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sábado, 11 de julho de 2015

Delação e denúncia: usos à direita e à esquerda


"Escuta, Zé Ninguém: a miséria da existência humana é visível à luz de cada um destes pequenos horrores. Cada acto mesquinho teu faz retroceder de mil passos qualquer esperança que possa restar quanto ao teu futuro”.
Wilhelm Reich

“Não se ensinam os homens a serem honestos, mas ensina-se tudo o mais.” 
Pascal

As democracias podem ser imperfeitas, mas as ditaduras são monstruosas. Como não suportam a pluralidade das opiniões e as críticas que clamam por liberdade, as ditaduras facilmente inventam bruxas para justificar o regime de exceção. Nelas, muita gente inocente foi queimada com brasas de constrangimentos e torturas até à morte, a partir de uma acusação ou delação anônima.

Cony observa que “durante o regime militar, tivemos uma excelente safra de dedos-duros. Alguns exerciam a função gratuitamente, não pretendiam prêmios nem vantagens, delatavam por amor à arte de delatar. Outros, certamente a maioria, delatavam para ganhar alguma coisa: penas menores em certos casos, dinheiro vivo em outros” (Cony, C. H. FSP, 18/08/2005)

Nessa época, o cantor Wilson Simonal, no auge de seu sucesso, foi “queimado” pelo meio artístico como dedo-duro, porque supostamente teria servido aos órgãos de repressão do regime militar. Embora tenha sido absolvido num julgamento simbólico da acusação de ter atuado como delator durante o Regime Militar, o referido cantor morreu com essa nódoa na sua imagem de cidadão e artista.

Há ainda o nebuloso Cabo Anselmo, considerado um “denunciador” pelos militares de direita e “delator” pelos militantes de esquerda. Essa diferença foi feita no nosso artigo anterior.  Podemos simplificar esta distinção da seguinte maneira: a delação é uma acusação condenatória contra alguém ou cúmplice, por vingança, interesse pessoal ou para aliviar o medo das pressões e ameaças de um grupo corporativo; já o que move a denúncia não é a vingança, nem o interesse pessoal, mas sim, o desejo de fazer o bem para um ser (humano ou animal) que sofre algum tipo de violência. Nesse sentido, a denúncia visa beneficiar a coletividade ameaçada ou refém de um criminoso ou grupo transgressor da lei. Delata-se um colega (como revela o conto de Machado de Assis), ou um companheiro de luta política, um cúmplice, mas denuncia-se um pedófilo, um torturador, um seqüestrador, um terrorista, um narcotraficante, etc.

A história do Brasil está marcada de anti-heróis como Silvério dos Reis, o delator dos conjurados que lutavam para libertar o Brasil de Portugal, dentre os quais, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que dignamente passou para nossa história como o mártir da independência.  Silvério dos Reis foi associado pelo imaginário popular à figura bíblica de Judas, e Tiradentes foi associado à imagem de Jesus.

Seria exagero considerar que a história da humanidade é uma história não contada sobre as delações e delatores que ficaram no anonimato? Assim como a tradição dos estudos de história despreza a investigação do cotidiano (Heller, 1992; 2002) privilegiando o papel das revoluções e dos heróis, somente uma história ‘nova’ poderia investigar os indícios e motivos que levaram alguns optarem pela delação e traição, influenciando desse modo o destino dos homens do poder, justificando seu gesto em nome de uma elite, ou de um povo ficcionado, ou, ainda, visando servir a “construção de uma realidade delirante” (Castoriadis, 1987: 207-224), onde é inevitável a difusão da paranoia social. (Os estudos sobre a “Psicologia de massa do fascismo” [W. Reich], a “personalidade autoritária” [T. Adorno], e a “mentalidade fascista” [I. Carone] elucidam algumas das motivações da delação, bem como convida-nos a uma atitude preventiva sobre o “que fazer” para construir uma sociedade com menos infâmia).

Delação-denúncia à esquerda e à direita


A delação sempre foi um poderoso instrumento de sustentação dos regimes totalitários. O nazi-fascismo usou criminosos e mesmo pessoas de bem para criar um clima de medo e de paranoia. O totalitarismo soviético – principalmente no período do “homem de ferro” J. Stalin – fez da delação uma obrigação moral dos cidadãos que eram estimulados a colaborar para o “triunfo do socialismo”. A famosa ditadura “do” proletariado passou a ser a ditadura “sobre” o proletariado, observou Karl Korsh [1886-1961]. No período stalinista os segredos não eram confiados a ninguém com medo de ser denunciado aos órgãos repressivos, com ou sem razão; as pessoas evitavam criticar a gestão socialista que gerava imensas filas, desabastecimento, maquiagens das estatísticas do governo, os privilégios dos burocratas do Partido Comunista, a arrogância e descaso dos funcionários públicos da nova ordem proletária. Talvez o caso mais emblemático foi o garoto Pavlik Morozov transformado símbolo exemplar do stalinismo, com estátuas erguidas pelo país por ter denunciado o próprio pai como traidor dos ideais socialistas e “inimigo do povo”.

Também nos EUA, após a 2ª. Guerra, o período conhecido de “caça às bruxas”, imposto pelo senador McCarthy, levou o país a uma onda de delação de qualquer pessoa suspeita de atividades consideradas “anti-americanas” ou “comunistas”.  O cineasta Elia Kazan, por exemplo, seria lembrado na história do cinema mais como delator dos artistas do que pelos filmes interessantes que realizou (ver, abaixo). Em 1999 quando o velho cineasta foi a Academia receber o Oscar pelo conjunto de sua obra, o público ainda demonstrava ressentimento pela sua atitude no passado, não se levantando e nem o aplaudindo.

