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sábado, 11 de julho de 2015

Delação e denúncia: usos à direita e à esquerda


"Escuta, Zé Ninguém: a miséria da existência humana é visível à luz de cada um destes pequenos horrores. Cada acto mesquinho teu faz retroceder de mil passos qualquer esperança que possa restar quanto ao teu futuro”.
Wilhelm Reich

“Não se ensinam os homens a serem honestos, mas ensina-se tudo o mais.” 
Pascal

As democracias podem ser imperfeitas, mas as ditaduras são monstruosas. Como não suportam a pluralidade das opiniões e as críticas que clamam por liberdade, as ditaduras facilmente inventam bruxas para justificar o regime de exceção. Nelas, muita gente inocente foi queimada com brasas de constrangimentos e torturas até à morte, a partir de uma acusação ou delação anônima.

Cony observa que “durante o regime militar, tivemos uma excelente safra de dedos-duros. Alguns exerciam a função gratuitamente, não pretendiam prêmios nem vantagens, delatavam por amor à arte de delatar. Outros, certamente a maioria, delatavam para ganhar alguma coisa: penas menores em certos casos, dinheiro vivo em outros” (Cony, C. H. FSP, 18/08/2005)

Nessa época, o cantor Wilson Simonal, no auge de seu sucesso, foi “queimado” pelo meio artístico como dedo-duro, porque supostamente teria servido aos órgãos de repressão do regime militar. Embora tenha sido absolvido num julgamento simbólico da acusação de ter atuado como delator durante o Regime Militar, o referido cantor morreu com essa nódoa na sua imagem de cidadão e artista.

Há ainda o nebuloso Cabo Anselmo, considerado um “denunciador” pelos militares de direita e “delator” pelos militantes de esquerda. Essa diferença foi feita no nosso artigo anterior.  Podemos simplificar esta distinção da seguinte maneira: a delação é uma acusação condenatória contra alguém ou cúmplice, por vingança, interesse pessoal ou para aliviar o medo das pressões e ameaças de um grupo corporativo; já o que move a denúncia não é a vingança, nem o interesse pessoal, mas sim, o desejo de fazer o bem para um ser (humano ou animal) que sofre algum tipo de violência. Nesse sentido, a denúncia visa beneficiar a coletividade ameaçada ou refém de um criminoso ou grupo transgressor da lei. Delata-se um colega (como revela o conto de Machado de Assis), ou um companheiro de luta política, um cúmplice, mas denuncia-se um pedófilo, um torturador, um seqüestrador, um terrorista, um narcotraficante, etc.

A história do Brasil está marcada de anti-heróis como Silvério dos Reis, o delator dos conjurados que lutavam para libertar o Brasil de Portugal, dentre os quais, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que dignamente passou para nossa história como o mártir da independência.  Silvério dos Reis foi associado pelo imaginário popular à figura bíblica de Judas, e Tiradentes foi associado à imagem de Jesus.

Seria exagero considerar que a história da humanidade é uma história não contada sobre as delações e delatores que ficaram no anonimato? Assim como a tradição dos estudos de história despreza a investigação do cotidiano (Heller, 1992; 2002) privilegiando o papel das revoluções e dos heróis, somente uma história ‘nova’ poderia investigar os indícios e motivos que levaram alguns optarem pela delação e traição, influenciando desse modo o destino dos homens do poder, justificando seu gesto em nome de uma elite, ou de um povo ficcionado, ou, ainda, visando servir a “construção de uma realidade delirante” (Castoriadis, 1987: 207-224), onde é inevitável a difusão da paranoia social. (Os estudos sobre a “Psicologia de massa do fascismo” [W. Reich], a “personalidade autoritária” [T. Adorno], e a “mentalidade fascista” [I. Carone] elucidam algumas das motivações da delação, bem como convida-nos a uma atitude preventiva sobre o “que fazer” para construir uma sociedade com menos infâmia).

Delação-denúncia à esquerda e à direita


A delação sempre foi um poderoso instrumento de sustentação dos regimes totalitários. O nazi-fascismo usou criminosos e mesmo pessoas de bem para criar um clima de medo e de paranoia. O totalitarismo soviético – principalmente no período do “homem de ferro” J. Stalin – fez da delação uma obrigação moral dos cidadãos que eram estimulados a colaborar para o “triunfo do socialismo”. A famosa ditadura “do” proletariado passou a ser a ditadura “sobre” o proletariado, observou Karl Korsh [1886-1961]. No período stalinista os segredos não eram confiados a ninguém com medo de ser denunciado aos órgãos repressivos, com ou sem razão; as pessoas evitavam criticar a gestão socialista que gerava imensas filas, desabastecimento, maquiagens das estatísticas do governo, os privilégios dos burocratas do Partido Comunista, a arrogância e descaso dos funcionários públicos da nova ordem proletária. Talvez o caso mais emblemático foi o garoto Pavlik Morozov transformado símbolo exemplar do stalinismo, com estátuas erguidas pelo país por ter denunciado o próprio pai como traidor dos ideais socialistas e “inimigo do povo”.

