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terça-feira, 14 de julho de 2015
Características masculinas e femininas de Deus
No Islã as qualidades divinas são nomeadas em dois grupos, jalal (majestade) e jamal (beleza). Majestade é a revelação e autoridade que queima e consome os mundos. É, num aspecto rigoroso, severo e masculino. Beleza, por sua vez, é o feminino; é a síntese da piedade, generosidade, compaixão e todas qualidades análogas a essas.
Deus, segundo essa visão, tem um lado jalal e outro jamal. Possui em si os aspectos da poderosa majestade e da maravilhosa bondade em perfeita comunhão.
Esses dois aspectos também são chamados pelos nomes de Adl e Fadl (Justiça e Recompensa) ou Ghazab e Rahma (Ira e Misericórdia) ou Qahr e Lutf (Severidade e Gentileza).
Apesar do Corão se referir a Deus como "pai" essa união entre características masculinas e femininas em Deus fez com que alguns teólogos muçulmanos afirmarem que Deus não tem gênero nem mesmo metafóricamente.
Inclusive, alguns interpretam que a característica feminina de Deus esteja até mais evidente que a masculina sendo que o próprio profeta Maomé disse que no trono de Deus está escrito "Minha Misericórdia tem precedência sobre Minha Ira".
sábado, 21 de fevereiro de 2015
A conturbada relação dos muçulmanos com os norte-americanos
A última de Barack Obama foi dizer que os muçulmanos ajudaram a construir os EUA, que a história do país está entrelaçada com a história dos muçulmanos que estavam lá desde o começo.
Pelo jeito, Obama andou pulando algumas aulas de história. Vamos lá:
- Quando os EUA nasceram, no final do séc. XVIII, havia uma crise com os muçulmanos do norte da África. Eram povos oficialmente muçulmanos, que viviam sob as leis do Corão.
- Estes muçulmanos atacavam navios que passavam pelo Mediterrâneo, incluindo americanos, sequestrando, escravizando e matando ocupantes, além de saquear a carga. Os navios americanos eram normalmente protegidos pela marinha inglesa antes da independência mas depois de 1776 era cada um por si.
- Os piratas muçulmanos cobravam fortunas como resgate dos reféns e os preços sempre subiam a cada sequestro bem sucedido. Jefferson se opôs veementemente aos pagamentos mas foi voto vencido, os EUA e as outras nações com navios sequestrados estavam aceitando pagar os resgates e subornar os piratas. O presidente americano era George Washington.
- Por volta de 1783, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin e John Adams vão para a Europa como embaixadores para negociar tratados de paz e cooperação. Os EUA nasceram em 1776 e estavam mergulhados até então na Guerra de Independência. Assim que a situação acalmou no país, essas três figuras icônicas saem em missão diplomática para representar o país.
- Em 1786, depois de dois anos de conversas diplomáticas com os muçulmanos, Thomas Jefferson e John Adams encontraram com o embaixador dos povos que ficavam na região de Trípoli, na atual Líbia, chamado Sidi Haji Abdul Rahman Adja. Jefferson estava incomodado por conta dos ataques que não acabavam mesmo com todos os esforços de paz e quis saber com que direito os muçulmanos sequestravam e matavam americanos daquele jeito.
- A resposta que ouviu marcou Jefferson para sempre: "o islã foi fundado nas Leis do Profeta, que estão escritas no Corão, e diz que todas as nações que não aceitarem a sua autoridade são pecadoras e que é direito e dever declarar guerra contra seus cidadãos onde puderem ser encontrados e fazer deles escravos e que todo muçulmano que for morto na batalha irá com certeza para o Paraíso." Jefferson ficou chocado, ele não queria acreditar que uma religião literalmente mandava matar todos os infiéis e que quem morresse na batalha iria para o céu.
- Durante 15 anos o governo americano pagou os subornos para poder passar com seus navios na região. Foram milhões de dólares, uma quantia que representava 16% de todo orçamento do governo federal. O primeiro governo do país, de George Washington, não queria ter forças armadas permanentes por não ver riscos de ataques ao país mas os muçulmanos mudaram esta idéia. Os subornos serviriam para evitar a necessidade de ter forças militares mas não estavam funcionando porque os ataques continuavam. Entra John Adams, o segundo presidente, e as despesas sobem para 20% do orçamento federal.
- Em 1801, Jefferson se torna o terceiro presidente americano e, mal tinha esquentado a cadeira, recebe uma carta dos piratas aumentando o butim. Ele fica louco e, agora como presidente, diz que não vai pagar nada.
- Com a recusa de Jefferson, os muçulmanos de Trípoli tomaram conta da embaixada americana e declararam guerra aos EUA. Foi a primeira guerra dos EUA após a independência, a marinha americana foi criada para essa guerra. O que é hoje a Tunísia, Marrocos e Argélia se juntaram aos líbios na guerra, praticamente todo norte da África com exceção do Egito.
- Jefferson não estava para brincadeira. Mandou seus navios para a região e a guerra durou até 1805, com vitória americana, e ele ainda colocou tropas ocupando no norte da África para manter a situação sob controle.
Thomas Jefferson ficou realmente impressionado com o que aconteceu. Ele era contra guerras e escreveu pessoalmente as leis de liberdade e tolerância religiosa que estão na origem da Constituição americana, mas ele entendeu que o Islã é totalmente diferente, era uma religião imperialista, expansionistas, que tinha propósitos totalmente diferentes.
Jefferson mandou traduzir o Corão em 1806, lançando a primeira edição americana. Ele queria que o povo conhecesse o Corão e entendesse aquele pessoal do norte da África que roubava, saqueava e matava, cobrava resgates e que declarou guerra quando os pagamentos cessaram.
Durante 15 anos, Jefferson chegou a dizer, os americanos eram atacados porque não atacavam de volta e eram vistos como fracos. A fraqueza americana foi um convite para os muçulmanos daquela época como é para o ISIS hoje. Só houve paz na região quando Jefferson atacou e venceu a guerra, depois ocupando o território. Não tem mágica, é assim que se faz.
Barack Obama quer saber como os muçulmanos estão na história americana? Eles estão como os motivadores da primeira guerra, eles forçaram a criação das forças armadas que nem existiam e fazem parte até do hino dos marines que começa com "From the Halls of Montezuma / To the shores of Tripoli".
Compartilhado por Alexandre Borges.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Hassan ibn Sabbah e a Ordem dos Assassinos
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| Hassan-e Sabbah |
A Ordem de Assassinos foi uma seita fundada no século XI por Hassan ibn Sabbah, conhecido pela alcunha de "Velho da Montanha".
A seita é uma corrente do Ismaelismo, uma espécie de corrente do esoterismo islâmico enquadrado na variação Xiita, considerada o primeiro grupo terrorista muçulmano por autores que a depreciam.
A origem dos Assassinos vem antes mesmo da Primeira Cruzada, por volta de 1080, e é fruto de uma disputa sucessória no Califado Fatímida, uma dinastia xiita que governou o Norte de África e o Egito nos séculos X e XI. Após a morte do califa fatímida al-Mustansir em 1094, Hassan ibn Sabbah (fundador da ordem) recusou-se a reconhecer o novo califa, al-Musta'li, decidindo apoiar o irmão mais velho deste, Nizar.
Sua sede era uma fortaleza situada na região de Alamut, no Irã.
Em 1090, Hassan e os seus partidários já tinham capturado a fortaleza de Alamut, situada perto da atual cidade iraniana de Teerã. Esta fortaleza serviu como centro de operações, a partir da qual Hassan comandava a realização de ataques nos territórios que são hoje o Iraque e o Irão.
A partir do século XII, os Assassinos começam a atacar a Síria, tendo tomado vários castelos situados nas montanhas de An-Nusayriyah. Um desses castelos foi Masyaf, a partir do qual Rashid ad-Din as-Sinan governou de forma praticamente independente em relação a Alamut.
O grupo era conhecido tanto pela extrema fidelidade de seus membros quanto pela sua ferocidade.
É um dos primeiros grupos de orientação islâmica que utilizava o ataque suicida como demonstração de fé e lealdade. Segundo alguns relatos da época, Hassan possuía cerca de 60 mil seguidores.
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| Senhor de Alamut |
Hassan ibn Sabbah Homairi era filho de uma poderosa família iraniana de Qom – centro de propagação do ismailismo. Se intitulava a sétima encarnação do Imam Ismael, o chamado "Sétimo profeta" depois de Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé.
A partir de 1079 passou a viver no Egito (Cairo) onde estudou e aperfeiçoou seu conhecimento do Corão, descobriu o Antigo e o Novo Testamento, além dos textos vedas hindus – conhecidos desde as invasões de Alexandre, o Grande. Sabbah promoveu a reunião dessas religiões, misturando ainda o zoroastrismo e acrescentando, nesta síntese, um pouco de neoplatonismo.
Durante a sua permanência no Cairo, Hassan relacionou-se com Nizar, filho do califa da dinastia fatímida, al-Mustansir, até que Nizar foi afastado da sucessão pelo vizir al-Afdal. Talvez esteja aí a origem do ódio de Hassan à dinastia fatímida. Foi em torno do nome de Nizar que ele reuniu os seus primeiros seguidores – os nizaritas.
Das várias e dramáticas facções ismaelitas, as mais famosas foram a dos fatímidas do Egito, a dos ismaelitas hindus e a dos ismaelitas reformados de Alamut – chefiada por Hassan.
O pluarismo religioso de Hassan i Sabbah
A destruição da biblioteca de Alamut pelos mongóis dizimou suas fontes primeiras. Parte da memória de Hassan i Sabbah foi encontrada entre os ismaelitas da Índia. O pouco que se sabe sobre a sua vida é contado pelo historiador árabe mongolizado, Ala-Ed Din D'joueïny, que teve a oportunidade de estudar durante um ano, com a permissão do khan Hulagu, a biblioteca de Hassan em Alamut. Dos textos encontrados na Índia, a narrativa da fuga de Isfahan, onde Hassan teria tido uma visão de Zaratustra que o encaminhou para o norte, ao encontro de seus iniciadores – membros de uma seita secreta, "numa caverna de uma alta montanha", para receber a iniciação pelo senhor da montanha. A tradução do texto encontrado na Índia, por W. Ivanov, é de "Jean Claude Frère, L'Ordre des assassins, caps. I e II, pp. 15 a 78)". O texto revela uma mistura de elementos zoroastrianos, cristãos e islâmicos. Hassan teria, então, recebido dos iniciadores a missão de "libertar a raça ariana e fundar um novo império, tendo por base a nova religião.". No Cairo, Hassan completou sua iniciação na famosa "Casa das Ciências" do Islamismo.
Suas andanças, após ser expulso da Pérsia pelos turcos seljúcidas – adeptos da ortodoxia sunita, o levaram a muitos fiéis, dispostos a obedecê-lo cegamente até mesmo com o sacrifício da própria vida: a Ordem dos Assassinos, uma ramificação do ismaelismo no Irã, na Síria e no Iraque. Na hierarquia da seita os iassek estavam no patamar mais baixo - a massa dos fiéis. Depois deles, os mujib - dependendo de sua aptidões poderiam se tornar fedayin, os que se sacrificam. Os denominados de rafik eram treinados para comandar fortalezas e dirigir a organização. Os da'i eram os missionários. Por último, no topo da pirâmide, estava o grande senhor: Hassan.
Hashashin
Quando Hassan conquistou a fortaleza de Alamut, em 04 de setembro de 1090, no final do século XI, ela estava sob o domínio seljúcida. Os sectários de Hassan, infiltrados entre os habitantes de Alamut, conquistaram a confiança dos seus residentes, convertendo-os secretamente, permitindo que Hassan, enfim, dominasse a fortaleza de Alamut, localizada em posição estratégica, no coração das montanhas Elbourz, a 1.800 metros de altitude, no noroeste do Irã.
Hassan permitiu que o comandante deixasse seu castelo com um dote de 3.000 dinares de prata em pagamento pela fortaleza. Deste ponto em diante, a sua comunidade e as suas filiais espalharam-se pelo Irão e Síria, e vieram a ser chamadas de hashashin ou hashishin ou assassinos, um novo culto islâmico.
Hassan era extremamente restrito e disciplinado. A revogação da lei islâmica (Charia) ocorreu sob o governo de outro Grão Mestre - Hassan II, em 1174. O uso de haxixe pela comunidade provavelmente só ocorreu depois também.
O termo "Assassino"
Existem muitas versões diferente a respeito mas, provavelmente, a origem da palavra "Assassino" e outras semelhantes em várias línguas europeias se refere a uma adaptação via francês e italiano do termo árabe "hashishiyyin", "usuário de haxixe", de "hashish", "maconha em pó", literalmente "erva seca".
Desde Marco Polo que se acredita nisso, que o termo provém de "haxixe" ou que o nome da erva haxixe tem origem no ato de "haschichiyun", que significa "fumador de haxixe". Algumas fontes cristãs medievais relatam que os Assassinos teriam por hábito consumir esta substância antes de perpetrarem os seus ataques, induzindo-lhes a visão do Paraíso. Contudo, as fontes ismaelitas não fazem referência a qualquer prática deste tipo, sendo esta lenda resultado de relatos de Marco Polo e de outros viajantes europeus no Médio Oriente.
No entanto, Amin Malouf afirma que "A verdade é diferente. De acordo com textos que chegaram até nós a partir de Alamut , Hassan-i Sabbah gostava de chamar seus discípulos de Asasiyun, ou seja, pessoas que são fiéis à Asas (ou "Assass"), que significa "fundação" da fé. Esta é a palavra, mal compreendida pelos viajantes estrangeiros, que parecia semelhante ao 'haxixe' ".
Deve-se levar em consideração que muito do que foi escrito sobre os Assassinos eram relatos de pessoas contrárias à ordem. A maioria das fontes que tratam de funcionamento interno da ordem foram destruídas com a captura de Alamut pelos mongóis em 1256.
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| Gravura do 26º Imã Ismaelita Nizari,‘Alā al-Dīn Muhammad bin Jalāl al-Dīn Hasan "Viagens de Marco Polo" |
O método dos Assassinos
Apesar de andarem uniformizados na fortaleza de Alamut com trajes brancos e um cordão vermelho em volta da cintura, quando recebiam uma missão, camuflavam-se. Preferiam se misturar aos mendigos das cidades da Síria, da Mesopotâmia, do Egito e da Palestina para não despertarem a atenção. Em meio à multidão urbana, eles levavam uma vida comum para não atrair suspeitas, até que um emissário lhes trazia a ordem para atacar. Geralmente, eles aproximavam-se da sua vítima em número de três. Se por acaso dois punhais ou lâminas ocultas nas mangas fracassassem, haveria ainda um terceiro a completar o serviço. Atuavam em qualquer lugar - nos mercados, nas ruas estreitas, dentro dos palácios e até mesmo no silêncio das mesquitas, lugar por eles escolhido em razão das vítimas estarem ali entregues à oração e com a guarda relaxada. Até o grande sultão Saladino, seu inimigo de morte, eles chegaram a assustar, deixando um punhal com um bilhete ameaçador em cima da sua alcova.
Apesar de andarem uniformizados na fortaleza de Alamut com trajes brancos e um cordão vermelho em volta da cintura, quando recebiam uma missão, camuflavam-se. Preferiam se misturar aos mendigos das cidades da Síria, da Mesopotâmia, do Egito e da Palestina para não despertarem a atenção. Em meio à multidão urbana, eles levavam uma vida comum para não atrair suspeitas, até que um emissário lhes trazia a ordem para atacar. Geralmente, eles aproximavam-se da sua vítima em número de três. Se por acaso dois punhais ou lâminas ocultas nas mangas fracassassem, haveria ainda um terceiro a completar o serviço. Atuavam em qualquer lugar - nos mercados, nas ruas estreitas, dentro dos palácios e até mesmo no silêncio das mesquitas, lugar por eles escolhido em razão das vítimas estarem ali entregues à oração e com a guarda relaxada. Até o grande sultão Saladino, seu inimigo de morte, eles chegaram a assustar, deixando um punhal com um bilhete ameaçador em cima da sua alcova.
Infelizmente os relatos de Marco Polo são muitas vezes incoerentes e improváveis, tornando difícil separar a realidade da lenda, em uma época de poucas ou destruídas documentações.
Outros membros da Ordem afirmavam que os futuros hashashins eram levados a Alamut quando ainda muito novos e, enquanto amadureciam, eram criados em jardins sob efeito constante de haxixe e excitados por virgens. Em determinado ponto, eram iniciados à ordem, e levados para outras acomodações, estas mais rústicas e cavernais. Aos membros era dito que, ao seguirem as ordens do líder (incluindo assassinato e sacrifício), estes poderiam retornar aos jardins.
O culto foi o responsável por um considerável número de escolares e líderes Sunitas. Avisos não-letais podiam ser mandados também - por vezes ao acordar um futuro alvo encontrava uma adaga fincada ao seu travesseiro, próximo à sua cabeça: eles usualmente entendiam o sinal.
Os assassinos por vezes, para se oporem aos sunitas, se aliaram aos templários - os "Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão" - Ordem católica romana responsável pelas cruzadas.
Pequena Biografia de Hassan Sabbah: Uma Perspectiva Ismaelita
Foi em Qom, atualmente Irã, que, em 1056 (próximo ao tempo em que o famoso Macbeth estava se aproximando do fim de seu reinado na Escócia), Hassan Ibn Sabbah nascia em uma família de Ishna Aashariya Shi’s. No início de sua vida ele foi levado a Rades, a 120 kilometros de Teerã. Foi neste centro de matrizes religiosas que Hassan desenvolveu seu interesse por questões metafísicas e aderiu ao 12º código de instrução xiita.
Rades foi uma cidade que, desde o Século IX viu diversos trabalhos missionários radicais de diversas seitas. A Missão Ismaelita chamada Da'wa era uma presença no local. A missão Ismaelita trabalhou em 3 planos: o mais baixo, o soldado, era chamado de Fida'ai; em seguida vinha o Rafeek: o camarada; e finalmente o D'ai, o missionário que trabalhava para missão, a Da'wa.
(Obs: Dawa é o nome dado ao trabalho de divulgação do Islã no mundo e uma obrigação de todo muçulmano no mundo. As pessoas mais empenhadas nessa missão são chamadas de dais.)
Foi aqui que Hassan ainda novo entrou em conferência com Amira Darrab, um Rafeek, quem o introduziu à doutrina ismaelita. Hassan não se impressionou com sua doutrina: ele considerava que ela era não mais do que uma aberração de pensamento, nada a par com o Sunnah. Quando conheceu Darrab, participando tanto de debates passionais que discutiam os méritos da doutrina ismaelita sobre o Musa, a admiração pela doutrina cresceu. Impressionado com a convicção de Darrab, Hassan resolveu conhecer mais a fundo as crenças e doutrinas ismaelitas. Após um mês de estudos dedicado apenas a isto, Hassan se converteu, jurando fidelidade ao Califa do Cairo e continuando seus estudos em outros dois D'ai's.
Seu comprometimento com o Da'wa o levou à audiência com o chefe D'ai da região: Abd al Malik ibn Attash, que impressionado com o menino de 17 anos, o fez Deputado D'Ai, e o aconselhou a ir para o Cairo para maiores estudos.
Mas Hassan não foi para o Cairo. Aqui a vida de Hassan se mistura à sua lenda ao extremo.
Há uma lenda popular associada com Hassan, Omar Khayam – o afamado poeta, filósofo e matemático, e o primeiro ministro dos Turcos Seljúcidas, Nizam al-Mulk. Havia um pacto entre os três: aquele que estivesse favorecido pela fortuna iria ajudar aos outros dois (citado no filme de 1957, Omar Khayyam). Nizam al-Mulk (o nome traduzido seria "Ministro de Estado") cresceu a uma posição de proeminência na corte do turcos que governavam estas áreas. Ele empregou Omar Khayam como poeta e matemático da corte. Hassan também ganhou um cargo na corte, e trabalhando lá e, subindo na hierarquia, se tornou Chefe da Inteligência, começando a ambicionar o posto de Nizam al-Mulk.
Nizam al-Mulk, notando a ambição de Hassan, resolveu envergonhá-lo em frente a toda a corte. Um esquema ingênuo, entretanto: foi dado a Hassan a tarefa de levantar os arquivos do reino todo em apenas 40 dias. Tudo corria bem até o dia em que Hassan deveria apresentar os arquivos - alguém alterou os arquivos e Hassan não os pôde apresentar. O Rei Malik Shah, estava furioso. Ele sentenciou Hassan à morte, mas sob o apelo de Omar Khayyam a sentença foi cancelada e Hassan foi apenas banido do reino.
Existem alguns buracos nesta história popular: Nizam al-Mulk era muito mais velho que Hassan e Omar, e os três terem sido parte de um pacto é muito improvável. Alguns historiadores postulam que Hassan, seguindo sua conversão, estaria abrindo espaço para o Califado Fatimida, e que isto chegou ao conhecimento do Nizam al-Mulk; que era anti-fatimida e anti-Shi’a.
Isto o fez abandonar a cidade e rumar ao Cairo no ano de 1076.
Ele levou cerca de dois anos para chegar ao Cairo. No caminho, ele esteve em várias regiões que não estão diretamente na direção do Egito.
A primeira cidade que ele visitou foi Isfahan, sendo hospedado por um de seus D'ai's da juventude: Resi Abufasl, que continuou a instrução de Hassan. Daí, ele foi ao Azerbaijão, centenas de milhas ao norte, e de lá para a Turquia, onde ele atraiu a ira de alguns sacerdotes em um debate, sendo expulso da cidade onde estava.
De lá ele rumou pelo Iraque, chegando a Damasco na Síria. Ele foi para o Egito partindo da Palestina.
Os registros disso são retirados em parte de fragmentos de sua auto-biografia, e em parte de outra biografia escrita por Rashid al-Din Tabib em 1310.
Hassan chegou ao Egito em 30 de Agosto de 1078.
Ainda é incerto quanto tempo ele passou no Egito; uma visão aceita é a de três anos. Ele continuou seus estudos e se tornou um D’ai completo. Os conceitos que ele estudou foram as filosofias Xiita, Grega (pré-islamica), Persa e Babilônica. Foi Alída e abertamente contra os Sunitas Abássidas.
Enquanto estava no Cairo, estudando e pregando, ele entrou em conflito com o Chefe do Exército Badr al-Jamali, sendo preso pelo Califa al-Muntazir. O colapso do minarete da mesquita foi visto como um sinal ao seu favor, e Hassan foi imediatamente solto e deportado.
O navio em que estava viajando quebrou, ele foi resgatado e levado à Síria. Viajando por Allepo e Bagdá, ele terminou sua jornada em Isfahan em 1081.
Tendo agora sua vida totalmente devotada ao Da'wa, e visitado praticamente todos os locais do Irã, Hassan resolveu assumir suas atividades D'ai em uma área montanhosa ao norte do Irã - os Montes Alborz, região ao sul do Mar Cáspio que abrigava um povo xiita de afamada resistência a subjugações.
Tornando-se o Chefe D'ai daquela área, ele mandou seus missionários treinados pessoalmente para esta região. O Nizam Al-Mulk, sabendo das atividades ismaelitas na região, despachou seus soldados com ordens de capturar Hassan, mas este escapou e se aprofundou nas montanhas.
Sua busca por uma base de onde guiar sua missão terminou quando em 1088 ele encontrou o castelo de Alamut, na região próxima a Rudbar. Se tratava de um forte em frente a um vale de aproximadamente 50 quilômetros de distância e 5 quilômetros de largura. O forte foi construído por volta de 865.
Alamut
Alamūt, (do persa: الموت significa Ninho da águia ~ algumas versões é "A lição da Água", isso sera explicado mais pra frente), foi uma fortaleza situada na Cordilheira Elbruz, ao sul do Mar Cáspio no Irão. De acordo com Hamdollah Mostowfi a primeira fortaleza foi construída em 840, a uma altitude de 2100 m. A fortaleza foi construída de tal forma que só houvesse um meio artificial transitável para chegar a ela, que seria em torno do penhasco, o que dificultaria uma suposta invasão. Em 1090, a fortaleza foi conquistada pelos Hashshashin, uma poderosa seita criada por Hassan I Sabbah conhecidos ao Oeste como Assassinos, e ficou conhecida por seus jardins e sua extensa biblioteca.
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| Ruínas da fortaleza de Alamut situada na Cordilheira Elbruz ao sul do Mar Cáspio. |
A lenda diz que sua construção foi feita pelo Rei Wah Sudan ibn Marzuban, quando este viu sua águia voar e pousar sobre a pedra onde a fortaleza seria feita, pois de lá ela via melhor a região. Em homenagem à águia ele chamou o forte de Aluh Amut, que algumas traduções sugerem "A lição da Águia".
A tomada demorou mais de dois anos para se completar: primeiro Hassan enviou seus D'ai e Rafeeks para conquistar as vilas do vale e converter seus povos, principalmente pessoas ligadas ao castelo, para apenas em 1090 tomar o forte.
É dito que em todo seu tempo em Alamut, Hassan apenas saiu de seus cômodos duas vezes quando foi ao terraço. Passou todo seu tempo dedicado ao comando do Dawa Nizarin. Aparentemente ele levou uma vida extremamente ortodoxa dentro de Alamut: ordenou a morte de um de seus filhos por beber vinho, e outra pessoa foi expulsa de Alamut durante seu governo por tocar flauta. Sendo assim, a associação do haxixe aos assassinos na época de Hassan é ainda digna de debate.