Em 1951, o casal de cientistas judeus nova-iorquinos, Julius e Ethel Rosenberg, também foram vítimas do denuncismo macarthista. O casal foi acusado, julgado e condenado à morte por ter supostamente roubado e entregue para a União Soviética segredos sobre a bomba atômica desenvolvida pelos cientistas norte-americanos. A execução fatal aconteceu em 1953, sob protestos no mundo todo.

Na mesma época, por conta da Guerra Fria, o químico Linus Pauling (1901-1994), que fez campanha contra os testes nucleares, foi difamado tanto nos EUA como “insuficiente anticomunista”, como também na União Soviética, com o pseudo-argumento de que as ideias do cientista foram consideradas incompatíveis com o materialismo dialético.

Após a reunificação das duas Alemanhas, um dos grandes problemas foi exatamente o serviço secreto da Alemanha Oriental ou Socialista – o STASI. Por quê? Pelo fato de que virou instituição, com muitas informações e muitos informantes prontos para acabar com a vida social de qualquer cidadão. “Houve casos em que maridos relatavam para o serviço secreto todos os passos da esposa. Amigos contavam segredos de amigos. Para se ter ideia de como a coisa era nojenta, os arquivos ou dossiês (que não foram queimados) contando a vida das pessoas foram liberados para visitação. O que significava que a pessoa poderia descobrir quem ‘dedou’ ela. Foi tanto casamento sendo desfeito por conta disso que passaram a avisar do perigo ‘você pode se arrepender de descobrir a verdade’”.

Ou seja, um Estado considerado “policial” acha que tem o direito de controlar tanto a vida pública dos indivíduos como suas próprias vidas íntimas por meio de uma rede de dedos-duros prontos, muitas vezes voluntários que se prestam para servir a “Pátria”, o “povo” a “causa x”, abolindo dessa força a própria distinção entre o que é domínio público e o que é privado. Por isso que H. Arendt conceitua o totalitarismo de “mal absoluto” e C. Castoriadis prefere chamar de “monstruoso”, porque é um regime político que produz crimes “que o homem não pode punir nem perdoar” e em escala inimaginável”.

Por mais imperfeita que seja, a democracia – que alguns com vocação autoritária desqualificam de democracia “burguesa” – tem a virtude de garantir um mínimo de debate, de respeito para com a pluralidade das opiniões, e de investigação, para esclarecer denúncias, averiguar a motivação das acusações, que, quando provadas, cabe a justiça exercer o poder de punir os responsáveis.

O delator é vítima do sistema ou é responsável por sua escolha pessoal?


A delação em si mesma não é um ato moral porque não visa o bem coletivo, como já foi dito anteriormente.  Também não faz parte da natureza humana ser delator, embora certas ‘condições’ possam pressionar estruturas psíquicas mais frágeis de encontrarem saída nesse tipo de ato, como forma de sobrevivência.

Jean-Paul Sartre (1978) observa que qualquer sujeito humano é livre para escolher ser covarde ou herói. Usando a mesma linha de raciocínio podemos também dizer que somos livres para escolher delatar ou não, denunciar ou não. Assim como o covarde se faz covarde e o herói se faz herói, também o delator se faz delator, isto é, se o sujeito escolheu ser delator por motivo de vingança, inveja, ou para se safar de uma pressão do grupo ou agradar um chefe, somente ele é responsável pela sua escolha. Nos campos de concentração nazista os que escolheram, eticamente, resistir até o limite de suas forças físicas e psicológicas preferiram pagar com sua vida para não entregar os companheiros. É verdade que a violência – a tortura – tem poder para forçar alguém a dizer coisas contra a sua vontade, ou seja, depende da estrutura psíquica e da formação moral da vítima. Nietzsche dizia que, nesses casos, o veneno que não chega a matar pode fortalecer o caráter.

Muitos delatores não são más pessoas, mas personalidades que fraquejam diante de pressões, ameaças e promessas disso ou daquilo. Muitas delações foram e continuam sendo praticadas em nome de causas justas e injustas como a “liberdade democrática”, a “causa proletária”, a “revolução cultural’, a “supremacia da raça ariana”, os “valores corretos”, a “moral e os bons costumes”, a “guerra santa”, e até de “Deus”. “O futuro de uma ilusão” (Freud), o autoengano e a “razão cínica” são mecanismos psíquicos recorrentes pelos sujeitos convictos de que seu ato é legitimo ou moral.

Parece que o pior delator é o delator moralista e cínico, porque faz desse seu ato infame um fundamento de moral coletiva. O delator cínico se assemelha ao fundamentalista religioso ou laico, porque interpreta a moral literalmente; ele confunde moral e ética, e, entende que “vale tudo” para fazer impor a “sua” idéia de moralidade para todos, custe o que custar.

Tal como a Fênix, a onda denuncista ou dedurista sempre renasce das cinzas, numa espécie de transe coletivo, causando efeitos danosos nos inocentes, destruindo famílias, amizades e empreendimentos (ver caso da Escola Base, no nosso próximo artigo), banindo o acusado do grupo antes do julgamento, obrigando a suportar a tortura psicológica e os assédios morais do cotidiano. Como nem todos conseguem suportar o “jogo” de forças de um julgamento de um tribunal, não raro o inocente opta pelo suicídio como forma última de libertar do sofrimento e recuperar a dignidade social.