Também nos EUA, após a 2ª. Guerra, o período conhecido de “caça às bruxas”, imposto pelo senador McCarthy, levou o país a uma onda de delação de qualquer pessoa suspeita de atividades consideradas “anti-americanas” ou “comunistas”.  O cineasta Elia Kazan, por exemplo, seria lembrado na história do cinema mais como delator dos artistas do que pelos filmes interessantes que realizou (ver, abaixo). Em 1999 quando o velho cineasta foi a Academia receber o Oscar pelo conjunto de sua obra, o público ainda demonstrava ressentimento pela sua atitude no passado, não se levantando e nem o aplaudindo.

Em 1951, o casal de cientistas judeus nova-iorquinos, Julius e Ethel Rosenberg, também foram vítimas do denuncismo macarthista. O casal foi acusado, julgado e condenado à morte por ter supostamente roubado e entregue para a União Soviética segredos sobre a bomba atômica desenvolvida pelos cientistas norte-americanos. A execução fatal aconteceu em 1953, sob protestos no mundo todo.

Na mesma época, por conta da Guerra Fria, o químico Linus Pauling (1901-1994), que fez campanha contra os testes nucleares, foi difamado tanto nos EUA como “insuficiente anticomunista”, como também na União Soviética, com o pseudo-argumento de que as ideias do cientista foram consideradas incompatíveis com o materialismo dialético.

Após a reunificação das duas Alemanhas, um dos grandes problemas foi exatamente o serviço secreto da Alemanha Oriental ou Socialista – o STASI. Por quê? Pelo fato de que virou instituição, com muitas informações e muitos informantes prontos para acabar com a vida social de qualquer cidadão. “Houve casos em que maridos relatavam para o serviço secreto todos os passos da esposa. Amigos contavam segredos de amigos. Para se ter ideia de como a coisa era nojenta, os arquivos ou dossiês (que não foram queimados) contando a vida das pessoas foram liberados para visitação. O que significava que a pessoa poderia descobrir quem ‘dedou’ ela. Foi tanto casamento sendo desfeito por conta disso que passaram a avisar do perigo ‘você pode se arrepender de descobrir a verdade’”.

Ou seja, um Estado considerado “policial” acha que tem o direito de controlar tanto a vida pública dos indivíduos como suas próprias vidas íntimas por meio de uma rede de dedos-duros prontos, muitas vezes voluntários que se prestam para servir a “Pátria”, o “povo” a “causa x”, abolindo dessa força a própria distinção entre o que é domínio público e o que é privado. Por isso que H. Arendt conceitua o totalitarismo de “mal absoluto” e C. Castoriadis prefere chamar de “monstruoso”, porque é um regime político que produz crimes “que o homem não pode punir nem perdoar” e em escala inimaginável”.

Por mais imperfeita que seja, a democracia – que alguns com vocação autoritária desqualificam de democracia “burguesa” – tem a virtude de garantir um mínimo de debate, de respeito para com a pluralidade das opiniões, e de investigação, para esclarecer denúncias, averiguar a motivação das acusações, que, quando provadas, cabe a justiça exercer o poder de punir os responsáveis.

O delator é vítima do sistema ou é responsável por sua escolha pessoal?


A delação em si mesma não é um ato moral porque não visa o bem coletivo, como já foi dito anteriormente.  Também não faz parte da natureza humana ser delator, embora certas ‘condições’ possam pressionar estruturas psíquicas mais frágeis de encontrarem saída nesse tipo de ato, como forma de sobrevivência.

Jean-Paul Sartre (1978) observa que qualquer sujeito humano é livre para escolher ser covarde ou herói. Usando a mesma linha de raciocínio podemos também dizer que somos livres para escolher delatar ou não, denunciar ou não. Assim como o covarde se faz covarde e o herói se faz herói, também o delator se faz delator, isto é, se o sujeito escolheu ser delator por motivo de vingança, inveja, ou para se safar de uma pressão do grupo ou agradar um chefe, somente ele é responsável pela sua escolha. Nos campos de concentração nazista os que escolheram, eticamente, resistir até o limite de suas forças físicas e psicológicas preferiram pagar com sua vida para não entregar os companheiros. É verdade que a violência – a tortura – tem poder para forçar alguém a dizer coisas contra a sua vontade, ou seja, depende da estrutura psíquica e da formação moral da vítima. Nietzsche dizia que, nesses casos, o veneno que não chega a matar pode fortalecer o caráter.

Muitos delatores não são más pessoas, mas personalidades que fraquejam diante de pressões, ameaças e promessas disso ou daquilo. Muitas delações foram e continuam sendo praticadas em nome de causas justas e injustas como a “liberdade democrática”, a “causa proletária”, a “revolução cultural’, a “supremacia da raça ariana”, os “valores corretos”, a “moral e os bons costumes”, a “guerra santa”, e até de “Deus”. “O futuro de uma ilusão” (Freud), o autoengano e a “razão cínica” são mecanismos psíquicos recorrentes pelos sujeitos convictos de que seu ato é legitimo ou moral.

