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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Uma breve nota sobre a Inquisição
O tribunal da Inquisição só julgava católicos, ou quem se dissesse católico, pois era um tribunal interno, destinado a fiscalizar a ortodoxia dos ensinamentos que se transmitissem em nome da Igreja. Judeus, muçulmanos ou quaisquer outros estavam fora da jurisdição inquisitorial, a não ser que se proclamassem católicos e ensinassem como católica alguma doutrina que não o fosse.
Basta isso para eliminar desde logo a ideia de que a Inquisição tivesse algo a ver com a imposição forçada do cristianismo a toda a humanidade.
Mais ainda, a crença popular de que a Inquisição promovesse homicídios em massa é incompatível com o estado atual dos conhecimentos históricos.
A melhor fonte para o estudo do assunto são as atas do congresso mundial de historiadores (os maiores especialistas da matéria, incluindo judeus e ateus) realizado em Roma em 1998: Agostino Borromeo, “L’Inquisizione, Atti del Simposio Internazionale, Città del Vaticano, 29-31 Ottobre 1998”, Biblioteca Apostolica Vaticana, 2003.
Depois desse Congresso, insistir na “lenda negra” dos homicídios em massa (alguns falam até em "genocídio") é um abuso do direito à ignorância.
Olavo de Carvalho
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Considerações sobre a Saudação Angélica
“Omnia in mensura, et numero, et pondere disposuisti.” – Sap. 11:21
Não só o mundo natural fez Deus com medida, número e peso, ou seja, com belíssima harmonia do todo e das partes, mas também Ele revelou sua sabedoria e seu amor na ordem sobrenatural. De todas as criaturas da graça a mais bela e formosa é a Santíssima Virgem. Tota pulcra es amica mea. (Cant. Canticorum IV, 7) A prece com que nós católicos saudamos a Santíssima Virgem – a Ave Maria - participa desta sua formosura e beleza sob muitos aspectos. Vejamos como esta beleza se revela em sua estrutura:
No passado, a Ave Maria era mais curta e não tinha a segunda parte que começa com “Santa Maria, etc.” Ou seja, a prece tinha 15 palavras, mais o nome de Jesus. Isso é muito significativo, porque os mistérios do Rosário são 15 e todos eles versam sobre algum mistério da vida de Cristo. Se representarmos a antiga Ave Maria de forma geométrica, teríamos um semicírculo no topo do qual colocaríamos o Nome de Jesus
Esta figura tem algumas propriedades notáveis:
1º - Ela lembra muito aquele gesto do sacerdote antes de dar a Comunhão na Santa Missa, em que ele segura a Hóstia sobre o cibório. Ora, o cibório é o vaso que contém a Nosso Senhor Eucarístico, assim como a Virgem Maria é o vas spirituale que portou a Nosso Senhor em seu ventre.
2º Assim como são 15 os mistérios do Rosário, assim também são 15 as palavras que culminam com a invocação do Sagrado Nome. Além disso, em um semicírculo dividido em 15 partes iguais como acima, cada uma das partes terá 12 graus (180 / 15 = 12) Ora, a meditação de cada mistério se faz com 12 orações: 1 Pai-Nosso, 10 Aves-Maria e 1 Glória.
Porém, com o passar do tempo a Igreja inseriu a segunda parte à Ave-Maria. Porém, esta segunda parte não desfigurou em nada a estrutura da prece original porque esta segunda parte também consta de 15 palavras. Ela poderia ser representada como um círculo fechado dividido por 30 partes iguais de 12º cada uma
Esta estrutura por sua vez revela outras analogias interessantes. Assim como o Nome de Jesus fica no centro da circunferência, assim também Cristo esteve no “centro físico” da Santíssima Virgem, em seu ventre. Não só isso, mas o Verbo Divino uniu-se ao centro de seu ser, à sua alma intelectiva, porque antes de conceber o Verbo em seu ventre, ela O concebeu em seu intelecto. E porque o Santo Nome está no centro e porque todos os raios – que são compostos pelas 30 palavras da prece – conduzem ao centro, assim também a Santíssima Virgem sempre conduz os seus devotos a Cristo. Por fim, é impossível olhar esta forma geométrica e não se lembrar dos ícones da Theotokos portanto o Verbo Encarnado em seu centro:
Por isso seria muito bom aprender a rezar o Rosário em latim, porque na língua portuguesa esta estrutura harmônica das palavras se perde.
