al-Majusi, conhecido como Haly Abbas no ocidente, faleceu em 994 d.C., foi um renomado médico em Baghdah, diretor do hospital Adud-Dawlah. Sua obra, "Livro completo da arte médica" tornou-se texto básico no ensino da medicina, tratando de temas como: anatomia, classificação e causas das doenças, sintomas e diagnósticos, urina, catarro, saliva, pulso como auxiliares no diagnóstico, manifestações externas visíveis das doenças e doenças internas como febre, dor de cabeça, epilepsia, sinais indicativos de morte ou recuperação, higiene, dieta, terapia com drogas simples, terapias para febres, doenças da respiração, digestão, reprodução, cirurgia, ortopedia, tratamento com medicamentos compostos.
Abulcassis:
Abu al-Qasim Khalaf ibn al-Abbas al-Zahrawi, conhecido como Abulcassis no ocidente, nasceu em Córdoba, então capital da Andaluzia, em 930 d.C, falecendo em 1013 d.C. Foi eminente cirurgião, sendo que uma de suas obra Äl-Tastif, em trinta volumes, trata dos princípios gerais da medicina, os elementos e a fisiologia dos humores, tratamento sistemático das doenças, da cabeça aos pés, e um volume dedicado inteiramente a todos os aspectos da cirurgia. Foi o primeiro livro texto de cirurgia com ilustrações de instrumentos utilizados, até então publicado. Seu prestígio foi tal que foi utilizado em escolas de medicina na Europa até o século 17 d.C. Ele enfatizava a importância do conhecimento de anatomia e fisiologia como essenciais antes de levar adiante qualquer cirurgia:
"Antes de praticar cirurgia deve-se adquirir conhecimento de anatomia e das funções dos órgãos, de forma a compreender sua forma, conexões e limites. Deve-se estar familiarizado com nervos, músculos, ossos, artérias e veias. Se não se compreende anatomia e fisiologia pode-se cometer erros que resultarão na morte do paciente. Eu presenciei alguém fazendo uma incisão no pescoço de um paciente, pensando tratar-se de um abcesso, quando tratava-se de um aneurisma, levando o paciente à morte."
Algumas operações são realizadas hoje em dia da mesma maneira que ele descreveu quase 1000 anos atrás, como, por exemplo, varicose, redução de fraturas cranianas, retirada de feto morto com fórceps. Descreveu a ligadura das artérias, utilizou cauterização para estancar sangramento, descreveu e realizou traqueotomia em situação de emergência, escreveu sobre ortodontia, extração de dentes, fixação, reimplantação, dentes artificiais, descreveu 200 instrumentos cirúrgicos dentais.
Em sua época a cirurgia foi uma especialidade respeitável praticada por médicos renomados, enquanto que na Europa, menosprezada, era praticada por barbeiros e açougueiros, tendo sido banida das escolas de medicina (Conselho de Tours em 1163 d.C.)
Avicenna:
Abu-Ali Husayn ibn-Abdallah ibn-Sina, conhecido no mundo ocidental como Avicenna, aclamado por alguns historiadores com o maior médico de todos os tempos, nasceu em Bukhara, na Ásia Central, em 980 d. C, falecendo em 1073 d.C. Um prodígio, aos 10 anos já havia memorizado o Sagrado Alcorão, aos 16 dominava várias ciências como matemática, geometria, lei islâmica, lógica, filosofia e metafísica. Aos 18 já havia aprendido tudo que havia por saber em medicina, tornando-se, logo em seguida, primeiro ministro e médico da corte do governante de Bukhara. Escreveu seu primeiro livro aos 21 anos. Nos 30 anos que se seguiram escreveu mais de 100 livros, 16 deles em medicina. Sua obra "Kitab al-Qanun fi al-Tibb", conhecida como "O Canon da Medicina", composta por cinco volumes foi traduzida para o latim e foi utilizada como livro texto de medicina em escolas da Europa cristã até o século 16 d.C. Em seus cinco volumes trata de: Princípios gerais e teorias da medicina, drogas simples organizadas em ordem alfabética, doenças localizadas da cabeça aos pés, doenças generalizadas do corpo, drogas compostas. Foi também considerado um grande filósofo.
Averroes:
Ibn-Rushud, conhecido com Averroes, nasceu em Granada em 1126 d.C., falecendo em 1198 d.C. Estudou filosofia, medicina e lei, sendo profundamente influenciado pela obra de Aristóteles. Entre suas obras tem-se "Al-Kulliyat fi al-Tibb", um sumário da ciência médica em sua época, e "Al-Taisir", versando sobre medicina prática e descrições clínicas de doenças.
Al-Nafis:
Ala'el-din ibn-al-Nafis, nasceu no vilarejo de Kersh próximo a Damasco, falecendo em 1288 d.C. Aprendeu medicina e filosofia em Damasco e passou a maior parte de sua vida no Cairo. Foi médico, lingüista, filósofo e historiador. Foi o primeiro chefe do hospital Al-Mansuri no Cairo e decano da escola de medicina em 1284 d.C. Em sua obra escreveu 10 livros de medicina. Em "Sumário do Canon", baseado nos escritos de Avicena, revê e corrige alguns conceitos deste e de Galeno. Contrariando a escola de Alexandria (310 a.C - 250 b.C) e Galeno (131 d.C. -210 d.C.) afirmou que:
"...o sangue da câmara direita do coração deve chegar à câmara esquerda, mas não há caminho direto entre elas. O septo do coração não é perfurado e não há poros visíveis com pensam alguns, ou invisíveis como pensou Galeno. O sangue da câmara direita deve fluir através da artéria venosa (artéria pulmonar) para atingir a câmara esquerda do coração".
2.4 - Contribuições em áreas específicas
A seguir são sumariamente descritas algumas contribuições dos muçulmanos em ramos específicos da medicina.