Parece que o pior delator é o delator moralista e cínico, porque faz desse seu ato infame um fundamento de moral coletiva. O delator cínico se assemelha ao fundamentalista religioso ou laico, porque interpreta a moral literalmente; ele confunde moral e ética, e, entende que “vale tudo” para fazer impor a “sua” idéia de moralidade para todos, custe o que custar.

Tal como a Fênix, a onda denuncista ou dedurista sempre renasce das cinzas, numa espécie de transe coletivo, causando efeitos danosos nos inocentes, destruindo famílias, amizades e empreendimentos (ver caso da Escola Base, no nosso próximo artigo), banindo o acusado do grupo antes do julgamento, obrigando a suportar a tortura psicológica e os assédios morais do cotidiano. Como nem todos conseguem suportar o “jogo” de forças de um julgamento de um tribunal, não raro o inocente opta pelo suicídio como forma última de libertar do sofrimento e recuperar a dignidade social.

Nesse sentido, vale a pena assistir preventivamente alguns filmes que discutem algumas conseqüências do ato delatório: As bruxas de Salem, Sindicato dos ladrões, A onda, Todos os homens do presidente – o Caso Watergate, Testa de ferro por acaso – de W. Allen, Dogville, Acusação… (veja lista no final). Os filmes sobre a máfia são interessantes para se refletir – e criar uma consciência preventiva – sobre as conseqüências psíquicas e sociais do dedurismo e da traição. O livro “O veneno da madrugada” de Gabriel Garcia Márquez, e filme, previsto para ser lançado em setembro/2005, de Ruy Guerra, embora seja ficção ajuda a refletirmos sobre o assunto. A trama envolve os moradores de uma pequena cidade ameaçados com bilhetes anônimos. Cada cidadão pode ser a próxima vítima. E cada um pode ser o autor dos bilhetes. Seria um alívio se tudo isso fosse apenas ficção…mas não é.

Artigo de RAYMUNDO DE LIMA






domingo, 16 de fevereiro de 2014

A primeira fase do terror Nazista na Polônia

Não haviam decorridos muitos dias, após o ataque contra a Polônia, já meu diário acumulavam anotações sobre o terror nazista no pais conquistado. Mais tarde se saberia que muitos outros diários estavam também repletos delas. Em 19 de outubro, Hassel relatou ter tido notícias sobre os "chocantes atos bestiais praticados pela S.S., especialmente contra os judeus". Pouco tempo depois, ele registrava um fato narrado por um proprietário de Posen.

A última coisa que tinha visto fora um chefe distrital do partido, bêbado, que ordenara que se abrissem as portas da cadeia; ele atirou contra cinco meretrizes e tentou violentar outras duas.

Em 18 de outubro, Halder anotou no diário os pontos principais de uma conversa que teve com o general Eduard Wagner, chefe do serviço de intendência do exército, que conferenciara com Hitler nesse dia, acerca do futuro da Polônia.
Esse futuro seria cruel.

Não pretendemos reconstruir a Polônia (,,,) Não para ser um Estado modelo segundo os padrões alemães. Deve-se impedir que a classe culta se estabeleça como classe dirigente. Deve-se manter um baixo padrão de vida. Escravos baratos (...)

Cumpre fazer uma desorganização total! O Reich dará ao general-governador os meios para executar esse plano diabólico.

O Reich os deu.
Pode-se fazer agora um breve relato do começo do terror nazista na Polônia, conforme revelam os documentos capturados aos alemães e as provas apresentadas nos vários julgamentos realizados em Nuremberg, Era apenas um precursor de atos atrozes e tenebrosos que os alemães eventualmente iriam infligir a todos os povos conquistados. Mas, do primeiro ao último, mais que em qualquer outro lugar, o pior foi na Polônia. Ali, o barbarismo nazista atingiu uma incrível profundidade.
Pouco antes de ser desfechado o ataque contra a Polônia, Hitler informou os generais, na conferência de Obersalzberg, em 22 de agosto, que iam acontecer coisas que "não seriam do agrado dos generais alemães" e preveniu-os de que "não deveriam interferir em tais questões e sim limitar-se a seus deveres militares". Sabia do que falava. Este autor logo ficou assoberbado, tanto em Berlim como na Polônia, de relatórios sobre massacres nazistas. O mesmo se dava com os generais. Em 10 de setembro, com a campanha da Polônia em livre curso, Halder anotou em seu diário um exemplo que logo se tornou conhecidíssimo em Berlim. Alguns brutamontes pertecentes ao regimento de artilharia das S.S., tendo feito cinquenta judeus trabalharem o dia todo no serviço de reparo de uma ponte, levaram-nos depois para uma sinagoga e, segundo as próprias palavras de Halder, "massacraram-nos". Até o general von Küchler, comandante do 3º Exército, que mais tarde iria ter suas apreensões, recusou-se a confirmar as leves sentenças que a corte marcial aplicou contra os criminosos - um ano de prisão -, alegando que o tribunal tnha sido muito benevolente. Mas o comandante-em-chefe do exército, Brauchitsch, revogou-as completamente, depois da intervenção de Himmler, com a escusa de que havia sido dada uma "anistia geral'.
Os generais alemães que se tinham na conta de sinceros cristãos, acharam a situação embaraçosa. Em 12 de setembro, houve uma conferência no vagão ferroviário do Füher, entre Keitel e o almirante Canaris, que protestou contra as atrocidades na Polônia. O lacaio-chefe do OKW respondeu rispidamente que "o Füher já tinha tomado decisão nesta questão". Se o exército "não quisesse participar dessas ocorrências, teria que aceitar as S.S. e a Gestapo como rivais" - isto é, teria que aceitar os comissários das S.S. em cada unidade militar "para levar efeito as execuções".