Por Tiago Gadotti
Não só o mundo natural fez Deus com medida, número e peso, ou seja, com belíssima harmonia do todo e das partes, mas também Ele revelou sua sabedoria e seu amor na ordem sobrenatural. De todas as criaturas da graça a mais bela e formosa é a Santíssima Virgem. Tota pulcra es amica mea. (Cant. Canticorum IV, 7) A prece com que nós católicos saudamos a Santíssima Virgem – a Ave Maria - participa desta sua formosura e beleza sob muitos aspectos. Vejamos como esta beleza se revela em sua estrutura:
No passado, a Ave Maria era mais curta e não tinha a segunda parte que começa com “Santa Maria, etc.” Ou seja, a prece tinha 15 palavras, mais o nome de Jesus. Isso é muito significativo, porque os mistérios do Rosário são 15 e todos eles versam sobre algum mistério da vida de Cristo. Se representarmos a antiga Ave Maria de forma geométrica, teríamos um semicírculo no topo do qual colocaríamos o Nome de Jesus
Esta figura tem algumas propriedades notáveis:
1º - Ela lembra muito aquele gesto do sacerdote antes de dar a Comunhão na Santa Missa, em que ele segura a Hóstia sobre o cibório. Ora, o cibório é o vaso que contém a Nosso Senhor Eucarístico, assim como a Virgem Maria é o vas spirituale que portou a Nosso Senhor em seu ventre.
2º Assim como são 15 os mistérios do Rosário, assim também são 15 as palavras que culminam com a invocação do Sagrado Nome. Além disso, em um semicírculo dividido em 15 partes iguais como acima, cada uma das partes terá 12 graus (180 / 15 = 12) Ora, a meditação de cada mistério se faz com 12 orações: 1 Pai-Nosso, 10 Aves-Maria e 1 Glória.
Porém, com o passar do tempo a Igreja inseriu a segunda parte à Ave-Maria. Porém, esta segunda parte não desfigurou em nada a estrutura da prece original porque esta segunda parte também consta de 15 palavras. Ela poderia ser representada como um círculo fechado dividido por 30 partes iguais de 12º cada uma
Esta estrutura por sua vez revela outras analogias interessantes. Assim como o Nome de Jesus fica no centro da circunferência, assim também Cristo esteve no “centro físico” da Santíssima Virgem, em seu ventre. Não só isso, mas o Verbo Divino uniu-se ao centro de seu ser, à sua alma intelectiva, porque antes de conceber o Verbo em seu ventre, ela O concebeu em seu intelecto. E porque o Santo Nome está no centro e porque todos os raios – que são compostos pelas 30 palavras da prece – conduzem ao centro, assim também a Santíssima Virgem sempre conduz os seus devotos a Cristo. Por fim, é impossível olhar esta forma geométrica e não se lembrar dos ícones da Theotokos portanto o Verbo Encarnado em seu centro:
Por isso seria muito bom aprender a rezar o Rosário em latim, porque na língua portuguesa esta estrutura harmônica das palavras se perde.
Por Tiago Gadotti
terça-feira, 8 de abril de 2014
Luz sobre a Inquisição
''Não permitirás viver uma feiticeira''
The sort of man who injures others by magic knots, or enchantments, or incantations, or any of the like practices, if he be a prophet or diviner, let him die.
— Plato, Laws 9.933d.
Uma das críticas comuns feitas por muitos ateus e agnósticos militantes quando se reúnem em fóruns e redes sociais que versam sobre apologética religiosa é sobre a Inquisição. As alegações costumam ser acompanhadas das mais esdrúxulas superstições históricas, como a ideia de que milhões de mulheres foram mortas pela sanha misógina e crédula de sacerdotes sádicos. Não é raro que se compare a Inquisição ou a prática de queimar bruxas ao Holocausto ou outro genocídio contemporâneo [1]. A imagem acima, por exemplo, faz uma confusão entre coisas diferentes quando associada com a pergunta. A fogueira era um forma de aplicar a pena de morte comumente usada nas regiões abrangidas pelo Império Romano, principalmente em justiçamentos populares, e seu uso cresceu quando a cristianização pôs fim à crucificação. Era utilizada não só pelas populações camponesas quanto pelas autoridades seculares. Já o versículo citado se dava em outro contexto de aplicação da pena capital: os israelitas apedrejavam os condenados à morte [2].