Farmacologia - Química - Al-Quemia:
Ciência que recebeu grande ênfase na civilização islâmica, com o desenvolvimento de técnicas para refinamento de drogas, medicamentos e extratos, através da destilação, cristalização, solução, sublimação, redução, calcinação.
A farmacologia fixou suas bases no século 9 d.C., com Yuhanna ibn Masawayh (777-857 d.C.), que começou o estudo científico e sistemático das aplicações terapêuticas. Posteriormente, seus seguidores desenvolveram métodos de confirmar a efetividade das drogas através da experimentação com pessoas, bem como aprimoraram métodos de prognóstico e diagnóstico.
A proliferação de droguistas levou à regulamentação da profissão, instituindo-se a concessão de licenças para exercício da função, através de aprovação em um exame de proficiência. Farmácia tornou-se uma profissão independente e separada da medicina e da alquimia. Inspetores aplicavam penas severas aos boticários que adulteravam drogas. Médicos eram proibidos de comerciar medicamentos ou conservar estoques em farmácias.
Com as técnicas desenvolvidas foram introduzidas novas drogas como: Cânfora, sena, madeira de sândalo, ruibarbo, almíscar, mirra, cássia, tamarindo, noz-moscada, alume, babosa, cravo-da-índia, coco, noz-vômica, cubeba, acônito, âmbar cinzento, mercúrio e outras.
A influência dos muçulmanos no desenvolvimento da química e farmácia modernas está registrada no grande número de palavras e expressões derivadas do árabe, como: Droga, álcali, álcool, aldeído, alambique, elixir, xarope, e outras. Criaram extratos aromáticos de água de rosa, água de flor de laranjeira, casca de limão e laranja, alcatira, e outros ingredientes.
Bacteriologia:
Já na época do profeta Muhammad (saws), no início do século 7 d.C., hadith prescreviam instruções para evitar o contato com doenças infecciosas, como por exemplo a lepra, ou para evitar entrar ou sair de uma área assolada por uma epidemia ou praga, ajudando desta forma a minimizar a propagação da doença.
Já citamos anteriormente o procedimento de Rhazes ao espalhar carne fresca em Baghdah para, verificando seu decaimento, escolher o local mais apropriado para construção de um hospital. Rhazes foi também o primeiro a utilizar suturas de seda e álcool para hemostasia, bem como o primeiro a utilizar álcool como anti-séptico.
Avicenna sugeriu a natureza contagiosa da tuberculose. Também recomendou a aposição de vinho em feridas, o que tornou-se prática comum na Idade Média.
Anestesia:
Avicenna foi o introdutor da idéia do uso de anestésicos por via oral. Em seu Cânon de Medicina, Avicenna escreveu, relativamente a anestésicos:
"Se for necessário levar uma pessoa à inconsciência, rapidamente, de forma a tornar a dor suportável, no caso de procedimentos dolorosos em um membro, coloque água de joio em vinho, ou administre fumária, ópio, hioscíamo (doses de meio dracma de cada); noz-moscada, agáloco cru (quatro grãos de cada). Adicione isto ao vinho, e tome tanto quanto for necessário para a finalidade. Ou ferva hioscíamo negro em água, com casca de mandrágora, até tronar-se vermelha. Adicione isto ao vinho."
Os árabes foram os introdutores da "Esponja Soporífica", largamente utilizada como anestesia na Idade Média. A esponja era encharcada com aromáticos e narcóticos para ser sorvida e depois colocada sob as narinas do paciente, como anestésico antes de uma cirurgia.
O desenvolvimento e utilização dos anestésicos foi uma das razões que levou ao aperfeiçoamento da cirurgia como especialidade médica no mundo islâmico, enquanto que na Europa foi banida das escolas de medicina por ser rudimentar.
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| Instrumentos cirúrgicos |
A cirurgia no Islam foi praticada em três modalidades: Vascular, geral e ortopédica. Abriam a cavidade abdominal e drenavam a cavidade peritoneal da mesma forma que o procedimento moderno. A primeira colostomia é atribuída a um cirurgião anônimo de Shiraz. Abcessos no fígado eram tratados com punctura e exploração.
Abulcassis (930-1013 d.C.) é considerado o mais renomado cirurgião da Medicina Islâmica. Foi o primeiro cirurgião na história a utilizar algodão nos curativos cirúrgicos para controle de hemorragia, como enchimento nas fendas das fraturas, como enchimento vaginal nas fraturas de púbis e em procedimentos dentários. Introduziu o método de remoção de pedras dos rins por incisões na bexiga urinária. Foi o primeiro a ensinar a posição litotômica em operações vaginais. Descreveu a extirpação de veias varicosas, de forma tão detalhada e precisa como na moderna cirurgia. Em cirurgia ortopédica introduziu o que hoje é denominado método Kocher de redução de deslocamento de ombro.
Avicenna descreveu o tratamento cirúrgico de câncer de forma bastante precisa mesmo para os padrões atuais. Afirmou que a extirpação deveria ser larga e vigorosa, todas as veias ao redor do tumor deveriam ser amputadas, se isto não fosse suficiente a área afetada deveria ser cauterizada.
Psicoterapia
Enquanto na Europa a doença mental era tratada como possessão demoníaca, na civilização islâmica foram feitos importantes avanços, antecipando, em muitos séculos, o desenvolvimento da saúde mental iniciada a partir do século 19 no mundo ocidental.
Najab ud din Muhammad, contemporâneo de Rhazes, através da observação cuidadosa de seus pacientes, elaborou a mais completa classificação de doenças mentais de sua época. Suas descrições incluíam: depressão, tipos de neurose obsessiva, priaprismo combinado com impotência sexual, psicose persecutória, mania, e outras.
Avicenna reconheceu o que denominou "psicologia fisiológica" no tratamento de doenças envolvendo emoções. Desenvolveu um sistema de associar mudanças na freqüência cardíaca, tomada no pulso, com sentimentos interiores, antecipando a associação de palavras trazida por Jung muitos séculos depois. Constam referências de que tratou um paciente com doença grave, sentindo seu pulso e recitando em voz alta o nome de províncias, cidades, bairros, ruas e pessoas. Verificando como mudava seu pulso, à medida que as palavras eram mencionadas, Avicenna deduziu que o paciente estava apaixonado por uma jovem, cuja residência Avicenna foi capaz de localizar, através da verificação do pulso.