Assinalei ao general Keitel [escreveu Canaris no seu diário que foi exibido em Nuremberg] que se arquitetavam execuções e grande escala na Polônia, especialmente da nobreza e do clero. O mundo, eventualmente, haveria de responsabilizar a Wehrmacht por esses atos.

Execução pública do clero católico na Polônia
Execução pública do clero católico na Polônia


Himmler era demasiado esperto para deixar que os generais se esquivassem de parte da responsabilidade. Em 19 de setembro, Heydrich, seu principal assistente, fez uma visita ao Alto-Comando do exército e informou ao general Wagner dos planos das S.S. para "limar a casa, dos judeus (poloneses), da classe culta, do clero e da nobreza". A reação de Halder a tais planos foi registrada no seu diário depois da informação que lhe prestou Wagner:

O exército insiste em que a "limpeza da casa" seja protelada até que ele se tenha retirado e o país seja confiado à administração civil. Princípio de dezembro.

Esse breve registro do chefe do Estado-maior geral fornece a chave para compreender a moral dos generais alemães. Não se oporiam seriamente à "limpeza da casa" - isto é, à eliminação dos judeus poloneses, da classe culta, do clero e da nobreza. Pediriam simplesmente que fosse protelada até que tivessem saído da Polônia, podendo, assim, fugir à responsabilidade. E, naturalmente, tinha que se considerar a opinião pública do estrangeiro. Como Halder anotou em seu diário, no dia seguinte, após demorada conferência com Brauchitsch sobre a limpeza na Polônia:

Nada deve acontecer que proporcione aos países estrangeiros oportunidade de desencadear qualquer espécie de propaganda sobre atrocidades baseadas em tais acidentes. O clero católico! Impraticável neste ocasião.

No dia seguinte, 21 de setembro, Heydrich enviou ao Alto-Comando do exército uma cópia de seus planos iniciais para a "limpeza da casa". Como primeiro passo, os judeus deveriam ser transportados para as cidades (onde seria fácil cercá-los para seu extermínio). "A solução final", declarou ele, levaria algum tempo para ser atingida e devia ser mantida "estritamente secreta", mas nenhum general que tenha lido o memorando confidencial podia ter duvidado de que a "solução final" era o extermínio. Decorridos dois anos, quando chegou a ocasião de executá-la, tornou-se um dos nomes mais sinistros do código empregado pelos altos funcionários alemães a fim de ocultar um dos mais horríveis crimes praticados pelos nazistas durante a guerra.
O que restou da Polônia, depois que a Rússia se apoderou de seu quinhão a leste e a Alemanha anexou formalmente suas antigas províncias e alguma parte adicional do território a oeste, foi designado por um decreto do Füher, de 12 de outubro, como o governo geral da Polônia. Hans Frank foi nomeado governador-geral, sendo seu representante Seyss-Inquart, o quisling vienense. Frank era o exemplo típico do facínora intelectual nazista. Ingressara no partido em 1927, logo depois de se formar na faculdade de direito, e adquirira rapidamente renome como orientador jurídico do movimento. Sagaz, enérgico, muito lido não só em direito como em literatura geral, apreciador das artes, especialmente da música, tornou-se uma força na profissão de advogado depois que os nazistas assumiram o poder. Serviu primeiro como ministro da Justiça da Baviera, depois como ministro sem pasta do Reich e presidente da Academia de Direito e da Associação dos Advogados Alemães. Uma figura morena, elegante, pai de cinco filhos, sua inteligência e cultura contrabalançaram em parte seu primitivo fanatismo e até esse tempo fizeram-no um dos menos repulsivos elementos que cercavam Hitler.
Por trás desse verniz de civilizado, porém, estava o assassino frio. O diário de 42 volumes que manteve de sua vida e de sua obra, exibido em Nuremberg, foi um dos mais estarrecedores documentos a saírem do tenebroso mundo nazista, descrevendo o seu autor como um homem frio, eficiente, cruel e sedento de sangue.
Aparentemente, não omitiu nenhuma das suas concepções de bárbaro.
Os "poloneses", declarou ele no dia seguinte à sua posse no novo posto, "deverão ser escravos do Reich alemão". Certa vez, ao saber que Neurath, Protetor da Boêmia, colocara cartazes anunciando a execução de sete estudantes universitários tchecos, Frank exclamou para um jornalista nazista:

"Se eu desejasse ordenar que se deviam colocar cartazes para cada sete poloneses fuzilados, não haveria florestas suficientes na Polônia para a fabricação de papel para esses cartazes".