O cerne de toda esta questão é, por um lado, a pena de morte; e, por outro, o de saber que crimes seriam repugnantes o suficiente para aplicá-la, e também sobre os meios de levá-la adiante. Eu penso que existem crimes que tornam aquele que os cometeu passível de morte. Já que a sanção deve acompanhar a gravidade do delito não há porque afirmar que a pena de morte seja incorreta em princípio [3]. Para quem parte desta noção, somente os mais bárbaros crimes justificariam tamanha sanção -- geralmente aqueles que colocam a vida de indivíduos ou da comunidade em risco. No Brasil, por exemplo, há pena de morte quando do estado de guerra: o desertor é passível de fuzilamento. Outros países estendem o leque de atos típicos cuja sanção é a pena capital, aplicando-a em tempos de paz a crimes de lesa-pátria, a homicídios, estupros [uma discussão atual na Índia] etc.
A discussão sobre que crimes seriam passíveis dessa sanção é algo, definitivamente, em aberto. E aqui entra um ponto chave dessa conversa, inclusive para aqueles que concordam com a aplicabilidade da pena capital, o de saber se a prática da feitiçaria poderia ser legitimamente considerada passível dela.
Na maior parte da História foi comum a punição de morte para feiticeiras. O primeiro ''código'' [embora ele seja chamado assim de forma equivocada] conhecido, o de Hamurábi, já tratava assim os ''bruxos''. O justiçamento camponês para ''feiticeiros'' -- se entendidos como pessoas que abusavam de artes mágicas com o fito de prejudicar terceiros e a comunidade -- quase sempre foi impiedoso [4]. O próprio Platão, como exemplificado pela passagem d'As Leis, também pensava, seguindo um entendimento também comum em seu tempo, que crimes graves podiam ser cometidos contra a comunidade através de encantamentos [5].
Na Cristandade Ocidental -- a ''Europa cristã'' -- não era comum que as autoridades mandassem ''feiticeiras'' para a morte. Carlos Magno -- se não me engano -- chegou a proibir sentenças para os praticantes de mágica, por entender que os bons cristãos não estavam tão sujeitos assim a ela e por considerar a maior parte das acusações fruto de superstição popular. Diferente do que muitos pensam, foi com o alvorecer da Modernidade, isto é, entre os séculos XIII e XV, que se tornou generalizada a condenação destes atos, dando início à grande ''caça às bruxas'' da era moderna, particularmente feroz nos séculos XVI e XVII tanto em países católico-romanos quanto em protestantes [6].
A feitiçaria, punida com rigor durante a modernidade, só deixou de ser crime no mundo contemporâneo quando as autoridades europeias, e mais tarde a própria população ocidental, foi gradualmente deixando de acreditar seriamente na magia e no ''sobrenatural'' [7]. Estas seriam ''crenças subjetivas'' que não mereceriam maiores considerações do poder público. Óbvio que se a sociedade acredita ou sabe que a magia funciona, e se acredita ou sabe que há gente que a usa com fins malévolos, abre-se com coerência a questão de que punição seria adequada a atos desta ordem. Há aí a aplicação dum raciocínio preciso: se facas existem e podem ser usadas para cortar alguém, e se há gente que efetivamente assim as utiliza, então podem ser punidos pela lei.
A argumentação contra a punição a feitiçaria, se feita com seriedade, deveria se concentrar antes na possível fragilidade dos métodos investigativos cujo fim seria a apuração da eficiência dos atos mágicos. Mas tudo isso é muito perigoso para a ideia do Estado laico, embora, por debaixo das aparências, ele acabe aceitando em alguns casos argumentação de cunho sobrenatural até em julgamentos de crimes contra a vida [8]. É mais confortável taxar de simples superstição a ideia de que atos mágicos podem funcionar, seja em que âmbito for, e falsear de modo pouco honesto os dados históricos sobre as sociedades -- maioria esmagadoras no passado -- que pensavam saber o contrário.