Nesse sentido, vale a pena assistir preventivamente alguns filmes que discutem algumas conseqüências do ato delatório: As bruxas de Salem, Sindicato dos ladrões, A onda, Todos os homens do presidente – o Caso Watergate, Testa de ferro por acaso – de W. Allen, Dogville, Acusação… (veja lista no final). Os filmes sobre a máfia são interessantes para se refletir – e criar uma consciência preventiva – sobre as conseqüências psíquicas e sociais do dedurismo e da traição. O livro “O veneno da madrugada” de Gabriel Garcia Márquez, e filme, previsto para ser lançado em setembro/2005, de Ruy Guerra, embora seja ficção ajuda a refletirmos sobre o assunto. A trama envolve os moradores de uma pequena cidade ameaçados com bilhetes anônimos. Cada cidadão pode ser a próxima vítima. E cada um pode ser o autor dos bilhetes. Seria um alívio se tudo isso fosse apenas ficção…mas não é.

Artigo de RAYMUNDO DE LIMA






sábado, 3 de janeiro de 2015

Nove obras de arte nascidas no Gulag


Entre os milhares de presos políticos do Gulag (sigla russa de Administração Geral dos Campos de Trabalho Correcional), havia escritores, poetas, artistas e músicos, que secretamente continuaram entregues à sua criação. Era severamente proibido desenhar ou fazer apontamentos, ainda menos enviar os trabalhos para fora das prisões.
 A Gazeta Russa compôs uma lista das obras de arte mais significativas no campo de desenho, da música e da literatura criadas nos campos de trabalhos correcionais soviéticos, que por várias vias chegaram aos nossos dias.

“Vinte e Quatro Prelúdios e Fugas”, para piano, de Vsévolod Zaderátski

Este ciclo para piano foi composto por Zaderátski no campo de Kolimá do Gulag, entre 1937 e 1939. O filho do compositor recorda:

“Ele conseguia arranjar tempo e vários modos de anotar suas composições. Meu pai tinha uma ótima caligrafia, o que ajudou a preservar o que escreveu. Por vezes, os guardas lhe forneciam papel, já que o admiravam como contador de histórias.”

Setenta e cinco anos após terem sido compostas, no último dia 14, as obras de Zaderatski estrearam no Conservatório de Moscou.

Interpretação de Jascha Nemtsov:



Poemas e peças de teatro em versos de Aleksandr Soljenítsin

As obras que deram fama mundial a este escritor, “Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch” e “Arquipélago Gulag”, foram escritas depois de sua reclusão, que durou de 1945 a 1953, já que o regime a que esteve submetido impossibilitava a criação de grandes obras literárias. Mesmo assim, da prisão trouxe na memória, com a ajuda de pequenos bocados de papel e de um rosário por ele confeccionado, alguns poemas e peças de teatro: “Veredazinha”, “Prisioneiros” e “O Festim dos Vencedores”.

O próprio Soljenítsin, na Parte 5 de “Arquipélago Gulag”, escreveu que havia memorizado, durante o tempo de prisão, 12 mil versos rimados. Só após seu 80º aniversário o escritor decidiu publicar suas primeiras obras poéticas.
“Naquela altura, elas eram minha respiração, minha vida. Me ajudaram a sobreviver”, revelou.

“Cadernos de Kolimá”, de Varlam Chalamov

Chalamov foi condenado por duas vezes aos campos de trabalho correcional: de 1929 a 1932 (no norte dos Urais) e de 1943 a 1951 (no rio Kolimá, em condições ainda mais duras). Em 1949, tendo deixado os trabalhos penosos e ingressado num hospital-prisão, onde exercia funções de enfermeiro, começou a tomar nota dos poemas que, mais tarde, deram forma aos “Cadernos de Kolimá”.

Soljenítsin os leu em 1956, copiados clandestinamente e, como ele próprio disse, “tremeu de emoção, ao encontrar neles um irmão”. Boris Pasternak também reconheceu o valor dos “Cadernos”.

Na década dos 60, começaram a ser publicados os primeiros “Contos de Kolimá”. Na obra se descrevia, em toda sua verdade e crueza, a vida dos reclusos, o que isolou e alienou completamente o escritor do establishment literário.


“Cantigas Maliciosas”, de Guillaurme du Vintrais, obra inventada por Iúri Veinert e Iakov Kharon

Os cem sonetos foram compostos entre 1937 e 1947 no campo de Amur por dois intelectuais moscovitas que se esconderam atrás de um imaginado poeta francês do século 16, suposta personagem do círculo do rei Henrique 4º de França. Os sonetos são uma talentosa mistificação, um jogo literário evocando a paixão inspirada pelos romances de Alexandre Dumas e por “Cyrano de Bergerac”, de Rostand.

Se imaginarmos o ambiente terrível em que nasceu aquela poesia –descontraída, elogiando as mulheres, o vinho e, essencialmente, a honra e a liberdade–, percebemos de que se trata mais de uma proeza criadora do que de um jogo literário. A invenção foi iniciada por Iúri Veinert (cujo apelido ressoa o do poeta imaginário), que morreu na reclusão. Iakov Kharon viveu até 1972 e conseguiu que as “Cantigas Maliciosas” fossem editadas.

“A Rosa do Mundo”, de Daniil Andreiev

Filho de Leonid Andreiev, famoso escritor do chamado Século de Prata da literatura russa, Daniil cresceu no seio de uma élite intelectual, denotando desde novo uma inclinação para o misticismo.

Na prisão (1974 – 1957), viveu o episódio de uma intensa iluminação mística, o que o levou a formular uma doutrina filosófica e religiosa expressa na principal obra do autor, “A Rosa do Mundo”, não menos convincente do que as narrativas poéticas de William Blake ou o “Livro de Mórmon”, de Joseph Smith.

Há quem diga que o livro de Daniil Andreiev não originou uma religião nova só por ter sido proibido na URSS. A primeira edição saiu em 1991.