No século 8 d.C., em Fez no Marrocos, foi construído um asilo para pessoas mentalmente doentes, da mesma forma em Baghdah em 705 d. C., no Cairo em 800 d.C., em Damasco e Alepo em 1.270 d.C. O tratamento incluía banhos, drogas, carinho e cuidados, musico-terapia e terapia ocupacional. Conjuntos musicais e coros especiais eram organizados diariamente para entreter os pacientes.
Oftalmologia
Uma das contribuições mais importantes foi de Ibn al Haytham (965-1039 d.C), conhecido como Alhazen. Em sua obra "Enciclopédia Ótica", demonstrou que a luz incide na retina da mesma forma que incide em uma superfície, em uma sala escura, através de uma abertura, provando assim que a visão acontece quando raios de luz passam dos objetos para os olhos e não dos olhos para os objetos, como pensavam os gregos. Apresentou experiências relativas ao ângulo de incidência e de reflexão, afirmou que a imagem formada na retina é levada ao cérebro através do nervo óptico.
Rhazes foi o primeiro a reconhecer a reação da pupila à intensidade luminosa, Avicenna foi o primeiro a descrever o número exato de músculos extrínsecos do globo ocular.
Na área cirúrgica oftalmológica, destaca-se como contribuição da civilização islâmica, a extração da catarata. Ammar ibn Ali, de Mossul, desenvolveu um método em que uma agulha metálica era introduzida na esclerótica, e as lentes extraídas por sucção. Este método foi redescoberto na Europa no século 19.
2.5 - Desenvolvimentos de escolas médicas e hospitais
Uma das mais importantes contribuições da civilização islâmica foi o desenvolvimento dos hospitais.
Na antigüidade, não havia hospitais, como conhecemos hoje. Na Europa da Idade Média, os doentes eram agrupados em locais anexos a templos, administrados por sacerdotes. O tratamento baseava-se principalmente em orações e invocações, ou práticas supersticiosas.
No Império Persa, por outro lado, no século VII, a cidade de Jundishapur, abrigava uma universidade com escola médica e hospital, desde o século VI, fundada pelo imperador Khusraw Anushirwan (531-579 d.C.). Quando conquistada, no califado de Hadrat Ummar em 638 d.C., a escola médica e o hospital já estavam bem estabelecidos. Os tratamentos baseavam-se principalmente na análise científica e na tradição de Hipócrates. Com o advento do Islam, a universidade continuou a desenvolver-se. Harith ibn Kalada, contemporâneo do Profeta ( saws), o primeiro médico muçulmano, de que se tem registro, recebeu sua formação na escola e no hospital de Jundishapur. A escola prosperou durante o califado ommíada, sendo que seu hospital e centro médico se tornaram o modelo para a construção das escolas médicas islâmicas e hospitais islâmicos. No califado abássida, o califa Al-Mansur, fundador da cidade de Baghdah, levou Jirjis Bukhtyishu, médico cristão da escola de Jundishapur, para Baghdah, elegendo-o médico da corte, iniciando o processo de migração, para Baghdah, de eminentes médicos e cientistas. Por volta da segunda metade do século VIII, Baghdah já começava a se destacar como centro político do califado. Muitos centros médicos e hospitais foram estabelecidos e desenvolvia-se intensa atividade intelectual e científica. A extensão do império islâmico, abrigando diferentes culturas sob a mesma administração, estimulou o avanço do conhecimento da época.
No mundo islâmico a educação médica era séria e sistemática. O candidato ao estudo de medicina iniciava-se através de um treinamento em ciências básicas. Seu aprendizado incluía anatomia, alquimia, ervas medicinais, conhecimentos farmacêuticos. Muitos hospitais mantinham jardins como fonte de medicamentos e drogas para os pacientes e para treinamento de seus estudantes. Em Baghdah, o estudo de anatomia, além das aulas teóricas e ilustrações, incluía a dissecação de macacos e estudo de esqueletos. O treinamento básico era completado com a admissão do candidato como aprendiz em um hospital, onde integrava-se a um grupo de estudantes sob a orientação de um jovem médico. Neste período a ênfase dos estudos era em farmacologia, toxicologia e uso de antídotos.
Após o treinamento básico iniciava-se o treinamento clínico sob a orientação de médicos renomados e instrutores experientes. O estudo incluía terapêutica, patologia, observação clínica, exames físicos, treinamento em diagnóstico. Na realização de exames físicos os estudantes eram orientados a examinar e registrar as ações dos pacientes, seus excrementos, a natureza e a localização de suas dores, os inchaços de seu corpo, a cor e textura de sua pele, se quente ou fria, se seca ou úmida, se flácida, se havia amarelidão no branco dos olhos, se podia inclinar as costas.
Após este período de instruções nos hospitais os estudantes eram designados a atendimento fora do hospital, sob supervisão de seus instrutores. Muita ênfase era atribuída à clareza e brevidade na descrição de uma doença, e na correta discriminação de cada elemento.
Após completarem seus cursos, muitos estudantes complementavam sua formação sob a orientação de especialistas, aprofundavam o treinamento clínico, ou a prática de procedimentos cirúrgicos, ortopedia, e outros.
Concluído o treinamento, o médico recém-formado não estava apto a iniciar sua prática até ser aprovado em um exame de licenciatura.