[1] A verdade é que o ano do Terror da Revolução Francesa matou mais gente do que séculos de Inquisição católica-romana, e com um agravante. Enquanto esta última aplicava um processo minimamente legal e que dava ao acusado boas chances de absolvição e maiores ainda de sanções bem mais brandas que a fogueira, o tribunal jacobino não passava de um açougue voltado contra adversários de toda ordem, especialmente políticos. Porque o tribunal inquisitorial deveria ser, neste contexto, considerado um ''genocídio'' enquanto o mundo ocidental comemora os aniversários da Revolução Francesa é uma das consequências das crenças entranhadas na mentalidade do homem de nosso tempo.
[2] Desnecessário dizer que nenhuma das duas legislações é obrigatória para um cristão. O cristianismo não tem uma shari'a, um sistema civil e penal revelado e aplicado à generalidade dos homens ou a um povo especifico, como ocorre no caso do Islã ou dos hebreus. Ao longo do tempo, a Igreja adaptou a legislação existente entre diversos povos, principalmente o Direito Romano e a Lei Mosaica, aos princípios cristãos com o fito de organizar as sociedades, sem no entanto pretender que fossem esquemas absolutos caídos do céu.
[3] É possível a existência de um caminhão de debates sobre o tema da pena de morte, mas a alegação de que ela só vale para sociedades incivilizadas é, quando muito, uma afirmação retórica, mas desprovida de uma análise objetiva dos fatos e dos argumentos. Pode-se discordar da necessidade da pena de morte, de sua viabilidade etc., mas não da existência de bons argumentos a seu favor.
[4] A criminalização da feitiçaria não é uma invenção de algumas sociedades, mas antes a ordenação em marcos civilizados da prática generalizada de puni-la existente entre as populações dos quatro cantos do globo.
[5] Platão também se mostra favorável na obra à punição daqueles que negassem e ensinassem publicamente contra a existência da Inteligência Divina. Segundo Platão, um Dawkins atual teria de ser visitado pelo ''Concílio Noturno'', conselho de guardiões contra o perigo daqueles que não conseguiam compreender a realidade do Logos. Os tribunais inquisitoriais também só puniam aqueles que publicamente ensinassem a heresia -- deixando de lado os que apenas a abraçavam em âmbito privado ou afirmassem que assim faziam por não entender a doutrina oficial da Igreja. Ou seja, não era por 'credulidade' que a Igreja católica-romana punia o ensino da heresia, mas porque suas autoridades estudavam e concordavam com argumentos com certo background filosófico e platônico sobre o conhecimento, a ética e a política.
[6] Diferente também do que muitos pensam, o nascimento da Modernidade esteve associado com a disseminação tremenda de práticas ocultistas e mágicas, inclusive entre a elite intelectual e política.
[7] Não que o mundo do século XVIII tenha deixado de possuir suas crenças. Voltaire, que usou o tema da Inquisição e da ''caça às bruxas'' como meio de atacar a Igreja e o cristianismo acreditava piamente, por outro lado, na existência de vampiros. Para não falar das mitologias científicas de seu tempo.
[8] Exemplo recente e tipicamente brasileiro: Psicografias aceitas como provas em tribunal
Fonte: "Não viverás uma feitiçaria" - Consciência do Eu
The sort of man who injures others by magic knots, or enchantments, or incantations, or any of the like practices, if he be a prophet or diviner, let him die.
— Plato, Laws 9.933d.
Uma das críticas comuns feitas por muitos ateus e agnósticos militantes quando se reúnem em fóruns e redes sociais que versam sobre apologética religiosa é sobre a Inquisição. As alegações costumam ser acompanhadas das mais esdrúxulas superstições históricas, como a ideia de que milhões de mulheres foram mortas pela sanha misógina e crédula de sacerdotes sádicos. Não é raro que se compare a Inquisição ou a prática de queimar bruxas ao Holocausto ou outro genocídio contemporâneo [1]. A imagem acima, por exemplo, faz uma confusão entre coisas diferentes quando associada com a pergunta. A fogueira era um forma de aplicar a pena de morte comumente usada nas regiões abrangidas pelo Império Romano, principalmente em justiçamentos populares, e seu uso cresceu quando a cristianização pôs fim à crucificação. Era utilizada não só pelas populações camponesas quanto pelas autoridades seculares. Já o versículo citado se dava em outro contexto de aplicação da pena capital: os israelitas apedrejavam os condenados à morte [2].