Cartas de Pável Florénski do Extremo Oriente e das Ilhas Solovétski

As cartas do sacerdote ortodoxo Pável Florénski à mulher, aos filhos e a amigos íntimos, redigidas desde que foi detido, em 1933, até ser fuzilado, em 1937, foram recolhidas e publicadas num livro no final dos anos 90.

Não se trata propriamente de uma obra literária; porém, graças aos conhecimentos variados e à forte personalidade do autor das epístolas (que era filósofo, poeta, teólogo, matemático e biólogo), mesmo que dirigidas a entes queridos, aquelas se converteram numa obra filosófica com princípio, meio e fim. E também num testamento.

Miniaturas de Mikhail Sokolov

Mikhail Sokolov (1885-1947) era, após a revolução de 1917, um dos pintores mais conhecidos de Moscou. Na década dos 30, porém, se tornou um marginal, já que suas obras, da escola impressionista, não cabiam nas restrições do “realismo socialista”.

Em 1938, se viu num campo de trabalhos correcionais situado na região de Kémerovo, na Sibéria, onde fazia pequenos desenhos em bocados de papel, por vezes até naqueles em que se embrulhavam balas.

Eram paisagens da taiga e retratos de seus companheiros de infortúnios, que enviava por correio para Moscou, onde provocavam grande admiração.

Atualmente, as miniaturas de Sokolov são o orgulho do museu das artes plásticas de Iaroslavl, cidade onde nasceu.

domingo, 27 de abril de 2014

Judeus na União Soviética (1917-1991)

"Rabbi: [abençoando o Czar] Que D'eus o abençoe e mantenha... longe daqui. "
O Violinista no Telhado