Esses exames foram estabelecidos a partir de 931 DC, em Baghdad, pelo Khalifa Al-Muqtadir. Neste primeiro ano, mais de 860 médicos foram examinados, somente em Baghdad, e a partir daí o exame passou a ser exigido e administrado em muitos outros lugares. Foram criados comitês para licenciatura, sob a administração de um Inspetor Geral, o mesmo, já mencionado, que também verificava pesos e medidas praticados por comerciantes e farmacêuticos e exercia controle de qualidade de drogas e produtos vendidos em farmácias e boticários. No exame de licenciatura, o médico chefe aplicava um exame oral e prático, se o jovem médico fosse aprovado, o Inspetor Geral lhe administrava o juramento de Hipócrates e lhe entregava sua licença.
A título de ilustração, segue o conselho dado por Ali ibnul-Abbas (Haly Abbas-994 d.C.) para os estudantes de medicina:
"Entre as coisas que cabem ao estudante desta arte (medicina) está que deve constantemente atender em hospitais e casas de doentes, prestar incessante atenção às condições e circunstâncias dos internos, em companhia dos mais perspicazes professores de medicina e inquirir freqüentemente sobre o estado dos pacientes e os sintomas que aparecem neles, tendo em mente o que leu sobre as modificações e o que indicam de bom ou mal.
2.5.1 - Características dos hospitais na civilização islâmica
Num período em que a Europa estava imersa em barbárie, tendo sido caracterizado como a "Era Negra", no mundo islâmico o conhecimento e a civilização floresciam, o que se refletiu no aperfeiçoamento dos hospitais, que adquiriram algumas características específicas decorrentes dos valores muçulmanos, como:
Ausência de distinção em função da raça, religião ou formação:
Não havia qualquer restrição ao atendimento de pessoas em função de sua raça, religião ou formação. Da mesma forma, a administração do hospital era exercida pelo governo e não por organizações religiosas, sendo os cargos de direção exercidos por médicos, independentemente de sua fé. Os profissionais médicos exerciam suas atribuições sem qualquer restrição à sua religião, raça, ou origem, sendo a preocupação fundamental o bem estar dos pacientes.
Alas separadas:
Alas separadas para pacientes do sexo masculino e feminino. Da mesma forma pacientes com doenças diferentes eram alocados em alas diferentes, especialmente no caso de doenças infecciosas. (Hadith da quarentena).
Enfermeiros separados por sexo:
Enfermeiros homens para tratamentos de homens e enfermeiras mulheres para tratamento de mulheres.
Facilidades de banho e suprimentos de água:
Necessidade decorrente da obrigação muçulmana de orar cinco vezes ao dia, mesmo em caso de doença, caso em que a oração pode ser feita na cama. A oração deve ser precedida pela ablução, lavando-se as mãos, o rosto, a cabeça e os pés, e em algumas circunstâncias de banho completo. Consequentemente os hospitais deveriam dispor de abundante suprimento de água, para pacientes e funcionários, inclusive com facilidades para banho.
Qualificação para exercício da medicina:
Apenas médicos licenciados tinham permissão para pratica da medicina.
Centros de treinamento
Os hospitais também eram centros educacionais, para formação e treinamento de novos médicos, intercâmbio de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento da medicina. Continham extensas bibliotecas, auditórios para congressos e conferências, hospedagem para estudantes e funcionários.
Registro dos pacientes
Os hospitais islâmicos introduziram o procedimento de registrar os dados dos pacientes, seus sintomas e os cuidados médicos ministrados.
Desenvolvimento de medicamentos
Novas drogas e medicamentos foram desenvolvidos, aproveitando o afluxo de novos componentes e substâncias decorrente do contato dos muçulmanos com outros povos e seu comércio com a China, Filipinas, África negra, Índia e Europa .
2.5.2 - Hospitais como serviço público gratuito
Os hospitais e centros médicos eram construídos com recursos providos pelos governantes, vizires, califas, sultões, governadores, e mantidos através de um sistema conhecido como Waqf, o equivalente a fundações, a partir de doações dos fiéis. Um dos pilares do Islam é o zakat, contribuição anual de 2,5% do patrimônio líquido de cada fiel, para fins de caridade. Estes recursos eram utilizados pelos governos para manutenção de organizações caritativas, como os hospitais. Todo o tratamento era gratuito, e todos os cidadãos, independentemente de raça ou credo, poderiam fazer uso dos serviços. Muitos poucos hospitais, na civilização islâmica, eram privados. A título de ilustração segue a transcrição de texto de um documento de constituição da Waqf.
"O hospital deve manter todos os pacientes, homens e mulheres até que se restabeleçam completamente. Todos os custos são por conta do hospital quer a pessoa venha das proximidades ou de terras distantes, sejam residentes ou estrangeiros, fortes ou fracos, baixos ou altos, ricos ou pobres, empregados ou desempregados, cegos ou com visão, doentes física ou mentalmente, instruídos ou iletrados. Não há qualquer condição a ser considerada ou qualquer pagamento; nenhuma objeção é feita ou mesmo indiretamente insinuada pelo não pagamento. Todo o serviço é através da magnificência de Allah, O mais generoso".
2.5.3 - Um exemplo de hospital islâmico
Por todo o mundo islâmico foram construídos hospitais: na Síria, no Iraque, na Pérsia, no Norte da África, na Andaluzia, em Damasco, em Baghdah, no Cairo, em Qayrawan, em Marakesh, em Granada.
As instalações eram suntuosas e confortáveis, incluindo o mobiliário. Um dos maiores hospitais, foi o Hospital Mansuri, no Cairo, concluído em 1248, sob o governo de Mansur Qalun. Sua capacidade total era para 8.000 pessoas. Atendia diariamente 4.000 pacientes. Homens e mulheres eram admitidos em alas separadas. Não havia qualquer restrição quanto ao credo, raça ou nacionalidade, ninguém era rejeitado. Não havia limite para o tempo de permanência. O paciente recebia alimentação e uma quantia em dinheiro para compensar sua ausência do trabalho durante o tratamento. O tratamento de pacientes com problemas mentais incluía sessões de músico-terapia. Havia alas separadas para cirurgias, febres, doenças dos olhos. Possuí sua própria livraria, salas de leitura, uma mesquita para muçulmanos e uma capela para cristãos. Este hospital serviu por 700 anos, a partir de sua construção.