Himmler e Heydrich foram destacados por Hitler para liquidar os judeus. A tarefa de Frank, além de arrancar da Polônia alimentos, suprimentos e mão-de-obra forçada, consistia em liquidar a classe culta. Os nazistas tinham um belo nome de código para essa operação: Ação Extraordinária de Pacificação (Ausserordentliche Befriedungsaktion ou Ação A-B, nome pelo qual passou a ser conhecida). Levo algum tempo para Frank pô-la em plena atividade. Foi somente no fim da primavera seguinte, quando a grande ofensiva alemã no Ocidente afastou da Polônia a atenção do mundo, que ele começou a obter resultados. Em 30 de maio, conforme demonstra seu próprio diário, Frank vangloriou-se, numa animadora conversa com seus auxiliares policiais, dos grandes progressos feitos - a vida de "alguns milhares" de intelectuais poloneses destruídos ou prestes a serem.
"Peço-lhes, senhores", disse, "que tomem as medidas mais rigorosas possíveis para auxiliar-nos nessa tarefa". Acrescentou, confidencialmente, que eram "ordens do Füher". Hitler, declarou ele, exprimiu-as da seguinte maneira:

"Devem ser destruídos os homens que possam exercer liderança na Polônia. Aqueles que os acompanharem (...) devem, por sua vez, ser eliminados. Não há necessidade de sobrecarregar o Reich com isso (...) nenhuma necessidade de enviar esses elementos para os campos de concentração do Reich"

Seriam eliminados ali mesmo na Polônia.

Nessa conferência, conforme Frank anotou em seu diário, o chefe da polícia de segurança entregou-lhe um relatório sobre o progresso feito. Cerca de dois mil homens e centenas de mulheres, declarou, foram presos "no começo da Áção Extraordinária de Pacificação". A maioria já tinha sido "sentenciada sumariamente" - eufemismo nazista para liquidação. Uma segunda leva de intelectuais estava agora sendo reunida para receber a "sentença sumária". Ao todo, "cerca de 3.500 pessoas", as mais perigosas da classe culta polonesa, seriam assim eliminadas.
Franm não se esqueceu dos judeus, embora a Gestapo se encarregasse diretamente da tarefa de extermínio. Seu diário está repleto de ideias e realizações sobre o assunto. Registra, em 7 de outubro de 1940, o discurso que fez nesse dia a uma assembléia nazista, na Polônia, resumindo seu primeiro ano de trabalho.

Meus camaradas! (...) Eu não poderia eliminar todos os piolhos e judeus em apenas um ano. ["O público achou graça", anotou ele nesse ponto]. Mas, com o tempo e se me ajudarem, esse objetivo será atingido.

Duas semanas antes do Natal do ano seguinte, Frank encerrou uma reunião de gabinete, na Cracóvia, seu quartel-general, dizendo:

No que diz respeito aos judeus, quero dizer-lhes com toda a franqueza que eles precisam ser eliminados de um modo ou de outro (...) Senhores, devo pedir-lhes que se libertem de qualquer sentimento de piedade. Precisamos aniquilar os judeus.

Era difícil - admitiu - "fuzilar ou envenenar os 3,5 milhões de judeus no governo-geral, mas podemos tomar medidas que, de um modo qualquer, conduzam a seu aniquilamento". Foi uma predição exata.
A perseguição aos judeus e poloneses, arrancando-os das casas em que eles e suas famílias haviam morado durante gerações, começou assim que terminou a luta na polônia. Em 7 de outubro, dia que se seguiu a seu "discurso em favor da paz", no Reichtag, Hitler nomeou Himmler chefe de uma nova organização: Comissariado do Reich para o Fortalecimento da Nação Alemã, ou, abreviadamente R.K.F.D.V. Cumpria à organização deportar primeiro os poloneses e judeus das províncias polonesas anexadas à Alemanha, nelas colocando, em seu lugar, os alemães e Voksdeutsche, isto é, alemães de nacionalidade estrangeira que a eles afluíam, procedentes dos países bálticos ameaçados e de várias partes adjacentes da Polônia. Halder soube desse plano 15 dias antes e anotou em seu diário que "duas pessoas serão expulsas da Polônia para cada alemão que se mudasse para esses territórios".

Fotos de poloneses sendo expulsos de suas terras:

Poloneses Expulsos pelos Nazistas

Poloneses Expulsos pelos Nazistas

Poloneses Expulsos pelos Nazistas

Poloneses Expulsos pelos Nazistas

Poloneses Expulsos pelos Nazistas

Poloneses Expulsos pelos Nazistas


Em 9 de outubro, dois dias depois de assumir o último de seus postos, Himmler decretou que 550 mil dos 650 mil judeus que viviam nas províncias polonesas anexadas, juntamente com todos os poloneses não apropriados para assimilação, seriam deslocados para o território do governo geral, a leste do rio Vístula. Em um ano, 12 milhão de poloneses e 300 mil judeus foram deslocados para o leste. Mas somente 497 mil Volksdeutsche instalaram-se em suas terras. Foi uma proporção melhor que a citada por Halder: dos poloneses e um judeu expulsos para cada alemão que lá se instalava.