A participação judaica na revolução russa de 1917 foi notável – havia muitos judeus no alto escalão do Partido Bolchevique. Isto, no entanto não significava que a vida judaica melhoraria drasticamente em relação à época Czarista. Isso se deveu a muitos fatores, mas é importante salientar dois.
Primeiramente, os membros judeus do Partido Comunista eram apenas etnicamente judeus. Eles eram ateístas e inimigos da religião (considerando o judaísmo uma religião como outra qualquer).
Em segundo lugar, séculos de opressão sob o governo despótico do Czar não seriam esquecidos facilmente. Mesmo tendo a União Soviética adotado a explicação oficial de que o anti-semitismo era um instrumento das classes dominantes para direcionar o ódio que os trabalhadores e camponeses sentiam para os judeus, de que era uma tática política do regime czarista de explorar o fanatismo religioso, popularizar o odiado regime e desviar a atenção popular para um bode espiatório, houve episódios de repressão, mesmo que disfarçada.
Logo após o triunfo da Revolução, o Partido Comunista criou uma seção dentro de sua organização, a Yevsetskyia, a seção judaica do partido. O objetivo desta organização era destruir os partidos judaicos rivais, como o Bund e os partidos sionistas (o sionismo, visto como um nacionalismo, era desaprovado pelo comunismo), suprimir o judaísmo e incutir nos judeus a cultura do proletariado. Outra meta desta seção era mobilizar os judeus do mundo em favor do regime soviético.
Em 1919, a Yevsetskyia desmantelou as sedes dos partidos sionistas em Moscou e Petrogrado, fechou seus jornais e prendeu seus membros. No ano seguinte o Congresso Sionista Russo foi fechado pela Yevsetskyia e pela Cheka (polícia secreta comunista). 75 membros foram presos no local e milhares de membros foram presos por “atividade contra-revolucionária e compactuação com os interesses da burguesia Anglo-Francesa para restaurar o estado da Palestina”.
O Partido Comunista, sob a liderança de Stálin, estabeleceu que cada minoria dentro do território russo teria um lar, uma língua e uma cultura próprias. Considerou-se que a língua dos judeus russos era o Yidish e iniciou-se uma supressão ao Hebraico. Jornais deixaram de ser publicados, livros foram retirados de circulação. Isto se deveu também a uma tentativa de secularizar a educação que começara com Lênin, impedindo o uso do Hebraico (linguagem litúrgica).
Assim, em 1928, numa região remota do sul da Sibéria, foi criado o Oblast Autônomo Judaico, com o objetivo de combater o judaísmo e o sionismo (havia aliót ocorrendo na época). A idéia era criar uma Sião Soviética. Intensa propaganda foi feita e, de fato, vários judeus imigraram para Birobidzhan, capital da região, incluindo alguns que estavam insatisfeitos com a experiência sionista na Palestina. A Yevsetskyia foi extinta no ano seguinte.
Foram feitos esforços de russificar a cultura do local, notavelmente a tentativa de substituir o alfabeto hebraico usado na língua Yidish pelo cirílico, alfabeto usado na língua russa. Um dos objetivos do Oblast era, também, povoar a frágil fronteira com a China. Isso gerou uma contradição, pois a maior parte da população judaica vivia mais a Oeste, especialmente na Ucrânia e na Bielorrúsia. Inicialmente, existiram propostas de criar o Oblast na Criméia ou em parte da Ucrânia, mas estas propostas foram abandonadas por medo de criar antagonismos com os não-judeus vivendo na região.
O experimento fracassou e os judeus nunca foram mais de um terço da população na região. Ele foi abandonado após uma onda de expurgos por parte de Stálin. As lideranças judaicas foram presas e executadas e as escolas em Yidish foram fechadas.
Seria, no entanto, injusto dizer que a situação dos judeus não melhorou durante o regime soviético em relação à época do Czar. Até um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, 40% dos judeus tinham saído do shtetl e passado a viver em cidades maiores. Cessaram os pogroms. Pela lei, tinham direitos iguais aos dos outros cidadãos. O Pale de Assentamento havia sido extinto e isso, por acaso, salvou muitos judeus.
Quando foi assinado o Pacto Ribbentrop-Molotov, o Pacto de Não-Agressão Germano-Soviético, em 1939, mais suspeitas sobre o anti-semitismo do governo soviético surgiram. O pacto permitia a livre entrada das tropas nazistas na Polônia e estabelecia uma partilha deste país entre a Rússia e a Alemanha. A grande maioria dos judeus vivendo sob a área dominada pela Alemanha acabou morrendo. Uma parte foi fuzilada pelos Einsatzkommandos, grupos móveis de extermínio que acompanhavam a Wehrmacht (exército alemão) e a outra parte foi exterminada nos guetos e campos de concentração. Em Kiev, por exemplo, 33.000 judeus foram fuzilados na ravina de Babi Yar.
Quanto à parte que foi salva; muitas pessoas tinham se deslocado internamente na Rússia. As que tinham ido para cidades como Moscou e Leningrado salvaram-se dos nazistas. Estimativas dizem que 40% dos habitantes da região do Pale foram salvos devido a essas migrações. 200.000 judeus também morreram lutando pelo Exército Vermelho.
Após o fim da Guerra, a situação continuou tensa. A URSS votou a favor da partilha da Palestina em 1947 e foi o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel, acreditando que as lideranças de esquerda (Mapai, por exemplo, de Ben-Gurion) viriam a alinhar-se com a União Soviética contra a influência inglesa na região. Mais tarde, a URSS passaria a apoiar as nações árabes.
Em 1948, no entanto, o presidente do Comitê Judaico Anti-Fascista, organização criada em 1942 com o apoio das autoridades soviéticas que tinha o intuito de influenciar a opinião pública contra a Alemanha Nazista e conseguir apoio político e material para que a União Soviética lutasse contra esta, Solomon Mikhoels, foi morto num acidente de carro suspeito. Este Comitê havia se envolvido com a documentação do Holocausto após a Guerra e um pouco antes de seu fim, isso contrariava a posição oficial do governo soviético, que mostrava o Holocausto como atrocidades contra meros cidadãos soviéticos, sem reconhecer o genocídio do povo judeu, cigano, dos homossexuais, etc.
Seguiu-se intensa propaganda do estado contra os “cosmopolitas sem raízes”, muitas prisões de intelectuais judeus notáveis e supressão da cultura judaica. Em 1952, na noite do dia 12 para o dia 13 de Agosto, num episódio conhecido como Noite dos Poetas mortos, treze importantes poetas, escritores, atores e outros intelectuais judeus foram mortos. Em 1953 surgiu mais um problema, A Conspiração dos Médicos. Stalin afirmava que havia uma conspiração para assassinar as lideranças do Partido Comunista através de envenenamento, que seria levado a cabo por aqueles que ele chamava de “burgueses nacionalistas judeus corruptos”. Alguns historiadores dizem que esta maquinação de Stalin iniciaria uma nova onda de prisões e execuções e na deportação em massa dos judeus. No entanto, Josef Stalin morreu em Março de 1953 e, dias depois, a Conspiração dos Médicos foi classificada como boato pelo governo soviético.
Neste período, o Oblast Autônomo Judaico fracassou, devido à criação de Israel, da Conspiração dos Médicos e de uma onda de expurgos antes da morte de Stalin. Hoje, os judeus constituem apenas 1,2% dos pouco mais de 190.000 habitantes da região que, curiosamente, é maior que o Estado de Israel.
Mais tarde, com o estabelecimento da Guerra Fria e o posicionamento da URSS firmemente do lado dos países árabes contra Israel (considerada uma ferramenta utilizada por judeus e americanos para “imperialismo racista”), o anti-semitismo instalou-se na sociedade soviética. Judeus eram perseguidos como aliados do Ocidente por sua ligação com Israel. Várias organizações judaicas foram fechadas, com a exceção de algumas sinagogas, que foram postas sob vigilância policial. Muitos judeus não conseguiam entrar nas universidades, nos postos do governo, ser contratados para certos empregos...
Após a Guerra dos Seis dias, em 1967, muitos judeus russos começaram a nutrir um sentimento por Israel e desejaram ir para lá. A União Soviética não via com bons olhos, no entanto, uma emigração maciça. Como resultado, muitos judeus não conseguiam vistos de saída para Israel, a desculpa mais comum sendo a de que em algum momento estas pessoas tinham tido acesso a informações confidenciais e não poderiam deixar a União Soviética por questões de segurança.
Surgiram, então, os Refuseniks, pessoas a quem tinham sido negados vistos de saída. Principalmente, mas não apenas, judeus. Isso gerou um episódio curioso. Em 1970, um grupo de refuseniks (dois dos quais não eram judeus) preparou-se para seqüestrar um avião e desviá-lo para a Suécia. O grupo era liderado Eduard Kuznetsov (já havia estado na prisão por 7 anos) e tinha em sua formação Mark Dymshits, que havia sido piloto militar. Sob o pretexto de uma viagem para um casamento, eles compraram todas as passagens de um vôo local num avião com 12 assentos. Ao chegarem ao aeroporto, foram todos presos pelo Ministério do Interior.
O grupo foi acusado de alta traição, punível com a pena de morte pelo código legal soviético. Dymshits e Kuznetsov foram, de fato, condenados á morte, mas após pressão internacional, sua pena foi comutada para 15 anos de prisão. Os outros refuseniks foram condenados à prisão por períodos entre 4 e 15 anos.
Após o incidente, houve prisões e fechamento de centros de estudo judaicos. Ao mesmo tempo, condenações internacionais fizeram as autoridades do Partido Comunista elevar as cotas de emigração. Na década de 60, apenas 4.000 pessoas haviam deixado a URSS. Na década seguinte, foram 250.000 pessoas. No começo quase todos que conseguiam vistos de saída da Rússia faziam aliá. A partir da metade da década de 70, esta situação começou a mudar e muitas pessoas iam para outros lugares, principalmente os EUA. Em 1989, um recorde: 71.000 vistos de saída foram requeridos para Israel e apenas 12.117 destes fizeram aliá.