3- O Islam e algumas questões atuais relativas à saúde e a vida humana:
Em um hadith (tradição profética), transmitido por Ibn Majah, por Tirmizi e por Abu-Dawud, quando um beduíno perguntou ao profeta (saws) se deveria buscar tratamento para sua doença, o profeta (saws) respondeu:
"Sim, servos de Allah busquem tratamento; Allah não enviou uma doença sem estabelecer uma cura para ela."
Em decorrência deste hadith, todo tratamento disponível deve ser utilizado. Se não há tratamento conhecido que possibilite a cura, deve-se pesquisar e descobri-lo. Neste sentido, estimula-se a que as ciências médicas não se limitem a nenhum ramo específico de cura. Há incentivo para investigação e aplicação de tratamento em todas as áreas: auxílio espiritual, psicológico, físico, ajuste nutricional, farmacêutico com ingredientes naturais ou sintéticos, cirurgia, terapia por radiação, individualmente ou combinação de vários tratamentos.
Todo tratamento, no entanto, deve estar submetido às orientações estabelecidas na Shariat (Lei Revelada). Como afirmado no item 1, as fontes desta lei são o Sagrado Alcorão, os hadith (tradições proféticas), a jurisprudência (fiqh) islâmica e finalmente, o consenso da comunidade.
O desenvolvimento de novas tecnologias, na área médica, nem sempre permite uma interpretação clara e direta, a partir desta fontes, dos limites da aplicabilidade de um novo tratamento, o que pode dar origem a alguma controvérsia, que perdura até que se estabeleça um entendimento consensual.
Nos itens a seguir, serão apresentados alguns tópicos que se destacam no mundo atual e o posicionamento mais aceito no mundo islâmico.
3.1 - Transplante e doação de órgãos.
O transplante pode ser efetuado com algumas restrições:
Não podem ser utilizados órgãos de cadáveres, pois isto é considerado profanação do corpo. Há alguma controvérsia quanto à definição do momento da morte, sendo praticamente consenso que a morte cerebral é o indicador mais preciso. Também há alguma divergência sobre se a restrição se aplicaria ao caso de órgãos ainda vivos em pacientes clinicamente mortos. Há quem advogue que, neste caso, se o órgão ainda está vivo, poderia ser utilizado, desde que esteja individualmente vivo no momento da retirada.
A doação de órgãos entre vivos é considerada como caridade, porém a venda de órgãos é interditada. A autorização prévia do doador é pré-requisito indispensável, mesmo no caso de pacientes que entram em estado de morte clínica. Não há restrição quanto à utilização de órgãos de animais para salvar uma vida, mesmo que de suínos, uma vez que neste caso a necessidade revoga a proibição. O uso de tecido de feto é legítimo, desde que, para sua utilização, não tenha sido provocado aborto.
3.2 - Transfusão de sangue.
É permitida.
3.3 - Autópsia
De maneira geral é proibida, por ser considerada profanação do corpo. Em caso de exigência legal é permitida.
3.4 - Suicídio assistido e Eutanásia
O suicídio é interditado, qualquer que seja a circunstância:
"Ó fiéis, ...não cometais suicídio, porque Deus é misericordioso para convosco." (Surata 4:29)
A eutanásia é considerada como assassinato:
"... quem matar uma pessoa, sem que tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade; quem a salvar, será reputado como se tivesse salvo toda a humanidade." (Surata 5-32)
3.5 - Atendimento médico a pessoas de sexo oposto, atendimento ginecológico.
O atendimento médico a pessoas de sexo oposto é assunto sujeito a certa polêmica e opiniões contraditórias, principalmente quando envolve o exame de parte íntimas.
Desde os primórdios do Islam, no tempo do profeta Muhammad (saws), já houve registro de tratamento dado a pacientes de sexo oposto. Na batalha de Uhud, há referência expressa a uma senhora de nome Nussaaiba Bint Kaab, que quando a situação ficou crítica, abandonou seu equipamento médico, e pegando espada e escudo, deixou suas companheiras que davam atendimento a feridos, para lutar na defesa do Profeta (saws ). Na coleção de hadith de Bukhari há referência a uma senhora, Rubayyie bint Mu'awwidh ibn Afra, que provia tratamento aos feridos, juntamente com outras mulheres.
Na jurisprudência (fiqh) islâmica são encontradas várias referências à permissão de um médico homem, em caso de necessidade, examinar qualquer parte do corpo de uma mulher. Como exemplo de juristas que definiram esta posição tem-se: Ibn Quadam, século VIII, autoridade da escola Hanbali de jurisprudência (fiqh), em seu livro "Al- Mughni"; Ibn Abdeen da escola Hanafi, e outros como; Ibn Muflih no livro Al-Adab al-Shar'iah; Ibn Hamdan; Al-Qadi, e outros.
A seguir transcrevemos um posicionamento quanto a este tema, proferido por Ahmad ibn Naqib al-Misri (d. 769 d.C.), com os comentários do Sheikh Nuh 'Ali Salman:
"É permitido olhar e tocar para aplicação de sangria e tratamento médico (comentário: Quando há necessidade real. Uma mulher muçulmana quando necessitar de atenção médica deve ser tratada por uma médica muçulmana, se não houver nenhuma, por uma médica não muçulmana. Se não houver nenhuma, então por um médico muçulmano, se não houver nenhum, então por um médico não muçulmano. Se o médico for do sexo oposto, seu esposo ou parente com o qual não seria lícito o casamento deve estar presente. É obrigatório seguir esta ordem na seleção do médico. As mesmas regras se aplicam ao muçulmano, homem, em relação a ter um médico do mesmo sexo e mesma religião: o mesmo sexo tem precedência sobre a mesma religião.)"