O cerne de toda esta questão é, por um lado, a pena de morte; e, por outro, o de saber que crimes seriam repugnantes o suficiente para aplicá-la, e também sobre os meios de levá-la adiante. Eu penso que existem crimes que tornam aquele que os cometeu passível de morte. Já que a sanção deve acompanhar a gravidade do delito não há porque afirmar que a pena de morte seja incorreta em princípio [3]. Para quem parte desta noção, somente os mais bárbaros crimes justificariam tamanha sanção -- geralmente aqueles que colocam a vida de indivíduos ou da comunidade em risco. No Brasil, por exemplo, há pena de morte quando do estado de guerra: o desertor é passível de fuzilamento. Outros países estendem o leque de atos típicos cuja sanção é a pena capital, aplicando-a em tempos de paz a crimes de lesa-pátria, a homicídios, estupros [uma discussão atual na Índia] etc.
A discussão sobre que crimes seriam passíveis dessa sanção é algo, definitivamente, em aberto. E aqui entra um ponto chave dessa conversa, inclusive para aqueles que concordam com a aplicabilidade da pena capital, o de saber se a prática da feitiçaria poderia ser legitimamente considerada passível dela.
Na maior parte da História foi comum a punição de morte para feiticeiras. O primeiro ''código'' [embora ele seja chamado assim de forma equivocada] conhecido, o de Hamurábi, já tratava assim os ''bruxos''. O justiçamento camponês para ''feiticeiros'' -- se entendidos como pessoas que abusavam de artes mágicas com o fito de prejudicar terceiros e a comunidade -- quase sempre foi impiedoso [4]. O próprio Platão, como exemplificado pela passagem d'As Leis, também pensava, seguindo um entendimento também comum em seu tempo, que crimes graves podiam ser cometidos contra a comunidade através de encantamentos [5].
Na Cristandade Ocidental -- a ''Europa cristã'' -- não era comum que as autoridades mandassem ''feiticeiras'' para a morte. Carlos Magno -- se não me engano -- chegou a proibir sentenças para os praticantes de mágica, por entender que os bons cristãos não estavam tão sujeitos assim a ela e por considerar a maior parte das acusações fruto de superstição popular. Diferente do que muitos pensam, foi com o alvorecer da Modernidade, isto é, entre os séculos XIII e XV, que se tornou generalizada a condenação destes atos, dando início à grande ''caça às bruxas'' da era moderna, particularmente feroz nos séculos XVI e XVII tanto em países católico-romanos quanto em protestantes [6].
A feitiçaria, punida com rigor durante a modernidade, só deixou de ser crime no mundo contemporâneo quando as autoridades europeias, e mais tarde a própria população ocidental, foi gradualmente deixando de acreditar seriamente na magia e no ''sobrenatural'' [7]. Estas seriam ''crenças subjetivas'' que não mereceriam maiores considerações do poder público. Óbvio que se a sociedade acredita ou sabe que a magia funciona, e se acredita ou sabe que há gente que a usa com fins malévolos, abre-se com coerência a questão de que punição seria adequada a atos desta ordem. Há aí a aplicação dum raciocínio preciso: se facas existem e podem ser usadas para cortar alguém, e se há gente que efetivamente assim as utiliza, então podem ser punidos pela lei.
A argumentação contra a punição a feitiçaria, se feita com seriedade, deveria se concentrar antes na possível fragilidade dos métodos investigativos cujo fim seria a apuração da eficiência dos atos mágicos. Mas tudo isso é muito perigoso para a ideia do Estado laico, embora, por debaixo das aparências, ele acabe aceitando em alguns casos argumentação de cunho sobrenatural até em julgamentos de crimes contra a vida [8]. É mais confortável taxar de simples superstição a ideia de que atos mágicos podem funcionar, seja em que âmbito for, e falsear de modo pouco honesto os dados históricos sobre as sociedades -- maioria esmagadoras no passado -- que pensavam saber o contrário.
[1] A verdade é que o ano do Terror da Revolução Francesa matou mais gente do que séculos de Inquisição católica-romana, e com um agravante. Enquanto esta última aplicava um processo minimamente legal e que dava ao acusado boas chances de absolvição e maiores ainda de sanções bem mais brandas que a fogueira, o tribunal jacobino não passava de um açougue voltado contra adversários de toda ordem, especialmente políticos. Porque o tribunal inquisitorial deveria ser, neste contexto, considerado um ''genocídio'' enquanto o mundo ocidental comemora os aniversários da Revolução Francesa é uma das consequências das crenças entranhadas na mentalidade do homem de nosso tempo.