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| Castelo de Alamut |
O termo "Assassino" - Complemento
Outro possibilidade etimológica para a palavra "assassino" vem da forma como os Nizarins chamavam Alamut: al-Assas (pronunciado 'assas'), ou em português "A Base". Membros de Al-Assas poderiam ser chamados de assassinos.
Livros
http://www.pulsoeditorial.com.br/livros-historia/a-ordem-dos-assassini.html
http://www.madras.com.br/portal/index.php?page=shop.product_details&flypage=flypage.tpl&product_id=804&category_id=54&option=com_virtuemart&Itemid=40&vmcchk=1&Itemid=40
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Nizaris
Os nizaris são os fiéis do ismailismo nizari (em árabe: النزاريون - an-Nizāriyyūn), um caminho (tariqah) do islamismo xiita que enfatiza a justiça social, o pluralismo e a razão humana dentro de uma tradição mística do islã. Os nizaris são o segundo maior grupo de xiitas e são a maioria dos ismailitas (em árabe: اسماعیلیه). Há um número estimado de 15 milhões de ismailitas vivendo em mais de 25 países e territórios.
Os ensinamentos dos nizaris afirmam o testemunho islâmico da chahada de que "Não existe nenhum outro deus senão Alá e Maomé é o Seu profeta". Como todos os xiitas, os nizaris acreditam que o primo de Maomé, Ali, foi selecionado por um decreto divino para suceder ao Profeta como imam (líder espiritual) da comunidade muçulmana. A instituição do "imanato" continua numa linha contínua hereditária através de Ali e de Fátima, a filha de Maomé, até os dias de hoje. O imam atual, o príncipe Xá Karim al-Husayni, dito Aga Khan IV, é o 49º imam nizari.
Os nizaris são os descendentes espirituais do Califado Fatímida (909 - 1094), através do filho do califa al-Mustansir Nizar, e da seita subsequente dos "Assassinos" de Alamut sob o dai Hassan aṣ-Ṣabbaḥ (1094-1124).
Assassinos
Foi assim que se tornaram conhecidos os nizaris. Os seus inimigos chamavam-lhes hashishin, devido ao hábito de consumirem hashish (haxixe), e foi daí que surgiu a palavra “assassinos”. A seita alcançou o apogeu na época do líder Hasan Sabbah, que instalou o seu quartel-general, em 1090, na fortaleza de Alamut, nos montes Elbruz. Ocuparam também outras praças-fortes na Síria e no Irão, onde pregaram o xiismo, pelo que foram perseguidos pelos sultãos seljúcidas, que eram sunitas. Os nizaris reagiram e adotaram uma estratégia de assassínios políticos, em plena luz do dia e de extrema violência, contra dirigentes inimigos, como o vizir Nizam al-Mulk ou o califa abássida Al-Rashid. Considerados heterodoxos por outros muçulmanos, os assassinos não cumpriam as leis islâmicas relativas ao álcool e ao jejum no Ramadão. No século XIII, entraram em declínio e a fortaleza de Alamut foi destruída, em 1256, pelos mongóis. Em 1273, o último sultão mameluco, Baybars, tomou o derradeiro baluarte nizari na Síria.
Os ensinamentos dos nizaris afirmam o testemunho islâmico da chahada de que "Não existe nenhum outro deus senão Alá e Maomé é o Seu profeta". Como todos os xiitas, os nizaris acreditam que o primo de Maomé, Ali, foi selecionado por um decreto divino para suceder ao Profeta como imam (líder espiritual) da comunidade muçulmana. A instituição do "imanato" continua numa linha contínua hereditária através de Ali e de Fátima, a filha de Maomé, até os dias de hoje. O imam atual, o príncipe Xá Karim al-Husayni, dito Aga Khan IV, é o 49º imam nizari.
Os nizaris são os descendentes espirituais do Califado Fatímida (909 - 1094), através do filho do califa al-Mustansir Nizar, e da seita subsequente dos "Assassinos" de Alamut sob o dai Hassan aṣ-Ṣabbaḥ (1094-1124).
Assassinos
Foi assim que se tornaram conhecidos os nizaris. Os seus inimigos chamavam-lhes hashishin, devido ao hábito de consumirem hashish (haxixe), e foi daí que surgiu a palavra “assassinos”. A seita alcançou o apogeu na época do líder Hasan Sabbah, que instalou o seu quartel-general, em 1090, na fortaleza de Alamut, nos montes Elbruz. Ocuparam também outras praças-fortes na Síria e no Irão, onde pregaram o xiismo, pelo que foram perseguidos pelos sultãos seljúcidas, que eram sunitas. Os nizaris reagiram e adotaram uma estratégia de assassínios políticos, em plena luz do dia e de extrema violência, contra dirigentes inimigos, como o vizir Nizam al-Mulk ou o califa abássida Al-Rashid. Considerados heterodoxos por outros muçulmanos, os assassinos não cumpriam as leis islâmicas relativas ao álcool e ao jejum no Ramadão. No século XIII, entraram em declínio e a fortaleza de Alamut foi destruída, em 1256, pelos mongóis. Em 1273, o último sultão mameluco, Baybars, tomou o derradeiro baluarte nizari na Síria.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
Califado Fatímida
O Califado Fatímida foi um califado formado com a ascensão da dinastia dos Fatímidas, uma dinastia xiita ismaelita constituída por catorze califas, que reinou na África do Norte entre 909 e 1048 e no Egito entre 969 e 1171.
Origens da Dinastia
As origens da dinastia fatímida situa-se no ismailismo, uma corrente do islão xiita que considerava Ismail como o sétimo sétimo imã xiita. Os Fatímidas alegavam ser descendentes de Fátima (filha do profeta Maomé) e do seu marido Ali, o que explica a designação de Fatímidas. Enquanto xiitas opunham-se ao califado sunita dos Abássidas (750–1258).
A dinastia foi fundada por Ubayd Allah al-Mahdi no século X. Ubayd vivia na cidade síria de Salamiyya, um dos centros a partir dos quais os ismailitas enviavam os seus missionários para os vários pontos do mundo islâmico, com objetivos não só religiosos, mas igualmente políticos. Ubayd Allah decidiu deixar esta cidade por motivos obscuros, acabando por se fixar no norte de África, primeiro em Sijilmassa, no sul de Marrocos, e depois na Tunísia, onde um dos seus missionários, Abu Abdallah, tinha alcançado bons resultados no seu trabalho junto dos berberes da tribo dos Kutama, ao mesmo tempo que procurava debilitar o poder da dinastia local, os aglábidas.
Abu Abdallah tomou Raqqada, a capital dos aglábidas no ano de 909. Em janeiro de 910 Ubayd Allah chegou à cidade, onde tomou os títulos de mahdi e Amir al-Mu'minin. Rapidamente a dinastia passa a controlar o Magrebe. Em 921 Ubayd Allah fixa-se numa nova cidade, al-Mahdiyah ("a cidade do Mahdi"), situada na costa leste da Tunísia, a sul de Sousse. A partir desta cidade Ubayd pretendia conquistar o Egito, mas as três expedições militares lideradas pelo seu filho revelaram-se um fracasso.
O poder fatímida herdou dos aglábidas a ilha da Sicília, cujo domínio se revelou difícil. A população local rejeitou dois governadores fatímidas, dado que tinham eleito um governador próprio, ibn Kurhub, partidário dos abássidas, que fez guerra aos fatímidas. Quando a Sícília foi derrotada, a população local decidiu livrar-se do governador e aceitou o novo governador enviado por Ubayd Allah.
Os Fatímidas no Norte da África
Os primeiros três califas governaram a partir da cidade de al-Mahdiyah, enfrentando algumas dificuldades geradas pelos seus súbditos sunitas e kharijitas, que não estavam dispostos a seguir a doutrina ismailita. Em 948, o terceiro califa, Abu Tahir Ismail Billah, transferiu a capital para a recém-construída al-Mansuriya, situada junto a Cairuão, a antiga capital aglábida.
Os Fatímidas no Egito
No dia 1 de julho de 969 o general Jawhar as-Siqilli, ao serviço do califa al-Muizz, conquistou o Egito. Jawhar mandou construir uma nova cidade, al-Qahirah ("a Vitoriosa"), conhecida no Ocidente como Cairo, perto da localidade de al-Fustat. Esta cidade tinha como objectivo servir de quartel-general para o exército. É na cidade de Cairo que fundam a famosa Universidade de al-Azhar e mesquita com o mesmo nome. Foi ainda durante o califado de al-Muizz que os fatímidas dominaram as cidades sagradas de Meca e Medina, que permaneceram sob controlo fatímida até ao século XI.
Durante o reinado de al-Aziz (975-996) os fatímidas alargaram o seu império até à Síria. Este califa recorreu à prática de recrutar mercenários para integrar o exército, o que se revelaria mais tarde fatal para a dinastia. O seu sucessor, al-Hakim, ficou conhecido pela sua intolerância religiosa contra judeus e cristãos e pelo seu comportamento excêntrico. Tentou destruir a Igreja Copta do Egito e, em 1010, mandou destruir a Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém. Em 1016 Al-Hakim declarou-se Deus; graças à influência do seu vizir Hamzah ibn Ali ibn Ahmad, se desenvolveria um culto em torno da pessoa do califa que está na origem da religião drusa.
Declínio
Foi a partir do final do califado de al-Hakim que se iniciou o declínio dos Fatímidas.
Ao estabelecerem-se no Egito, os Fatímidas perdem o controlo sobre o Magrebe, onde em 1014 tinha sido fundado o reino hamadita de Bougie. Em 1048 os Ziridas (governadores do Norte de África) rejeitam a soberania fatímida.
Em 1073, um soldado de nome Badr al-Jamali levou a cabo um golpe de estado no Cairo. Al-Jamali concentrou o poder nas suas mãos, tomando os títulos de comandante dos exércitos e vizir. A ordem seria restabelecida, mas as tentativas de manter o domínio sobre a Palestina e a Síria resultariam num fracasso. Badr al-Jamali seria sucedido pelo seu filho; a partir de então os califas fatímidas passaram a ser fantoches nas mãos dos vizires.
Em Setembro de 1171 Saladino derrubou o último califa fatímida, al-Adid (r. 1160–1171).
Arte
Na arquitetura os fatímidas utilizaram materiais e técnicas semelhantes aos da dinastia tulunida, mas ao mesmo tempo que desenvolveram as suas técnicas próprias. Importantes edifícios do período fatímida são a já referida mesquita e universidade de al-Azhar, bem como as mesquitas de al-Hakim e al-Akmar.
Ainda na cidade do Cairo o vizir Badr al-Jamali, temendo ataques dos Turcos, mandou reconstruir as muralhas da cidade, ordenando a construção nestas de três portas: a Bab al-Futuh (Porta da Conquista) e Bab al-Nasr (Porta da Vitória) e a Bab Zuwayla (Porta de Zuwayla); as duas primeiras foram construídas em 1087 e a última em 1092. Cada um destas portas monumentais era acompanhada por duas torres, cilíndricas no caso da Bab al-Futuh e da Bab Zuwayla, e rectangular no caso da Bab Zuwayla. Nas torres desta última porta erguem-se dois altos minaretes, que pertencem à Mesquita de al-Mu'ayyad situada junto à porta.
Origens da Dinastia
As origens da dinastia fatímida situa-se no ismailismo, uma corrente do islão xiita que considerava Ismail como o sétimo sétimo imã xiita. Os Fatímidas alegavam ser descendentes de Fátima (filha do profeta Maomé) e do seu marido Ali, o que explica a designação de Fatímidas. Enquanto xiitas opunham-se ao califado sunita dos Abássidas (750–1258).
A dinastia foi fundada por Ubayd Allah al-Mahdi no século X. Ubayd vivia na cidade síria de Salamiyya, um dos centros a partir dos quais os ismailitas enviavam os seus missionários para os vários pontos do mundo islâmico, com objetivos não só religiosos, mas igualmente políticos. Ubayd Allah decidiu deixar esta cidade por motivos obscuros, acabando por se fixar no norte de África, primeiro em Sijilmassa, no sul de Marrocos, e depois na Tunísia, onde um dos seus missionários, Abu Abdallah, tinha alcançado bons resultados no seu trabalho junto dos berberes da tribo dos Kutama, ao mesmo tempo que procurava debilitar o poder da dinastia local, os aglábidas.
Abu Abdallah tomou Raqqada, a capital dos aglábidas no ano de 909. Em janeiro de 910 Ubayd Allah chegou à cidade, onde tomou os títulos de mahdi e Amir al-Mu'minin. Rapidamente a dinastia passa a controlar o Magrebe. Em 921 Ubayd Allah fixa-se numa nova cidade, al-Mahdiyah ("a cidade do Mahdi"), situada na costa leste da Tunísia, a sul de Sousse. A partir desta cidade Ubayd pretendia conquistar o Egito, mas as três expedições militares lideradas pelo seu filho revelaram-se um fracasso.
O poder fatímida herdou dos aglábidas a ilha da Sicília, cujo domínio se revelou difícil. A população local rejeitou dois governadores fatímidas, dado que tinham eleito um governador próprio, ibn Kurhub, partidário dos abássidas, que fez guerra aos fatímidas. Quando a Sícília foi derrotada, a população local decidiu livrar-se do governador e aceitou o novo governador enviado por Ubayd Allah.
Os Fatímidas no Norte da África
Os primeiros três califas governaram a partir da cidade de al-Mahdiyah, enfrentando algumas dificuldades geradas pelos seus súbditos sunitas e kharijitas, que não estavam dispostos a seguir a doutrina ismailita. Em 948, o terceiro califa, Abu Tahir Ismail Billah, transferiu a capital para a recém-construída al-Mansuriya, situada junto a Cairuão, a antiga capital aglábida.
Os Fatímidas no Egito
No dia 1 de julho de 969 o general Jawhar as-Siqilli, ao serviço do califa al-Muizz, conquistou o Egito. Jawhar mandou construir uma nova cidade, al-Qahirah ("a Vitoriosa"), conhecida no Ocidente como Cairo, perto da localidade de al-Fustat. Esta cidade tinha como objectivo servir de quartel-general para o exército. É na cidade de Cairo que fundam a famosa Universidade de al-Azhar e mesquita com o mesmo nome. Foi ainda durante o califado de al-Muizz que os fatímidas dominaram as cidades sagradas de Meca e Medina, que permaneceram sob controlo fatímida até ao século XI.
Durante o reinado de al-Aziz (975-996) os fatímidas alargaram o seu império até à Síria. Este califa recorreu à prática de recrutar mercenários para integrar o exército, o que se revelaria mais tarde fatal para a dinastia. O seu sucessor, al-Hakim, ficou conhecido pela sua intolerância religiosa contra judeus e cristãos e pelo seu comportamento excêntrico. Tentou destruir a Igreja Copta do Egito e, em 1010, mandou destruir a Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém. Em 1016 Al-Hakim declarou-se Deus; graças à influência do seu vizir Hamzah ibn Ali ibn Ahmad, se desenvolveria um culto em torno da pessoa do califa que está na origem da religião drusa.
Declínio
Foi a partir do final do califado de al-Hakim que se iniciou o declínio dos Fatímidas.
Ao estabelecerem-se no Egito, os Fatímidas perdem o controlo sobre o Magrebe, onde em 1014 tinha sido fundado o reino hamadita de Bougie. Em 1048 os Ziridas (governadores do Norte de África) rejeitam a soberania fatímida.
Em 1073, um soldado de nome Badr al-Jamali levou a cabo um golpe de estado no Cairo. Al-Jamali concentrou o poder nas suas mãos, tomando os títulos de comandante dos exércitos e vizir. A ordem seria restabelecida, mas as tentativas de manter o domínio sobre a Palestina e a Síria resultariam num fracasso. Badr al-Jamali seria sucedido pelo seu filho; a partir de então os califas fatímidas passaram a ser fantoches nas mãos dos vizires.
Em Setembro de 1171 Saladino derrubou o último califa fatímida, al-Adid (r. 1160–1171).
Arte
Na arquitetura os fatímidas utilizaram materiais e técnicas semelhantes aos da dinastia tulunida, mas ao mesmo tempo que desenvolveram as suas técnicas próprias. Importantes edifícios do período fatímida são a já referida mesquita e universidade de al-Azhar, bem como as mesquitas de al-Hakim e al-Akmar.
Ainda na cidade do Cairo o vizir Badr al-Jamali, temendo ataques dos Turcos, mandou reconstruir as muralhas da cidade, ordenando a construção nestas de três portas: a Bab al-Futuh (Porta da Conquista) e Bab al-Nasr (Porta da Vitória) e a Bab Zuwayla (Porta de Zuwayla); as duas primeiras foram construídas em 1087 e a última em 1092. Cada um destas portas monumentais era acompanhada por duas torres, cilíndricas no caso da Bab al-Futuh e da Bab Zuwayla, e rectangular no caso da Bab Zuwayla. Nas torres desta última porta erguem-se dois altos minaretes, que pertencem à Mesquita de al-Mu'ayyad situada junto à porta.
Califado Abássida
O Califado Abássida (em árabe: العبّاسيّون; transl.: al-‘abbāsīyūn), foi o terceiro califado islâmico. Ele foi governado pela dinastia Abássida de califas, que construíram sua capital em Bagdá após terem destronado o Califado Omíada, cuja capital era Damasco, com exceção da região de al-Andalus.
O Califado Abássida foi fundado pelos descendentes do profeta islâmico ‘Abbas ibn ‘Abd al-Muttalib, o tio mais jovem de Maomé, em Harran, em 750 d.C. e mudou a sua capital em 762 para Bagdá. Prosperou por dois séculos, mas vagarosamente entrou em declínio com a ascensão do exército turco que eles mesmos haviam criado, os mamelucos. Menos de 150 anos após terem tomado o poder da Pérsia, os califas foram forçados a cedê-lo para emires dinásticos locais, que aceitavam sua autoridade de forma apenas nominal. O califado também perdeu as províncias ocidentais do al-Andalus, Magrebe e Ifríquia para um príncipe omíada, para os Aglábidas e para o Califado Fatímida, respectivamente.
O governo dos abássidas foi exterminado por um breve período de 3 anos em 1258, quando o cã Hulagu, dos mongóis, saqueou Bagdá. Eles retomaram o poder no Egito mameluco em 1261, de onde continuaram a alegar autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos até 1519, quando o poder foi formalmente transferido para o Império Otomano e a capital, realocada para Constantinopla (conquistada aos bizantinos em 1453).
A Ascenção
Os califas abássidas eram árabes descendentes de ‘Abbas ibn ‘Abd al-Muttalib (566 - 662), um dos tios mais jovens de Maomé, que se consideravam os verdadeiros sucessores de Maomé e adversários dos Omíadas. Estes, por sua vez, eram descendentes de Umayya e formavam um clã que se separou de Maomé na tribo de Quraysh. Eles conseguiram o apoio dos xiitas (da sub-seita Hashimiyya, derivada dos Xiitas caisanitas) contra os Omíadas ao se converterem temporariamente ao islamismo xiita e se juntando a eles em sua luta contra os Omíadas.
Os abássidas também se distinguiram dos Omíadas ao atacar seu caráter moral e a sua administração de forma geral. De acordo com Ira Lapidus, "A revolta abássida foi apoiada de forma geral por árabes, principalmente os incomodados colonizadores de Marw, mais a facção iemenita e seus 'mawali". Os abássidas também apelaram para os árabes que ainda não se tinham convertido ao Islão, conhecidos como mawali, que permaneceram à margem da sociedade parental dos árabes e eram vistos como sendo uma classe inferior dentro do Império Omíada. Muhammad ibn 'Ali, um bisneto de Abbas, começou a campanha pelo retorno da família de Maomé, os Hachemitas, na Pérsia, durante o reinado de Omar II.
Durante o reinado de Marwan II, esta oposição culminou na rebelião de Ibrahim, o imã, o quarto na linhagem de Abbas. Apoiado pela província do Coração (atualmente no Irã), ele teve um considerável sucesso, mas foi capturado no ano de 747, vindo a morrer na prisão. A luta então continuou com seu irmão, Abdallah, conhecido pelo nome de Abu al-'Abbas as-Saffah, que derrotou os Omíadas em 750 na Batalha de Zab, perto do Grande Zab, e foi subsequentemente proclamado califa.
Poder
A primeira mudança realizada pelos abássidas foi mudar a capital do império de Damasco, na Síria, para Bagdá, atualmente no Iraque. Este movimento teve como razão um desejo de apaziguar - e se aproximar - da base de apoio mawali persa que existia na região, sob influência mais forte da história e cultura persa, e que demandavam uma influência menos "árabe" no império. Bagdá foi fundada no rio Tigre em 762 e um novo cargo, o de vizir foi criado para permitir a delegação do poder central, com parte ainda maior dele caindo sobre os emires locais. Eventualmente, isso significou que muitos califas abássidas eram relegados a uma posição simplesmente cerimonial do que na época dos Omíadas, uma vez que o vizir começou a exercer uma grande influência, substituindo a antiga aristocracia árabe pela burocracia persa .
Os abássidas haviam dependido fortemente do apoio dos persas quando derrubaram os Omíadas. O sucessor de Abu al-'Abbas, Al-Mansur, quando mudou a capital de Damasco e convidou os muwali para a corte, ajudou a integrar as culturas árabe e persa, mas, ao mesmo tempo, alienou muitos de seus apoiadores árabes, particularmente os árabes de Coração que o haviam apoiado em suas batalhas contra os Omíadas. Estas fraturas na base de apoio dos abássidas quase que imediatamente causaram problemas. Os Omíadas, mesmo apeados do poder, não foram destruídos, uma vez que o último membro sobrevivente da casa real - que fora quase toda assassinada - conseguiu finalmente chegar a Espanha, onde se estabeleceu como um emir independente (Abderramão I, 756). Em 929, Abderramão III assumiu o título de califa, fundando al Andalus , com capital em Córdova, como uma rival a Bagdá ao título de capital do Império Islâmico.
Em 756, o califa abássida al-Mansur enviou mais de 4000 mercenários árabes para ajudar os chineses da dinastia Tang na Rebelião de An Shi contra An Lushan. Após a guerra, permaneceram na China. O califa árabe Harun al-Rashid iniciou uma aliança com os chineses e diversas embaixadas dos califas árabes à corte chinesa foram preservadas nos anais dos Tang, o mais importante deles sendo os de (A-bo-lo-ba) Abul Abbas, o fundador de uma nova dinastia, a dos (A-p'u-ch'a-fo) Abu Jafar, o construtor de Bagdá, e a de (A-lun) Harun al-Rashid, melhor conhecido, talvez, nos dias de hoje através da obra popular conhecida como "As Mil e Uma Noites". Os abássidas (ou "Bandeiras Negras", como eles eram chamados), eram conhecidos na história chinesa como Heh-i Ta-shih, "Os árabes vestidos de preto"
A Era de Ouro
A Era de Ouro do Islão foi inaugurada no meio do século VIII pela ascensão do Califado Abássida e pela transferência da capital de Damasco para Bagdá. Os abássidas fora influenciados pelas mandamentos e hadith corânicos, como "a tinta de um acadêmico é mais sagrada que o sangue de um mártir", estressando o valor do conhecimento . Durante este período, o mundo islâmico se tornou um centro intelectual para ciência, filosofia, medicina e a educação, pois os abássidas abraçaram a causa do conhecimento e criaram a Casa da Sabedoria em Bagdá. Ali, acadêmicos muçulmanos e não muçulmanos lutaram para juntar todo o conhecimento do mundo e traduzi-lo para o árabe . Diversas obras clássicas da Antiguidade, que de outra forma teriam se perdido, foram traduzidas para o árabe e o persa, e depois seria traduzidas para o turco, hebreu e o latim . Durante este período, o mundo muçulmano era um caldeirão de culturas que colecionava, sintetizava e avançava de modo significativo o conhecimento herdado de civilizações antigas como os romanos, os chineses, o indianos, os persas, os egípcios, os gregos e os bizantinos.
Sob os Mamelucos
No século IX, os abássidas criaram um exército leal apenas ao califado, recrutado principalmente entre os escravos turcos e árabes, conhecidos como "Mamelucos", com alguns eslavos e berberes. Esta força, criada durante o reinado de al-Ma'mun (813–833) e seu irmão e sucessor al-Mu'tasim (833–842) evitou que o império de desintegrasse .
O exército mameluco, embora geralmente visto de forma negativa, tanto ajudou quanto prejudicou o califado. No início, ele deu ao governo uma força estável para lidar com problemas domésticos e externos. Porém, a criação deste exército estrangeiro e a transferência da capital de Bagdá para Samarra por al-Mu'tasim criaram uma divisão entre os califas e o povo que eles alegavam governar. Além disso, o poder dos mamelucos cresceu de forma constante até que al-Radi (934–941) foi coagido a entregar a maior parte das funções reais para Mohammed bin Raik .
Os abássidas continuaram a manter uma presença, uma ilusão de autoridade, confinada a assuntos religiosos, no Egito, sob o reinado dos Mamelucos.
O Fim
A dinastia abássida finalmente terminou com al-Mutawakkil III, que foi levado como prisioneiro por Selim I a Constantinopla, onde ele manteve um papel cerimonial até a sua morte em 1543.