Na conceituação do significado preciso de "necessidade real", além da imperiosa necessidade de tratamento, há quem inclua o tempo necessário para encontrar o médico adequado, face à urgência requerida, a qualificação do médico face ao tratamento necessário, e, principalmente nos casos de risco de vida, a reputação do médico e sua experiência e proficiência demonstrada.
3.6 - Inseminação artificial e outras técnicas de reprodução assistida.
O casamento, no Islam, é considerado um contrato entre marido e mulher, e entre estes e Allah. Assim qualquer técnica de reprodução deve envolver somente os dois cônjuges, e o requerido respeito à Shariat (Lei Divina), que estabelece por exemplo, a importância da linhagem:
"Ninguém pode ser suas mães exceto aquelas que os geraram." (Surata 58:2)
"Ele foi Quem criou os humanos da água, aproximando-os, através da linhagem e do casamento, em verdade, o teu Senhor é Onipotente." (Surata 25:54)
Assim as técnicas de reprodução artificial são permitidas, se forem aplicadas em um casamento válido. Por exemplo, é lícita a inseminação artificial utilizando o esperma do marido, que após fertilizar o óvulo da esposa (no útero ou em tudo de ensaio) é implantado no útero da esposa. A utilização de mãe substituta não é permitida por não ser possível definir quem será a mãe (Surata 58:2), e também pela questão da linhagem.
3.7 - Métodos anticoncepcionais
São permitidos os métodos que não sejam danosos, não provoquem aborto e que não provoquem a esterilidade. Sua utilização deve ser precedida da concordância de marido e mulher.
Embora permitidos não são estimulados por implicarem em interferência com o processo natural de reprodução. São justificáveis quando há motivos racionais e necessidades reais.
A esterilização permanente não é permitida, só sendo aceitável nos casos de indicação médica justificável.
3.8 - Aborto
Como regra geral, o aborto não é permitido.
Há consenso, na jurisprudência (fiqh) islâmica, de que, a partir do momento em que começam as manifestações dos sinais de vida pelo feto, o aborto é proibido.
Com relação ao período que antecede as manifestações dos primeiros sinais de vida, não há consenso. Alguns juristas advogam que, não havendo vida, não há crime. Outros, pelo contrário, sustentam que eliminar a possibilidade de uma nova vida é crime, e portanto o aborto seria proibido já a partir do momento em que se constata que houve concepção.
Também não há consenso quanto ao que seriam as primeiras manifestações dos sinais de vida. A este respeito muitas vezes é citado um hadith do Profeta Muhammad (saws), relatado por Abu 'Abd-ur-Rahman, Abdul-lah Ibn Mas'ud (40 hadith Nawawiyah), transcrito a seguir:
"certamente que a criação de cada um de vós ocorre no ventre de vossa mãe: durante quarenta dias na forma de um broto, depois como um coágulo por um período igual, depois como um pedaço de carne por período igual, então é enviado um anjo que lhe sopra o espírito e lhe estabelece quatro assuntos: a duração de sua vida, seu sustento, suas obras e se será feliz ou desgraçado,..."
No passado, muitos juristas islâmicos não consideravam crime o aborto antes dos primeiros 120 dias da concepção, e sim como uma ação que não era nem lícita nem ilícita, mas que deveria ser evitada. Após os 120 dias, passaria a ser considerado assassinato, pois a partir deste momento o feto já seria um ser humano completo, física e espiritualmente. Porém este posicionamento nunca foi consensual, renomados juristas sustentavam que não há neste, e em nenhum outro hadith, qualquer orientação que implique que o feto antes dos 120 dias seja descartável.
Com o avanço tecnológico, mais se conhece a vida intra-uterina, o que tem levado à possibilidade de detecção dos primeiros sinais de vida a momentos cada vez mais próximos da concepção.
O aborto somente é aceitável, em qualquer caso, se a continuidade da gravidez implicar na morte da mãe.
3.9 - Circuncisão masculina
A circuncisão é recomendada para crianças do sexo masculino. Se não feita na infância é recomendado que seja feita, mesmo após a adolescência.
Recentes pesquisas têm demonstrado o efeito higiênico propiciado pela circuncisão masculina.
A Associação Médica Islâmica da África do Sul relata que a tribo africana de Xhosa, que pratica a circuncisão, tem uma menor taxa de disseminação de AIDS que os Zulus, que não praticam a circuncisão. Ambas as tribos não são muçulmanas, portanto o fator religioso não interferiu na constatação, e vivem em condições ambientais similares. Outro estudo (Daniel, 1986) indica que o revestimento interno de um pênis ereto não circuncidado cobre no máximo 50% da superfície da glande, o que facilita a ruptura da pele macia, aumentando o risco de infeção..
3.10 - Engenharia genética
Permitida para curar uma doença, por exemplo, através da eliminação de um gene. A clonagem, em princípio, não é aceita, principalmente em função da questão da linhagem.
3.11 - Uso de medicamentos contendo álcool ou produtos à base de suínos.
Com relação ao uso do álcool como medicamento, em um hadith transmitido por Muslim, Abu-Dawud e Tirmidhi relata-se que o Profeta Muhammad (saws), inquirido por um homem que ingeria vinho como medicamento, respondeu:
"Esse não é um medicamento e sim uma doença"
Em outro hadith, transmitido por Abu-Dawud:
"Allah fez surgir a doença e mostrou a cura, e para cada doença existe uma cura. Portanto, tome remédios mas não use nada que seja ilícito"
Desta forma, a utilização de medicamento contendo álcool só é lícita para salvar uma vida, e desde que não haja alternativa. O mesmo se aplica a utilização de suínos. Esta permissão é decorrente do princípio de que a necessidade permite exceções, princípio de jurisprudência (fiqh) derivado das diretrizes do Sagrado Alcorão:
"...Porém, quem, sem intenção nem abuso, for compelido a isso, não será recriminado, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo." (Surata 2:173)
3.12 - Homossexualidade
Nos anos recentes as pesquisas médicas têm estudado a questão da homossexualidade, buscando identificar suas causas, se genéticas ou adquiridas. Já foram observadas diferenças em regiões do cérebro de homossexuais e heterossexuais. Não é conclusivo, se estas diferenças são causa ou conseqüência da prática homossexual. No entanto, mesmo que a preferência tenha origem genética, isso em nada altera o ponto de vista islâmico, uma vez que a conduta é abominada. No Islam a homossexualidade (masculina ou feminina) é considerada perversão e não deve ser praticada, em nenhuma circunstância.
