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domingo, 18 de maio de 2014

O homem comum, a originalidade e o Romance - Dostoiévski

Operários - Tarsila do Amaral
Operários - Tarsila do Amaral


Há pessoas de quem é difícil dizer alguma coisa que as represente de uma vez e integralmente, no aspecto mais típico e característico, são aquelas que habitualmente chamamos de pessoas "comuns", "maioria" e que, de fato, constituem a imensa maioria da sociedade. Em seus romances e novelas, a maioria dos escritores procura pegar os tipos da sociedade e representá-los em imagens e forma artística - tipos que se encontram integralmente com extraordinária raridade na sociedade e ainda assim são quase mais reais que a própria realidade. Podkoliéssin (personagem de comédia de Gógol, O casamento), em seu aspecto físico, é talvez até um exagero, mas nunca uma invencionice. Que infinidade de pessoas inteligentes, que conheceram Podkoliéssin através de Gógol, imediatamente passaram a achar que dezenas e centenas dos seus bons conhecidos e amigos se pareciam terrivelmente com Podkoliéssin. Mesmo antes de Gógol elas já sabiam que seus amigos eram como Podkoliéssin, só ainda não sabiam é que era assim mesmo que elas se chamavam. Em realdade, os noivos pulam as janelas antes do casamento com imensa raridade porque isso é incômodo, já sem falar de outras coisas; ainda sim, quantos noivos, até gente digna e inteligente, perante o casamento não estariam dispostos a se considerar Podkoliéssins do fundo da consciência! Nem todos os homens gritam a cada passo: "Tu l'as boulu, George Dandin!" ("Tu o quiseste, George Dandin!", expressão que remonta à comédia de George Dandin, de 1968, de Molière, no ato I). Mas, Deus, quantos milhões e bilhões de vezes homens do mundo inteiro repetiram esse grito do coração depois da lua de mel e, quem sabe, até mesmo no dia seguinte do casamento!
Pois bem, sem descer a explicações mais sérias, diremos apenas que, no real, a tipicidade das pessoas parece dissolver-se em água e todos esses Georges Dandins e Podkoliéssins existem de fato, vivem num vaivém azafamados às nossas vistas diariamente, mas como se estivessem um tanto diluídos. Ressalvando, por último, para a plenitude da verdade, que todo o Georges Dandin, como o criou Molière, também pode ser encontrado na realidade, ainda que raramente, com isso terminamos o nosso juízo, que começa a parecer crítica de revista. Contudo, ainda sim resta diante de nós uma pergunta: o que o romancista tem a fazer com pessoas ordinárias, totalmente "comuns", e como colocá-las diante do leitor para torná-las minimamente interessantes? Evitá-las por completo na narração é totalmente impossível, porque as pessoas ordinárias são, a todo instante e em sua maioria, um elo indispensável  na conexão dos acontecimentos cotidianos; portanto evitá-las seria violar a verossimilhança. Preencher romances só com tipos ou até simplesmente com pessoas estranhas e irreais, para efeito de interesse, seria inverossímil, e talvez até desinteressante. A nosso ver, o escritor deve empenhar-se em descobrir os matizes interessantes e ilustrativos até mesmo entre as ordinariedades. Quando, por exemplo, a própria essência de algumas pessoas ordinárias consiste justamente em sua ordinariedade constante e imutável, ou, o que é ainda melhor, quando, a despeito de todos os esforços extraordinários dessas pessoas para saírem a qualquer custo dos trilhos da ordinariedade e da rotina, ainda assim terminam por continuar a ser a mesma rotina imutável e terna, então essas pessoas ganham inclusive alguma espécie de tipicidade - como a ordinariedade, que de maneira nenhuma quer permanecer sendo o que é e procura a qualquer custo tornar-se original e independente sem recursos mínimos para chegar à independência. (...)
A essa categoria de pessoas "comuns" ou "ordinárias" pertencem também algumas pessoas da nossa história, até agora (confesso isso) poucos explicadas para o leitor.
De fato, não existe nada mais deplorável do que, por exemplo, ser rico, de boa família, de boa aparência, de instrução regular, não tolo, até bom, e ao mesmo tempo não ter nenhum talento, nenhuma peculiaridade, inclusive nenhuma esquisitice, nenhuma ideia própria, ser terminantemente "como todo mundo". Tem riqueza, mas não do tipo Rothschild, a família é honesta, mas nunca se distinguiu por nada; aparência boa, mas muito pouco expressiva; boa instrução, mas não sabe em que empregá-la; tem inteligência, mas sem ideias próprias; tem coração, mas sem magnanimidade etc. etc. em todos os sentidos. No mundo existe uma infinidade extraordinária de pessoas assim e até bem mais do que parece; como todas as pessoas, elas se dividem em duas categorias principais: umas limitadas, outras "bem mais inteligentes". As primeiras são mais felizes. Para um homem "comum" limitado, por exemplo, não há nada mais