Outro caso importante é o de Anatoly Sharansky¹. Depois de ter sido negado um visto de saída da União Soviética em 1973, trabalhou com o dissidente Andrei Sakharov em prol dos direitos humanos. Foi um dos líderes dos refuseniks, tendo sido co-fundador do Grupo de Observação de Helsinki de Moscou, que pretendia monitorar os direitos humanos na União Soviética. Preso em março de 1977 e condenado em julho de 1978 nas acusações de traição e espionagem. Ele foi sentenciado a 13 anos de trabalho forçado. Depois de passar por um campo de trabalhos forçados na Sibéria, foi trocado, em 1986, por dois espiões soviéticos. Famoso por sua resistência no Gulag (campo de concentração russo), ao ouvir que poderia andar reto em direção a sua liberdade, em um último ato de desafio, andou em ziguezague. Sharansky emigrou para Israel adotou o nome de Natan, pelo qual é conhecido agora e fundou, em 1995 um partido político de direita, o Israel B’Alyiah, que também ajuda os imigrantes russos.

A partir de 1985, já estavam em curso a Perestroika e a Glasnost de Gorbatchov, o Muro de Berlim caía em 1989, a Guerra Fria vertiginosamente acabava e em 1991 se dissolvia a URSS.

Fonte

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Pacto Molotov-Ribbentrop e o cinismo soviético


Se tem uma coisa que o governo soviético soube fazer muito bem era propaganda de si mesmo e sistemática adulteração dos acontecimentos históricos. Astutos como rapozas, parece que não deixavam um único evento de lado sem ver nele a oportunidade de se promover. Até mesmo um ato de pura agressão se transformava, pela máquina de propaganda stalinista, como o mais notável ato de caridade.
Alguns detalhes do pacto Molotov-Ribbentrop foi exemplo disso.
O Pacto Molotov-Ribbentrop foi um acordo de não agressão firmado pouco antes do começo da Segunda Guerra Mundial entre a Alemanha Nazista e a União Soviética.
Depois da Polônia ser vencida pela Alemanha em 1939 de forma trucidante (evento conhecido como Blitzkrieg) dezasseis dias depois a Rússia entrou na história afirmando que atacaria a Polônia, surpreendendo a todos.
A coisa toda fora decidida com antecedência nas cláusulas secretas do pacto nazi-soviético, que revelava a real intenção das duas partes que era partilhar a Polônia e dividir a Europa Oriental em esferas de influência Soviética e Alemã.
Os documentos do texto-resposta russo sobre os ataques alemães e sua entrada na Polônia estão documentados nos Documentos sobre a Política Exterior da Alemanha, arquivos do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha.
O interessante nessa história é notar como o pacto de não agressão soviético-polonês (ou Tratado de Riga), firmado depois da Guerra Polaco-Soviética foi totalmente revogado sobre o pretexto de que a Polônia simplesmente deixara de existir. A agressão soviética, então, seria justificada moralmente; Eles aproveitariam esse "terrível acidente do destino" para proteger seus próprios interesses, alegando se preocupar com o bem-estar das minorias de ucranianos e russos brancos que corriam risco com a ronda nazista no país recém-ocupado. A URSS chegava ainda, cinicamente, a pronunciar que se manteria em estrita neutralidade no conflito com a Polônia! Conflito que ela e a Alemanha premeditaram com antecedência!
A insistência em fazer esse ato de agressão a um país já derrotado e prostrado num ato "neutro" e até mesmo "solidário" mostra o quanto a URSS tinha muita habilidade em mentir descaradamente Mesmo os pontos mais negativos de sua história transfiguravam-se, nas declarações oficiais, numa aparência reversa, positiva, para o mundo ainda reconhecer neles como grandes representantes dos povos e defensores de pátrias oprimidas.

Segundo o correspondente alemão na época, Schulenburg, Molotov justificava o estratagema russo da seguinte forma:

"(...) o Estado polonês desintegrava-se e não existia mais; em consequência, todos os acordos concluidos com a Polônia ficaram nulos; outras potências talvez tentassem aproveitar-se do caos surgido. O governo soviético considerava-se obrigado a intervir, a fim de proteger seus irmãos ucranianos e russos brancos e possibilitar a esse infeliz povo trabalhar em paz".

Cínicos.

Obviamente Schulenburg fez objeções. Molotov admitiu que os argumentos do governo soviético encerravam uma nota que feria a sensibilidade dos alemães, mas pediu-os, dada a difícil situação do governo soviético naquele momento, que não se ofendessem por "uma coisa assim insignificante".


Conquanto fossem cúmplices da Alemanha Nazista no crime contra a Polônia e, ao mesmo tempo, a URSS sentia necessidade de mostrar ao mundo que eles ainda eram paladinos dos oprimidos e que aquilo era um ato da mais pura bondade e solidariedade com os povos era necessário um comunicado.
Como a Alemanha Nazista e a URSS foram sócias no evento esse comunicado teria que ser, infelizmente para eles, elaborado em conjunto. A versão alemã do documento  foi censurada por Stalin pois "apresentava os fatos co demasiada franqueza". A franqueza, a verdade, se tornaram grandes inimigas do governo soviético.
A obra foi reescrita e é descrita pelo historiador William L. Shirer (autor do livro Ascensão e Queda do Terceiro Reich) como uma "obra-prima de subterfúgios".