O Califado Abássida foi fundado pelos descendentes do profeta islâmico ‘Abbas ibn ‘Abd al-Muttalib, o tio mais jovem de Maomé, em Harran, em 750 d.C. e mudou a sua capital em 762 para Bagdá. Prosperou por dois séculos, mas vagarosamente entrou em declínio com a ascensão do exército turco que eles mesmos haviam criado, os mamelucos. Menos de 150 anos após terem tomado o poder da Pérsia, os califas foram forçados a cedê-lo para emires dinásticos locais, que aceitavam sua autoridade de forma apenas nominal. O califado também perdeu as províncias ocidentais do al-Andalus, Magrebe e Ifríquia para um príncipe omíada, para os Aglábidas e para o Califado Fatímida, respectivamente.
O governo dos abássidas foi exterminado por um breve período de 3 anos em 1258, quando o cã Hulagu, dos mongóis, saqueou Bagdá. Eles retomaram o poder no Egito mameluco em 1261, de onde continuaram a alegar autoridade religiosa sobre todos os muçulmanos até 1519, quando o poder foi formalmente transferido para o Império Otomano e a capital, realocada para Constantinopla (conquistada aos bizantinos em 1453).
| Califado Abássida cerca de 850 |
A Ascenção
Os califas abássidas eram árabes descendentes de ‘Abbas ibn ‘Abd al-Muttalib (566 - 662), um dos tios mais jovens de Maomé, que se consideravam os verdadeiros sucessores de Maomé e adversários dos Omíadas. Estes, por sua vez, eram descendentes de Umayya e formavam um clã que se separou de Maomé na tribo de Quraysh. Eles conseguiram o apoio dos xiitas (da sub-seita Hashimiyya, derivada dos Xiitas caisanitas) contra os Omíadas ao se converterem temporariamente ao islamismo xiita e se juntando a eles em sua luta contra os Omíadas.
Os abássidas também se distinguiram dos Omíadas ao atacar seu caráter moral e a sua administração de forma geral. De acordo com Ira Lapidus, "A revolta abássida foi apoiada de forma geral por árabes, principalmente os incomodados colonizadores de Marw, mais a facção iemenita e seus 'mawali". Os abássidas também apelaram para os árabes que ainda não se tinham convertido ao Islão, conhecidos como mawali, que permaneceram à margem da sociedade parental dos árabes e eram vistos como sendo uma classe inferior dentro do Império Omíada. Muhammad ibn 'Ali, um bisneto de Abbas, começou a campanha pelo retorno da família de Maomé, os Hachemitas, na Pérsia, durante o reinado de Omar II.
Durante o reinado de Marwan II, esta oposição culminou na rebelião de Ibrahim, o imã, o quarto na linhagem de Abbas. Apoiado pela província do Coração (atualmente no Irã), ele teve um considerável sucesso, mas foi capturado no ano de 747, vindo a morrer na prisão. A luta então continuou com seu irmão, Abdallah, conhecido pelo nome de Abu al-'Abbas as-Saffah, que derrotou os Omíadas em 750 na Batalha de Zab, perto do Grande Zab, e foi subsequentemente proclamado califa.
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| Moeda em Bagdá |
A primeira mudança realizada pelos abássidas foi mudar a capital do império de Damasco, na Síria, para Bagdá, atualmente no Iraque. Este movimento teve como razão um desejo de apaziguar - e se aproximar - da base de apoio mawali persa que existia na região, sob influência mais forte da história e cultura persa, e que demandavam uma influência menos "árabe" no império. Bagdá foi fundada no rio Tigre em 762 e um novo cargo, o de vizir foi criado para permitir a delegação do poder central, com parte ainda maior dele caindo sobre os emires locais. Eventualmente, isso significou que muitos califas abássidas eram relegados a uma posição simplesmente cerimonial do que na época dos Omíadas, uma vez que o vizir começou a exercer uma grande influência, substituindo a antiga aristocracia árabe pela burocracia persa .
Os abássidas haviam dependido fortemente do apoio dos persas quando derrubaram os Omíadas. O sucessor de Abu al-'Abbas, Al-Mansur, quando mudou a capital de Damasco e convidou os muwali para a corte, ajudou a integrar as culturas árabe e persa, mas, ao mesmo tempo, alienou muitos de seus apoiadores árabes, particularmente os árabes de Coração que o haviam apoiado em suas batalhas contra os Omíadas. Estas fraturas na base de apoio dos abássidas quase que imediatamente causaram problemas. Os Omíadas, mesmo apeados do poder, não foram destruídos, uma vez que o último membro sobrevivente da casa real - que fora quase toda assassinada - conseguiu finalmente chegar a Espanha, onde se estabeleceu como um emir independente (Abderramão I, 756). Em 929, Abderramão III assumiu o título de califa, fundando al Andalus , com capital em Córdova, como uma rival a Bagdá ao título de capital do Império Islâmico.
Em 756, o califa abássida al-Mansur enviou mais de 4000 mercenários árabes para ajudar os chineses da dinastia Tang na Rebelião de An Shi contra An Lushan. Após a guerra, permaneceram na China. O califa árabe Harun al-Rashid iniciou uma aliança com os chineses e diversas embaixadas dos califas árabes à corte chinesa foram preservadas nos anais dos Tang, o mais importante deles sendo os de (A-bo-lo-ba) Abul Abbas, o fundador de uma nova dinastia, a dos (A-p'u-ch'a-fo) Abu Jafar, o construtor de Bagdá, e a de (A-lun) Harun al-Rashid, melhor conhecido, talvez, nos dias de hoje através da obra popular conhecida como "As Mil e Uma Noites". Os abássidas (ou "Bandeiras Negras", como eles eram chamados), eram conhecidos na história chinesa como Heh-i Ta-shih, "Os árabes vestidos de preto"
A Era de Ouro
A Era de Ouro do Islão foi inaugurada no meio do século VIII pela ascensão do Califado Abássida e pela transferência da capital de Damasco para Bagdá. Os abássidas fora influenciados pelas mandamentos e hadith corânicos, como "a tinta de um acadêmico é mais sagrada que o sangue de um mártir", estressando o valor do conhecimento . Durante este período, o mundo islâmico se tornou um centro intelectual para ciência, filosofia, medicina e a educação, pois os abássidas abraçaram a causa do conhecimento e criaram a Casa da Sabedoria em Bagdá. Ali, acadêmicos muçulmanos e não muçulmanos lutaram para juntar todo o conhecimento do mundo e traduzi-lo para o árabe . Diversas obras clássicas da Antiguidade, que de outra forma teriam se perdido, foram traduzidas para o árabe e o persa, e depois seria traduzidas para o turco, hebreu e o latim . Durante este período, o mundo muçulmano era um caldeirão de culturas que colecionava, sintetizava e avançava de modo significativo o conhecimento herdado de civilizações antigas como os romanos, os chineses, o indianos, os persas, os egípcios, os gregos e os bizantinos.
Sob os Mamelucos
No século IX, os abássidas criaram um exército leal apenas ao califado, recrutado principalmente entre os escravos turcos e árabes, conhecidos como "Mamelucos", com alguns eslavos e berberes. Esta força, criada durante o reinado de al-Ma'mun (813–833) e seu irmão e sucessor al-Mu'tasim (833–842) evitou que o império de desintegrasse .
O exército mameluco, embora geralmente visto de forma negativa, tanto ajudou quanto prejudicou o califado. No início, ele deu ao governo uma força estável para lidar com problemas domésticos e externos. Porém, a criação deste exército estrangeiro e a transferência da capital de Bagdá para Samarra por al-Mu'tasim criaram uma divisão entre os califas e o povo que eles alegavam governar. Além disso, o poder dos mamelucos cresceu de forma constante até que al-Radi (934–941) foi coagido a entregar a maior parte das funções reais para Mohammed bin Raik .
Os abássidas continuaram a manter uma presença, uma ilusão de autoridade, confinada a assuntos religiosos, no Egito, sob o reinado dos Mamelucos.
O Fim
A dinastia abássida finalmente terminou com al-Mutawakkil III, que foi levado como prisioneiro por Selim I a Constantinopla, onde ele manteve um papel cerimonial até a sua morte em 1543.
Ismaelismo
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| Caligrama do Leão Ismaelita; Símbolo associado ao Ismaelismo. |
O ismaelismo é uma doutrina religiosa considerada como um ramo do xiismo. Os adeptos do ismaelismo são também denominados como septimâmicos em função de apenas reconhecerem os sete primeiros imãs do islão xiita: Ali ibn Abi Talib, Hasan ibn Ali, Husain ibn Ali, Ali Zain al-Abidin, Muhammad al-Baqir, Dschafar as-Sadiq e Ismail ibn Dschafar. Diferente dos duodecimanos (xiita dos doze) que não reconhecem Ismail mas Musa al-Kazim, e deste para frente.
A conturbada sucessão de Maomé
Com o falecimento do profeta Maomé (falecido em 632) o comando da nova religião foi assumido por seu sogro, Abu Bakr, que passou a ser chamado Khalifat rasul Allah, ou seja, o 'sucessor do mensageiro de Deus'. No entanto, como este veio a falecer pouco tempo depois, um segundo Califa denominado Umar ou Omar, assumiu o poder. Todavia, a escolha não foi aceita por todos e o Califa Umar foi assassinado no ano de 644. Umar havia estabelecido um corpo de eleitores que elegeu Uthman (ou Otman) como novo Califa, mas para alguns esta honra deveria ter recaído desde o primeiro momento sobre o genro e primo de Maomé, Ali.
O cisma do Islão: Xiitas e Sunitas
Assim, algumas décadas após a morte do profeta Maomé gerou-se um cisma no islão em torno de quem deveria ser o líder da comunidade islâmica. Os partidários de Ali (do árabe 'shiat Ali'), passaram a ser conhecidos como xiitas e sustentam que o verdadeiro sucessor do profeta deveria demonstrar sua descendência direta de Ali. Em contra partida, a outra corrente do islã chamada de sunita não acreditava na necessidade do sucessor ser descendente de Ali e acreditava representar o desejo da maioria.
Antes da morte do profeta Maomé, Alá revelou a ele a sua última mensagem. O profeta foi, então, comunicar a mensagem ao povo num certo local denominado Ghadir-e-Khum ("Vale do Lago"). Após a revelação da mensagem, o profeta disse: MAN KUTUM MOWLAHU FA-ALI MOWLA ("Para quem eu sou Senhor, Ali será seu Senhor também"). Os muçulmanos que não aceitaram Ali como sucessor do profeta chamam-se sunitas e os que aceitaram Ali como 1.º imã, são os chamados xiitas.
As divisões dentro do Xiismo: Controversas a partir do sétimo Imã e o nascimento do Ismaelismo
Como dito anteriormente, os xiitas reconheceram os descendentes de Ali como guias espirituais, sendo estes conhecidos como imans. Eventualmente no seio do islão xiita surgiram conflitos em torno de quem deveria ser reconhecido como imã legítimo.
O sexto imam xiita, Jafar as-Sadiq, teve dois filhos, Ismael e Mussa. De acordo com a visão ismaelita, Sadiq nomeou o seu filho Ismael como seu sucessor. Porém, Ismael morreu três anos antes do pai, em 762 (ou segundo os ismaelitas escondeu-se por ordem do próprio pai). Uma parte da comunidade xiita entendeu por isso que o sétimo imã deveria ser Musa, enquanto que os outros (mais tarde conhecidos como ismaelitas), consideram Ismael como sétimo imã, apoiando a sucessão através do filho deste, Maomé.
Dessa forma, correto afirmar os Xiitas se subdividiram. Todos acreditavam que o chefe do Estado, ou imam deveria ser um descendente de Ali, dotado do dom de infalibilidade no escrutínio da vontade de Deus. Mas discordavam de quem seria tal pessoa.
Os seguidores de Ismael, conhecidos por ismaelitas ou xiitas do sete imanes, porque aceitavam de incío apenas sete Imãs, sendo o sétimo Muhammad Ibn Ismael, foram considerados inimigos não só pelos sunitas como pelos demais xiitas.
No século seguinte pouco se sabe sobre os partidários de Ismael. No século IX este grupo cristalizou-se num grupo centrado na Síria, que se opunham ao califas abássidas.
Califado Fatímidas: O primeiro califado Ismaelita, a Fundação do Cairo e a destruição da Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém
Em 909 um ismaelita, Ubayd Allah al-Mahdi Billah, fundou um estado no norte de África, mais precisamente na área da atual Tunísia. A dinastia por si formada tomaria o nome de fatímidas, pois alegava ser descendente da filha de Maomé, Fátima e de Ali. Em pouco tempo, os fatímidas conquistaram o Egito, onde fundaram a cidade do Cairo no ano de 969, que funcionaria como capital da dinastia.
Um dos califas desta dinastia, al-Hakim (falecido em 1021) foi proclamado "divino" por ad-Darazi. Al-Hakim ordenou também a destruição da Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém, um dos fatores que contribuirá para as Cruzadas.
Crises no Califado Fatímida; Mais uma divisão: Fatímidas e Nizaritas
Em 1094 ocorreu uma crise sucessória no Califado Fatímida. Após a morte do califa al-Mustansir, os irmãos al-Musta'li e Nizar lutariam pela liderança do califado. Os governantes fatímidas apoiariam al-Musta'li e os seguidores de Nizar, que ficariam conhecidos como nizaritas, fugiram para as montanhas da Síria e do Irão.
Na Síria o ramo nizari desenvolveu uma seita chamada hashashin ("assassinos").
Doutrina
À semelhança dos outros muçulmanos, os ismaelitas acreditam num único deus e no profeta Maomé como mensageiro divino. Partilham com os outros xiitas a crença que Ali foi nomeado por Maomé para líder a comunidade muçulmana, devido à sua capacidade para interpretar a mensagem de Deus, dom que foi transmitido aos seus descendentes.
Contudo, ao contrário dos outros xiitas, os ismaelitas seguem um imã vivo, o qual é denominado como "Hazir Imam". Os nizaritas têm como seu imã o Aga Khan.
O pensamento ismaelita apresenta igualmente uma visão cíclica, desenrolando-se a história ao longo de sete eras. Cada uma destas eras é iniciada por um profeta, que traz consigo uma escritura sagrada. Cada profeta é acompanhado por um companheiro silencioso, que revela os aspectos esotéricos da escritura. Os seis primeiros ciclos estiveram associados aos profetas Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Maomé. O companheiro silencioso de Maomé foi Ismael, que regressará no futuro para ser o profeta do sétimo ciclo. Este sétimo ciclo implicará o fim do mundo. Até esse momento o conhecimento oculto deve ser preservado em segredo e revelado apenas a iniciados.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Crítica ao pensamento de Robert Pape sobre o Terrorismo Islâmico.
De onde vem a visão de que a política externa ocidental é a motivação para o terrorismo? Podemos dar alguns nomes para chamar ao debate.
Um notável é Robert Pape.
O cientista político e professor da Universidade de Chicago Robert Pape, autor do livro "Dying to Win: The Strategic Logic of Suicide Terrorism" (Morrendo para Vencer: A Estratégia Lógica do Terrorismo Suicida), argumenta que ao menos os terroristas que se utilizam de ataques suicidas - uma forma especialmente eficaz de ataque terrorista - não são impulsionados por qualquer forma de islamismo mas sim por "um objetivo estratégico claro: forçar as democracias modernas a retirar suas forças militares do território que os terroristas veem como suas pátrias."
O americano afirma que 95% dos ataques terroristas suicidas tiveram motivação nacionalista ou secular, e só uma minoria tem origem no fanatismo religioso. Todos os líderes da rede terrorista Al Qaeda já deixaram claro que querem a desocupação de territórios ocupados por forças ocidentais e dos regimes aliados locais. Não se trata de uma motivação religiosa, mas territorial ou política. Pape defende que o fenômeno do terrorismo suicida está diretamente ligado às ocupações de forças estrangeiros, enquanto a religião, tão comumente citada como motivação, está por trás de apenas 5% dos ataques desse tipo no mundo desde 1980.
Segundo o especialista, a retirada das tropas israelenses do Líbano e das americanas do Iraque é a principal forma de diminuir esse tipo de violência. Para sustentar sua visão ele argumenta que Israel sofreu ataques suicidas no Líbano quando ocupou o território libanês. Após a sua retirada em 2000, nunca mais foi alvo. O mesmo vale para a ocupação dos territórios palestinos. O Hizbollah matou 700 israelenses quando Israel ocupava o sul do Líbano, no anos 1990. Entre 2000 e julho deste ano, quando Israel esteve fora do Líbano, foram apenas 11 israelenses mortos, todos soldados e ainda assim nas fazendas de Shebaa [área ainda ocupada por Israel].
Pape lembra também que ataque suicida não é exclusivo de muçulmanos. O grupo que mais cometeu atentados suicidas é Tigres Tâmeis, do Sri Lanka, um grupo nacionalista.
Contestações:
Que não existem apenas atentados suicidas com motivação religiosa é algo bem conhecido. Sabemos da história dos Kamikazes no Japão.
Mas colocar o Terrorismo Islâmico nesse meio e dizer que é apenas um problema de território e nacionalismo é algo bastante duvidoso.
A questão do problema territorial de Robert Pape não explica muito bem o por que da Al-Qaeda realizar atentados contra seus inimigos bem longe das zonas de conflito. Em Londres, em Nova York, em Washington, em Madrid, em Paris etc.
Outra coisa que Pape diz é que sempre se deve ler os comunicados que eles emitem para saber o que eles querem. Esses comunicados sempre exigem que Estados Unidos, Reino Unido e Israel se retirem de países como Afeganistão, Iraque e Líbano. Se considerarmos os comunicados dos terroristas então teremos a certeza absoluta e inquestionável que a motivação religiosa é muito forte sim. Além do apelo para tirar as tropas estão presentes frases como "matar americanos e seus aliados, civis e militares é um dever individual de todo o muçulmano capaz de fazê-lo" (dita por Osama Bin Laden).
O que Pape parece fazer é escolher qual é o "discurso verdadeiro" e qual é apenas a desculpa, sem muita base científica ou analítica séria.
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Khadija e Maomé - A Vida de Negócios do Profeta do Islã
Os cidadãos de Meca eram conhecidos por suas caravanas de camelos e negócios.
O caráter comercial dos árabes é refletido na figura do patriarca do Islã, Maomé, que, já quando tinha 12 anos de idade, participou do grupo de comércio de seu tio Abu Talib para a terra de Sham, que queria se expandir para o Iraque, Jordânia, Bahrein, Etiópia, Síria e Iêmen.
Podemos dizer que Maomé foi muito bem sucedido na construção de seu "império de negócios" a partir de sua perseverança na construção de uma reputação pessoal e marca pessoal muito confiáveis. Maomé aplicou o que seria equivalente hoje a ética empresarial moderna, comumente chamado de "marketing social", que engloba governança corporativa, responsabilidade social corporativa e assim por diante.
Quando Maomé se casou com ela ele manteve Khadija na administração da empresa. Maomé prefiria levar os animais e os objetos nas caravanas, enquanto Khadija cuidava dos negócios do lar.
Mesmo em uma sociedade muito patriarcal como os árabes, era normal as mulheres administrando negócios e inclusive, haviam aquelas que participavam de guerras (a viúva de Maomé, no caso Aisha, com cerca de 20 anos de idade liderou uma guerra contra o primo de profeta).
A cultura do empreendimento, seja negócios comerciais ou guerra, era algo bastante enraizado na cultura árabe antiga.
O caráter comercial dos árabes é refletido na figura do patriarca do Islã, Maomé, que, já quando tinha 12 anos de idade, participou do grupo de comércio de seu tio Abu Talib para a terra de Sham, que queria se expandir para o Iraque, Jordânia, Bahrein, Etiópia, Síria e Iêmen.
Podemos dizer que Maomé foi muito bem sucedido na construção de seu "império de negócios" a partir de sua perseverança na construção de uma reputação pessoal e marca pessoal muito confiáveis. Maomé aplicou o que seria equivalente hoje a ética empresarial moderna, comumente chamado de "marketing social", que engloba governança corporativa, responsabilidade social corporativa e assim por diante.
Essa boa reputação pessoal e comercial foi essencial na vida de Maomé. Ele possuía um tino comercial bem apurado e uma astúcia empresarial.
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| Medalha de Khadija, esposa de Maomé, encontrado no livro de iconografia por Guillaume Rouillé |
O casamento com Khadija
Maomé pagou o mahr (o que seria equivalente ao dote) de Khadija bint Khuwaylid em uma boa quantia de camelos, fora alguns produtos. Se convertido para o valor presente, de acordo com o Prof Laode (membro da da Assembleia delegados da região Sudeste Sulawesi - Indonésia), seria equivalente a 6 (seis) bilhões de dólares.
Khadija foi a primeira esposa do profeta Maomé e a primeira pessoa a se converter à religião pregada pelo marido. Pertencente ao clã Banu Hashim, ela foi casada duas vezes, e ficou viúva nesses dois casamentos.
A renda de Kadija advinha do comércio realizado pelo seu último falecido marido em caravanas onde passava meses fora. Era uma rica viúva envolvida no comércio caravaneiro.
Maomé conheceu trabalhando como seu agente nos negócios das caravanas, estas que atravessavam a Arábia em direção à Síria.Quando Maomé se casou com ela ele manteve Khadija na administração da empresa. Maomé prefiria levar os animais e os objetos nas caravanas, enquanto Khadija cuidava dos negócios do lar.
Mesmo em uma sociedade muito patriarcal como os árabes, era normal as mulheres administrando negócios e inclusive, haviam aquelas que participavam de guerras (a viúva de Maomé, no caso Aisha, com cerca de 20 anos de idade liderou uma guerra contra o primo de profeta).
A cultura do empreendimento, seja negócios comerciais ou guerra, era algo bastante enraizado na cultura árabe antiga.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
A Influência da Civilização Islâmica no Ocidente (René Guenon)
A maior parte dos europeus não avaliou exatamente a importância da contribuição que recebeu da civilização islâmica nem compreendeu a natureza de seus empréstimos no passado e alguns chegam a menosprezar tudo o que tem relação com ela. Isto ocorre porque a história, tal como é ensinada, contraria os fatos e parece ter sido alterada voluntariamente em muitos pontos. É com exagero que esse ensinamento divulga o pouco de consideração que lhe inspira a civilização islâmica e tem o hábito de desmerece-la cada vez que a ocasião se apresenta. Convém observar que o ensino histórico nas universidades da Europa não mostra a influência islâmica. Ao contrário, as verdades que deveriam ser ditas acerca deste assunto, quer se trate de professar ou de escrever, são sistematicamente desviadas, sobretudo com relação aos acontecimentos mais importantes.
Por exemplo, sabe-se geralmente que a Espanha ficou sob a lei islâmica durante vários séculos, mas nunca se diz que houve o mesmo em outros países, tais como a Sicília e a parte meridional da França atual. Alguns querem atribuir este silêncio dos historiadores a algum preconceito religioso. Mas, que dizer dos historiadores atuais cuja maior parte não tem religião, ou mesmo são adversários de toda religião, quando confirmam o que seus predecessores disseram de contrário à verdade ?
É preciso pois ver aí uma conseqüência do orgulho e da presunção dos ocidentais, o que os impede de reconhecer a verdade e a importância de suas dívidas para com o Oriente.
O mais estranho neste caso é ver os europeus considerarem-se como os herdeiros diretos da civi1izaçao helênica, quando a verdade dos fatos invalida essa pretensão. A realidade tirada da história estabelece categoricamente que a ciência e a filosofia gregas foram transmitidas aos europeus por intermediários muçulmanos. Em outros termos, o patrimônio intelectual dos helênicos não veio ao Ocidente senão depois de ter sido seriamente estudado pelo Oriente Próximo. Não fossem os sábios do Islã e seus filósofos, os europeus permaneceriam na ignorância total desses conhecimentos durante muito tempo, se viessem alguma vez a conhecê-los.
Convém observar que falamos aqui da influência da civilização islâmica e não especialmente árabe, como se diz às vezes sem razão. Porque a maioria dos que exerceram essa influência no Ocidente não era de raça árabe e se sua língua era o árabe, foi somente em conseqüência de sua adoção da religião islâmica.
Visto que somos levados a falar da língua árabe, podemos ver uma prova certa da extensão dessa mesma influência no Ocidente, pela existência de termos de origem e de raiz árabes muito mais numerosos do que geralmente o crêem, incorporados em quase todas as línguas européias e cujo emprego continuou até nós, ainda que muitos entre os europeus que deles se servem ignorem totalmente sua verdadeira origem. Como as palavras não são outra coisa que o veículo das idéias e o meio de exteriorização do pensamento, compreende-se que seja extremamente fácil deduzir desses fatos a transmissão de idéias e de concepções islâmicas.
De fato, a influência da civilização islâmica estendeu-se em grande medida e de maneira sensível a todos os domínios: ciência, artes, filosofia, etc. A Espanha foi um meio muito importante com relação ao Islã, e o principal centro de difusão dessa civilização. Nossa intenção não é tratar em detalhe cada um desses aspectos, nem definir a área de extensão da civilização islâmica, mas somente indicar alguns fatos que consideramos como particularmente importantes, ainda que sejam pouco numerosos em nossa época os que reconheçam esta importância.
No que concerne às ciências, podemos fazer uma distinção entre as ciências naturais e as ciências matemáticas. Para as primeiras, sabemos com certeza que algumas delas foram transmitidas pela civilização islâmica à Europa que as adotou de modo completo. A química, por exemplo, sempre guardou seu nome árabe, nome cuja origem remonta, aliás, ao Egito antigo, e isto embora o sentido primeiro e profundo desta ciência tenha se tornado completamente desconhecido dos modernos e como que perdido para eles.