Expulsão dos Poloneses Documento
Documento usado no momento
das expulões
Foi um inverno extraordinariamente severo o de 1939-1940 - como bem se recorda o autor deste livro -, com pesada neve. O "novo povoamento", levado a efeito com a temperatura a zero e, muitas vezes, durante tempestades de neve, custou mais vidas de judeus e poloneses que as que se perderam diante dos pelotões de fuzilamento e das forças nazistas. Pode-se citar, com autoridade na matéria, o próprio Himmler. Dirigindo-se à Leibstandarte das S.S. no verão seguinte, após a queda da França, traçou uma comparação entre as deportações que seus homens estavam começando a proceder no Ocidente com o que havia realizado na parte leste.

(...) aconteceu na Polônia, a temperatura marcando quarenta graus abaixo de zero, onde tínhamos de evacuar milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares; onde tínhamos de ser inflexíveis - devem ouvir isso, mas devem também esquecê-lo imediatamente - e fuzilar milhares de poloneses importantes (...) Senhores! É muito fácil, em muitos casos, entrar num combate com uma companhia do que eliminar uma população obstrucionista e de baixo nível cultural ou fazer execuções ou evacuar um povo ou expulsar mulheres a gritarem histericamente"

Já em 21 de fevereiro de 1940, o Oberfüher das S.S., Richard Glücks, chefe da Inspetoria dos Campos de concentração, procedendo a um reconhecimento nas imediações da Cracóvia, informara Himmler de que encontrara um "lugar apropriado" para o novo "campo de quarentena", em Auschwitz, uma cidadezinha abandonada e pantanosa de 12 mil habitantes, na qual estava situado, além de algumas fábricas, um antigo quartel da cavalaria austríaca, Fizeram-se, imediatamente, as obras necessárias e, em 14 de junho, Auschwitz foi oficialmente inaugurado como campo de concentração para os prisioneiros políticos poloneses, aos quais os alemães desejavam dispensar um tratamento especial e duro. Iria tornar-se, logo, um lugar ainda mais sinistro. Entrementes, os diretores da firma I.G. Farben, o grande truste de produtos químicos alemão, descobriram que Auschwitz era um local conveniente para instalação de uma nova fábrica de borracha e óleo de carvão sintético. Ali, não só a construção dos novos edifícios, mas, também, as operações da nova fábrica seriam beneficiadas com a mão-de-obra escrava barata.

Para superintender o novo campo e suprir a mão-de-obra escrava para a I.G. Farben, chegou, na primavera de 1940, a Auschwitz, um bando dos mais selecionados rufiões das S.S., entre eles Josef Kramer, que se tornaria mais tarde conhecido do público inglês como a Fera de Belsen, e Rudolf Franz Höss, um criminoso que cumprira cinco anos de pena numa prisão - passou a maior parte da vida adulta primeiro como convicto e, depois, como carcereiro - e que em 1946, à idade de 46 anos, iria vangloriar-se em Nuremberg de que havia supervisionado, em Auschwitz, o extermínio de 2,5 milhões de pessoas, sem contar meio milhão que deixaram "sucumbir de inanição".
Pois Auschwitz logo estaria destinada a tornar-se o mais célebre dos campos de extermínio - Vernichtungslager -, que cumpre distinguir dos campos de concentração, onde uns poucos ainda puderam sobreviver. Não deixa de ser significativo, para se compreender os alemães, até mesmo os mais respeitáveis, no governo de Hitler, que uma firma tão ilustre e internacionalmente conhecida como a I.G. Farben, cujo os diretores se distinguiam entre os principais homens de negócios da Alemanha, todos supostamente "tementes a Deus", deliberadamente escolhessem aquele campo de morte como local apropriado para operações lucrativas.

As fontes desse artigo podem ser encontradas no livro "Ascensão e queda do Terceiro Reich - O começo do fim 1939-1945" do historiador e jornalista William L. Shirer

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Sitzkrieg - A Guerra de Braços Cruzados

28 de Novembro de 1939: Soldados da Força Expedicionária Britânica e da Força Aérea francesa na linha de frente. Inscrição humorístico acima da canoa , 10 Downing Street - endereço de residência do primeiro-ministro britânico.