"Dentre as criaturas, achais de vos acercardes lascivamente dos varões, deixando de lado o que vosso Senhor criou para vós, para serem vossa esposas? Em verdade, sois um povo depravado!" (Surata 26:165 a 166)
3.13 - Tratamento a aidéticos.
A perspectiva islâmica é a da ênfase na prevenção, através do estímulo ao modo de vida correto. Após estabelecida a doença seu tratamento deve seguir o curso normal, sem qualquer discriminação ao paciente.
4. - Prevenção da AIDS
O impacto da contaminação por HIV é significativamente menor nos países islâmicos relativamente aos países não islâmicos. A seguir tem-se alguns dados comparativos, publicados pela OMS - Organização Mundial de Saúde em conjunto com a UNAIDS - Programa da Nações Unidas em HIV e AIDS. Analisa-se também a abordagem islâmica relativa à prevenção da AIDS transmitida via sexual, em confronto com o enfoque ocidental.
4.1- Impacto da AIDS em países islâmicos versus países não islâmicos.
Praticamente todos os países do Oriente Médio estão entre os mais representativos da aplicação dos princípios islâmicos ao modo de vida, dada a ênfase e aderência da população à Shariat (Lei Islâmica), mesmo nos países que não a adotam com Lei Civil. Nesta região, a tradição islâmica é um traço muito forte e presente em todas as relações humanas.
4.2 - Abordagem islâmica para prevenção da AIDS
O mundo ocidental passou, por muitos séculos, submetido ao conceito de que a sexualidade tem a função exclusiva de procriação para perpetuação da espécie, sendo condenada, e reprimida, a pratica sexual como fonte de prazer. Na segunda metade deste século, estudos científicos da sexualidade e seus aspectos psicológicos e fisiológicos e, também, os movimentos de libertação da mulher, levaram a construção de um novo paradigma, caracterizando o que foi denominado "Revolução sexual". O prazer passa a não ser mais condenável, pelo contrário, passa a ser estimulado como necessário a uma vida saudável e equilibrada. A forma e métodos para a prática de relação sexual consensual entre adultos passa a ser considerada assunto estritamente pessoal, dizendo respeito apenas ao indivíduo e suas preferências, sem qualquer implicação social mais ampla.
Refletindo este contexto, o modelo ocidental para prevenção da AIDS, quanto ao aspecto sexual, está fundamentado na preservação dos resultados dessa "revolução". O ambiente cultural em que se situa é o da mais ampla liberalidade, com incentivo à tolerância, mesmo aos comportamentos sexuais mais exóticos, poucos anos atrás, classificados como pervertidos. Esta postura reflete-se na produção intelectual, artística, educacional, bem como na publicidade, na propaganda e nos meios de comunicação em geral. As estratégias preventivas, obviamente não estão dissociadas destes condicionantes e tendem a não enfatizar o questionamento da conduta sexual e das preferências, e sim oferecer meios de proteção alternativos.
Será este enfoque adequado para o contexto islâmico? Por exemplo, campanhas, veiculadas em meios de comunicação de massa, estimulando o uso de preservativo nas relações sexuais, seriam aceitáveis e eficientes numa comunidade que vive o modo islâmico de vida?
No contexto islâmico, ao contrário do mundo ocidental, a prática sexual como fonte de prazer sempre foi incentivada. No Islam a sexualidade não é considerada apenas em sua função reprodutiva. Além desta função sagrada, o desfrutar do prazer sexual é parcela importante da vida conjugal. Um hadith (40 hadith Nawawiyah), afirma:
"... em cada ato sexual entre vós há caridade"
Outro exemplo: Uma mulher muçulmana pode solicitar o divórcio, perante a corte de justiça, se seu marido não satisfizer suas obrigações sexuais.
Assim, no mundo islâmico, nunca houve repressão à expressão da sexualidade conjugal, sendo considerada como função natural e importante da vida humana. Por outro lado, a manifestação da sexualidade, embora assunto privado, que diz respeito apenas à intimidade do casal, tem, no mundo islâmico, condicionantes sociais. Ë submetida a limites, definidos pela Shariah (Lei Divina), revelada através do Sagrado Alcorão, e explicada nas tradições proféticas, que levam à proteção da família, como ambiente saudável para educação dos filhos e formação de um tecido social estável e equilibrado. Adicionalmente, há restrições e orientações específicas que dizem respeito à higiene na prática sexual.
No Islam, a sexualidade só é aceita sob o instituto do casamento, sendo a sua prática, fora desta limitação, sujeita a severas punições, tanto para o homem como para a mulher. Não é permitida a relação sexual anal e o sexo vaginal durante a menstruação. A pratica homossexual é proibida e punida. Há também a prática de tradições de caráter higiênico como: A circuncisão para os homens (vide item 3.9 ) e a ablução total (banho) após a relação sexual.
Neste contexto a estratégia de prevenção da AIDS adotada no mundo ocidental encontra severas restrições. Por exemplo, o incentivo ao uso de preservativos. Na sociedade islâmica o preservativo só têm função como método anticoncepcional entre cônjuges (só podendo ser utilizado com a concordância de ambos). Estimular seu uso, como proteção contra o contágio via relação sexual, seria o mesmo que admitir a possibilidade do sexo extra conjugal ao incentivar os meios de sua pratica segura, o que seria inadmissível na sociedade islâmica.
