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sábado, 21 de fevereiro de 2015

A conturbada relação dos muçulmanos com os norte-americanos



A última de Barack Obama foi dizer que os muçulmanos ajudaram a construir os EUA, que a história do país está entrelaçada com a história dos muçulmanos que estavam lá desde o começo.

Pelo jeito, Obama andou pulando algumas aulas de história. Vamos lá:

- Quando os EUA nasceram, no final do séc. XVIII, havia uma crise com os muçulmanos do norte da África. Eram povos oficialmente muçulmanos, que viviam sob as leis do Corão.

- Estes muçulmanos atacavam navios que passavam pelo Mediterrâneo, incluindo americanos, sequestrando, escravizando e matando ocupantes, além de saquear a carga. Os navios americanos eram normalmente protegidos pela marinha inglesa antes da independência mas depois de 1776 era cada um por si.

- Os piratas muçulmanos cobravam fortunas como resgate dos reféns e os preços sempre subiam a cada sequestro bem sucedido. Jefferson se opôs veementemente aos pagamentos mas foi voto vencido, os EUA e as outras nações com navios sequestrados estavam aceitando pagar os resgates e subornar os piratas. O presidente americano era George Washington.

- Por volta de 1783, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e John Adams vão para a Europa como embaixadores para negociar tratados de paz e cooperação. Os EUA nasceram em 1776 e estavam mergulhados até então na Guerra de Independência. Assim que a situação acalmou no país, essas três figuras icônicas saem em missão diplomática para representar o país.

- Em 1786, depois de dois anos de conversas diplomáticas com os muçulmanos, Thomas Jefferson e John Adams encontraram com o embaixador dos povos que ficavam na região de Trípoli, na atual Líbia, chamado Sidi Haji Abdul Rahman Adja. Jefferson estava incomodado por conta dos ataques que não acabavam mesmo com todos os esforços de paz e quis saber com que direito os muçulmanos sequestravam e matavam americanos daquele jeito.

- A resposta que ouviu marcou Jefferson para sempre: "o islã foi fundado nas Leis do Profeta, que estão escritas no Corão, e diz que todas as nações que não aceitarem a sua autoridade são pecadoras e que é direito e dever declarar guerra contra seus cidadãos onde puderem ser encontrados e fazer deles escravos e que todo muçulmano que for morto na batalha irá com certeza para o Paraíso." Jefferson ficou chocado, ele não queria acreditar que uma religião literalmente mandava matar todos os infiéis e que quem morresse na batalha iria para o céu.

- Durante 15 anos o governo americano pagou os subornos para poder passar com seus navios na região. Foram milhões de dólares, uma quantia que representava 16% de todo orçamento do governo federal. O primeiro governo do país, de George Washington, não queria ter forças armadas permanentes por não ver riscos de ataques ao país mas os muçulmanos mudaram esta idéia. Os subornos serviriam para evitar a necessidade de ter forças militares mas não estavam funcionando porque os ataques continuavam. Entra John Adams, o segundo presidente, e as despesas sobem para 20% do orçamento federal.

- Em 1801, Jefferson se torna o terceiro presidente americano e, mal tinha esquentado a cadeira, recebe uma carta dos piratas aumentando o butim. Ele fica louco e, agora como presidente, diz que não vai pagar nada.

- Com a recusa de Jefferson, os muçulmanos de Trípoli tomaram conta da embaixada americana e declararam guerra aos EUA. Foi a primeira guerra dos EUA após a independência, a marinha americana foi criada para essa guerra. O que é hoje a Tunísia, Marrocos e Argélia se juntaram aos líbios na guerra, praticamente todo norte da África com exceção do Egito.

- Jefferson não estava para brincadeira. Mandou seus navios para a região e a guerra durou até 1805, com vitória americana, e ele ainda colocou tropas ocupando no norte da África para manter a situação sob controle.

Thomas Jefferson ficou realmente impressionado com o que aconteceu. Ele era contra guerras e escreveu pessoalmente as leis de liberdade e tolerância religiosa que estão na origem da Constituição americana, mas ele entendeu que o Islã é totalmente diferente, era uma religião imperialista, expansionistas, que tinha propósitos totalmente diferentes.

Jefferson mandou traduzir o Corão em 1806, lançando a primeira edição americana. Ele queria que o povo conhecesse o Corão e entendesse aquele pessoal do norte da África que roubava, saqueava e matava, cobrava resgates e que declarou guerra quando os pagamentos cessaram.