fácil do que se imaginar um homem incomum e original e deliciar-se com isso sem quaisquer vacilações. Bastaria a algumas das nossas senhorinhas cortar os cabelos, pôr óculos azuis e chamar-se de niilistas para se convencerem imediatamente de que, de óculos, elas passariam imediatamente a ter suas próprias "convicções". A um bastaria apenas sentir no coração um pinguinho de algo derivado de alguma sensação humana e boa para logo se convencer de que ninguém sente como ele, de que ele é avançado em seu desenvolvimento. A outro bastaria adotar em palavras algum pensamento ou ler uma paginazinha de alguma coisa sem princípio nem fim para acreditar imediatamente que esses "são seus próprios pensamentos" e brotaram do seu próprio cérebro. O descaramento da ingenuidade, se é que se pode falar assim, chega ao surpreendente nesses casos; tudo isso é inverossímil, mas se encontra a cada instante. Esse descaramento da ingenuidade, essa indubitabilidade do homem tolo em relação a si mesmo e ao seu talento foi exposta magnificamente por Gógol no admirável tipo do tenente Pirogóv. Pirogóv não duvida nem de que é gênio, de que está até acima de qualquer gênio; e a tal ponto não duvida que jamais se interroga a seu próprio respeito; e a tal ponto não duvida que jamais se interroga a seu próprio respeito; aliás, interrogação para ele não existe. O grande escritor foi finalmente forçado a açoitá-lo para a satisfação do sentimento moral ofendido do seu leitor, mas, ao ver que o grande homem apenas se animara e, para revigorar-se depois do suplício, ainda comeu um pastel folheado, ficou sem saber o que dizer de admirado e assim deixou os seus leitores. Sempre me afligiu que Gógol tivesse tomado o grande Pirógov em sua patente tão pequena, porque Pirogóv é tão satisfeito consigo mesmo que, na medida em que as dragonas engrossam e aparecem nele com o passar dos anos e "em linha", para ele não há nada mais fácil do que imaginar-se, por exemplo, um chefe militar excepcional; e inclusive não imaginar mas simplesmente não duvidar disso: se o promoveram a general, então como não é o chefe militar? E quanto desses indivíduos sofrem depois terríveis fiascos no campo de batalha? E quantos Pirogóv houve entre nossos literatos, cientistas, propagandistas? Eu digo "houve", mas, é claro, existem até hoje (...)
O problema é que o homem "comum" inteligente, ainda que de passagem (e talvez até durante toda a sua vida) tenha se imaginado um homem genial e originalíssimo, mesmo assim conserva em seu coração o vermezinho da dúvida, que chega a tal ponto que o homem inteligente Às vezes termina em absoluto desespero; se fica resignado, já o faz totalmente envenenado pela vaidade interiorizada. Pensando bem, quando mais não seja tomamos um extremo: na imensa maioria dessa categoria inteligente de pessoas, a coisa não se dá de maneira tão trágica; ao término dos anos estraga-se mais ou menos o fígado, e é só. Mas, não obstante, antes de aplacar-se e resignar-se, essas pessoas às vezes levam tempo demais fazendo das suas, começando pela mocidade e indo até a idade da resignação, e tudo pelo desejo de originalidade. Verificam-se inclusive casos estranhos: devido ao desejo de originalidade, um homem honesto se dispõe até a cometer um ato vil; acontece até que um desses infelizes, não só honestos mas até bons, providência de sua família, sustenta e alimenta com o seu trabalho não só seus familiares mas até estranhos, e o que acontece? Passa a vida inteira sem encontrar a paz! Para ele não é nem um pouco tranquilizadora nem consoladora a ideia de que ele cumpriu tão bem com suas obrigações humanas; ocorre inclusivo o contrário, ele até o irrita: "Eis, dir-se-ia, por que eu desperdicei toda a minha vida, eis o que me atou de pés e mãos, eis o que me impediu de descobrir a pólvora! Não fosse isso, é possível que eu tivesse forçosamente descoberto a pólvora, ou a América - ainda não sei com certeza o quê, só sei que forçosamente teria  descoberto!". O mais sintomático nesses senhores é que, ao longo de toda a vida, de maneira nenhuma els efetivamente conseguem saber ao certo o que exatamente precisam tanto descobrir e o que exatamente passam a vida inteira já prontos para descobrir: a pólvora ou a América? Mas os sofrimentos, as nostalgias do objeto do descobrimento, palavra, estaria à altura de um Colombo ou Galileu. (...)
No seu desejo ardente de distinguir-se, às vezes estava pronto para o salto mais irracional; no entanto, mal a coisa se aproximava do salto irracional, nosso herói sempre se revelava inteligente demais para se atrever a dá-lo. Isso o deixava aniquilado. Tivesse oportunidade, é possível que se decidisse até por uma coisa vil, contanto que conseguisse algo daquilo com que sonhava; porém, como se fosse de propósito, tão logo chegava ao limite sempre se revelava honesto demais para o ato extremamente vil.