[2] Desnecessário dizer que nenhuma das duas legislações é obrigatória para um cristão. O cristianismo não tem uma shari'a, um sistema civil e penal revelado e aplicado à generalidade dos homens ou a um povo especifico, como ocorre no caso do Islã ou dos hebreus. Ao longo do tempo, a Igreja adaptou a legislação existente entre diversos povos, principalmente o Direito Romano e a Lei Mosaica, aos princípios cristãos com o fito de organizar as sociedades, sem no entanto pretender que fossem esquemas absolutos caídos do céu.
[3] É possível a existência de um caminhão de debates sobre o tema da pena de morte, mas a alegação de que ela só vale para sociedades incivilizadas é, quando muito, uma afirmação retórica, mas desprovida de uma análise objetiva dos fatos e dos argumentos. Pode-se discordar da necessidade da pena de morte, de sua viabilidade etc., mas não da existência de bons argumentos a seu favor.
[4] A criminalização da feitiçaria não é uma invenção de algumas sociedades, mas antes a ordenação em marcos civilizados da prática generalizada de puni-la existente entre as populações dos quatro cantos do globo.
[5] Platão também se mostra favorável na obra à punição daqueles que negassem e ensinassem publicamente contra a existência da Inteligência Divina. Segundo Platão, um Dawkins atual teria de ser visitado pelo ''Concílio Noturno'', conselho de guardiões contra o perigo daqueles que não conseguiam compreender a realidade do Logos. Os tribunais inquisitoriais também só puniam aqueles que publicamente ensinassem a heresia -- deixando de lado os que apenas a abraçavam em âmbito privado ou afirmassem que assim faziam por não entender a doutrina oficial da Igreja. Ou seja, não era por 'credulidade' que a Igreja católica-romana punia o ensino da heresia, mas porque suas autoridades estudavam e concordavam com argumentos com certo background filosófico e platônico sobre o conhecimento, a ética e a política.
[6] Diferente também do que muitos pensam, o nascimento da Modernidade esteve associado com a disseminação tremenda de práticas ocultistas e mágicas, inclusive entre a elite intelectual e política.
[7] Não que o mundo do século XVIII tenha deixado de possuir suas crenças. Voltaire, que usou o tema da Inquisição e da ''caça às bruxas'' como meio de atacar a Igreja e o cristianismo acreditava piamente, por outro lado, na existência de vampiros. Para não falar das mitologias científicas de seu tempo.
[8] Exemplo recente e tipicamente brasileiro: Psicografias aceitas como provas em tribunal
Fonte: "Não viverás uma feitiçaria" - Consciência do Eu
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
A trágica história do seminarista Rolando Rivi
Entrou no seminário de Marola no outono de 1942, mas em 1944, após a ocupação da região por alemães, foi forçado a voltar para casa.
O pai de Rolando era militante da Ação Católica, um conjunto de movimentos criados pela Igreja Católica no século XX, visando ampliar sua influência na sociedade, através da inclusão de setores específicos do laicado e do fortalecimento da fé religiosa, com base na Doutrina Social da Igreja.
Por influência do pai, Rolando tornara-se um seminarista devoto e convicto de sua fé, não parou de vestir a batina, contra o conselho dos pais preocupados com as ações de ódio anti-religioso espalhados na área.
Contexto de Violência
A Itália fascista enfrentava uma forte onda de terrorismo. De um lado o governo totalitário fascista, do outro brigadas vermelhas tinham a intenção de substituir o autoritarismo de Mussolini pelo totalitarismo de Stalin. No fogo cruzado, várias vidas foram ceifadas, dentre elas a de Rolando Rivi e mais 130 padres e seminaristas.
Entrementes, a guerra se fazia cada vez mais áspera, mesmo porque justamente naquela zona montanhosa havia a presença de formações partigiane, fortalecidas depois da queda do fascismo, que tinha levado à ocupação da península pelos alemães. À parte grupos minoritários de católicos democráticos, as fileiras partigiane eram compostas de comunistas, socialistas, e outros, unidos por uma forte ideologia anticatólica.