Durante 15 anos, Jefferson chegou a dizer, os americanos eram atacados porque não atacavam de volta e eram vistos como fracos. A fraqueza americana foi um convite para os muçulmanos daquela época como é para o ISIS hoje. Só houve paz na região quando Jefferson atacou e venceu a guerra, depois ocupando o território. Não tem mágica, é assim que se faz.

Barack Obama quer saber como os muçulmanos estão na história americana? Eles estão como os motivadores da primeira guerra, eles forçaram a criação das forças armadas que nem existiam e fazem parte até do hino dos marines que começa com "From the Halls of Montezuma / To the shores of Tripoli".

Compartilhado por Alexandre Borges.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Crítica ao pensamento de Robert Pape sobre o Terrorismo Islâmico.



De onde vem a visão de que a política externa ocidental é a motivação para o terrorismo? Podemos dar alguns nomes para chamar ao debate.

Um notável é Robert Pape.

O cientista político e professor da Universidade de Chicago Robert Pape, autor do livro "Dying to Win: The Strategic Logic of Suicide Terrorism" (Morrendo para Vencer: A Estratégia Lógica do Terrorismo Suicida), argumenta que ao menos os terroristas que se utilizam de ataques suicidas - uma forma especialmente eficaz de ataque terrorista - não são impulsionados por qualquer forma de islamismo mas sim por "um objetivo estratégico claro: forçar as democracias modernas a retirar suas forças militares do território que os terroristas veem como suas pátrias."
O americano afirma que 95% dos ataques terroristas suicidas tiveram motivação nacionalista ou secular, e só uma minoria tem origem no fanatismo religioso. Todos os líderes da rede terrorista Al Qaeda já deixaram claro que querem a desocupação de territórios ocupados por forças ocidentais e dos regimes aliados locais. Não se trata de uma motivação religiosa, mas territorial ou política. Pape defende que o fenômeno do terrorismo suicida está diretamente ligado às ocupações de forças estrangeiros, enquanto a religião, tão comumente citada como motivação, está por trás de apenas 5% dos ataques desse tipo no mundo desde 1980.
Segundo o especialista, a retirada das tropas israelenses do Líbano e das americanas do Iraque é a principal forma de diminuir esse tipo de violência. Para sustentar sua visão ele argumenta que Israel sofreu ataques suicidas no Líbano quando ocupou o território libanês. Após a sua retirada em 2000, nunca mais foi alvo. O mesmo vale para a ocupação dos territórios palestinos. O Hizbollah matou 700 israelenses quando Israel ocupava o sul do Líbano, no anos 1990. Entre 2000 e julho deste ano, quando Israel esteve fora do Líbano, foram apenas 11 israelenses mortos, todos soldados e ainda assim nas fazendas de Shebaa [área ainda ocupada por Israel].
Pape lembra também que ataque suicida não é exclusivo de muçulmanos. O grupo que mais cometeu atentados suicidas é Tigres Tâmeis, do Sri Lanka, um grupo nacionalista.

Contestações:

Que não existem apenas atentados suicidas com motivação religiosa é algo bem conhecido. Sabemos da história dos Kamikazes no Japão.
Mas colocar o Terrorismo Islâmico nesse meio e dizer que é apenas um problema de território e nacionalismo é algo bastante duvidoso.
A questão do problema territorial de Robert Pape não explica muito bem o por que da Al-Qaeda realizar atentados contra seus inimigos bem longe das zonas de conflito. Em Londres, em Nova York, em Washington, em Madrid, em Paris etc.
Outra coisa que Pape diz é que sempre se deve ler os comunicados que eles emitem para saber o que eles querem. Esses comunicados sempre exigem que Estados Unidos, Reino Unido e Israel se retirem de países como Afeganistão, Iraque e Líbano. Se considerarmos os comunicados dos terroristas então teremos a certeza absoluta e inquestionável que a motivação religiosa é muito forte sim. Além do apelo para tirar as tropas estão presentes frases como "matar americanos e seus aliados, civis e militares é um dever individual de todo o muçulmano capaz de fazê-lo" (dita por Osama Bin Laden).
O que Pape parece fazer é escolher qual é o "discurso verdadeiro" e qual é apenas a desculpa, sem muita base científica ou analítica séria.

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