Trecho de "O Idiota" de Dostoiévski

sábado, 1 de março de 2014

O drama da sentença - Discussão da Pena de Morte em Dostoiévski



"Traga um soldado, coloque-o diante de um canhão em uma batalha e atire nele, ele ainda vai continuar tendo esperança, mas leia para esse mesmo soldado uma sentença como certeza, e ele vai enlouquecer ou começar a chorar"

Os autores geralmente costumam exorcizar suas ideias em seus livros, seja de forma explícita ou implícita através, por exemplo, em diálogos entre personagens.
Fiódor Dostoiévski é um autor muito comentado por seus personagens marcantes. Esses personagens, ora ou outra, se mostram como meios que o autor encontrou para opinar sobre a sociedade russa, os valores, a religião, a filosofia etc.
Também conseguimos notar temas bem específicos sendo discutido em sua obra como a pena de morte.
A ideia que Dostoiévski faz da pena de morte é, certamente, muito influenciada pela sua própria biografia.
Havia na Rússia um grupo de discussão literária formada por intelectuais progressistas chamado "Circulo Petrashevski", organizado por Mikhail Petrashevski, um seguidor de Charles Fourier, um socialista utópico francês da primeira parte do século XIX que tinha ideias anti-conservadoras.
Dostoiévski notoriamente fazia parte deste grupo.
O Círculo Petrashevski, apesar de não haver qualquer ponto de vista uniforme em política, a maior parte se opunham à autocracia do Tsar e ao sistema de semi-servidão que havia na Rússia.
Acusados pelo czar Nicolau I de atitudes subversivas e preocupado com a onda de revoluções que aconteciam na Europa, especialmente a Revolução de 1848, ou Primavera dos Povos (como é conhecida, um conjunto de revoluções, de caráter liberal, democrático e nacionalista, iniciado por uma crise econômica na França) os membros do grupo foram detidos e alguns foram fuzilados.
Dostoiévski foi detido e preso em 23 de abril de 1849. Passou oito meses na Fortaleza de Pedro e Paulo até que, em 22 de dezembro, a sentença de morte por fuzilamento foi anunciada. Em 23 de dezembro, os membros detidos junto com Dostoiévski foram levados ao lugar da execução, e três membros do grupo, inclusive o próprio Petrashevski, foram amarrados aos postes em frente ao pelotão. Dostoiévski era um dos próximos.
Felizmente antes da ordem para o fuzilamento, chegou uma ordem do Czar para que a pena fosse comutada para prisão com trabalhos forçados e exílio. Depois os membros souberam que a ordem havia sido assinada há dias, mas que o Czar exigira a falsa execução como uma punição a mais.
Essa experiência vai marcar para sempre a mente de Dostoiévski.

Em seu livro "O Idiota", romance escrito entre os anos de 1867 e 1868, se encontra muito desse elemento traumático. Dostoiévski busca em um dos diálogos proferidos pelo príncipe Míchkin (o personagem central do livro) suas ideias sobre a pena de morte.