O termo "Guerra de Mentira" ou "Guerra de Araque" é utilizado para designar o período inicial da Segunda Guerra Mundial, ou seja, entre 3 de setembro de 1939 e 10 de maio de 1940. Por outras palavras, é o período compreendido entre a declaração do estado de guerra da França e Reino Unido à Alemanha Nazista e a invasão por esta última da França, Bélgica, Países Baixos e Luxemburgo, durante o qual não houve verdadeiros combates armados.
Esse período é conhecido por "Drôle de Guerre", em francês, ou pela denominação inglesa "Phoney War", que significa "Guerra Falsa" ou "Imitação de Guerra", ou ainda por "Sitzkrieg" em alemão, que significa "Guerra Sentada" (um trocadilho por oposição a Blitzkrieg, guerra-relâmpago em alemão). Durante este período ambos os lados se preparavam para as futuras batalhas, agrupando homens e armas na região fronteiriça. Entretanto, pouquíssimos combates foram travados neste período.
Em Portugal utiliza-se normalmente a expressão original "Drôle de Guerre" em francês, que algumas vezes tem sido traduzida por “Estranha Guerra” ou “Guerra Estranha”, e também chamada "guerra fingida", "guerra de brincadeira" ou "guerra ridícula", não existindo nenhuma versão de uso comum.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Yukio Mishima - Harmonia entre Pena e da Espada


O escritor e dramaturgo Yukio Mishima (Kimitake Hiraoka - 1925-1970) é decerto um dos personagens japoneses mais icônicos do século XX por escancarar de modo excêntrico as contradições de um país milenar que avançava na estrada do progresso sem vislumbrar, um pouco que seja, a vista pelo retrovisor, nem mesmo o velocímetro.

Mishima, educado como um samurai, viveu e morreu como um, tendo entrado na escola enquanto o Japão militarista 'entrava' na China. Sem a atenção do pai, que o queria formado em engenharia a despeito de seu talento pelas artes, e cuidando de uma avó doente e possessiva, Kimitake refugiava-se na literatura para aguentar a opressão do dia-a-dia, e justamente por isso criou seu nome artístico, na intenção de esconder do pai suas atividades. Influenciado por obras como o Hagakure do século XVII ("o ventre de onde nasceu minha escrita"), sua produção ganha destaque imediatamente após o cessar da segunda guerra mundial, onde descreve a situação política e social do país, ocupado pelas forças americanas, com esmero literário.

Toda a sua obra é permeada por paradoxos. Beleza e morte, amor e rejeição, oriente e ocidente são alguns exemplos. Seu tema central era a dicotomia entre os valores tradicionais japoneses e a pobreza espiritual da vida contemporânea, que tornara o Japão moderno porém infértil. Homem híbrido, era o exemplo vivo do japonês no pós-guerra, que mesmo quando defende o retorno aos valores tradicionais, não o faz sem a onipresente influência ocidental. Mishima falava inglês fluentemente (até como forma de auxílio na tentativa de levar o prêmio Nobel), apreciava pensadores ocidentais como Oscar Wilde e mesmo seu estilo literário era temperado com pitadas de ocidente, caso de Mar Inquieto, onde muitos críticos vêem notória influência dos escritos gregos.


Criança anêmica, Mishima se sentia eternamente culpado por fingir uma tuberculose quando estava gripado, fato que fez o médico das forças armadas considerá-lo como inadequado ao exército, e que levou Yukio a se preparar para uma guerra que nunca veio, no papel de um legítimo samurai. Como homem, casou e virou pai de dois filhos para poder dar sequência à linhagem familiar apesar de homossexual. Como escritor, criticou o sedentarismo daqueles que viviam da pena, defendendo que palavras devem gerar ação. Como samurai, aperfeiçava corpo (mestre em kendô e karatê) e mente enquanto lutava para reunir seu povo e incitá-lo à rebelião contra o que estava sendo feito com o Japão.

"Japan will disappear, it will become inorganic, empty, neutral-tinted; it will grow wealthy and astute." Mishima

Como afirma Jordi Mas, pesquisador de Ásia Oriental de Barcelona, ele "temia que o progresso econômico se conseguisse em detrimento da própria cultura", enquanto o japonês, recentemente humilhado na guerra, era amparado pelos americanos e se embriagava com trabalho e bem-estar material. Mishima reclama o direito do povo japonês desfrutar de soberania e justiça social, conservando as tradições, sem alienar a adaptação do país à técnica industrial.

A cultura tradicional japonesa foi fortemente suprimida pela ocupação americana, que via nisso uma forma de jogar as últimas pás de terra nos valores nacionalistas e militar-expansionistas do Japão, assim como abrir espaço para valores pacifistas, liberais e progressistas (e ao American Way of Life, naturalmente). A censura americana, vinda da Seção de Informação e Educação Civil (ligada ao Comando Supremo de Forças Aliadas do general McArthur), reprimiu manifestações artísticas que remetiam ao passado feudal japonês, como o teatro Kabuki, além da proibição do ensino de artes marciais japonesas.

Enquanto muitos estavam ocupados demais assistindo aos filmes de Hollywood e desenhos de Hanna Barbera, alguns japoneses mostravam-se particularmente incomodados com a presença americana e sua censura. Entre os anos 50 e 70, houve um crescimento das manifestações culturais que remetiam ao nacionalismo de outrora. Nesse período se popularizaram os dramas de samurais produzidos pela Toei. Alguns exemplos de produção da época são o livro Requiem for Battleship Yamato de Mitsuru Yoshida e os filmes Os Sete Samurais de Akira Kurosawa e Japan's Longest Day de Kihachi Okamoto.