Para citar um outro exemplo, o da astronomia, as palavras técnicas empregadas em todas as línguas européias são ainda na maior parte de origem árabe, e os nomes de muitos corpos celestes não cessaram de ser os nomes árabes empregados tal qual pelos astrônomos de todos os países. Isto deve-se ao fato de que os trabalhos dos astrônomos gregos da antigüidade, tais corno Ptolomeu de Alexandria, foram conhecidos por meio de traduções árabes, ao mesmo tempo que os de seus continuadores muçulmanos. Seria aliás fácil mostrar em geral que os conhecimentos geográficos, concernentes as regiões mais afastadas da Ásia ou da África, foram adquiridos, na maior parte, durante muito tempo, pelos exploradores árabes que visitaram numerosas regiões, e poderíamos citar muitos outros fatos deste gênero.
Quanto às invenções, que não passam de aplicações das ciências naturais, elas seguiram igualmente a mesma via de transmissão, quer dizer, a intermediação muçulmana, e a historia do "relógio d'água" oferecido pelo Khalifa Haroun-el-Rachid ao imperador Carlos Magno não desapareceu ainda da memória.
No que concerne as ciências matemáticas, convém dar-lhes uma atenção particular sob esse aspecto. Nesse vasto domínio, não somente a ciência grega foi transmitida ao ocidente por intermédio da civi1izaçao islâmica, mas também a ciência hindu. Os gregos desenvolveram também a geometria, e mesmo a ciência dos números, para eles, esteve sempre ligada à consideração das figuras geométricas correspondentes. Essa predominância dada à geometria aparece claramente, por exemplo, em Platão. Existe, entretanto, uma outra parte das matemáticas pertencente à ciência dos números que não é conhecida, como as outras, sob uma denominação grega nas línguas européias, pela razão que os antigos gregos a ignoravam. Esta ciência é a álgebra, cuja fonte primeira foi a Índia e cuja denominação árabe mostra bem como ela foi transmitida ao ocidente.
Um outro fato que é bom assinalar aqui, apesar de sua menor importância, vem ainda reforçar o que dissemos; é que os algarismos empregados pelos europeus são por todos conhecidos como algarismos árabes , ainda que sua origem primeira seja na realidade hindú, porque os sinais de numeração empregados originariamente pelos árabes não eram outros que as próprias letras do alfabeto.
Se agora deixarmos o exame das ciências pelo das artes, observaremos que, no que concerne à literatura e à poesia, muitas idéias, provenientes de escritores e poetas muçulmanos, foram utilizadas na literatura européia e que mesmo alguns escritores ocidentais foram até a imitação pura e simples de suas obras. Do mesmo modo podemos ressaltar traços de influência islâmica na arquitetura, e isso de um modo bem particular na Idade Média; assim, a cruz de ogiva, cuja marca impôs-se ao ponto de ter dado seu nome a um estilo arquitetônico, tem incontestavelmente sua origem na arquitetura islâmica, ainda que numerosas teorias fantasistas tenham sido inventadas para dissimular esta verdade. Essas teorias são contestadas pela existência de uma tradição de construtores que afirma constantemente a transmissão de seus conhecimentos a partir do Oriente-Próximo.
Esses conhecimentos revestiam um caráter secreto e davam à sua arte um sentido simbólico ; eles tinham relações estreitas com a ciência dos números, e sua origem primeira tem sido sempre reconduzida aos que construíram o Templo de Salomão.
Qualquer que seja a Origem longínqua desta ciência, não é possível que ela tenha sido transmitida a Europa da Idade Média por outro intermediário que o mundo muçulmano. Convém dizer a este respeito que esses construtores, constituídos em corporações que possuíam ritos especiais, consideravam-se e designavam-se como estrangeiros no Ocidente, ainda que estivessem no seu pais natal, e que esta denominação subsistiu até nossos dias, embora essas coisas tenham-se tornado obscuras e não sejam conhecidas mais que por um numero ínfimo de pessoas.
Nesta rápida exposição, é preciso mencionar especialmente um outro domínio, o da filosofia, onde a influência islâmica atingiu na Idade Média uma importância tão considerável que nenhum dos mais renhidos adversários do Oriente poderia ignorar a força. Podemos dizer verdadeiramente que a Europa, nesse momento, não dispunha de nenhum outro meio para chegar ao conhecimento da filosofia grega. As traduções latinas de Platão e Aristóteles, que eram utilizadas então, não foram feitas diretamente sobre os originais gregos, mas certamente sobre traduções árabes anteriores, as quais estavam ligados os comentários dos filósofos muçulmanos contemporâneos, tais como Averróes, Avicena, etc...
A filosofia dessa época, conhecida sob o nome de escolástica, é geralmente distinguida em muçulmana, judaica e cristã . Mas é a muçulmana que esta na origem das duas outras e mais particularmente da filosofia judaica, que floresceu na Espanha e cujo veículo era a língua árabe, como pode-se constatar por obras tão importantes como as de Moussa-ibn-Maimoun que inspirou a filosofia judaica posterior de vários séculos até a de Spinoza, onde algumas de suas idéias são ainda muito reconhecíveis.
Mas não é necessário continuar a enumeração de fatos que todos os que tem alguma noção da história do pensamento conhecem. É preferível estudar, para terminar, outros fatos, de uma ordem completamente diferente, totalmente ignorados da maior parte dos modernos que, particularmente na Europa, não fazem deles a menor idéia, enquanto para nosso ponto de vista essas coisas apresentam um interesse muito mais considerável do que todos os conhecimentos exteriores da ciência e da filosofia. Queremos falar do esoterismo, com tudo o que se liga a ele e dele provém como conhecimento derivado, constituindo ciências totalmente diferentes daquelas que são conhecidas dos modernos.
Na realidade, a Europa de nossos dias não tem nada que possa lembrar essas ciências; além disso, o Ocidente ignora completamente conhecimentos verdadeiros, tais como o esoterismo e seus análogos, ao passo que na Idade Média eles eram, ao contrário, muito mais conhecidos; e, neste domínio também, a influencia islâmica nesta época aparece do modo mais claro e mais evidente. É aliás muito fácil levantar seus traços em obras de aspectos múltiplos e cujo alvo real era bem diferente do literário.
Alguns europeus começaram a descobrir algo desse gênero especialmente pelo estudo que fizeram dos poemas de Dante, mas sem chegar todavia à compreensão perfeita de sua verdadeira natureza. Há alguns anos, um orientalista espanhol, Don Miguel Asin Palacios, escreveu sobre as influências muçulmanas na obra de Dante e demonstrou que muitos símbolos e expressões empregados pelo poeta tinham sido usados antes dele pelos esoteristas muçulmanos e em particular por Sidi Mohyddin-ibn-Arabi. Infelizmente as notas deste erudito não mostraram a importância dos símbolos colocados na obra. Um escritor italiano, morto recentemente, Luigi Valli, estudou um pouco mais profundamente os poemas de Dente e concluiu que ele não foi o único a empregar os procedimentos simbólicos utilizados na poesia esotérica persa e árabe; no país de Dante e entre seus contemporâneos, todos esses poetas eram membros de uma organização de caráter secreto chamada "Fiéis do Amor" da qual o próprio Dante era um dos chefes.
Mas quando Luigi Valli tentou penetrar no sentido de sua "linguagem secreta" foi impossível a ele também reconhecer o verdadeiro caráter dessa organização ou de outras da mesma natureza constituídas na Europa da Idade Média (1). A verdade é que algumas personalidades desconhecidas existiam por trás dessas associações e as inspiravam; essas organizações eram conhecidas sob diferentes nomes, dos quais o mais importante era o de "Irmãos da Rosa-Cruz".
Estes não possuíam, aliás, regras escritas e não constituíam de modo nenhum uma sociedade; eles não tinham nada assim como reuniões determinadas, e tudo o que podemos dizer é que tinham atingido um certo estado espiritual que nos autoriza a chamá-los "sufis" europeus, ou pelo menos mutaçawwufîn, chegando a um alto grau nessa hierarquia. Diz-se também que esses "Irmãos da Rosa-Cruz", que serviam como "cobertura" das corporações de construtores das quais falamos, ensinavam a alquimia e outras ciências idênticas às que estavam naquele momento em plena floração no mundo do Islã. Na verdade, eles formavam um elo da cadeia que religava o Oriente ao Ocidente e estabelecia um contato permanente com os sufis muçulmanos, contato simbolizado pelas viagens atribuídas a seu fundador lendário.
Mas esses fatos não chegaram ao conhecimento da história ordinária , cujas investigações não passam das aparências, enquanto é mais além, podemos dizer, que se encontra a verdadeira chave que permitiria a solução de tantos enigmas que, de outro modo, permaneceriam sempre obscuros e indecifráveis.
domingo, 28 de agosto de 2011
O Islã e as Ciências Médicas
Hajji Sheikh Muhammad Ragip
1. - Origem do Islam
Historicamente, pode-se dizer que a religião islâmica surgiu a partir do ano 610 d.C., com o início da revelação do Sagrado Alcorão. O profeta Muhammad (saws) meditava, solitariamente, em uma gruta nas montanhas de Hira, distante alguns quilômetros da cidade de Meca, na hoje Arábia Saudita, quando, em uma experiência visionária, apareceu o Anjo Gabriel (as), ordenando-lhe ler as primeiras palavras do Livro Sagrado. Trêmulo e febril, o Profeta (saws) não compreendeu a experiência extraordinária pela qual passava e que mudaria o curso da história. Encontrou em sua fiel esposa Khadija apoio e suporte para assimilar os difíceis momentos iniciais da revelação. A partir de então, durante 23 anos, o anjo trouxe gradativamente, da Fonte infinita para a realidade humana, a palavra divina, na forma de um livro revelado.
Nesta época, Meca era dominada pela idolatria e costumes selvagens. A mensagem trazida pelo Profeta Muhammad (saws) afirmando a existência de Deus Uno e Único, que ordenava justiça e tolerância, comportamento ético e humanitário, respeito aos direitos dos seres humanos, homens e mulheres, encontrou forte oposição. Os primeiros muçulmanos foram maltratados e humilhados enfrentando perseguições, torturas e assassinatos. Em 622 d.C., buscando melhores condições de sobrevivência, retiraram-se da cidade de Meca para a cidade de Medina, com apoio e suporte de seus habitantes. Este ano, 622 d.C., dá início ao calendário islâmico. A partir de Medina, a religião islâmica consolidou-se e iniciou sua expansão. Num período de menos de cem anos já estendia-se pelo norte da África, península ibérica na região do atual Portugal e Espanha, até o extremo oriente, chegando às fronteiras da Índia e China. Justiça, respeito à lei, tolerância e espírito democrático foram fatores que facilitaram esta expansão, levando os muçulmanos a serem bem recebidos nas regiões a que chegavam. Nos séculos que se seguiram o Islamismo contribuiu para o desenvolvimento do saber humano em diversas áreas como medicina, astronomia, álgebra, filosofia, resgatando a obra dos pensadores gregos do passado.
1.1 - Fontes do Islam
A fonte fundamental da qual derivou toda a civilização islâmica é o Sagrado Alcorão. Registros históricos comprovam, e pesquisadores (não islâmicos) reconhecem, que o Sagrado Alcorão não sofreu alterações e mantém-se até hoje na forma exata como foi revelado, sendo que foi registrado por escrito durante a vida do Profeta (saws) e não após sua morte. Ao lado deste situam-se as tradições proféticas, os hadith, que são as decisões, silêncios e exemplos do Profeta Muhammad (saws) face às situações e circunstâncias com que se deparou na vida cotidiana. Como o Profeta (saws) sempre se reportava à mensagem revelada, sendo considerado em suas ações como o Alcorão vivo, na verdade a fonte primária e essencial é o Livro Sagrado.
Além do Alcorão e dos hadith com o tempo desenvolveram-se as escolas de jurisprudência (fiqh) islâmica. Também são consideradas fontes do Islam. Tornaram-se necessárias pois, embora o Alcorão contenha prescrições específicas para o comportamento certo e errado, em muitas áreas da atividade humana, suas injunções não cobrem todas as situações particulares que surgem na vida prática. Adicionalmente, trata-se de um livro revelado para ser válido e atual até o final dos tempos, sendo assim, é específico apenas nas prescrições que devem se manter imutáveis, em qualquer época, e, nos demais casos, apresenta as diretrizes gerais.
Situações que não podem ser esclarecidas através do Sagrado Alcorão, nem através dos hadith, nem através das escolas de jurisprudência (fiqh), considerados nesta ordem, são definidas através do consenso da comunidade islâmica, buscado pelo estudo e análise dos juristas islâmicos. Este é um ponto importante a ser observado, pois os avanços da ciência em geral e da medicina em particular, têm disponibilizado recursos, como transplante de órgãos, engenharia genética, clonagem e outros, que envolvem questões éticas significativas. O posicionamento diante destas novas tecnologias, na comunidade muçulmana, se dá sempre a partir da Escritura Sagrada, dos hadiths e das escolas de jurisprudência, interpretados através da análise jurídica, quando não há clareza suficiente.
2. - Contribuições do Islam para o desenvolvimento das ciências médicas
Na era pré-islâmica, a Arábia, em sua maior parte desértica, era habitada por tribos nômades de beduínos, com algumas comunidades estabelecidas nos pontos de disponibilidade de água e nas intercessões das rotas comerciais. Esta população era caracteristicamente tribal, inculta, envolvida em freqüentes escaramuças, movidas pela disputas ou pela vingança contra seus inimigos. Possuíam um tipo de medicina elementar, oriunda basicamente da experiência prática, herdada dos ancestrais, sem qualquer tipo de elaboração sistemática.
Com o advento do Islam, o Sagrado Alcorão e as tradições proféticas estabeleceram princípios que valorizam o conhecimento, a busca da cura para as moléstias, diretrizes para o atendimento médico e diretrizes para o paciente buscar sua cura. Os hadith trouxeram também ditos e tradições que foram denominados "Medicina Profética", prescrevendo as virtudes da dieta, remédios naturais, o tratamento simples para dor de cabeça, febre, dor de garganta, conjuntivite e outras. Trouxeram também prescrições para evitar o contato com pessoas infectadas por doenças contagiosas como a lepra, instituindo controles para entrada e saída de áreas sujeitas a epidemia ou praga. Trouxeram também um grande número de tradições agrupadas sob o título "Medicina Espiritual", baseada em preces ou na recitação de versos do Sagrado Alcorão, para prover cura.
A expansão islâmica, e o contato com o saber acumulado em sociedades de cultura mais elaborada, inaugurou uma das eras áureas da humanidade em termos de desenvolvimento nas artes e nas ciências dando origem ao que pode ser considerado, do ponto de vista histórico, à "Medicina Islâmica". Este resultado é conseqüência direta de alguns princípios islâmicos que nortearam o contato dos muçulmanos com outros povos, como veremos a seguir.
2.1 - Princípios que nortearam o desenvolvimento da civilização islâmica
Importância fundamental atribuída à aquisição do conhecimento:
A primeira palavra do Sagrado Alcorão revelada ao profeta Muhammad (saws) foi
"Lê" (Surata 96:1).
Como seres humanos, conscientes, temos obrigação de ler e estudar. Em outra passagem do Alcorão lê-se:
"Poderão, acaso, equiparar-se os sábios com os insipientes?" (Surata 39:9).
Em uma tradição profética (hadith), o profeta (saws) aconselha:
"Busque o conhecimento mesmo que seja necessário ir tão longe quanto a China",
em outro hadith afirma:
"A busca de conhecimento é obrigatória para todo muçulmano", e ainda:
"A tinta dos eruditos tem maior valor que o sangue dos mártires".
Proibição da destruição:
Em caso de guerra é expressamente proibida a destruição desnecessária de plantações, rebanhos, edifícios, propriedades, ou o ataque a mulheres, crianças e velhos indefesos. O respeito a estes princípios permitiu a preservação da cultura dos povos conquistados.
Tolerância com outras religiões:
Os cristãos e os judeus são considerados, no Islam, como os povos do livro, isto é sua religião teve origem em uma mensagem revelada, um livro sagrado, como no caso dos muçulmanos. Estudos (não islâmicos) tendo como base a análise dos estilos literários e os registros históricos, demonstram que o texto original da Torah (Pentateuco do Velho Testamento) dos judeus, os Salmos de Davi, e outros livros do Velho Testamento, foram escritos por diferentes autores, em diferentes épocas. O Evangelho de Jesus Cristo ( as) foi registrado muitos anos após a revelação. Portanto, sofreram distorções, acréscimos e supressões introduzidas por seres humanos, ao longo dos séculos, isto é, não são mais retrato fiel da mensagem original revelada. Apesar disto, sua origem inicial é divina e portanto deve ser respeitada. Também as outras religiões devem ser respeitadas pois, segundo um hadith, desde Adão existiram 124.000 profetas mensageiros, portanto nunca se pode afirmar com certeza que determinada crença não teve origem divina em seu primórdio. Nunca houve conversão pela força no mundo islâmico, uma vez que isto está interditado no Sagrado Alcorão:
"Não há imposição quanto à religião" (Surata 2:256).
Respeito ao diferente:
No Alcorão é revelado que diversidade humana entre povos faz parte do esquema divino e tem um propósito:
"Ó Humanos, ..., vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros." (Surata 49:13).
2.2 - Fases da civilização islâmica
Balizados por esses princípios, os conquistadores muçulmanos assimilaram as culturas dos povos com os quais entraram em contato, sendo que a influência da civilização islâmica pode ser categorizada em três grandes fases:
A renascença islâmica:
A grosso modo foi o período compreendido entre o início do Islam, no século 7 d.C. e o início do declínio da dinastia Abássida em meados do século 9 d.C. Caracterizou-se, na fase de expansão, entre os séculos 7 d.C. e 8 d.C., pelo contato com diferentes povos e culturas, desde o Oceano Atlântico, no lado ocidental, até as fronteiras da China no oriente. Neste período ocorreram as grandes traduções, para o árabe, do conhecimento de persas, romanos, gregos, sírios, nos mais diversos ramos de conhecimento como matemática, astronomia, astrologia, ética, mecânica, física, filosofia, arquitetura, geometria, e na medicina: oftalmologia, cirurgia, uso de drogas medicinais, ginecologia, psicoterapia e muitos outros. Foram traduzidas obras de Euclides, Aristóteles, Arquimedes, Pitágoras, Teodesius, Ptolomeu, e na medicina, as obras de Galeno, de Hipócrates, e outros. Esta reunião de conhecimento, de fontes culturais tão diversas, sob a tutela de uma única nação, trouxe uma nova dimensão para o saber humano, uma vez que conhecimentos dispersos em diferentes povos foram colocados sob uma única administração, permitindo sua apreciação em conjunto, e sua consolidação.
O período do apogeu:
Período do século 9 d.C. ao século 16 d.C., no qual todas as ciências, incluindo a medicina, atingiram o ápice de seu desenvolvimento. A partir das obras traduzidas, novos conhecimentos foram acrescentados, decorrentes das pesquisas e estudos de sábios como Rhazes, Abulcassis, Avicenna, Averroes, Al-Nafis, e muitos outros, em grandes centros como Córdoba na Andaluzia, Baghdad, Damasco, Cairo.
O declínio:
A partir do século 16 d.C., início da renascença européia, a civilização islâmica entrou em declínio, porém o conhecimento acumulado no mundo islâmico foi traduzido para os idiomas europeus e tornou-se fonte importante para os desenvolvimentos e descobertas que em última análise culminaram nas ciências e medicina modernas. Muitas obras, inclusive dos filósofos gregos, não estavam mais disponíveis nas versões originais, somente sendo possível recuperá-las a partir das traduções para o árabe.
2.3 - Nomes de destaque no desenvolvimento das ciências médicas
A seguir veremos alguns nomes de destaque que permitirão apreciar, mesmo que superficialmente, a extensão da contribuição da civilização islâmica para o desenvolvimento da medicina.
Rhazes:
Nome completo: Muhammad ibn-Zakariyya al-Razi. Nascido em 865 d.C. em Ray, subúrbio de Tehran, faleceu em 925 d.C. Iniciou seus estudos com música, tornando-se exímio tocador de alaúde, dedicando-se posteriormente à filosofia e à medicina, ciência na qual fez suas maiores contribuições. Recebeu também formação em física e química. Seu primeiro cargo de destaque foi o de médico da corte do príncipe Abu Saleh Al-Mansur, soberano de Khorasan. Posteriormente mudou-se para Baghdah, onde tornou-se médico chefe no hospital da cidade, e médico da corte do Califa. Designado para definir o local da construção do hospital, espalhou pedaços de carne pendurados em vários pontos da cidade, e depois examinou seu estado de putrefação, recomendando a construção do hospital no local onde a carne apresentou menor decaimento. Com este procedimento, pode ser considerado o primeiro médico a inferir a putrefação bacteriológica da carne, sugerindo o papel ambiental que o ar desempenha no desenvolvimento das infecções. Há registro de 56 trabalhos na área médica atribuídos à Rhazes, entre eles podem ser citados:
"Al-Hawi", que significa Texto Completo. Trata-se de uma enciclopédia de conhecimento médico, com 22 volumes, baseados em sua experiência e observações pessoais.
"Al-Mansuri", dedicado ao seu patrono o califa Al-Mansur, composto por dez tratados, incluindo todos os aspectos referentes à saúde e doença. Refere-se a três campos da medicina: Saúde pública, medicina preventiva e tratamento de doenças específicas, enunciando sete princípios para a preservação da saúde: 1. Moderação e equilíbrio no movimento e no repouso, 2. Moderação no comer e no beber, 3. Eliminação dos excessos, 4. Aperfeiçoamento e adequação dos locais de habitação, 5. Evitar ocorrências excessivamente nocivas antes que se tornem incontroláveis, 6. Manter a harmonia nas ambições e nas resoluções, 7. Aquisição de resistência através do cultivo de bons hábitos incluindo exercícios.
Rhazes descreveu os diferentes tipos de febre, afirmando que a febre pode ser um sintoma de doença ou uma doença em si mesma. Introduziu o mercúrio como droga terapêutica, pela primeira vez na história, o qual foi posteriormente adotado na Europa. Enfatizou que a vontade de curar-se, do paciente, é fator importante no processo de restabelecimento, sem o qual as mãos do médico estão atadas. Sua obra teve enorme impacto na Medicina Islâmica, e se tornou texto básico nas escolas médicas por muitos anos.
Ali ibnul-Abbas:
Al-Majusi, conhecido como Haly Abbas no ocidente, faleceu em 994 d.C., foi um renomado médico em Baghdah, diretor do hospital Adud-Dawlah. Sua obra, "Livro completo da arte médica" tornou-se texto básico no ensino da medicina, tratando de temas como: anatomia, classificação e causas das doenças, sintomas e diagnósticos, urina, catarro, saliva, pulso como auxiliares no diagnóstico, manifestações externas visíveis das doenças e doenças internas como febre, dor de cabeça, epilepsia, sinais indicativos de morte ou recuperação, higiene, dieta, terapia com drogas simples, terapias para febres, doenças da respiração, digestão, reprodução, cirurgia, ortopedia, tratamento com medicamentos compostos.
Abulcassis:
Abu al-Qasim Khalaf ibn al-Abbas al-Zahrawi, conhecido como Abulcassis no ocidente, nasceu em Córdoba, então capital da Andaluzia, em 930 d.C, falecendo em 1013 d.C. Foi eminente cirurgião, sendo que uma de suas obra Äl-Tastif, em trinta volumes, trata dos princípios gerais da medicina, os elementos e a fisiologia dos humores, tratamento sistemático das doenças, da cabeça aos pés, e um volume dedicado inteiramente a todos os aspectos da cirurgia. Foi o primeiro livro texto de cirurgia com ilustrações de instrumentos utilizados, até então publicado. Seu prestígio foi tal que foi utilizado em escolas de medicina na Europa até o século 17 d.C. Ele enfatizava a importância do conhecimento de anatomia e fisiologia como essenciais antes de levar adiante qualquer cirurgia:
"Antes de praticar cirurgia deve-se adquirir conhecimento de anatomia e das funções dos órgãos, de forma a compreender sua forma, conexões e limites. Deve-se estar familiarizado com nervos, músculos, ossos, artérias e veias. Se não se compreende anatomia e fisiologia pode-se cometer erros que resultarão na morte do paciente. Eu presenciei alguém fazendo uma incisão no pescoço de um paciente, pensando tratar-se de um abcesso, quando tratava-se de um aneurisma, levando o paciente à morte."
Algumas operações são realizadas hoje em dia da mesma maneira que ele descreveu quase 1000 anos atrás, como, por exemplo, varicose, redução de fraturas cranianas, retirada de feto morto com fórceps. Descreveu a ligadura das artérias, utilizou cauterização para estancar sangramento, descreveu e realizou traqueotomia em situação de emergência, escreveu sobre ortodontia, extração de dentes, fixação, reimplantação, dentes artificiais, descreveu 200 instrumentos cirúrgicos dentais.
Em sua época a cirurgia foi uma especialidade respeitável praticada por médicos renomados, enquanto que na Europa, menosprezada, era praticada por barbeiros e açougueiros, tendo sido banida das escolas de medicina (Conselho de Tours em 1163 d.C.)