Não raro, ainda encontramos propagandistas e promotores das "obras-primas" contadas nas linhas soviéticas.

Gabriel Vince

domingo, 7 de agosto de 2011

Cartazes Soviéticos

Vinculado a um movimento artístico de vanguarda, o construtivismo, o partido comunista russo elaborou diversas propagandas politicas que valorizavam o trabalho, o estudo, o patriotismo e até mesmo educação moral e noções básicas de higiene (típicas de um regime totalitarista).
Veja alguns trabalhos.

Amem a Pátria

A noite não atrapalha o trabalho!

A pátria-mãe chama!

Apoiamos a política do partido!

Avante aos novos sucessos no trabalho e estudo!

É necessário trabalhar - A arma está ao lado

E nós seremos pilotos!

Estudem o grandioso caminho do partido do Lenin-Stalin

Eu não faço isso nunca

Fofocar ajuda o inimigo

Guerra patriótica!

Honra e respeito ao médico rural!

Juro vencer o inimigo!

Morte ao imperialismo mundial!

Não!

Não minta nunca!

Não se atreva!

Nós conquistamos a felicidade para nossas crianças

Nós exigimos paz!

Nós transformando os desertos em terras prósperas
Eles transformaram as cidades e vilas em deserto

O conhecimento romperá as correntes da escravidão

O inimigo é traiçoeiro - Esteja atento!

O seu ganho é de acordo com o seu trabalho

Os felizes nascem sob a estrela soviética

Pão para a pátria!

Para a felicidade do povo!

Para o alto a bandeira do internacionalismo proletário

Se quer ficar assim treine!

Servimos o povo!

Se você não ler os livros esquecerá as letras

Sovietes e eletrificação são a base do novo-mundo!

Tudo para a vitoria das mulheres soviéticas para o front!

Vá para o banho depois do trabalho!

Venceremos a seca também

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Debate: Existe algo em comum entre o Socialismo e o Nazi-Fascismo ?

"Tal é nossa tarefa como Nacional-Socialistas. Nós fomos os primeiros a reconhecer as conexões, e os primeiros a começar a luta. Porque somos socialistas, sentimos primeiro as maiores bençãos da nação e porque somos nacionalistas quisemos promover a justiça socialista na nova Alemanha."
(...)
"Somos socialistas porque vemos a questão social como uma questão de necessidade e justiça para a própria existência de um estado para nosso povo e não como uma questão para piedade barata e sentimentalismo humilhante. O trabalhador tem direito a um padrão de vida que corresponda ao que produz."

Die verfluchten Hakenkreuzler. Etwas zum Nachdenken (1932)

Debatedor 1
Gostaria de propor um discussão acerca da relação existente entre o naz-fascismo, considerado pelo senso comum de extrema-direita, e a esquerda socialista.
Associa-se muito os regimes totalitários do nazi-fascismo como, supostamente, um regime totalitário capitalista, mas até que ponto isso é verdade ?
Não seriam fascismo, nazismo e socialismo frutos do mesmo tipo de pensamento econômico ?

Primeiramente queria fazer uma breve definição do capitalismo.
Bem, por definição, capitalismo nada mais é que um sistema econômico no qual a maior parte da vida econômica, particulamente o investimento em bens de produção e sua propriedade se desenvolvem em caráter privado, não-governamental, através de um processo de concorrência econômica, tendo o incentivo o lucro. Infere-se dessa definição que, o capitalismo é individualista, pois expressa a liberdade do indivíduo frente ao coletivo.
Em contraponto ao capitalismo, temos o socialismo que é a teoria ou política que defende a posse ou o controle dos meios de produção – capital, terra, propriedade etc. – pela comunidade em conjunto, e a sua administração no interesse de todos.
O socialismo é a contradição perfeita do capitalismo, uma teoria coletivista, ou seja, o coletivo está a frente do indivíduo.

Estudando bem o Fascismo na Itália percebemos alguma coisas interessantes nesse regime.
Primeiramente ele é caracterizado por uma doutrina política totalitária, com expressão forte de nacionalismo e corporativismo.
Os fascistas diziam se opor tanto ao capitalismo quanto ao socialismo. Mas, em relação aos socialistas, os fascistas partem de uma premissa em comum, colocando o coletivo à frente do indivíduo.

Mussolini escreveu o seguinte:

"Fora do Estado não pode haver nem indivíduos nem grupos (partidos políticos, associações, sindicatos, classes).  Então o fascismo opõe-se ao Socialismo, que confina o fluxo da história à luta de classes e ignora a unidade de classes estabelecida em uma realidade econômica e moral do Estado." 
Doutrina do Fascismo, 1932.

Os Fascistas rejeitavam a luta de classes marxista e da estatização dos meios de produção,
Entretanto, há semelhanças imensas entre os sistemas no que diz respeito a sistema econômico.
O corporativismo fascista colocava o controle da produção nas mãos do Estado, ou seja, do coletivo; apesar da manutenção da propriedade privada dos meios de produção, a produção serve aos interesses do Estado. De tal forma que, aparentando ser privado, de fato, os meios de produção são controlados pelo Estado.

Logo, há algo confuso em considerar as teorias nazi-fascistas completamente opostas às teorias socialistas. Onde entra o capitalismo nesse espectro ideológico ?
Ambas as tendências políticas, direita e esquerda, são coletivistas, onde pode entrar o capitalismo individualista ?

Na verdade, fascismo e socialismo-marxista não são teoria tão opostas, na prática, são teorias irmãs. Ambas são filhas do mesmo pai: o coletivismo. São semelhantes de tal forma que se opõem completamente, ao mesmo tempo, ao capitalismo liberal e individualista.