Segue abaixo um trecho que o príncipe descreve uma pena de morte por guilhotina:

"(...) O criminoso era um homem inteligente, destemido, forte, já entrado em anos, Legrot era seu sobrenome. Pois bem, como estou lhe contando, acredite o senhor ou não, quando subiu ao patíbulo começou a chorar, branco como uma folha de papel. Pode uma coisa dessas? Por acaso não é um horror? E quem é que chora de pavor? Eu nem pensava que pudesse chorar de pavor que não é criança, um homem que nunca havia chorado, um homem de quarenta e cinco anos. O que acontece com a alma nesse instante, a que convulsões ela é levada? É uma profanação da alma e nada mais! Está escrito: "Não matarás", então porque ele matou vão matá-lo também? Não, isso não pode. Pois bem, já faz um mês que assisti àquilo, mas até agora é como se estivesse diante dos meus olhos. Já sonhei umas cinco vezes. (...)"

Em outra parte o príncipe (ou o autor) começa a divagar sobre o drama da sentença em uma reflexão muito interessante:

"(...) Essa mesma observação que o senhor fez todo mundo faz [A observação foi "Ainda bem que o sofrimento é pouco depois que cortam a cabeça"], e a máquina, a guilhotina, foi inventada com esse fim. Mas naquela ocasião me ocorreu uma ideia: e se isso for ainda pior? O senhor acha isso engraçado, até um pensamento como esse pode vir à cabeça. Reflita, por exemplo, se há tortura; neste caso há sofrimento e ferimentos, suplício físico e, portanto, tudo isso desvia do sofrimento moral, de tal forma que você só se atormenta com os ferimentos, até a hora da morte. E todavia a dor principal, a mais forte, pode não estar nos ferimentos e sim, veja, em você saber, com certeza, que dentro de uma hora, depois dentro de dez minutos, depois dentro de meio minuto, depois agora, neste instante - a alma irá voar do corpo, que você não vai ser mais uma pessoa, e que isso já é certeza; e o principal é essa certeza. Eis que você põe a cabeça debaixo da própria lâmina e a ouve deslizar sobre sua cabeça, pois esse quarto de segundo é o mais terrível de tudo. O senhor sabe que isso não é fantasia minha, que muitas pessoas disseram isso? Eu acredito tanto nisso que lhe digo francamente qual é a minha opinião. Matar por matar é um castigo desproporcionalmente mais terrível que a morte cometida por bandidos. Aquele que os bandidos matam, que é esfaqueado à noite, em um bosque, ou de um jeito qualquer, ainda espera sem falta que se salvará, até o último instante. Há exemplos de que uma pessoa está com a garganta cortada, mas ainda tem esperança, ou foge, ou pede ajuda. Mas, no caso de que estou falando, essa última esperança, com o qual é dez vezes mais fácil morrer, é abolida com certeza; aqui existe a sentença, e no fato de que, com certeza, não se vai fugir a ela, reside todo terrível suplício, e mais forte do que esse suplício não existe nada no mundo. Traga um soldado, coloque-o diante de um canhão em uma batalha e atire nele, ele ainda vai continuar tendo esperança, mas leia para esse mesmo soldado uma sentença como certeza, e ele vai enlouquecer ou começar a chorar. Quem disse que a natureza humana é capaz de suportar isso sem enlouquecer? Para quê esse ultraje hediondo, desnecessário, inútil? Pode ser que exista um homem a quem eram uma sentença, deixaram que sofresse, e depois disseram: "Vai embora, foste perdoado" [Observação: O próprio Dostoiévski passou exatamente por isso]. Pois bem, esse homem talvez conseguisse contar. Até Cristo falou desse tormento e desse pavor. Não, não se pode fazer isso com o homem!"

Concluíndo

Com uma forte experiência biográfica temos que Dostoiévski considera a pena de morte uma subversão tremendamente imoral até mesmo para um criminoso que tirou a vida de um inocente. O poder desconcertante da sentença é uma agressão desproporcionada e injusta pois violenta a alma e isso deve ser evidtado a todo custo.

Uma referência para Dostoiévski vem do próprio Cristo (uma figura essencial no universo do autor).
Jesus Cristo, o próprio Deus encarnado, viveu o seu pior drama não na via crucis mas na lamentação no jardim do Getsémami, onde parou para refletir o seu próprio destino:

"Então lhes disse: A minha alma está profundamente triste até à morte... Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu pai, se possível, passa de mim este cálice! Todavia não seja como eu quero, e, sim como tu queres" (Mateus, cap.26, vv.38-9).

Se o próprio filho de Deus se contorceu em lágrimas aflitas, mesmo sabendo da sua ressurreição, nenhum outro homem seria capaz de suportar mesmo suplício.

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