Avicenna:
Abu-Ali Husayn ibn-Abdallah ibn-Sina, conhecido no mundo ocidental como Avicenna, aclamado por alguns historiadores com o maior médico de todos os tempos, nasceu em Bukhara, na Ásia Central, em 980 d. C, falecendo em 1073 d.C. Um prodígio, aos 10 anos já havia memorizado o Sagrado Alcorão, aos 16 dominava várias ciências como matemática, geometria, lei islâmica, lógica, filosofia e metafísica. Aos 18 já havia aprendido tudo que havia por saber em medicina, tornando-se, logo em seguida, primeiro ministro e médico da corte do governante de Bukhara. Escreveu seu primeiro livro aos 21 anos. Nos 30 anos que se seguiram escreveu mais de 100 livros, 16 deles em medicina. Sua obra "Kitab al-Qanun fi al-Tibb", conhecida como "O Canon da Medicina", composta por cinco volumes foi traduzida para o latim e foi utilizada como livro texto de medicina em escolas da Europa cristã até o século 16 d.C. Em seus cinco volumes trata de: Princípios gerais e teorias da medicina, drogas simples organizadas em ordem alfabética, doenças localizadas da cabeça aos pés, doenças generalizadas do corpo, drogas compostas. Foi também considerado um grande filósofo.
Averroes:
Ibn-Rushud, conhecido com Averroes, nasceu em Granada em 1126 d.C., falecendo em 1198 d.C. Estudou filosofia, medicina e lei, sendo profundamente influenciado pela obra de Aristóteles. Entre suas obras tem-se "Al-Kulliyat fi al-Tibb", um sumário da ciência médica em sua época, e "Al-Taisir", versando sobre medicina prática e descrições clínicas de doenças.
Al-Nafis:
Ala'el-din ibn-al-Nafis, nasceu no vilarejo de Kersh próximo a Damasco, falecendo em 1288 d.C. Aprendeu medicina e filosofia em Damasco e passou a maior parte de sua vida no Cairo. Foi médico, lingüista, filósofo e historiador. Foi o primeiro chefe do hospital Al-Mansuri no Cairo e decano da escola de medicina em 1284 d.C. Em sua obra escreveu 10 livros de medicina. Em "Sumário do Canon", baseado nos escritos de Avicena, revê e corrige alguns conceitos deste e de Galeno. Contrariando a escola de Alexandria (310 a.C - 250 b.C) e Galeno (131 d.C. -210 d.C.) afirmou que:
"...o sangue da câmara direita do coração deve chegar à câmara esquerda, mas não há caminho direto entre elas. O septo do coração não é perfurado e não há poros visíveis com pensam alguns, ou invisíveis como pensou Galeno. O sangue da câmara direita deve fluir através da artéria venosa (artéria pulmonar) para atingir a câmara esquerda do coração".
2.4 - Contribuições em áreas específicas
A seguir são sumariamente descritas algumas contribuições dos muçulmanos em ramos específicos da medicina.
Farmacologia - Química - Al-Quemia:
Ciência que recebeu grande ênfase na civilização islâmica, com o desenvolvimento de técnicas para refinamento de drogas, medicamentos e extratos, através da destilação, cristalização, solução, sublimação, redução, calcinação.
A farmacologia fixou suas bases no século 9 d.C., com Yuhanna ibn Masawayh (777-857 d.C.), que começou o estudo científico e sistemático das aplicações terapêuticas. Posteriormente, seus seguidores desenvolveram métodos de confirmar a efetividade das drogas através da experimentação com pessoas, bem como aprimoraram métodos de prognóstico e diagnóstico.
A proliferação de droguistas levou à regulamentação da profissão, instituindo-se a concessão de licenças para exercício da função, através de aprovação em um exame de proficiência. Farmácia tornou-se uma profissão independente e separada da medicina e da alquimia. Inspetores aplicavam penas severas aos boticários que adulteravam drogas. Médicos eram proibidos de comerciar medicamentos ou conservar estoques em farmácias.
Com as técnicas desenvolvidas foram introduzidas novas drogas como: Cânfora, sena, madeira de sândalo, ruibarbo, almíscar, mirra, cássia, tamarindo, noz-moscada, alume, babosa, cravo-da-índia, coco, noz-vômica, cubeba, acônito, âmbar cinzento, mercúrio e outras.
A influência dos muçulmanos no desenvolvimento da química e farmácia modernas está registrada no grande número de palavras e expressões derivadas do árabe, como: Droga, álcali, álcool, aldeído, alambique, elixir, xarope, e outras. Criaram extratos aromáticos de água de rosa, água de flor de laranjeira, casca de limão e laranja, alcatira, e outros ingredientes.
Bacteriologia:
Já na época do profeta Muhammad (saws), no início do século 7 d.C., hadith prescreviam instruções para evitar o contato com doenças infecciosas, como por exemplo a lepra, ou para evitar entrar ou sair de uma área assolada por uma epidemia ou praga, ajudando desta forma a minimizar a propagação da doença.
Já citamos anteriormente o procedimento de Rhazes ao espalhar carne fresca em Baghdah para, verificando seu decaimento, escolher o local mais apropriado para construção de um hospital. Rhazes foi também o primeiro a utilizar suturas de seda e álcool para hemostasia, bem como o primeiro a utilizar álcool como anti-séptico.
Avicenna sugeriu a natureza contagiosa da tuberculose. Também recomendou a aposição de vinho em feridas, o que tornou-se prática comum na Idade Média.
Anestesia:
Avicenna foi o introdutor da idéia do uso de anestésicos por via oral. Em seu Cânon de Medicina, Avicenna escreveu, relativamente a anestésicos:
"Se for necessário levar uma pessoa à inconsciência, rapidamente, de forma a tornar a dor suportável, no caso de procedimentos dolorosos em um membro, coloque água de joio em vinho, ou administre fumária, ópio, hioscíamo (doses de meio dracma de cada); noz-moscada, agáloco cru (quatro grãos de cada). Adicione isto ao vinho, e tome tanto quanto for necessário para a finalidade. Ou ferva hioscíamo negro em água, com casca de mandrágora, até tronar-se vermelha. Adicione isto ao vinho."
Os árabes foram os introdutores da "Esponja Soporífica", largamente utilizada como anestesia na Idade Média. A esponja era encharcada com aromáticos e narcóticos para ser sorvida e depois colocada sob as narinas do paciente, como anestésico antes de uma cirurgia.
O desenvolvimento e utilização dos anestésicos foi uma das razões que levou ao aperfeiçoamento da cirurgia como especialidade médica no mundo islâmico, enquanto que na Europa foi banida das escolas de medicina por ser rudimentar.
Cirurgia:
A cirurgia no Islam foi praticada em três modalidades: Vascular, geral e ortopédica. Abriam a cavidade abdominal e drenavam a cavidade peritoneal da mesma forma que o procedimento moderno. A primeira colostomia é atribuída a um cirurgião anônimo de Shiraz. Abcessos no fígado eram tratados com punctura e exploração.
Abulcassis (930-1013 d.C.) é considerado o mais renomado cirurgião da Medicina Islâmica. Foi o primeiro cirurgião na história a utilizar algodão nos curativos cirúrgicos para controle de hemorragia, como enchimento nas fendas das fraturas, como enchimento vaginal nas fraturas de púbis e em procedimentos dentários. Introduziu o método de remoção de pedras dos rins por incisões na bexiga urinária. Foi o primeiro a ensinar a posição litotômica em operações vaginais. Descreveu a extirpação de veias varicosas, de forma tão detalhada e precisa como na moderna cirurgia. Em cirurgia ortopédica introduziu o que hoje é denominado método Kocher de redução de deslocamento de ombro.
Avicenna descreveu o tratamento cirúrgico de câncer de forma bastante precisa mesmo para os padrões atuais. Afirmou que a extirpação deveria ser larga e vigorosa, todas as veias ao redor do tumor deveriam ser amputadas, se isto não fosse suficiente a área afetada deveria ser cauterizada.
Psicoterapia
Enquanto na Europa a doença mental era tratada como possessão demoníaca, na civilização islâmica foram feitos importantes avanços, antecipando, em muitos séculos, o desenvolvimento da saúde mental iniciada a partir do século 19 no mundo ocidental.
Najab ud din Muhammad, contemporâneo de Rhazes, através da observação cuidadosa de seus pacientes, elaborou a mais completa classificação de doenças mentais de sua época. Suas descrições incluíam: depressão, tipos de neurose obsessiva, priaprismo combinado com impotência sexual, psicose persecutória, mania, e outras.
Avicenna reconheceu o que denominou "psicologia fisiológica" no tratamento de doenças envolvendo emoções. Desenvolveu um sistema de associar mudanças na freqüência cardíaca, tomada no pulso, com sentimentos interiores, antecipando a associação de palavras trazida por Jung muitos séculos depois. Constam referências de que tratou um paciente com doença grave, sentindo seu pulso e recitando em voz alta o nome de províncias, cidades, bairros, ruas e pessoas. Verificando como mudava seu pulso, à medida que as palavras eram mencionadas, Avicenna deduziu que o paciente estava apaixonado por uma jovem, cuja residência Avicenna foi capaz de localizar, através da verificação do pulso.
No século 8 d.C., em Fez no Marrocos, foi construído um asilo para pessoas mentalmente doentes, da mesma forma em Baghdah em 705 d. C., no Cairo em 800 d.C., em Damasco e Alepo em 1.270 d.C. O tratamento incluía banhos, drogas, carinho e cuidados, musico-terapia e terapia ocupacional. Conjuntos musicais e coros especiais eram organizados diariamente para entreter os pacientes.
Oftalmologia
Uma das contribuições mais importantes foi de Ibn al Haytham (965-1039 d.C), conhecido como Alhazen. Em sua obra "Enciclopédia Ótica", demonstrou que a luz incide na retina da mesma forma que incide em uma superfície, em uma sala escura, através de uma abertura, provando assim que a visão acontece quando raios de luz passam dos objetos para os olhos e não dos olhos para os objetos, como pensavam os gregos. Apresentou experiências relativas ao ângulo de incidência e de reflexão, afirmou que a imagem formada na retina é levada ao cérebro através do nervo óptico.
Rhazes foi o primeiro a reconhecer a reação da pupila à intensidade luminosa, Avicenna foi o primeiro a descrever o número exato de músculos extrínsecos do globo ocular.
Na área cirúrgica oftalmológica, destaca-se como contribuição da civilização islâmica, a extração da catarata. Ammar ibn Ali, de Mossul, desenvolveu um método em que uma agulha metálica era introduzida na esclerótica, e as lentes extraídas por sucção. Este método foi redescoberto na Europa no século 19.
2.5 - Desenvolvimentos de escolas médicas e hospitais
Uma das mais importantes contribuições da civilização islâmica foi o desenvolvimento dos hospitais.
Na antigüidade, não havia hospitais, como conhecemos hoje. Na Europa da Idade Média, os doentes eram agrupados em locais anexos a templos, administrados por sacerdotes. O tratamento baseava-se principalmente em orações e invocações, ou práticas supersticiosas.
No Império Persa, por outro lado, no século VII, a cidade de Jundishapur, abrigava uma universidade com escola médica e hospital, desde o século VI, fundada pelo imperador Khusraw Anushirwan (531-579 d.C.). Quando conquistada, no califado de Hadrat Ummar em 638 d.C., a escola médica e o hospital já estavam bem estabelecidos. Os tratamentos baseavam-se principalmente na análise científica e na tradição de Hipócrates. Com o advento do Islam, a universidade continuou a desenvolver-se. Harith ibn Kalada, contemporâneo do Profeta ( saws), o primeiro médico muçulmano, de que se tem registro, recebeu sua formação na escola e no hospital de Jundishapur. A escola prosperou durante o califado ommíada, sendo que seu hospital e centro médico se tornaram o modelo para a construção das escolas médicas islâmicas e hospitais islâmicos. No califado abássida, o califa Al-Mansur, fundador da cidade de Baghdah, levou Jirjis Bukhtyishu, médico cristão da escola de Jundishapur, para Baghdah, elegendo-o médico da corte, iniciando o processo de migração, para Baghdah, de eminentes médicos e cientistas. Por volta da segunda metade do século VIII, Baghdah já começava a se destacar como centro político do califado. Muitos centros médicos e hospitais foram estabelecidos e desenvolvia-se intensa atividade intelectual e científica. A extensão do império islâmico, abrigando diferentes culturas sob a mesma administração, estimulou o avanço do conhecimento da época.
No mundo islâmico a educação médica era séria e sistemática. O candidato ao estudo de medicina iniciava-se através de um treinamento em ciências básicas. Seu aprendizado incluía anatomia, alquimia, ervas medicinais, conhecimentos farmacêuticos. Muitos hospitais mantinham jardins como fonte de medicamentos e drogas para os pacientes e para treinamento de seus estudantes. Em Baghdah, o estudo de anatomia, além das aulas teóricas e ilustrações, incluía a dissecação de macacos e estudo de esqueletos. O treinamento básico era completado com a admissão do candidato como aprendiz em um hospital, onde integrava-se a um grupo de estudantes sob a orientação de um jovem médico. Neste período a ênfase dos estudos era em farmacologia, toxicologia e uso de antídotos.
Após o treinamento básico iniciava-se o treinamento clínico sob a orientação de médicos renomados e instrutores experientes. O estudo incluía terapêutica, patologia, observação clínica, exames físicos, treinamento em diagnóstico. Na realização de exames físicos os estudantes eram orientados a examinar e registrar as ações dos pacientes, seus excrementos, a natureza e a localização de suas dores, os inchaços de seu corpo, a cor e textura de sua pele, se quente ou fria, se seca ou úmida, se flácida, se havia amarelidão no branco dos olhos, se podia inclinar as costas.
Após este período de instruções nos hospitais os estudantes eram designados a atendimento fora do hospital, sob supervisão de seus instrutores. Muita ênfase era atribuída à clareza e brevidade na descrição de uma doença, e na correta discriminação de cada elemento.
Após completarem seus cursos, muitos estudantes complementavam sua formação sob a orientação de especialistas, aprofundavam o treinamento clínico, ou a prática de procedimentos cirúrgicos, ortopedia, e outros.
Concluído o treinamento, o médico recém-formado não estava apto a iniciar sua prática até ser aprovado em um exame de licenciatura.
Esses exames foram estabelecidos a partir de 931 DC, em Baghdad, pelo Khalifa Al-Muqtadir. Neste primeiro ano, mais de 860 médicos foram examinados, somente em Baghdad, e a partir daí o exame passou a ser exigido e administrado em muitos outros lugares. Foram criados comitês para licenciatura, sob a administração de um Inspetor Geral, o mesmo, já mencionado, que também verificava pesos e medidas praticados por comerciantes e farmacêuticos e exercia controle de qualidade de drogas e produtos vendidos em farmácias e boticários. No exame de licenciatura, o médico chefe aplicava um exame oral e prático, se o jovem médico fosse aprovado, o Inspetor Geral lhe administrava o juramento de Hipócrates e lhe entregava sua licença.
A título de ilustração, segue o conselho dado por Ali ibnul-Abbas (Haly Abbas-994 d.C.) para os estudantes de medicina:
"Entre as coisas que cabem ao estudante desta arte (medicina) está que deve constantemente atender em hospitais e casas de doentes, prestar incessante atenção às condições e circunstâncias dos internos, em companhia dos mais perspicazes professores de medicina e inquirir freqüentemente sobre o estado dos pacientes e os sintomas que aparecem neles, tendo em mente o que leu sobre as modificações e o que indicam de bom ou mal.
2.5.1 - Características dos hospitais na civilização islâmica
Num período em que a Europa estava imersa em barbárie, tendo sido caracterizado como a "Era Negra", no mundo islâmico o conhecimento e a civilização floresciam, o que se refletiu no aperfeiçoamento dos hospitais, que adquiriram algumas características específicas decorrentes dos valores muçulmanos, como:
Ausência de distinção em função da raça, religião ou formação:
Não havia qualquer restrição ao atendimento de pessoas em função de sua raça, religião ou formação. Da mesma forma, a administração do hospital era exercida pelo governo e não por organizações religiosas, sendo os cargos de direção exercidos por médicos, independentemente de sua fé. Os profissionais médicos exerciam suas atribuições sem qualquer restrição à sua religião, raça, ou origem, sendo a preocupação fundamental o bem estar dos pacientes.
Alas separadas:
Alas separadas para pacientes do sexo masculino e feminino. Da mesma forma pacientes com doenças diferentes eram alocados em alas diferentes, especialmente no caso de doenças infecciosas. (Hadith da quarentena).
Enfermeiros separados por sexo:
Enfermeiros homens para tratamentos de homens e enfermeiras mulheres para tratamento de mulheres.
Facilidades de banho e suprimentos de água:
Necessidade decorrente da obrigação muçulmana de orar cinco vezes ao dia, mesmo em caso de doença, caso em que a oração pode ser feita na cama. A oração deve ser precedida pela ablução, lavando-se as mãos, o rosto, a cabeça e os pés, e em algumas circunstâncias de banho completo. Consequentemente os hospitais deveriam dispor de abundante suprimento de água, para pacientes e funcionários, inclusive com facilidades para banho.
Qualificação para exercício da medicina:
Apenas médicos licenciados tinham permissão para pratica da medicina.
Centros de treinamento
Os hospitais também eram centros educacionais, para formação e treinamento de novos médicos, intercâmbio de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento da medicina. Continham extensas bibliotecas, auditórios para congressos e conferências, hospedagem para estudantes e funcionários.
Registro dos pacientes
Os hospitais islâmicos introduziram o procedimento de registrar os dados dos pacientes, seus sintomas e os cuidados médicos ministrados.
Desenvolvimento de medicamentos
Novas drogas e medicamentos foram desenvolvidos, aproveitando o afluxo de novos componentes e substâncias decorrente do contato dos muçulmanos com outros povos e seu comércio com a China, Filipinas, África negra, Índia e Europa .
2.5.2 - Hospitais como serviço público gratuito
Os hospitais e centros médicos eram construídos com recursos providos pelos governantes, vizires, califas, sultões, governadores, e mantidos através de um sistema conhecido como Waqf, o equivalente a fundações, a partir de doações dos fiéis. Um dos pilares do Islam é o zakat, contribuição anual de 2,5% do patrimônio líquido de cada fiel, para fins de caridade. Estes recursos eram utilizados pelos governos para manutenção de organizações caritativas, como os hospitais. Todo o tratamento era gratuito, e todos os cidadãos, independentemente de raça ou credo, poderiam fazer uso dos serviços. Muitos poucos hospitais, na civilização islâmica, eram privados. A título de ilustração segue a transcrição de texto de um documento de constituição da Waqf.
"O hospital deve manter todos os pacientes, homens e mulheres até que se restabeleçam completamente. Todos os custos são por conta do hospital quer a pessoa venha das proximidades ou de terras distantes, sejam residentes ou estrangeiros, fortes ou fracos, baixos ou altos, ricos ou pobres, empregados ou desempregados, cegos ou com visão, doentes física ou mentalmente, instruídos ou iletrados. Não há qualquer condição a ser considerada ou qualquer pagamento; nenhuma objeção é feita ou mesmo indiretamente insinuada pelo não pagamento. Todo o serviço é através da magnificência de Allah, O mais generoso".
2.5.3 - Um exemplo de hospital islâmico
Por todo o mundo islâmico foram construídos hospitais: na Síria, no Iraque, na Pérsia, no Norte da África, na Andaluzia, em Damasco, em Baghdah, no Cairo, em Qayrawan, em Marakesh, em Granada.
As instalações eram suntuosas e confortáveis, incluindo o mobiliário. Um dos maiores hospitais, foi o Hospital Mansuri, no Cairo, concluído em 1248, sob o governo de Mansur Qalun. Sua capacidade total era para 8.000 pessoas. Atendia diariamente 4.000 pacientes. Homens e mulheres eram admitidos em alas separadas. Não havia qualquer restrição quanto ao credo, raça ou nacionalidade, ninguém era rejeitado. Não havia limite para o tempo de permanência. O paciente recebia alimentação e uma quantia em dinheiro para compensar sua ausência do trabalho durante o tratamento. O tratamento de pacientes com problemas mentais incluía sessões de músico-terapia. Havia alas separadas para cirurgias, febres, doenças dos olhos. Possuí sua própria livraria, salas de leitura, uma mesquita para muçulmanos e uma capela para cristãos. Este hospital serviu por 700 anos, a partir de sua construção.
3- O Islam e algumas questões atuais relativas à saúde e a vida humana:
Em um hadith (tradição profética), transmitido por Ibn Majah, por Tirmizi e por Abu-Dawud, quando um beduíno perguntou ao profeta (saws) se deveria buscar tratamento para sua doença, o profeta (saws) respondeu:
"Sim, servos de Allah busquem tratamento; Allah não enviou uma doença sem estabelecer uma cura para ela."
Em decorrência deste hadith, todo tratamento disponível deve ser utilizado. Se não há tratamento conhecido que possibilite a cura, deve-se pesquisar e descobri-lo. Neste sentido, estimula-se a que as ciências médicas não se limitem a nenhum ramo específico de cura. Há incentivo para investigação e aplicação de tratamento em todas as áreas: auxílio espiritual, psicológico, físico, ajuste nutricional, farmacêutico com ingredientes naturais ou sintéticos, cirurgia, terapia por radiação, individualmente ou combinação de vários tratamentos.
Todo tratamento, no entanto, deve estar submetido às orientações estabelecidas na Shariat (Lei Revelada). Como afirmado no item 1, as fontes desta lei são o Sagrado Alcorão, os hadith (tradições proféticas), a jurisprudência (fiqh) islâmica e finalmente, o consenso da comunidade.
O desenvolvimento de novas tecnologias, na área médica, nem sempre permite uma interpretação clara e direta, a partir desta fontes, dos limites da aplicabilidade de um novo tratamento, o que pode dar origem a alguma controvérsia, que perdura até que se estabeleça um entendimento consensual.
Nos itens a seguir, serão apresentados alguns tópicos que se destacam no mundo atual e o posicionamento mais aceito no mundo islâmico.
3.1 - Transplante e doação de órgãos.
O transplante pode ser efetuado com algumas restrições:
Não podem ser utilizados órgãos de cadáveres, pois isto é considerado profanação do corpo. Há alguma controvérsia quanto à definição do momento da morte, sendo praticamente consenso que a morte cerebral é o indicador mais preciso. Também há alguma divergência sobre se a restrição se aplicaria ao caso de órgãos ainda vivos em pacientes clinicamente mortos. Há quem advogue que, neste caso, se o órgão ainda está vivo, poderia ser utilizado, desde que esteja individualmente vivo no momento da retirada.
A doação de órgãos entre vivos é considerada como caridade, porém a venda de órgãos é interditada. A autorização prévia do doador é pré-requisito indispensável, mesmo no caso de pacientes que entram em estado de morte clínica. Não há restrição quanto à utilização de órgãos de animais para salvar uma vida, mesmo que de suínos, uma vez que neste caso a necessidade revoga a proibição. O uso de tecido de feto é legítimo, desde que, para sua utilização, não tenha sido provocado aborto.
3.2 - Transfusão de sangue.
É permitida.
3.3 - Autópsia
De maneira geral é proibida, por ser considerada profanação do corpo. Em caso de exigência legal é permitida.
3.4 - Suicídio assistido e Eutanásia
O suicídio é interditado, qualquer que seja a circunstância:
"Ó fiéis, ...não cometais suicídio, porque Deus é misericordioso para convosco." (Surata 4:29)
A eutanásia é considerada como assassinato:
"... quem matar uma pessoa, sem que tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade; quem a salvar, será reputado como se tivesse salvo toda a humanidade." (Surata 5-32)
3.5 - Atendimento médico a pessoas de sexo oposto, atendimento ginecológico.
O atendimento médico a pessoas de sexo oposto é assunto sujeito a certa polêmica e opiniões contraditórias, principalmente quando envolve o exame de parte íntimas.
Desde os primórdios do Islam, no tempo do profeta Muhammad (saws), já houve registro de tratamento dado a pacientes de sexo oposto. Na batalha de Uhud, há referência expressa a uma senhora de nome Nussaaiba Bint Kaab, que quando a situação ficou crítica, abandonou seu equipamento médico, e pegando espada e escudo, deixou suas companheiras que davam atendimento a feridos, para lutar na defesa do Profeta (saws ). Na coleção de hadith de Bukhari há referência a uma senhora, Rubayyie bint Mu'awwidh ibn Afra, que provia tratamento aos feridos, juntamente com outras mulheres.
Na jurisprudência (fiqh) islâmica são encontradas várias referências à permissão de um médico homem, em caso de necessidade, examinar qualquer parte do corpo de uma mulher. Como exemplo de juristas que definiram esta posição tem-se: Ibn Quadam, século VIII, autoridade da escola Hanbali de jurisprudência (fiqh), em seu livro "Al- Mughni"; Ibn Abdeen da escola Hanafi, e outros como; Ibn Muflih no livro Al-Adab al-Shar'iah; Ibn Hamdan; Al-Qadi, e outros.
A seguir transcrevemos um posicionamento quanto a este tema, proferido por Ahmad ibn Naqib al-Misri (d. 769 d.C.), com os comentários do Sheikh Nuh 'Ali Salman:
"É permitido olhar e tocar para aplicação de sangria e tratamento médico (comentário: Quando há necessidade real. Uma mulher muçulmana quando necessitar de atenção médica deve ser tratada por uma médica muçulmana, se não houver nenhuma, por uma médica não muçulmana. Se não houver nenhuma, então por um médico muçulmano, se não houver nenhum, então por um médico não muçulmano. Se o médico for do sexo oposto, seu esposo ou parente com o qual não seria lícito o casamento deve estar presente. É obrigatório seguir esta ordem na seleção do médico. As mesmas regras se aplicam ao muçulmano, homem, em relação a ter um médico do mesmo sexo e mesma religião: o mesmo sexo tem precedência sobre a mesma religião.)"