Debatedor 2
Teorias irmãs ?  Desculpa, mas você só pode estar de brincadeira!
Pare entender o Marxismo é preciso entender os fundamentos do materialismo histórico e dialético, de Marx e Engels. Vamos determinar alguns pontos que podem ajudar a você distanciar o que é uma política coletivista e "semi-coletivista".
Vamos lá.
Fascismo socializou os meios de produção? Resposta: Não.
O Fascismo assumiu a consciência de classe dos trabalhadores e com isso a ideologia dos explorados contra a burguesia italiana ? Resposta: Não.
O Fascismo extinguiu a propriedade privada ?
Resposta: Não.
O Fascismo assumiu postura anti-racista e anti-discriminação de minorias ou respeitou as minorias ou até mesmo a soberania e existência de outros povos?  Resposta: Não.
O Fascismo defendeu o internacionalismo ? Resposta: Não.
Na teoria, não há como fazer um paralelo do socialismo marxista com o fascismo.

Debatedor 1
O fascismo não declarou a socialização os meios de produção, mas também não manteve plenamente a propriedade privada.
A teoria não extingue o fim da propriedade privada dos meios de produção, ao mesmo tempo que toda produção era subserviente ao Estado e devia servir totalmente ao social.

As vezes nos prendemos a distinções de palavras que na prática definem a mesma coisa.
O que imperava na Itália era o sistema político corporativista.
De acordo com seus postulados o poder legislativo é atribuído a corporações representativas dos interesses econômicos, industriais ou profissionais, nomeadas por intermédio de associações de classe, que através dos quais os cidadãos, devidamente enquadrados, participam na vida política.

Seu discurso, que propugnava a eliminação da luta de classes em prol de um modelo de colaboração entre elas, era entretanto firmemente ancorado nas concepções e na doutrina social e econômica do Marxismo.
A ênfase nas negociações coletivas e na intermediação política dos conflitos com a participação de sindicatos e representantes estatais caracteriza este meio de organização das relações entre empresários e trabalhadores.
Embora a propriedade privada dos meios de produção tenha sido nominalmente preservada, esta extensiva intervenção do estado na sociedade capitalista industrial significou o declínio da doutrina liberal nos países onde foi adotada.
Ela representou igualmente o ressurgimento de um tipo de organização da sociedade análogo ao que vigorara na Idade média e durante o período Mercantilista, em que o direito ao trabalho era regulado por guildas, e que fora justamente superado pelo triunfo das ideias liberais nos séculos XVIII e XIX.

Os Fascistas rejeitavam a luta de classes, em prol da conciliação de classes. Porque para eles não importa a classe, o que importa é a nação, a fidelidade deve ser à nação.
Mas, assim como os socialistas, os fascistas também têm a utopia do fim das classes sociais. De uma forma diferente: querem o fim das classes por meio da obediência total ao Estado. Não haverá classes, e sim uma massa. Fazendo uma anologia, um exército, onde todos são soldados, mesmo os de mais alta patente.

Debatedor 2
Entenda uma coisa, é falsa a idéia de que o Estado que intervem na economia é socialista.
Isso é uma liusão já que todas as economias capitalistas dependem do estado.
Hitler e Mussolini defendiam a propriedade privada como bem inalienável, o que fazem deles qualquer coisa, menos socialistas.
E as mais de 3000 empresas que lucraram com o nazismo e fascismo, inclusive usando trabalho escravo de judeus e comunistas ?

Debatedor 1
Manteve a propriedade privada, assim como o socialismo. O socialismo não quer o fim da propriedade privada, quer o fim da propriedade privada dos meios de produção.
E, os meios de produção no fascismo não são privados. Nem estatizados. São corporativizados, servindo totalmente aos interesses do Estado.
Ao invés da fidelidade à classe, proposta no socialismo, eles propuseram a fidelidade ao Estado, à nação.
De uma forma ou de outra, não poderiam ser considerados capitalistas.

Debatedor 2
Meu amigo, discurso político é uma coisa e prática política eh outra bem diferente.
Hitler era um homem inteligente, ele sabia que para conseguir o apoio maciço das massas ele tinha que "usar" medidas que favoreciam o povo: tanto é que nazismo significa nacional socialismo, apesar de Hitler odiar Marx.
Hitler sabia que não chegaria (Mussolini também) a lugar nenhum sem o apoio do povo!
Leia os historiadores, tanto de esquerda quanto de direita, depois tire suas próprias conclusões.

E o socialismo é uma fase de transição para o comunismo. Existiu sim, de fato, na URSS, propriedade privada nos primeiros anos do socialismo. Mas a idéia central do socialismo é que essa propriedade aos poucos vá sendo coletivizada e, consequentemente, a administração dos meios de produção e distribuição de bens e dessa sociedade comece a ser caracterizada pela igualdade.
Diferente do capitalismo onde igualdade não existe.
Identificar nazismo, fascismo com socialismo é uma idéia absurda e muito difundida pela burguesia, que ao invés de reconhecer a sua cria e tenta atribuir ao marxismo.
Não importa o quanto o Estado intervenha na economia nem o quanto ele tome o partido dos sindicatos em benefício próprio: entenda uma coisa, onde quer que haja uma burguesia - patrocinada ou não - se aproveitando do trabalho alheio - "apadrinhado" ou não - há capitalismo.
Todos os recursos econômicos utilizados pelo fascismo/nazismo que desviam o sistema do laissez-faire não o mudam e nem intentam mudá-lo.
Ao contrário, de forma inocente ou proposital, o protegem.

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