Deve ser observado que na cultura islâmica não há contemporização com os objetos e ações considerados nocivos. O álcool, por exemplo. Considerado deletério, e proibido, segundo a Shariat, com base em ayats do Sagrado Alcorão, tem uso interditado, quer seja como bebida, quer seja em pequenas quantidades em produtos culinários, quer seja em medicamentos (seu uso médico só é permitido em casos de extrema necessidade, em que não há outra alternativa). O princípio é que, quando algo é nocivo, tudo o que o induz, estimula ou promova também é nocivo.
As transgressões são punidas, pois em questões como estas prevalece o bem maior, isto é, o respeito à Lei Revelada, que tem como uma das conseqüências preservar a saúde da coletividade e a estabilidade das relações sociais. A punição, visa educar o indivíduo e exemplificar para o coletivo. Quando um indivíduo pratica um ato interditado, as conseqüências de sua ação escapam ao domínio individual, pois influenciam a comunidade através de seu exemplo.
Como ilustração desse aspecto, das implicações coletivas da prática individual, certa vez o Profeta (saws) foi procurado por um jovem que, alegando não conseguir controlar-se, pedia permissão para praticar relações sexuais fora do casamento. O Profeta (saws) lidou com ele, através da razão, perguntando-lhe se ele aprovaria alguém praticando sexo ilegal com sua mãe, com sua irmã, filha ou esposa. A cada vez que ele respondia não, o Profeta (saws) afirmava que a mulher com quem ele planejava manter relações sexuais poderia ser a mãe, irmã, filha ou esposa de alguém. O homem compreendeu as implicações de seu desejo e arrependeu-se.
Esta postura islâmica está alicerçada em um modo de pensar milenar, com base na Lei revelada do Sagrado Alcorão e nas tradições proféticas. Faz parte de um sistema complexo e coerente, com ramificações em todas as atividades intelectuais, sociais e culturais.
Em conseqüência, o procedimento ocidental parece estranho e encontra fortes críticas no meio islâmico. Para o muçulmano típico, este modo de pensar e agir é considerado contraditório, pois permite a promoção de condutas nocivas e ao mesmo tempo despende enorme esforço, com elevados custos, para reduzir o efeito deletério destas condutas, em detrimento do bem comum da sociedade como um todo.
Os dados apresentados no item 4.1 parecem apontar para uma ineficiência da estratégia ocidental de prevenção. Países do primeiro mundo, com sistemas educacionais avançados, que dedicam enorme esforço e alto investimento em medidas preventivas, apresentam elevada incidência. Por exemplo, os Estados Unidos (tabela 5), com uma taxa de 609,7 pessoas por 100 mil habitantes. Valores muito acima (4.554 % maior) da taxa de 13,1 pessoas por 100 mil habitantes observada nos países do Oriente Médio com forte aderência ao modo de vida islâmico (tabela 1).
Para finalizar, considere-se, a título de exemplo da tradição islâmica, um hadith em que o Profeta (saws) afirma:
"Se ahishah ou fornicação (sexo fora do casamento) e todos os tipos de relação sexual pecaminosas tornarem-se desenfreados e abertos, praticados sem inibições em qualquer grupo ou nação, Allah irá puni-los como novas epidemias (ta'un) e novas doenças que eram desconhecidas de seus antepassados e gerações anteriores."
Este hadith, transmitido e autenticado por Ibn Majah e outros eruditos, trazido a mais de 1.400 anos, é de impressionante atualidade. Tem implícito o conceito de mutação no uso da palavra al-jadidah, novas doenças. Também afirma que estas doenças atingirão proporções epidêmicas, isto fica claro pelo uso da palavra ta'un, que significa especificamente "praga", mas é utilizada genericamente, em árabe, para indicar qualquer epidemia. Fornicação sem inibição é uma clara referência a um ambiente caracterizado pela sedução praticada de forma pública, estimulando a atividade sexual descontrolada.
5. - Conclusão
A religião islâmica surgiu no ano 610 d.C com o início da revelação do Sagrado Alcorão, em Meca, na atual Arábia Saudita. Trouxe, deste o início, princípios de valorização do conhecimento, de tolerância e respeito aos diversos povos, culturas e religiões. Como conseqüência, a civilização islâmica contribuiu não só para a recuperação do conhecimento dos povos da antigüidade clássica, como também criou os meios e condições para sua ampliação e desenvolvimento. As ciências médicas foram beneficiárias diretas deste contexto, em suas diversas áreas, como Al-Chemia, farmacologia, bacteriologia, anestesia, cirurgia, psicoterapia, oftalmologia, ortopedia, desenvolvimento de hospitais e escolas médicas.
Após o declínio da civilização islâmica, este conhecimento foi transferido para a civilização ocidental, traduzido do árabe para os idiomas europeus, contribuindo para o avanço da ciência, inclusive na medicina.
As orientações para tratamento médico, como todas as atividades na cultura islâmica, tem como fonte principal de diretrizes, as orientações do Sagrado Alcorão, seguido pelas tradições do Profeta Muhammad (saws), a jurisprudência islâmica (fiqh) e o consenso da comunidade. Questões como transfusão de sangue, autópsia, eutanásia, métodos anticoncepcionais, aborto, circuncisão, e muitas outras são consideradas à luz destas fontes. Os contínuos avanços do conhecimento humano, das ciências e, mais especificamente, da medicina têm trazido novas técnicas com implicações éticas, quem devem ser avaliadas sob o mesmo prisma, na verificação de sua aplicabilidade aos valores e modo de vida islâmico. Por exemplo, temas como: os novos métodos de reprodução, transplante, engenharia genética e outros.
Com relação aos métodos de prevenção da AIDS, verifica-se que o enfoque ocidental está em oposição ao valores e modo de pensar islâmico, principalmente em decorrência dos princípios que estruturam cada sociedade. Observa-se ainda que os países com aderência ao modo de vida islâmico apresentam número significativamente menor de pessoas contaminadas por 100.000 habitantes, relativamente aos países da Europa e Américas.
Hajji Sheikh Muhammad Ragip al-Jerrahi
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