Na conceituação do significado preciso de "necessidade real", além da imperiosa necessidade de tratamento, há quem inclua o tempo necessário para encontrar o médico adequado, face à urgência requerida, a qualificação do médico face ao tratamento necessário, e, principalmente nos casos de risco de vida, a reputação do médico e sua experiência e proficiência demonstrada.
3.6 - Inseminação artificial e outras técnicas de reprodução assistida.
O casamento, no Islam, é considerado um contrato entre marido e mulher, e entre estes e Allah. Assim qualquer técnica de reprodução deve envolver somente os dois cônjuges, e o requerido respeito à Shariat (Lei Divina), que estabelece por exemplo, a importância da linhagem:
"Ninguém pode ser suas mães exceto aquelas que os geraram." (Surata 58:2)
"Ele foi Quem criou os humanos da água, aproximando-os, através da linhagem e do casamento, em verdade, o teu Senhor é Onipotente." (Surata 25:54)
Assim as técnicas de reprodução artificial são permitidas, se forem aplicadas em um casamento válido. Por exemplo, é lícita a inseminação artificial utilizando o esperma do marido, que após fertilizar o óvulo da esposa (no útero ou em tudo de ensaio) é implantado no útero da esposa. A utilização de mãe substituta não é permitida por não ser possível definir quem será a mãe (Surata 58:2), e também pela questão da linhagem.
3.7 - Métodos anticoncepcionais
São permitidos os métodos que não sejam danosos, não provoquem aborto e que não provoquem a esterilidade. Sua utilização deve ser precedida da concordância de marido e mulher.
Embora permitidos não são estimulados por implicarem em interferência com o processo natural de reprodução. São justificáveis quando há motivos racionais e necessidades reais.
A esterilização permanente não é permitida, só sendo aceitável nos casos de indicação médica justificável.
3.8 - Aborto
Como regra geral, o aborto não é permitido.
Há consenso, na jurisprudência (fiqh) islâmica, de que, a partir do momento em que começam as manifestações dos sinais de vida pelo feto, o aborto é proibido.
Com relação ao período que antecede as manifestações dos primeiros sinais de vida, não há consenso. Alguns juristas advogam que, não havendo vida, não há crime. Outros, pelo contrário, sustentam que eliminar a possibilidade de uma nova vida é crime, e portanto o aborto seria proibido já a partir do momento em que se constata que houve concepção.
Também não há consenso quanto ao que seriam as primeiras manifestações dos sinais de vida. A este respeito muitas vezes é citado um hadith do Profeta Muhammad (saws), relatado por Abu 'Abd-ur-Rahman, Abdul-lah Ibn Mas'ud (40 hadith Nawawiyah), transcrito a seguir:
"certamente que a criação de cada um de vós ocorre no ventre de vossa mãe: durante quarenta dias na forma de um broto, depois como um coágulo por um período igual, depois como um pedaço de carne por período igual, então é enviado um anjo que lhe sopra o espírito e lhe estabelece quatro assuntos: a duração de sua vida, seu sustento, suas obras e se será feliz ou desgraçado,..."
No passado, muitos juristas islâmicos não consideravam crime o aborto antes dos primeiros 120 dias da concepção, e sim como uma ação que não era nem lícita nem ilícita, mas que deveria ser evitada. Após os 120 dias, passaria a ser considerado assassinato, pois a partir deste momento o feto já seria um ser humano completo, física e espiritualmente. Porém este posicionamento nunca foi consensual, renomados juristas sustentavam que não há neste, e em nenhum outro hadith, qualquer orientação que implique que o feto antes dos 120 dias seja descartável.
Com o avanço tecnológico, mais se conhece a vida intra-uterina, o que tem levado à possibilidade de detecção dos primeiros sinais de vida a momentos cada vez mais próximos da concepção.
O aborto somente é aceitável, em qualquer caso, se a continuidade da gravidez implicar na morte da mãe.
3.9 - Circuncisão masculina
A circuncisão é recomendada para crianças do sexo masculino. Se não feita na infância é recomendado que seja feita, mesmo após a adolescência.
Recentes pesquisas têm demonstrado o efeito higiênico propiciado pela circuncisão masculina.
A Associação Médica Islâmica da África do Sul relata que a tribo africana de Xhosa, que pratica a circuncisão, tem uma menor taxa de disseminação de AIDS que os Zulus, que não praticam a circuncisão. Ambas as tribos não são muçulmanas, portanto o fator religioso não interferiu na constatação, e vivem em condições ambientais similares. Outro estudo (Daniel, 1986) indica que o revestimento interno de um pênis ereto não circuncidado cobre no máximo 50% da superfície da glande, o que facilita a ruptura da pele macia, aumentando o risco de infeção..
3.10 - Engenharia genética
Permitida para curar uma doença, por exemplo, através da eliminação de um gene. A clonagem, em princípio, não é aceita, principalmente em função da questão da linhagem.
3.11 - Uso de medicamentos contendo álcool ou produtos à base de suínos.
Com relação ao uso do álcool como medicamento, em um hadith transmitido por Muslim, Abu-Dawud e Tirmidhi relata-se que o Profeta Muhammad (saws), inquirido por um homem que ingeria vinho como medicamento, respondeu:
"Esse não é um medicamento e sim uma doença"
Em outro hadith, transmitido por Abu-Dawud:
"Allah fez surgir a doença e mostrou a cura, e para cada doença existe uma cura. Portanto, tome remédios mas não use nada que seja ilícito"
Desta forma, a utilização de medicamento contendo álcool só é lícita para salvar uma vida, e desde que não haja alternativa. O mesmo se aplica a utilização de suínos. Esta permissão é decorrente do princípio de que a necessidade permite exceções, princípio de jurisprudência (fiqh) derivado das diretrizes do Sagrado Alcorão:
"...Porém, quem, sem intenção nem abuso, for compelido a isso, não será recriminado, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo." (Surata 2:173)
3.12 - Homossexualidade
Nos anos recentes as pesquisas médicas têm estudado a questão da homossexualidade, buscando identificar suas causas, se genéticas ou adquiridas. Já foram observadas diferenças em regiões do cérebro de homossexuais e heterossexuais. Não é conclusivo, se estas diferenças são causa ou conseqüência da prática homossexual. No entanto, mesmo que a preferência tenha origem genética, isso em nada altera o ponto de vista islâmico, uma vez que a conduta é abominada. No Islam a homossexualidade (masculina ou feminina) é considerada perversão e não deve ser praticada, em nenhuma circunstância.
"Dentre as criaturas, achais de vos acercardes lascivamente dos varões, deixando de lado o que vosso Senhor criou para vós, para serem vossa esposas? Em verdade, sois um povo depravado!" (Surata 26:165 a 166)
3.13 - Tratamento a aidéticos.
A perspectiva islâmica é a da ênfase na prevenção, através do estímulo ao modo de vida correto. Após estabelecida a doença seu tratamento deve seguir o curso normal, sem qualquer discriminação ao paciente.
4. - Prevenção da AIDS
O impacto da contaminação por HIV é significativamente menor nos países islâmicos relativamente aos países não islâmicos. A seguir tem-se alguns dados comparativos, publicados pela OMS - Organização Mundial de Saúde em conjunto com a UNAIDS - Programa da Nações Unidas em HIV e AIDS. Analisa-se também a abordagem islâmica relativa à prevenção da AIDS transmitida via sexual, em confronto com o enfoque ocidental.
4.1- Impacto da AIDS em países islâmicos versus países não islâmicos.
Praticamente todos os países do Oriente Médio estão entre os mais representativos da aplicação dos princípios islâmicos ao modo de vida, dada a ênfase e aderência da população à Shariat (Lei Islâmica), mesmo nos países que não a adotam com Lei Civil. Nesta região, a tradição islâmica é um traço muito forte e presente em todas as relações humanas.
4.2 - Abordagem islâmica para prevenção da AIDS
O mundo ocidental passou, por muitos séculos, submetido ao conceito de que a sexualidade tem a função exclusiva de procriação para perpetuação da espécie, sendo condenada, e reprimida, a pratica sexual como fonte de prazer. Na segunda metade deste século, estudos científicos da sexualidade e seus aspectos psicológicos e fisiológicos e, também, os movimentos de libertação da mulher, levaram a construção de um novo paradigma, caracterizando o que foi denominado "Revolução sexual". O prazer passa a não ser mais condenável, pelo contrário, passa a ser estimulado como necessário a uma vida saudável e equilibrada. A forma e métodos para a prática de relação sexual consensual entre adultos passa a ser considerada assunto estritamente pessoal, dizendo respeito apenas ao indivíduo e suas preferências, sem qualquer implicação social mais ampla.
Refletindo este contexto, o modelo ocidental para prevenção da AIDS, quanto ao aspecto sexual, está fundamentado na preservação dos resultados dessa "revolução". O ambiente cultural em que se situa é o da mais ampla liberalidade, com incentivo à tolerância, mesmo aos comportamentos sexuais mais exóticos, poucos anos atrás, classificados como pervertidos. Esta postura reflete-se na produção intelectual, artística, educacional, bem como na publicidade, na propaganda e nos meios de comunicação em geral. As estratégias preventivas, obviamente não estão dissociadas destes condicionantes e tendem a não enfatizar o questionamento da conduta sexual e das preferências, e sim oferecer meios de proteção alternativos.
Será este enfoque adequado para o contexto islâmico? Por exemplo, campanhas, veiculadas em meios de comunicação de massa, estimulando o uso de preservativo nas relações sexuais, seriam aceitáveis e eficientes numa comunidade que vive o modo islâmico de vida?
No contexto islâmico, ao contrário do mundo ocidental, a prática sexual como fonte de prazer sempre foi incentivada. No Islam a sexualidade não é considerada apenas em sua função reprodutiva. Além desta função sagrada, o desfrutar do prazer sexual é parcela importante da vida conjugal. Um hadith (40 hadith Nawawiyah), afirma:
"... em cada ato sexual entre vós há caridade"
Outro exemplo: Uma mulher muçulmana pode solicitar o divórcio, perante a corte de justiça, se seu marido não satisfizer suas obrigações sexuais.
Assim, no mundo islâmico, nunca houve repressão à expressão da sexualidade conjugal, sendo considerada como função natural e importante da vida humana. Por outro lado, a manifestação da sexualidade, embora assunto privado, que diz respeito apenas à intimidade do casal, tem, no mundo islâmico, condicionantes sociais. Ë submetida a limites, definidos pela Shariah (Lei Divina), revelada através do Sagrado Alcorão, e explicada nas tradições proféticas, que levam à proteção da família, como ambiente saudável para educação dos filhos e formação de um tecido social estável e equilibrado. Adicionalmente, há restrições e orientações específicas que dizem respeito à higiene na prática sexual.
No Islam, a sexualidade só é aceita sob o instituto do casamento, sendo a sua prática, fora desta limitação, sujeita a severas punições, tanto para o homem como para a mulher. Não é permitida a relação sexual anal e o sexo vaginal durante a menstruação. A pratica homossexual é proibida e punida. Há também a prática de tradições de caráter higiênico como: A circuncisão para os homens (vide item 3.9 ) e a ablução total (banho) após a relação sexual.
Neste contexto a estratégia de prevenção da AIDS adotada no mundo ocidental encontra severas restrições. Por exemplo, o incentivo ao uso de preservativos. Na sociedade islâmica o preservativo só têm função como método anticoncepcional entre cônjuges (só podendo ser utilizado com a concordância de ambos). Estimular seu uso, como proteção contra o contágio via relação sexual, seria o mesmo que admitir a possibilidade do sexo extra conjugal ao incentivar os meios de sua pratica segura, o que seria inadmissível na sociedade islâmica.
Deve ser observado que na cultura islâmica não há contemporização com os objetos e ações considerados nocivos. O álcool, por exemplo. Considerado deletério, e proibido, segundo a Shariat, com base em ayats do Sagrado Alcorão, tem uso interditado, quer seja como bebida, quer seja em pequenas quantidades em produtos culinários, quer seja em medicamentos (seu uso médico só é permitido em casos de extrema necessidade, em que não há outra alternativa). O princípio é que, quando algo é nocivo, tudo o que o induz, estimula ou promova também é nocivo.
As transgressões são punidas, pois em questões como estas prevalece o bem maior, isto é, o respeito à Lei Revelada, que tem como uma das conseqüências preservar a saúde da coletividade e a estabilidade das relações sociais. A punição, visa educar o indivíduo e exemplificar para o coletivo. Quando um indivíduo pratica um ato interditado, as conseqüências de sua ação escapam ao domínio individual, pois influenciam a comunidade através de seu exemplo.
Como ilustração desse aspecto, das implicações coletivas da prática individual, certa vez o Profeta (saws) foi procurado por um jovem que, alegando não conseguir controlar-se, pedia permissão para praticar relações sexuais fora do casamento. O Profeta (saws) lidou com ele, através da razão, perguntando-lhe se ele aprovaria alguém praticando sexo ilegal com sua mãe, com sua irmã, filha ou esposa. A cada vez que ele respondia não, o Profeta (saws) afirmava que a mulher com quem ele planejava manter relações sexuais poderia ser a mãe, irmã, filha ou esposa de alguém. O homem compreendeu as implicações de seu desejo e arrependeu-se.
Esta postura islâmica está alicerçada em um modo de pensar milenar, com base na Lei revelada do Sagrado Alcorão e nas tradições proféticas. Faz parte de um sistema complexo e coerente, com ramificações em todas as atividades intelectuais, sociais e culturais.
Em conseqüência, o procedimento ocidental parece estranho e encontra fortes críticas no meio islâmico. Para o muçulmano típico, este modo de pensar e agir é considerado contraditório, pois permite a promoção de condutas nocivas e ao mesmo tempo despende enorme esforço, com elevados custos, para reduzir o efeito deletério destas condutas, em detrimento do bem comum da sociedade como um todo.
Os dados apresentados no item 4.1 parecem apontar para uma ineficiência da estratégia ocidental de prevenção. Países do primeiro mundo, com sistemas educacionais avançados, que dedicam enorme esforço e alto investimento em medidas preventivas, apresentam elevada incidência. Por exemplo, os Estados Unidos (tabela 5), com uma taxa de 609,7 pessoas por 100 mil habitantes. Valores muito acima (4.554 % maior) da taxa de 13,1 pessoas por 100 mil habitantes observada nos países do Oriente Médio com forte aderência ao modo de vida islâmico (tabela 1).
Para finalizar, considere-se, a título de exemplo da tradição islâmica, um hadith em que o Profeta (saws) afirma:
"Se ahishah ou fornicação (sexo fora do casamento) e todos os tipos de relação sexual pecaminosas tornarem-se desenfreados e abertos, praticados sem inibições em qualquer grupo ou nação, Allah irá puni-los como novas epidemias (ta'un) e novas doenças que eram desconhecidas de seus antepassados e gerações anteriores."
Este hadith, transmitido e autenticado por Ibn Majah e outros eruditos, trazido a mais de 1.400 anos, é de impressionante atualidade. Tem implícito o conceito de mutação no uso da palavra al-jadidah, novas doenças. Também afirma que estas doenças atingirão proporções epidêmicas, isto fica claro pelo uso da palavra ta'un, que significa especificamente "praga", mas é utilizada genericamente, em árabe, para indicar qualquer epidemia. Fornicação sem inibição é uma clara referência a um ambiente caracterizado pela sedução praticada de forma pública, estimulando a atividade sexual descontrolada.
5. - Conclusão
A religião islâmica surgiu no ano 610 d.C com o início da revelação do Sagrado Alcorão, em Meca, na atual Arábia Saudita. Trouxe, deste o início, princípios de valorização do conhecimento, de tolerância e respeito aos diversos povos, culturas e religiões. Como conseqüência, a civilização islâmica contribuiu não só para a recuperação do conhecimento dos povos da antigüidade clássica, como também criou os meios e condições para sua ampliação e desenvolvimento. As ciências médicas foram beneficiárias diretas deste contexto, em suas diversas áreas, como Al-Chemia, farmacologia, bacteriologia, anestesia, cirurgia, psicoterapia, oftalmologia, ortopedia, desenvolvimento de hospitais e escolas médicas.
Após o declínio da civilização islâmica, este conhecimento foi transferido para a civilização ocidental, traduzido do árabe para os idiomas europeus, contribuindo para o avanço da ciência, inclusive na medicina.
As orientações para tratamento médico, como todas as atividades na cultura islâmica, tem como fonte principal de diretrizes, as orientações do Sagrado Alcorão, seguido pelas tradições do Profeta Muhammad (saws), a jurisprudência islâmica (fiqh) e o consenso da comunidade. Questões como transfusão de sangue, autópsia, eutanásia, métodos anticoncepcionais, aborto, circuncisão, e muitas outras são consideradas à luz destas fontes. Os contínuos avanços do conhecimento humano, das ciências e, mais especificamente, da medicina têm trazido novas técnicas com implicações éticas, quem devem ser avaliadas sob o mesmo prisma, na verificação de sua aplicabilidade aos valores e modo de vida islâmico. Por exemplo, temas como: os novos métodos de reprodução, transplante, engenharia genética e outros.
Com relação aos métodos de prevenção da AIDS, verifica-se que o enfoque ocidental está em oposição ao valores e modo de pensar islâmico, principalmente em decorrência dos princípios que estruturam cada sociedade. Observa-se ainda que os países com aderência ao modo de vida islâmico apresentam número significativamente menor de pessoas contaminadas por 100.000 habitantes, relativamente aos países da Europa e Américas.
Hajji Sheikh Muhammad Ragip al-Jerrahi
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Nagamia, Husain F. Islamic Medicine. International Institute of Islamic Medicine. Brabdon. April 1995
Syed, Ibrahim B. Islamic Medicine: 1.000 years ahead of its times. Islamic Medicine. Edited by Shahid Athar.
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1. - Origem do Islam
Historicamente, pode-se dizer que a religião islâmica surgiu a partir do ano 610 d.C., com o início da revelação do Sagrado Alcorão. O profeta Muhammad (saws) meditava, solitariamente, em uma gruta nas montanhas de Hira, distante alguns quilômetros da cidade de Meca, na hoje Arábia Saudita, quando, em uma experiência visionária, apareceu o Anjo Gabriel (as), ordenando-lhe ler as primeiras palavras do Livro Sagrado. Trêmulo e febril, o Profeta (saws) não compreendeu a experiência extraordinária pela qual passava e que mudaria o curso da história. Encontrou em sua fiel esposa Khadija apoio e suporte para assimilar os difíceis momentos iniciais da revelação. A partir de então, durante 23 anos, o anjo trouxe gradativamente, da Fonte infinita para a realidade humana, a palavra divina, na forma de um livro revelado.
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| Gravura otomana retratando o momento da revelação pelo anjo Gabriel do Alcorão para o profeta Maomé. |
1.1 - Fontes do Islam
A fonte fundamental da qual derivou toda a civilização islâmica é o Sagrado Alcorão. Registros históricos comprovam, e pesquisadores (não islâmicos) reconhecem, que o Sagrado Alcorão não sofreu alterações e mantém-se até hoje na forma exata como foi revelado, sendo que foi registrado por escrito durante a vida do Profeta (saws) e não após sua morte. Ao lado deste situam-se as tradições proféticas, os hadith, que são as decisões, silêncios e exemplos do Profeta Muhammad (saws) face às situações e circunstâncias com que se deparou na vida cotidiana. Como o Profeta (saws) sempre se reportava à mensagem revelada, sendo considerado em suas ações como o Alcorão vivo, na verdade a fonte primária e essencial é o Livro Sagrado.
Além do Alcorão e dos hadith com o tempo desenvolveram-se as escolas de jurisprudência (fiqh) islâmica. Também são consideradas fontes do Islam. Tornaram-se necessárias pois, embora o Alcorão contenha prescrições específicas para o comportamento certo e errado, em muitas áreas da atividade humana, suas injunções não cobrem todas as situações particulares que surgem na vida prática. Adicionalmente, trata-se de um livro revelado para ser válido e atual até o final dos tempos, sendo assim, é específico apenas nas prescrições que devem se manter imutáveis, em qualquer época, e, nos demais casos, apresenta as diretrizes gerais.
Situações que não podem ser esclarecidas através do Sagrado Alcorão, nem através dos hadith, nem através das escolas de jurisprudência (fiqh), considerados nesta ordem, são definidas através do consenso da comunidade islâmica, buscado pelo estudo e análise dos juristas islâmicos. Este é um ponto importante a ser observado, pois os avanços da ciência em geral e da medicina em particular, têm disponibilizado recursos, como transplante de órgãos, engenharia genética, clonagem e outros, que envolvem questões éticas significativas. O posicionamento diante destas novas tecnologias, na comunidade muçulmana, se dá sempre a partir da Escritura Sagrada, dos hadiths e das escolas de jurisprudência, interpretados através da análise jurídica, quando não há clareza suficiente.
2. - Contribuições do Islam para o desenvolvimento das ciências médicas
Na era pré-islâmica, a Arábia, em sua maior parte desértica, era habitada por tribos nômades de beduínos, com algumas comunidades estabelecidas nos pontos de disponibilidade de água e nas intercessões das rotas comerciais. Esta população era caracteristicamente tribal, inculta, envolvida em freqüentes escaramuças, movidas pela disputas ou pela vingança contra seus inimigos. Possuíam um tipo de medicina elementar, oriunda basicamente da experiência prática, herdada dos ancestrais, sem qualquer tipo de elaboração sistemática.
Com o advento do Islam, o Sagrado Alcorão e as tradições proféticas estabeleceram princípios que valorizam o conhecimento, a busca da cura para as moléstias, diretrizes para o atendimento médico e diretrizes para o paciente buscar sua cura. Os hadith trouxeram também ditos e tradições que foram denominados "Medicina Profética", prescrevendo as virtudes da dieta, remédios naturais, o tratamento simples para dor de cabeça, febre, dor de garganta, conjuntivite e outras. Trouxeram também prescrições para evitar o contato com pessoas infectadas por doenças contagiosas como a lepra, instituindo controles para entrada e saída de áreas sujeitas a epidemia ou praga. Trouxeram também um grande número de tradições agrupadas sob o título "Medicina Espiritual", baseada em preces ou na recitação de versos do Sagrado Alcorão, para prover cura.
A expansão islâmica, e o contato com o saber acumulado em sociedades de cultura mais elaborada, inaugurou uma das eras áureas da humanidade em termos de desenvolvimento nas artes e nas ciências dando origem ao que pode ser considerado, do ponto de vista histórico, à "Medicina Islâmica". Este resultado é conseqüência direta de alguns princípios islâmicos que nortearam o contato dos muçulmanos com outros povos, como veremos a seguir.
2.1 - Princípios que nortearam o desenvolvimento da civilização islâmica
Importância fundamental atribuída à aquisição do conhecimento:
A primeira palavra do Sagrado Alcorão revelada ao profeta Muhammad (saws) foi
"Lê" (Surata 96:1).
Como seres humanos, conscientes, temos obrigação de ler e estudar. Em outra passagem do Alcorão lê-se:
"Poderão, acaso, equiparar-se os sábios com os insipientes?" (Surata 39:9).
Em uma tradição profética (hadith), o profeta (saws) aconselha:
"Busque o conhecimento mesmo que seja necessário ir tão longe quanto a China",
em outro hadith afirma:
"A busca de conhecimento é obrigatória para todo muçulmano", e ainda:
"A tinta dos eruditos tem maior valor que o sangue dos mártires".
Proibição da destruição:
Em caso de guerra é expressamente proibida a destruição desnecessária de plantações, rebanhos, edifícios, propriedades, ou o ataque a mulheres, crianças e velhos indefesos. O respeito a estes princípios permitiu a preservação da cultura dos povos conquistados.
Tolerância com outras religiões:
Os cristãos e os judeus são considerados, no Islam, como os povos do livro, isto é sua religião teve origem em uma mensagem revelada, um livro sagrado, como no caso dos muçulmanos. Estudos (não islâmicos) tendo como base a análise dos estilos literários e os registros históricos, demonstram que o texto original da Torah (Pentateuco do Velho Testamento) dos judeus, os Salmos de Davi, e outros livros do Velho Testamento, foram escritos por diferentes autores, em diferentes épocas. O Evangelho de Jesus Cristo ( as) foi registrado muitos anos após a revelação. Portanto, sofreram distorções, acréscimos e supressões introduzidas por seres humanos, ao longo dos séculos, isto é, não são mais retrato fiel da mensagem original revelada. Apesar disto, sua origem inicial é divina e portanto deve ser respeitada. Também as outras religiões devem ser respeitadas pois, segundo um hadith, desde Adão existiram 124.000 profetas mensageiros, portanto nunca se pode afirmar com certeza que determinada crença não teve origem divina em seu primórdio. Nunca houve conversão pela força no mundo islâmico, uma vez que isto está interditado no Sagrado Alcorão:
"Não há imposição quanto à religião" (Surata 2:256).
Respeito ao diferente:
No Alcorão é revelado que diversidade humana entre povos faz parte do esquema divino e tem um propósito:
"Ó Humanos, ..., vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros." (Surata 49:13).