Não foram apenas os artistas e intelectuais, mas o próprio governo japonês fez o possível para revitalizar a cultura tradicional do país, imprimindo a arquitetura nas obras públicas, investindo em preservação de pontos históricos, trazendo de novo à luz os teatros No e Kabuki, bem como a cultura samurai, até hoje presente nas escolas e universidades japonesas. Em 1966, publicou o Program of forming desirable image of Japanese, onde fixou características do "japonês ideal", bastante influenciado pelo Bushido, código de conduta dos samurais ("caminho do guerreiro"). Citarei o conteúdo do programa quando falar sobre o sistema educacional japonês.

Mishima, no entanto, foi mentor da mais simbólica tentativa de restituir aquele Japão que não existia mais. Em 25 de Novembro de 1970, acompanhado de 4 membros do Tatenokai (milícia de estudantes patrióticos que estudavam artes marciais sob a tutela de Mishima), todos vestidos com os uniformes do Exército Imperial, renderam o comandante Masuda do quartel general das forças de Auto-defesa de Tóquio (mataram oito soldados resistentes na invasão). Mishima, então, fez um discurso patriótico para cerca de dois mil soldados, convocando-os a lutar contra a constituição japonesa, escrita por americanos, e a favor da restituição do poder imperial. Diante da indiferença dos militares, Mishima cometeu o Seppuku (suicídio ritual dos samurais) após gritar 3x: "Longa vida ao Imperador!".

"Perfect purity is possible if you turn your life into a line of poetry written with a splash of blood."Mishima.

Sua morte é considerada o protesto derradeiro contra a decadência da sociedade japonesa. É preciso entendê-lo para não cair no erro de acusá-lo de simples fanático. O membro Emílio da comunidade Literatura Japonesa no Orkut sintetizou isso corretamente: "Ao leitor desavisado, descontextualizado e globalizado o patriotismo soa anacrônico e panfletário. Mas vale lembrar que Mishima vivia no Japão militarmente ocupado pelos americanos.". Yukio teve sua cabeça moldada no auge do militarismo, não se deve esquecer.

Mishima dedicou sua vida à pátria e à nação. Lutou contra a materialização do espírito de um povo que deixou de ser soberano. Protestou "contra a inoperância, a apatia do amorfo Exército Japonês, que, como se sabe, não é mais que uma polícia, mais destinada a reprimir o povo, do que uma milícia capaz de salvaguardar a Nação.".

O ato radical do escritor invocou uma estranha apreensão em alguns japoneses. Apesar da consciência do extremismo no ato de Mishima, esses japoneses pararam para pensar sobre aonde estavam indo ao se preocuparem em produzir tanta riqueza enquanto se sentiam tão vazios e culturalmente desconectados das tradições do país que construiram a visão de si mesmos. A maioria dos japoneses, no auge da apologia ao consumo, viram no ato apenas mais uma das excentricidades de Mishima e um péssimo exemplo. A recepção no ocidente, carente de ídolos românticos, foi muito mais forte, descobrindo a força da obra completa de Mishima antes do próprio Japão, que apenas o reconheceu devidamente após revisitar seu legado nos anos 80, tentando entender o que os gaijins viam de importante nele.

"A morte é uma espécie de castigo eterno, infligido à materializada sociedade ocidental que vive afastada da natureza. Para nós não o é, de modo absoluto, uma vez que nos consideramos parte integrada da natureza. Devido a isso, a morte, aos olhos do meu povo, é um prêmio, algo assim como a transformação, a liberdade da matéria. Morrer é partir, não desaparecer. Outrora, o mundo cristão, creio, tinha igual ou semelhante filosofia. E foi então que logrou consolidar-se. Pois bem: nós queremos recuperar plenamente esse estilo de vida e aplicá-lo a uma grande política nacional e popular. O contrário seria o mesmo que aceitar a hibernação indefinidamente da alma japonesa." Yukio MIshima
"Sempre ouça seu espírito. É melhor estar errado que simplesmente seguir o convencional. Se você está errado, não importa, você aprendeu algo e crescerá mais forte. Se você tiver razão, você deu outro passo para uma vida superior." Trecho do Hagakure, obra que mais influenciou a escrita de Mishima.



FONTES:
Forming nationalistic mentality of Japanese youth by Japanese ruling circles with use of bushido ideology (Andrei Vasil’evich Golomsha)
Mishima: O hara-kiri do silêncio - Política», n.º 26, pág. 12, 31.01.1971
YUKIO MISHIMA: A 20th Century Samurai
Mishima, el último samurai - Anna Zaera
No país do sol nascente - Giovanna Bartucci
Os samurais - History Channel
http://www.culturajaponesa.com.br/htm/cinemajapones.html
Postagem original http://otakismo.blogspot.com/2011/03/yukio-mishima-e-crise-de-identidade.html

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