2.2 - Fases da civilização islâmica
Balizados por esses princípios, os conquistadores muçulmanos assimilaram as culturas dos povos com os quais entraram em contato, sendo que a influência da civilização islâmica pode ser categorizada em três grandes fases:
A renascença islâmica:
A grosso modo foi o período compreendido entre o início do Islam, no século 7 d.C. e o início do declínio da dinastia Abássida em meados do século 9 d.C. Caracterizou-se, na fase de expansão, entre os séculos 7 d.C. e 8 d.C., pelo contato com diferentes povos e culturas, desde o Oceano Atlântico, no lado ocidental, até as fronteiras da China no oriente. Neste período ocorreram as grandes traduções, para o árabe, do conhecimento de persas, romanos, gregos, sírios, nos mais diversos ramos de conhecimento como matemática, astronomia, astrologia, ética, mecânica, física, filosofia, arquitetura, geometria, e na medicina: oftalmologia, cirurgia, uso de drogas medicinais, ginecologia, psicoterapia e muitos outros. Foram traduzidas obras de Euclides, Aristóteles, Arquimedes, Pitágoras, Teodesius, Ptolomeu, e na medicina, as obras de Galeno, de Hipócrates, e outros. Esta reunião de conhecimento, de fontes culturais tão diversas, sob a tutela de uma única nação, trouxe uma nova dimensão para o saber humano, uma vez que conhecimentos dispersos em diferentes povos foram colocados sob uma única administração, permitindo sua apreciação em conjunto, e sua consolidação.
O período do apogeu:
Período do século 9 d.C. ao século 16 d.C., no qual todas as ciências, incluindo a medicina, atingiram o ápice de seu desenvolvimento. A partir das obras traduzidas, novos conhecimentos foram acrescentados, decorrentes das pesquisas e estudos de sábios como Rhazes, Abulcassis, Avicenna, Averroes, Al-Nafis, e muitos outros, em grandes centros como Córdoba na Andaluzia, Baghdad, Damasco, Cairo.
O declínio:
A partir do século 16 d.C., início da renascença européia, a civilização islâmica entrou em declínio, porém o conhecimento acumulado no mundo islâmico foi traduzido para os idiomas europeus e tornou-se fonte importante para os desenvolvimentos e descobertas que em última análise culminaram nas ciências e medicina modernas. Muitas obras, inclusive dos filósofos gregos, não estavam mais disponíveis nas versões originais, somente sendo possível recuperá-las a partir das traduções para o árabe.
2.3 - Nomes de destaque no desenvolvimento das ciências médicas
A seguir veremos alguns nomes de destaque que permitirão apreciar, mesmo que superficialmente, a extensão da contribuição da civilização islâmica para o desenvolvimento da medicina.
Rhazes:
Nome completo: Muhammad ibn-Zakariyya al-Razi. Nascido em 865 d.C. em Ray, subúrbio de Tehran, faleceu em 925 d.C. Iniciou seus estudos com música, tornando-se exímio tocador de alaúde, dedicando-se posteriormente à filosofia e à medicina, ciência na qual fez suas maiores contribuições. Recebeu também formação em física e química. Seu primeiro cargo de destaque foi o de médico da corte do príncipe Abu Saleh Al-Mansur, soberano de Khorasan. Posteriormente mudou-se para Baghdah, onde tornou-se médico chefe no hospital da cidade, e médico da corte do Califa. Designado para definir o local da construção do hospital, espalhou pedaços de carne pendurados em vários pontos da cidade, e depois examinou seu estado de putrefação, recomendando a construção do hospital no local onde a carne apresentou menor decaimento. Com este procedimento, pode ser considerado o primeiro médico a inferir a putrefação bacteriológica da carne, sugerindo o papel ambiental que o ar desempenha no desenvolvimento das infecções. Há registro de 56 trabalhos na área médica atribuídos à Rhazes, entre eles podem ser citados:
"Al-Hawi", que significa Texto Completo. Trata-se de uma enciclopédia de conhecimento médico, com 22 volumes, baseados em sua experiência e observações pessoais.
"Al-Mansuri", dedicado ao seu patrono o califa Al-Mansur, composto por dez tratados, incluindo todos os aspectos referentes à saúde e doença. Refere-se a três campos da medicina: Saúde pública, medicina preventiva e tratamento de doenças específicas, enunciando sete princípios para a preservação da saúde: 1. Moderação e equilíbrio no movimento e no repouso, 2. Moderação no comer e no beber, 3. Eliminação dos excessos, 4. Aperfeiçoamento e adequação dos locais de habitação, 5. Evitar ocorrências excessivamente nocivas antes que se tornem incontroláveis, 6. Manter a harmonia nas ambições e nas resoluções, 7. Aquisição de resistência através do cultivo de bons hábitos incluindo exercícios.
Rhazes descreveu os diferentes tipos de febre, afirmando que a febre pode ser um sintoma de doença ou uma doença em si mesma. Introduziu o mercúrio como droga terapêutica, pela primeira vez na história, o qual foi posteriormente adotado na Europa. Enfatizou que a vontade de curar-se, do paciente, é fator importante no processo de restabelecimento, sem o qual as mãos do médico estão atadas. Sua obra teve enorme impacto na Medicina Islâmica, e se tornou texto básico nas escolas médicas por muitos anos.
Ali ibnul-Abbas:
Al-Majusi, conhecido como Haly Abbas no ocidente, faleceu em 994 d.C., foi um renomado médico em Baghdah, diretor do hospital Adud-Dawlah. Sua obra, "Livro completo da arte médica" tornou-se texto básico no ensino da medicina, tratando de temas como: anatomia, classificação e causas das doenças, sintomas e diagnósticos, urina, catarro, saliva, pulso como auxiliares no diagnóstico, manifestações externas visíveis das doenças e doenças internas como febre, dor de cabeça, epilepsia, sinais indicativos de morte ou recuperação, higiene, dieta, terapia com drogas simples, terapias para febres, doenças da respiração, digestão, reprodução, cirurgia, ortopedia, tratamento com medicamentos compostos.
Abulcassis:
Abu al-Qasim Khalaf ibn al-Abbas al-Zahrawi, conhecido como Abulcassis no ocidente, nasceu em Córdoba, então capital da Andaluzia, em 930 d.C, falecendo em 1013 d.C. Foi eminente cirurgião, sendo que uma de suas obra Äl-Tastif, em trinta volumes, trata dos princípios gerais da medicina, os elementos e a fisiologia dos humores, tratamento sistemático das doenças, da cabeça aos pés, e um volume dedicado inteiramente a todos os aspectos da cirurgia. Foi o primeiro livro texto de cirurgia com ilustrações de instrumentos utilizados, até então publicado. Seu prestígio foi tal que foi utilizado em escolas de medicina na Europa até o século 17 d.C. Ele enfatizava a importância do conhecimento de anatomia e fisiologia como essenciais antes de levar adiante qualquer cirurgia:
"Antes de praticar cirurgia deve-se adquirir conhecimento de anatomia e das funções dos órgãos, de forma a compreender sua forma, conexões e limites. Deve-se estar familiarizado com nervos, músculos, ossos, artérias e veias. Se não se compreende anatomia e fisiologia pode-se cometer erros que resultarão na morte do paciente. Eu presenciei alguém fazendo uma incisão no pescoço de um paciente, pensando tratar-se de um abcesso, quando tratava-se de um aneurisma, levando o paciente à morte."
Algumas operações são realizadas hoje em dia da mesma maneira que ele descreveu quase 1000 anos atrás, como, por exemplo, varicose, redução de fraturas cranianas, retirada de feto morto com fórceps. Descreveu a ligadura das artérias, utilizou cauterização para estancar sangramento, descreveu e realizou traqueotomia em situação de emergência, escreveu sobre ortodontia, extração de dentes, fixação, reimplantação, dentes artificiais, descreveu 200 instrumentos cirúrgicos dentais.
Em sua época a cirurgia foi uma especialidade respeitável praticada por médicos renomados, enquanto que na Europa, menosprezada, era praticada por barbeiros e açougueiros, tendo sido banida das escolas de medicina (Conselho de Tours em 1163 d.C.)
Avicenna:
Abu-Ali Husayn ibn-Abdallah ibn-Sina, conhecido no mundo ocidental como Avicenna, aclamado por alguns historiadores com o maior médico de todos os tempos, nasceu em Bukhara, na Ásia Central, em 980 d. C, falecendo em 1073 d.C. Um prodígio, aos 10 anos já havia memorizado o Sagrado Alcorão, aos 16 dominava várias ciências como matemática, geometria, lei islâmica, lógica, filosofia e metafísica. Aos 18 já havia aprendido tudo que havia por saber em medicina, tornando-se, logo em seguida, primeiro ministro e médico da corte do governante de Bukhara. Escreveu seu primeiro livro aos 21 anos. Nos 30 anos que se seguiram escreveu mais de 100 livros, 16 deles em medicina. Sua obra "Kitab al-Qanun fi al-Tibb", conhecida como "O Canon da Medicina", composta por cinco volumes foi traduzida para o latim e foi utilizada como livro texto de medicina em escolas da Europa cristã até o século 16 d.C. Em seus cinco volumes trata de: Princípios gerais e teorias da medicina, drogas simples organizadas em ordem alfabética, doenças localizadas da cabeça aos pés, doenças generalizadas do corpo, drogas compostas. Foi também considerado um grande filósofo.
Averroes:
Ibn-Rushud, conhecido com Averroes, nasceu em Granada em 1126 d.C., falecendo em 1198 d.C. Estudou filosofia, medicina e lei, sendo profundamente influenciado pela obra de Aristóteles. Entre suas obras tem-se "Al-Kulliyat fi al-Tibb", um sumário da ciência médica em sua época, e "Al-Taisir", versando sobre medicina prática e descrições clínicas de doenças.
Al-Nafis:
Ala'el-din ibn-al-Nafis, nasceu no vilarejo de Kersh próximo a Damasco, falecendo em 1288 d.C. Aprendeu medicina e filosofia em Damasco e passou a maior parte de sua vida no Cairo. Foi médico, lingüista, filósofo e historiador. Foi o primeiro chefe do hospital Al-Mansuri no Cairo e decano da escola de medicina em 1284 d.C. Em sua obra escreveu 10 livros de medicina. Em "Sumário do Canon", baseado nos escritos de Avicena, revê e corrige alguns conceitos deste e de Galeno. Contrariando a escola de Alexandria (310 a.C - 250 b.C) e Galeno (131 d.C. -210 d.C.) afirmou que:
"...o sangue da câmara direita do coração deve chegar à câmara esquerda, mas não há caminho direto entre elas. O septo do coração não é perfurado e não há poros visíveis com pensam alguns, ou invisíveis como pensou Galeno. O sangue da câmara direita deve fluir através da artéria venosa (artéria pulmonar) para atingir a câmara esquerda do coração".
2.4 - Contribuições em áreas específicas
A seguir são sumariamente descritas algumas contribuições dos muçulmanos em ramos específicos da medicina.
Farmacologia - Química - Al-Quemia:
Ciência que recebeu grande ênfase na civilização islâmica, com o desenvolvimento de técnicas para refinamento de drogas, medicamentos e extratos, através da destilação, cristalização, solução, sublimação, redução, calcinação.
A farmacologia fixou suas bases no século 9 d.C., com Yuhanna ibn Masawayh (777-857 d.C.), que começou o estudo científico e sistemático das aplicações terapêuticas. Posteriormente, seus seguidores desenvolveram métodos de confirmar a efetividade das drogas através da experimentação com pessoas, bem como aprimoraram métodos de prognóstico e diagnóstico.
A proliferação de droguistas levou à regulamentação da profissão, instituindo-se a concessão de licenças para exercício da função, através de aprovação em um exame de proficiência. Farmácia tornou-se uma profissão independente e separada da medicina e da alquimia. Inspetores aplicavam penas severas aos boticários que adulteravam drogas. Médicos eram proibidos de comerciar medicamentos ou conservar estoques em farmácias.
Com as técnicas desenvolvidas foram introduzidas novas drogas como: Cânfora, sena, madeira de sândalo, ruibarbo, almíscar, mirra, cássia, tamarindo, noz-moscada, alume, babosa, cravo-da-índia, coco, noz-vômica, cubeba, acônito, âmbar cinzento, mercúrio e outras.
A influência dos muçulmanos no desenvolvimento da química e farmácia modernas está registrada no grande número de palavras e expressões derivadas do árabe, como: Droga, álcali, álcool, aldeído, alambique, elixir, xarope, e outras. Criaram extratos aromáticos de água de rosa, água de flor de laranjeira, casca de limão e laranja, alcatira, e outros ingredientes.
Bacteriologia:
Já na época do profeta Muhammad (saws), no início do século 7 d.C., hadith prescreviam instruções para evitar o contato com doenças infecciosas, como por exemplo a lepra, ou para evitar entrar ou sair de uma área assolada por uma epidemia ou praga, ajudando desta forma a minimizar a propagação da doença.
Já citamos anteriormente o procedimento de Rhazes ao espalhar carne fresca em Baghdah para, verificando seu decaimento, escolher o local mais apropriado para construção de um hospital. Rhazes foi também o primeiro a utilizar suturas de seda e álcool para hemostasia, bem como o primeiro a utilizar álcool como anti-séptico.
Avicenna sugeriu a natureza contagiosa da tuberculose. Também recomendou a aposição de vinho em feridas, o que tornou-se prática comum na Idade Média.
Anestesia:
Avicenna foi o introdutor da idéia do uso de anestésicos por via oral. Em seu Cânon de Medicina, Avicenna escreveu, relativamente a anestésicos:
"Se for necessário levar uma pessoa à inconsciência, rapidamente, de forma a tornar a dor suportável, no caso de procedimentos dolorosos em um membro, coloque água de joio em vinho, ou administre fumária, ópio, hioscíamo (doses de meio dracma de cada); noz-moscada, agáloco cru (quatro grãos de cada). Adicione isto ao vinho, e tome tanto quanto for necessário para a finalidade. Ou ferva hioscíamo negro em água, com casca de mandrágora, até tronar-se vermelha. Adicione isto ao vinho."
Os árabes foram os introdutores da "Esponja Soporífica", largamente utilizada como anestesia na Idade Média. A esponja era encharcada com aromáticos e narcóticos para ser sorvida e depois colocada sob as narinas do paciente, como anestésico antes de uma cirurgia.
O desenvolvimento e utilização dos anestésicos foi uma das razões que levou ao aperfeiçoamento da cirurgia como especialidade médica no mundo islâmico, enquanto que na Europa foi banida das escolas de medicina por ser rudimentar.
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| Instrumentos cirúrgicos |
A cirurgia no Islam foi praticada em três modalidades: Vascular, geral e ortopédica. Abriam a cavidade abdominal e drenavam a cavidade peritoneal da mesma forma que o procedimento moderno. A primeira colostomia é atribuída a um cirurgião anônimo de Shiraz. Abcessos no fígado eram tratados com punctura e exploração.
Abulcassis (930-1013 d.C.) é considerado o mais renomado cirurgião da Medicina Islâmica. Foi o primeiro cirurgião na história a utilizar algodão nos curativos cirúrgicos para controle de hemorragia, como enchimento nas fendas das fraturas, como enchimento vaginal nas fraturas de púbis e em procedimentos dentários. Introduziu o método de remoção de pedras dos rins por incisões na bexiga urinária. Foi o primeiro a ensinar a posição litotômica em operações vaginais. Descreveu a extirpação de veias varicosas, de forma tão detalhada e precisa como na moderna cirurgia. Em cirurgia ortopédica introduziu o que hoje é denominado método Kocher de redução de deslocamento de ombro.
Avicenna descreveu o tratamento cirúrgico de câncer de forma bastante precisa mesmo para os padrões atuais. Afirmou que a extirpação deveria ser larga e vigorosa, todas as veias ao redor do tumor deveriam ser amputadas, se isto não fosse suficiente a área afetada deveria ser cauterizada.
Psicoterapia
Enquanto na Europa a doença mental era tratada como possessão demoníaca, na civilização islâmica foram feitos importantes avanços, antecipando, em muitos séculos, o desenvolvimento da saúde mental iniciada a partir do século 19 no mundo ocidental.
Najab ud din Muhammad, contemporâneo de Rhazes, através da observação cuidadosa de seus pacientes, elaborou a mais completa classificação de doenças mentais de sua época. Suas descrições incluíam: depressão, tipos de neurose obsessiva, priaprismo combinado com impotência sexual, psicose persecutória, mania, e outras.
Avicenna reconheceu o que denominou "psicologia fisiológica" no tratamento de doenças envolvendo emoções. Desenvolveu um sistema de associar mudanças na freqüência cardíaca, tomada no pulso, com sentimentos interiores, antecipando a associação de palavras trazida por Jung muitos séculos depois. Constam referências de que tratou um paciente com doença grave, sentindo seu pulso e recitando em voz alta o nome de províncias, cidades, bairros, ruas e pessoas. Verificando como mudava seu pulso, à medida que as palavras eram mencionadas, Avicenna deduziu que o paciente estava apaixonado por uma jovem, cuja residência Avicenna foi capaz de localizar, através da verificação do pulso.
No século 8 d.C., em Fez no Marrocos, foi construído um asilo para pessoas mentalmente doentes, da mesma forma em Baghdah em 705 d. C., no Cairo em 800 d.C., em Damasco e Alepo em 1.270 d.C. O tratamento incluía banhos, drogas, carinho e cuidados, musico-terapia e terapia ocupacional. Conjuntos musicais e coros especiais eram organizados diariamente para entreter os pacientes.
Oftalmologia
Uma das contribuições mais importantes foi de Ibn al Haytham (965-1039 d.C), conhecido como Alhazen. Em sua obra "Enciclopédia Ótica", demonstrou que a luz incide na retina da mesma forma que incide em uma superfície, em uma sala escura, através de uma abertura, provando assim que a visão acontece quando raios de luz passam dos objetos para os olhos e não dos olhos para os objetos, como pensavam os gregos. Apresentou experiências relativas ao ângulo de incidência e de reflexão, afirmou que a imagem formada na retina é levada ao cérebro através do nervo óptico.
Rhazes foi o primeiro a reconhecer a reação da pupila à intensidade luminosa, Avicenna foi o primeiro a descrever o número exato de músculos extrínsecos do globo ocular.
Na área cirúrgica oftalmológica, destaca-se como contribuição da civilização islâmica, a extração da catarata. Ammar ibn Ali, de Mossul, desenvolveu um método em que uma agulha metálica era introduzida na esclerótica, e as lentes extraídas por sucção. Este método foi redescoberto na Europa no século 19.
2.5 - Desenvolvimentos de escolas médicas e hospitais
Uma das mais importantes contribuições da civilização islâmica foi o desenvolvimento dos hospitais.
Na antigüidade, não havia hospitais, como conhecemos hoje. Na Europa da Idade Média, os doentes eram agrupados em locais anexos a templos, administrados por sacerdotes. O tratamento baseava-se principalmente em orações e invocações, ou práticas supersticiosas.
No Império Persa, por outro lado, no século VII, a cidade de Jundishapur, abrigava uma universidade com escola médica e hospital, desde o século VI, fundada pelo imperador Khusraw Anushirwan (531-579 d.C.). Quando conquistada, no califado de Hadrat Ummar em 638 d.C., a escola médica e o hospital já estavam bem estabelecidos. Os tratamentos baseavam-se principalmente na análise científica e na tradição de Hipócrates. Com o advento do Islam, a universidade continuou a desenvolver-se. Harith ibn Kalada, contemporâneo do Profeta ( saws), o primeiro médico muçulmano, de que se tem registro, recebeu sua formação na escola e no hospital de Jundishapur. A escola prosperou durante o califado ommíada, sendo que seu hospital e centro médico se tornaram o modelo para a construção das escolas médicas islâmicas e hospitais islâmicos. No califado abássida, o califa Al-Mansur, fundador da cidade de Baghdah, levou Jirjis Bukhtyishu, médico cristão da escola de Jundishapur, para Baghdah, elegendo-o médico da corte, iniciando o processo de migração, para Baghdah, de eminentes médicos e cientistas. Por volta da segunda metade do século VIII, Baghdah já começava a se destacar como centro político do califado. Muitos centros médicos e hospitais foram estabelecidos e desenvolvia-se intensa atividade intelectual e científica. A extensão do império islâmico, abrigando diferentes culturas sob a mesma administração, estimulou o avanço do conhecimento da época.
No mundo islâmico a educação médica era séria e sistemática. O candidato ao estudo de medicina iniciava-se através de um treinamento em ciências básicas. Seu aprendizado incluía anatomia, alquimia, ervas medicinais, conhecimentos farmacêuticos. Muitos hospitais mantinham jardins como fonte de medicamentos e drogas para os pacientes e para treinamento de seus estudantes. Em Baghdah, o estudo de anatomia, além das aulas teóricas e ilustrações, incluía a dissecação de macacos e estudo de esqueletos. O treinamento básico era completado com a admissão do candidato como aprendiz em um hospital, onde integrava-se a um grupo de estudantes sob a orientação de um jovem médico. Neste período a ênfase dos estudos era em farmacologia, toxicologia e uso de antídotos.
Após o treinamento básico iniciava-se o treinamento clínico sob a orientação de médicos renomados e instrutores experientes. O estudo incluía terapêutica, patologia, observação clínica, exames físicos, treinamento em diagnóstico. Na realização de exames físicos os estudantes eram orientados a examinar e registrar as ações dos pacientes, seus excrementos, a natureza e a localização de suas dores, os inchaços de seu corpo, a cor e textura de sua pele, se quente ou fria, se seca ou úmida, se flácida, se havia amarelidão no branco dos olhos, se podia inclinar as costas.
Após este período de instruções nos hospitais os estudantes eram designados a atendimento fora do hospital, sob supervisão de seus instrutores. Muita ênfase era atribuída à clareza e brevidade na descrição de uma doença, e na correta discriminação de cada elemento.
Após completarem seus cursos, muitos estudantes complementavam sua formação sob a orientação de especialistas, aprofundavam o treinamento clínico, ou a prática de procedimentos cirúrgicos, ortopedia, e outros.
Concluído o treinamento, o médico recém-formado não estava apto a iniciar sua prática até ser aprovado em um exame de licenciatura.
Esses exames foram estabelecidos a partir de 931 DC, em Baghdad, pelo Khalifa Al-Muqtadir. Neste primeiro ano, mais de 860 médicos foram examinados, somente em Baghdad, e a partir daí o exame passou a ser exigido e administrado em muitos outros lugares. Foram criados comitês para licenciatura, sob a administração de um Inspetor Geral, o mesmo, já mencionado, que também verificava pesos e medidas praticados por comerciantes e farmacêuticos e exercia controle de qualidade de drogas e produtos vendidos em farmácias e boticários. No exame de licenciatura, o médico chefe aplicava um exame oral e prático, se o jovem médico fosse aprovado, o Inspetor Geral lhe administrava o juramento de Hipócrates e lhe entregava sua licença.
A título de ilustração, segue o conselho dado por Ali ibnul-Abbas (Haly Abbas-994 d.C.) para os estudantes de medicina:
"Entre as coisas que cabem ao estudante desta arte (medicina) está que deve constantemente atender em hospitais e casas de doentes, prestar incessante atenção às condições e circunstâncias dos internos, em companhia dos mais perspicazes professores de medicina e inquirir freqüentemente sobre o estado dos pacientes e os sintomas que aparecem neles, tendo em mente o que leu sobre as modificações e o que indicam de bom ou mal.
2.5.1 - Características dos hospitais na civilização islâmica
Num período em que a Europa estava imersa em barbárie, tendo sido caracterizado como a "Era Negra", no mundo islâmico o conhecimento e a civilização floresciam, o que se refletiu no aperfeiçoamento dos hospitais, que adquiriram algumas características específicas decorrentes dos valores muçulmanos, como:
Ausência de distinção em função da raça, religião ou formação:
Não havia qualquer restrição ao atendimento de pessoas em função de sua raça, religião ou formação. Da mesma forma, a administração do hospital era exercida pelo governo e não por organizações religiosas, sendo os cargos de direção exercidos por médicos, independentemente de sua fé. Os profissionais médicos exerciam suas atribuições sem qualquer restrição à sua religião, raça, ou origem, sendo a preocupação fundamental o bem estar dos pacientes.
Alas separadas:
Alas separadas para pacientes do sexo masculino e feminino. Da mesma forma pacientes com doenças diferentes eram alocados em alas diferentes, especialmente no caso de doenças infecciosas. (Hadith da quarentena).
Enfermeiros separados por sexo:
Enfermeiros homens para tratamentos de homens e enfermeiras mulheres para tratamento de mulheres.
Facilidades de banho e suprimentos de água:
Necessidade decorrente da obrigação muçulmana de orar cinco vezes ao dia, mesmo em caso de doença, caso em que a oração pode ser feita na cama. A oração deve ser precedida pela ablução, lavando-se as mãos, o rosto, a cabeça e os pés, e em algumas circunstâncias de banho completo. Consequentemente os hospitais deveriam dispor de abundante suprimento de água, para pacientes e funcionários, inclusive com facilidades para banho.
Qualificação para exercício da medicina:
Apenas médicos licenciados tinham permissão para pratica da medicina.
Centros de treinamento
Os hospitais também eram centros educacionais, para formação e treinamento de novos médicos, intercâmbio de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento da medicina. Continham extensas bibliotecas, auditórios para congressos e conferências, hospedagem para estudantes e funcionários.
Registro dos pacientes
Os hospitais islâmicos introduziram o procedimento de registrar os dados dos pacientes, seus sintomas e os cuidados médicos ministrados.
Desenvolvimento de medicamentos
Novas drogas e medicamentos foram desenvolvidos, aproveitando o afluxo de novos componentes e substâncias decorrente do contato dos muçulmanos com outros povos e seu comércio com a China, Filipinas, África negra, Índia e Europa .
2.5.2 - Hospitais como serviço público gratuito
Os hospitais e centros médicos eram construídos com recursos providos pelos governantes, vizires, califas, sultões, governadores, e mantidos através de um sistema conhecido como Waqf, o equivalente a fundações, a partir de doações dos fiéis. Um dos pilares do Islam é o zakat, contribuição anual de 2,5% do patrimônio líquido de cada fiel, para fins de caridade. Estes recursos eram utilizados pelos governos para manutenção de organizações caritativas, como os hospitais. Todo o tratamento era gratuito, e todos os cidadãos, independentemente de raça ou credo, poderiam fazer uso dos serviços. Muitos poucos hospitais, na civilização islâmica, eram privados. A título de ilustração segue a transcrição de texto de um documento de constituição da Waqf.
"O hospital deve manter todos os pacientes, homens e mulheres até que se restabeleçam completamente. Todos os custos são por conta do hospital quer a pessoa venha das proximidades ou de terras distantes, sejam residentes ou estrangeiros, fortes ou fracos, baixos ou altos, ricos ou pobres, empregados ou desempregados, cegos ou com visão, doentes física ou mentalmente, instruídos ou iletrados. Não há qualquer condição a ser considerada ou qualquer pagamento; nenhuma objeção é feita ou mesmo indiretamente insinuada pelo não pagamento. Todo o serviço é através da magnificência de Allah, O mais generoso".
2.5.3 - Um exemplo de hospital islâmico
Por todo o mundo islâmico foram construídos hospitais: na Síria, no Iraque, na Pérsia, no Norte da África, na Andaluzia, em Damasco, em Baghdah, no Cairo, em Qayrawan, em Marakesh, em Granada.
As instalações eram suntuosas e confortáveis, incluindo o mobiliário. Um dos maiores hospitais, foi o Hospital Mansuri, no Cairo, concluído em 1248, sob o governo de Mansur Qalun. Sua capacidade total era para 8.000 pessoas. Atendia diariamente 4.000 pacientes. Homens e mulheres eram admitidos em alas separadas. Não havia qualquer restrição quanto ao credo, raça ou nacionalidade, ninguém era rejeitado. Não havia limite para o tempo de permanência. O paciente recebia alimentação e uma quantia em dinheiro para compensar sua ausência do trabalho durante o tratamento. O tratamento de pacientes com problemas mentais incluía sessões de músico-terapia. Havia alas separadas para cirurgias, febres, doenças dos olhos. Possuí sua própria livraria, salas de leitura, uma mesquita para muçulmanos e uma capela para cristãos. Este hospital serviu por 700 anos, a partir de sua construção.
3- O Islam e algumas questões atuais relativas à saúde e a vida humana:
Em um hadith (tradição profética), transmitido por Ibn Majah, por Tirmizi e por Abu-Dawud, quando um beduíno perguntou ao profeta (saws) se deveria buscar tratamento para sua doença, o profeta (saws) respondeu:
"Sim, servos de Allah busquem tratamento; Allah não enviou uma doença sem estabelecer uma cura para ela."
Em decorrência deste hadith, todo tratamento disponível deve ser utilizado. Se não há tratamento conhecido que possibilite a cura, deve-se pesquisar e descobri-lo. Neste sentido, estimula-se a que as ciências médicas não se limitem a nenhum ramo específico de cura. Há incentivo para investigação e aplicação de tratamento em todas as áreas: auxílio espiritual, psicológico, físico, ajuste nutricional, farmacêutico com ingredientes naturais ou sintéticos, cirurgia, terapia por radiação, individualmente ou combinação de vários tratamentos.
Todo tratamento, no entanto, deve estar submetido às orientações estabelecidas na Shariat (Lei Revelada). Como afirmado no item 1, as fontes desta lei são o Sagrado Alcorão, os hadith (tradições proféticas), a jurisprudência (fiqh) islâmica e finalmente, o consenso da comunidade.
O desenvolvimento de novas tecnologias, na área médica, nem sempre permite uma interpretação clara e direta, a partir desta fontes, dos limites da aplicabilidade de um novo tratamento, o que pode dar origem a alguma controvérsia, que perdura até que se estabeleça um entendimento consensual.
Nos itens a seguir, serão apresentados alguns tópicos que se destacam no mundo atual e o posicionamento mais aceito no mundo islâmico.
3.1 - Transplante e doação de órgãos.
O transplante pode ser efetuado com algumas restrições:
Não podem ser utilizados órgãos de cadáveres, pois isto é considerado profanação do corpo. Há alguma controvérsia quanto à definição do momento da morte, sendo praticamente consenso que a morte cerebral é o indicador mais preciso. Também há alguma divergência sobre se a restrição se aplicaria ao caso de órgãos ainda vivos em pacientes clinicamente mortos. Há quem advogue que, neste caso, se o órgão ainda está vivo, poderia ser utilizado, desde que esteja individualmente vivo no momento da retirada.
A doação de órgãos entre vivos é considerada como caridade, porém a venda de órgãos é interditada. A autorização prévia do doador é pré-requisito indispensável, mesmo no caso de pacientes que entram em estado de morte clínica. Não há restrição quanto à utilização de órgãos de animais para salvar uma vida, mesmo que de suínos, uma vez que neste caso a necessidade revoga a proibição. O uso de tecido de feto é legítimo, desde que, para sua utilização, não tenha sido provocado aborto.
3.2 - Transfusão de sangue.
É permitida.
3.3 - Autópsia
De maneira geral é proibida, por ser considerada profanação do corpo. Em caso de exigência legal é permitida.
3.4 - Suicídio assistido e Eutanásia
O suicídio é interditado, qualquer que seja a circunstância:
"Ó fiéis, ...não cometais suicídio, porque Deus é misericordioso para convosco." (Surata 4:29)
A eutanásia é considerada como assassinato:
"... quem matar uma pessoa, sem que tenha cometido homicídio ou semeado a corrupção na terra, será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade; quem a salvar, será reputado como se tivesse salvo toda a humanidade." (Surata 5-32)
3.5 - Atendimento médico a pessoas de sexo oposto, atendimento ginecológico.
O atendimento médico a pessoas de sexo oposto é assunto sujeito a certa polêmica e opiniões contraditórias, principalmente quando envolve o exame de parte íntimas.
Desde os primórdios do Islam, no tempo do profeta Muhammad (saws), já houve registro de tratamento dado a pacientes de sexo oposto. Na batalha de Uhud, há referência expressa a uma senhora de nome Nussaaiba Bint Kaab, que quando a situação ficou crítica, abandonou seu equipamento médico, e pegando espada e escudo, deixou suas companheiras que davam atendimento a feridos, para lutar na defesa do Profeta (saws ). Na coleção de hadith de Bukhari há referência a uma senhora, Rubayyie bint Mu'awwidh ibn Afra, que provia tratamento aos feridos, juntamente com outras mulheres.
Na jurisprudência (fiqh) islâmica são encontradas várias referências à permissão de um médico homem, em caso de necessidade, examinar qualquer parte do corpo de uma mulher. Como exemplo de juristas que definiram esta posição tem-se: Ibn Quadam, século VIII, autoridade da escola Hanbali de jurisprudência (fiqh), em seu livro "Al- Mughni"; Ibn Abdeen da escola Hanafi, e outros como; Ibn Muflih no livro Al-Adab al-Shar'iah; Ibn Hamdan; Al-Qadi, e outros.
A seguir transcrevemos um posicionamento quanto a este tema, proferido por Ahmad ibn Naqib al-Misri (d. 769 d.C.), com os comentários do Sheikh Nuh 'Ali Salman:
"É permitido olhar e tocar para aplicação de sangria e tratamento médico (comentário: Quando há necessidade real. Uma mulher muçulmana quando necessitar de atenção médica deve ser tratada por uma médica muçulmana, se não houver nenhuma, por uma médica não muçulmana. Se não houver nenhuma, então por um médico muçulmano, se não houver nenhum, então por um médico não muçulmano. Se o médico for do sexo oposto, seu esposo ou parente com o qual não seria lícito o casamento deve estar presente. É obrigatório seguir esta ordem na seleção do médico. As mesmas regras se aplicam ao muçulmano, homem, em relação a ter um médico do mesmo sexo e mesma religião: o mesmo sexo tem precedência sobre a mesma religião.)"
Na conceituação do significado preciso de "necessidade real", além da imperiosa necessidade de tratamento, há quem inclua o tempo necessário para encontrar o médico adequado, face à urgência requerida, a qualificação do médico face ao tratamento necessário, e, principalmente nos casos de risco de vida, a reputação do médico e sua experiência e proficiência demonstrada.
3.6 - Inseminação artificial e outras técnicas de reprodução assistida.
O casamento, no Islam, é considerado um contrato entre marido e mulher, e entre estes e Allah. Assim qualquer técnica de reprodução deve envolver somente os dois cônjuges, e o requerido respeito à Shariat (Lei Divina), que estabelece por exemplo, a importância da linhagem:
"Ninguém pode ser suas mães exceto aquelas que os geraram." (Surata 58:2)
"Ele foi Quem criou os humanos da água, aproximando-os, através da linhagem e do casamento, em verdade, o teu Senhor é Onipotente." (Surata 25:54)
Assim as técnicas de reprodução artificial são permitidas, se forem aplicadas em um casamento válido. Por exemplo, é lícita a inseminação artificial utilizando o esperma do marido, que após fertilizar o óvulo da esposa (no útero ou em tudo de ensaio) é implantado no útero da esposa. A utilização de mãe substituta não é permitida por não ser possível definir quem será a mãe (Surata 58:2), e também pela questão da linhagem.
3.7 - Métodos anticoncepcionais
São permitidos os métodos que não sejam danosos, não provoquem aborto e que não provoquem a esterilidade. Sua utilização deve ser precedida da concordância de marido e mulher.
Embora permitidos não são estimulados por implicarem em interferência com o processo natural de reprodução. São justificáveis quando há motivos racionais e necessidades reais.
A esterilização permanente não é permitida, só sendo aceitável nos casos de indicação médica justificável.
3.8 - Aborto
Como regra geral, o aborto não é permitido.
Há consenso, na jurisprudência (fiqh) islâmica, de que, a partir do momento em que começam as manifestações dos sinais de vida pelo feto, o aborto é proibido.
Com relação ao período que antecede as manifestações dos primeiros sinais de vida, não há consenso. Alguns juristas advogam que, não havendo vida, não há crime. Outros, pelo contrário, sustentam que eliminar a possibilidade de uma nova vida é crime, e portanto o aborto seria proibido já a partir do momento em que se constata que houve concepção.
Também não há consenso quanto ao que seriam as primeiras manifestações dos sinais de vida. A este respeito muitas vezes é citado um hadith do Profeta Muhammad (saws), relatado por Abu 'Abd-ur-Rahman, Abdul-lah Ibn Mas'ud (40 hadith Nawawiyah), transcrito a seguir:
"certamente que a criação de cada um de vós ocorre no ventre de vossa mãe: durante quarenta dias na forma de um broto, depois como um coágulo por um período igual, depois como um pedaço de carne por período igual, então é enviado um anjo que lhe sopra o espírito e lhe estabelece quatro assuntos: a duração de sua vida, seu sustento, suas obras e se será feliz ou desgraçado,..."
No passado, muitos juristas islâmicos não consideravam crime o aborto antes dos primeiros 120 dias da concepção, e sim como uma ação que não era nem lícita nem ilícita, mas que deveria ser evitada. Após os 120 dias, passaria a ser considerado assassinato, pois a partir deste momento o feto já seria um ser humano completo, física e espiritualmente. Porém este posicionamento nunca foi consensual, renomados juristas sustentavam que não há neste, e em nenhum outro hadith, qualquer orientação que implique que o feto antes dos 120 dias seja descartável.
Com o avanço tecnológico, mais se conhece a vida intra-uterina, o que tem levado à possibilidade de detecção dos primeiros sinais de vida a momentos cada vez mais próximos da concepção.
O aborto somente é aceitável, em qualquer caso, se a continuidade da gravidez implicar na morte da mãe.
3.9 - Circuncisão masculina
A circuncisão é recomendada para crianças do sexo masculino. Se não feita na infância é recomendado que seja feita, mesmo após a adolescência.
Recentes pesquisas têm demonstrado o efeito higiênico propiciado pela circuncisão masculina.
A Associação Médica Islâmica da África do Sul relata que a tribo africana de Xhosa, que pratica a circuncisão, tem uma menor taxa de disseminação de AIDS que os Zulus, que não praticam a circuncisão. Ambas as tribos não são muçulmanas, portanto o fator religioso não interferiu na constatação, e vivem em condições ambientais similares. Outro estudo (Daniel, 1986) indica que o revestimento interno de um pênis ereto não circuncidado cobre no máximo 50% da superfície da glande, o que facilita a ruptura da pele macia, aumentando o risco de infeção..
3.10 - Engenharia genética
Permitida para curar uma doença, por exemplo, através da eliminação de um gene. A clonagem, em princípio, não é aceita, principalmente em função da questão da linhagem.
3.11 - Uso de medicamentos contendo álcool ou produtos à base de suínos.
Com relação ao uso do álcool como medicamento, em um hadith transmitido por Muslim, Abu-Dawud e Tirmidhi relata-se que o Profeta Muhammad (saws), inquirido por um homem que ingeria vinho como medicamento, respondeu:
"Esse não é um medicamento e sim uma doença"
Em outro hadith, transmitido por Abu-Dawud:
"Allah fez surgir a doença e mostrou a cura, e para cada doença existe uma cura. Portanto, tome remédios mas não use nada que seja ilícito"
Desta forma, a utilização de medicamento contendo álcool só é lícita para salvar uma vida, e desde que não haja alternativa. O mesmo se aplica a utilização de suínos. Esta permissão é decorrente do princípio de que a necessidade permite exceções, princípio de jurisprudência (fiqh) derivado das diretrizes do Sagrado Alcorão:
"...Porém, quem, sem intenção nem abuso, for compelido a isso, não será recriminado, porque Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo." (Surata 2:173)
3.12 - Homossexualidade
Nos anos recentes as pesquisas médicas têm estudado a questão da homossexualidade, buscando identificar suas causas, se genéticas ou adquiridas. Já foram observadas diferenças em regiões do cérebro de homossexuais e heterossexuais. Não é conclusivo, se estas diferenças são causa ou conseqüência da prática homossexual. No entanto, mesmo que a preferência tenha origem genética, isso em nada altera o ponto de vista islâmico, uma vez que a conduta é abominada. No Islam a homossexualidade (masculina ou feminina) é considerada perversão e não deve ser praticada, em nenhuma circunstância.
"Dentre as criaturas, achais de vos acercardes lascivamente dos varões, deixando de lado o que vosso Senhor criou para vós, para serem vossa esposas? Em verdade, sois um povo depravado!" (Surata 26:165 a 166)
3.13 - Tratamento a aidéticos.
A perspectiva islâmica é a da ênfase na prevenção, através do estímulo ao modo de vida correto. Após estabelecida a doença seu tratamento deve seguir o curso normal, sem qualquer discriminação ao paciente.
4. - Prevenção da AIDS
O impacto da contaminação por HIV é significativamente menor nos países islâmicos relativamente aos países não islâmicos. A seguir tem-se alguns dados comparativos, publicados pela OMS - Organização Mundial de Saúde em conjunto com a UNAIDS - Programa da Nações Unidas em HIV e AIDS. Analisa-se também a abordagem islâmica relativa à prevenção da AIDS transmitida via sexual, em confronto com o enfoque ocidental.
4.1- Impacto da AIDS em países islâmicos versus países não islâmicos.
Praticamente todos os países do Oriente Médio estão entre os mais representativos da aplicação dos princípios islâmicos ao modo de vida, dada a ênfase e aderência da população à Shariat (Lei Islâmica), mesmo nos países que não a adotam com Lei Civil. Nesta região, a tradição islâmica é um traço muito forte e presente em todas as relações humanas.
4.2 - Abordagem islâmica para prevenção da AIDS
O mundo ocidental passou, por muitos séculos, submetido ao conceito de que a sexualidade tem a função exclusiva de procriação para perpetuação da espécie, sendo condenada, e reprimida, a pratica sexual como fonte de prazer. Na segunda metade deste século, estudos científicos da sexualidade e seus aspectos psicológicos e fisiológicos e, também, os movimentos de libertação da mulher, levaram a construção de um novo paradigma, caracterizando o que foi denominado "Revolução sexual". O prazer passa a não ser mais condenável, pelo contrário, passa a ser estimulado como necessário a uma vida saudável e equilibrada. A forma e métodos para a prática de relação sexual consensual entre adultos passa a ser considerada assunto estritamente pessoal, dizendo respeito apenas ao indivíduo e suas preferências, sem qualquer implicação social mais ampla.
Refletindo este contexto, o modelo ocidental para prevenção da AIDS, quanto ao aspecto sexual, está fundamentado na preservação dos resultados dessa "revolução". O ambiente cultural em que se situa é o da mais ampla liberalidade, com incentivo à tolerância, mesmo aos comportamentos sexuais mais exóticos, poucos anos atrás, classificados como pervertidos. Esta postura reflete-se na produção intelectual, artística, educacional, bem como na publicidade, na propaganda e nos meios de comunicação em geral. As estratégias preventivas, obviamente não estão dissociadas destes condicionantes e tendem a não enfatizar o questionamento da conduta sexual e das preferências, e sim oferecer meios de proteção alternativos.
Será este enfoque adequado para o contexto islâmico? Por exemplo, campanhas, veiculadas em meios de comunicação de massa, estimulando o uso de preservativo nas relações sexuais, seriam aceitáveis e eficientes numa comunidade que vive o modo islâmico de vida?
No contexto islâmico, ao contrário do mundo ocidental, a prática sexual como fonte de prazer sempre foi incentivada. No Islam a sexualidade não é considerada apenas em sua função reprodutiva. Além desta função sagrada, o desfrutar do prazer sexual é parcela importante da vida conjugal. Um hadith (40 hadith Nawawiyah), afirma:
"... em cada ato sexual entre vós há caridade"
Outro exemplo: Uma mulher muçulmana pode solicitar o divórcio, perante a corte de justiça, se seu marido não satisfizer suas obrigações sexuais.
Assim, no mundo islâmico, nunca houve repressão à expressão da sexualidade conjugal, sendo considerada como função natural e importante da vida humana. Por outro lado, a manifestação da sexualidade, embora assunto privado, que diz respeito apenas à intimidade do casal, tem, no mundo islâmico, condicionantes sociais. Ë submetida a limites, definidos pela Shariah (Lei Divina), revelada através do Sagrado Alcorão, e explicada nas tradições proféticas, que levam à proteção da família, como ambiente saudável para educação dos filhos e formação de um tecido social estável e equilibrado. Adicionalmente, há restrições e orientações específicas que dizem respeito à higiene na prática sexual.
No Islam, a sexualidade só é aceita sob o instituto do casamento, sendo a sua prática, fora desta limitação, sujeita a severas punições, tanto para o homem como para a mulher. Não é permitida a relação sexual anal e o sexo vaginal durante a menstruação. A pratica homossexual é proibida e punida. Há também a prática de tradições de caráter higiênico como: A circuncisão para os homens (vide item 3.9 ) e a ablução total (banho) após a relação sexual.
Neste contexto a estratégia de prevenção da AIDS adotada no mundo ocidental encontra severas restrições. Por exemplo, o incentivo ao uso de preservativos. Na sociedade islâmica o preservativo só têm função como método anticoncepcional entre cônjuges (só podendo ser utilizado com a concordância de ambos). Estimular seu uso, como proteção contra o contágio via relação sexual, seria o mesmo que admitir a possibilidade do sexo extra conjugal ao incentivar os meios de sua pratica segura, o que seria inadmissível na sociedade islâmica.
Deve ser observado que na cultura islâmica não há contemporização com os objetos e ações considerados nocivos. O álcool, por exemplo. Considerado deletério, e proibido, segundo a Shariat, com base em ayats do Sagrado Alcorão, tem uso interditado, quer seja como bebida, quer seja em pequenas quantidades em produtos culinários, quer seja em medicamentos (seu uso médico só é permitido em casos de extrema necessidade, em que não há outra alternativa). O princípio é que, quando algo é nocivo, tudo o que o induz, estimula ou promova também é nocivo.
As transgressões são punidas, pois em questões como estas prevalece o bem maior, isto é, o respeito à Lei Revelada, que tem como uma das conseqüências preservar a saúde da coletividade e a estabilidade das relações sociais. A punição, visa educar o indivíduo e exemplificar para o coletivo. Quando um indivíduo pratica um ato interditado, as conseqüências de sua ação escapam ao domínio individual, pois influenciam a comunidade através de seu exemplo.
Como ilustração desse aspecto, das implicações coletivas da prática individual, certa vez o Profeta (saws) foi procurado por um jovem que, alegando não conseguir controlar-se, pedia permissão para praticar relações sexuais fora do casamento. O Profeta (saws) lidou com ele, através da razão, perguntando-lhe se ele aprovaria alguém praticando sexo ilegal com sua mãe, com sua irmã, filha ou esposa. A cada vez que ele respondia não, o Profeta (saws) afirmava que a mulher com quem ele planejava manter relações sexuais poderia ser a mãe, irmã, filha ou esposa de alguém. O homem compreendeu as implicações de seu desejo e arrependeu-se.
Esta postura islâmica está alicerçada em um modo de pensar milenar, com base na Lei revelada do Sagrado Alcorão e nas tradições proféticas. Faz parte de um sistema complexo e coerente, com ramificações em todas as atividades intelectuais, sociais e culturais.
Em conseqüência, o procedimento ocidental parece estranho e encontra fortes críticas no meio islâmico. Para o muçulmano típico, este modo de pensar e agir é considerado contraditório, pois permite a promoção de condutas nocivas e ao mesmo tempo despende enorme esforço, com elevados custos, para reduzir o efeito deletério destas condutas, em detrimento do bem comum da sociedade como um todo.
Os dados apresentados no item 4.1 parecem apontar para uma ineficiência da estratégia ocidental de prevenção. Países do primeiro mundo, com sistemas educacionais avançados, que dedicam enorme esforço e alto investimento em medidas preventivas, apresentam elevada incidência. Por exemplo, os Estados Unidos (tabela 5), com uma taxa de 609,7 pessoas por 100 mil habitantes. Valores muito acima (4.554 % maior) da taxa de 13,1 pessoas por 100 mil habitantes observada nos países do Oriente Médio com forte aderência ao modo de vida islâmico (tabela 1).
Para finalizar, considere-se, a título de exemplo da tradição islâmica, um hadith em que o Profeta (saws) afirma:
"Se ahishah ou fornicação (sexo fora do casamento) e todos os tipos de relação sexual pecaminosas tornarem-se desenfreados e abertos, praticados sem inibições em qualquer grupo ou nação, Allah irá puni-los como novas epidemias (ta'un) e novas doenças que eram desconhecidas de seus antepassados e gerações anteriores."
Este hadith, transmitido e autenticado por Ibn Majah e outros eruditos, trazido a mais de 1.400 anos, é de impressionante atualidade. Tem implícito o conceito de mutação no uso da palavra al-jadidah, novas doenças. Também afirma que estas doenças atingirão proporções epidêmicas, isto fica claro pelo uso da palavra ta'un, que significa especificamente "praga", mas é utilizada genericamente, em árabe, para indicar qualquer epidemia. Fornicação sem inibição é uma clara referência a um ambiente caracterizado pela sedução praticada de forma pública, estimulando a atividade sexual descontrolada.
5. - Conclusão
A religião islâmica surgiu no ano 610 d.C com o início da revelação do Sagrado Alcorão, em Meca, na atual Arábia Saudita. Trouxe, deste o início, princípios de valorização do conhecimento, de tolerância e respeito aos diversos povos, culturas e religiões. Como conseqüência, a civilização islâmica contribuiu não só para a recuperação do conhecimento dos povos da antigüidade clássica, como também criou os meios e condições para sua ampliação e desenvolvimento. As ciências médicas foram beneficiárias diretas deste contexto, em suas diversas áreas, como Al-Chemia, farmacologia, bacteriologia, anestesia, cirurgia, psicoterapia, oftalmologia, ortopedia, desenvolvimento de hospitais e escolas médicas.
Após o declínio da civilização islâmica, este conhecimento foi transferido para a civilização ocidental, traduzido do árabe para os idiomas europeus, contribuindo para o avanço da ciência, inclusive na medicina.
As orientações para tratamento médico, como todas as atividades na cultura islâmica, tem como fonte principal de diretrizes, as orientações do Sagrado Alcorão, seguido pelas tradições do Profeta Muhammad (saws), a jurisprudência islâmica (fiqh) e o consenso da comunidade. Questões como transfusão de sangue, autópsia, eutanásia, métodos anticoncepcionais, aborto, circuncisão, e muitas outras são consideradas à luz destas fontes. Os contínuos avanços do conhecimento humano, das ciências e, mais especificamente, da medicina têm trazido novas técnicas com implicações éticas, quem devem ser avaliadas sob o mesmo prisma, na verificação de sua aplicabilidade aos valores e modo de vida islâmico. Por exemplo, temas como: os novos métodos de reprodução, transplante, engenharia genética e outros.
Com relação aos métodos de prevenção da AIDS, verifica-se que o enfoque ocidental está em oposição ao valores e modo de pensar islâmico, principalmente em decorrência dos princípios que estruturam cada sociedade. Observa-se ainda que os países com aderência ao modo de vida islâmico apresentam número significativamente menor de pessoas contaminadas por 100.000 habitantes, relativamente aos países da Europa e Américas.
Hajji Sheikh Muhammad Ragip al-Jerrahi
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