A ala mais extrema, a comunista, não se limitava a combater os alemães. Via no clero uma perigosa barragem para o próprio projeto revolucionário. O anticlericalismo tornou-se violento e cada dia mais ameaçador. Quando em 1944, os alemães ocupam o seminário de Marola, todos os jovens tiveram que voltar para casa, levando consigo os livros para poder continuar a estudar. Rolando continuou a considerar-se seminarista: além de estudar, frequentava quotidianamente a Missa e a Comunhão, recitava o rosário, meditava, visitava o Santíssimo Sacramento.
Morte pela Batina
Embora tivesse sido aconselhado a fazer de outro modo, não deixou de usar seu hábito religioso: os pais, de fato, lhe diziam: “Tire a batina. Não a use por enquanto…” Mas Rolando respondia: “Mas porque? Que mal faço em usa-la? Não tenho motivo para tira-la”. Fizeram-lhe notar que provavelmente era melhor tira-la naquele momento tão inseguro. Replicou Rolando: “Eu estou estudando para ser padre e a batina é o sinal que eu sou de Jesus”. Um ato de amor que ele pagará com a vida.
Uma manhã se veio a saber que alguns partigiani , durante a noite precedente, tinham-no agredido e humilhado. Como outros sacerdotes (Padre Luigi Donadelli, Pe.Luigi Ilariucci, Pe. Aldemiro Corsi e Pe.Luigi Manfredi) tinham sido assassinados pelos partigiani comunistas, o Pe. Marzocchini foi colocado em um lugar mais seguro e substituído na paróquia por um jovem Padre Alberto Camellini. Em 1º. de abril, todavia, o Pe. Marzocchini quis retornar à paróquia em San Valentino, mas a seu lado permaneceu o jovem sacerdote Padre Camellini, para com o qual Rolando tinha demonstrado logo grande simpatia. Em 10 de abril, quarta feira depois da Domenica in Albis, de manhã bem cedo, o rapaz já estava na igreja: celebrava-se a Missa cantada em honra de São Vicente Ferrer e Rolando participou, tocando o órgão. Terminada a cerimônia, antes de sair, combinou com os cantores para “cantar a Missa” também no dia seguinte. Saindo da igreja, enquanto seus pais iam trabalhar no campo, Rolando, com os livros embaixo do braço, dirigiu-se como de costume a estudar no bosque a poucos passos de sua casa. Vestia, como sempre, sua veste talar negra. Ao meio dia, seus pais o esperaram em vão para o almoço. Preocupados, puseram-se a procurar. Entre os livros, sobre a grama, encontraram um bilhete: “Não o procurem. Veio um momento conosco. Os partiggiani”. O pai e o Pe. Camellini, extremamente aflitos, começaram então a andar nos arredores, à procura do rapaz. Entretanto, Rolando, levado à força pelos partigiani a um esconderijo no bosque, iniciava sua via crucis. Foi despojado de sua batina, que os irritava, insultado, golpeado com a cinta nas pernas e esbofeteado. Permaneceu por três dias nas mãos de seus algozes, escutando blasfêmias contra Cristo, insultos contra a Igreja e contra o sacerdócio. Segundo testemunhas, foi açoitado e sofreu outras indizíveis violências.
Um dos sequestradores, aparentemente, se comoveu, propondo deixa-lo partir. Mas outros recusaram, ameaçando de morte aquele que tinha proposto a soltura. Prevaleceu o ódio pela Igreja, pelo sacerdote, pelo traje que o representa e que aquele rapazinho nunca tinha querido deixar de usar. Decidiram mata-lo: “Amanhã teremos um padre a menos”. Levaram-no, sangrando, a um bosque próximo a Piane di Monchio (na província de Modena), onde havia uma fossa já escavada. Rolando entendeu que ia morrer, chorou, pedindo que sua vida fosse poupada. Com um pontapé o jogaram no chão. Então pediu para rezar pela última vez. Ajoelhou-se e depois dois tiros de revolver o fizeram rolar na vala. Foi coberto com poucas pás de terra e folhas secas. A batina do “padreco” tornou-se uma bola para chutar, sendo depois pendurada, como um troféu de guerra, sob o telhado de uma casa vizinha. Era sexta feira, 13 de abril de 1945, comemoração do martírio do jovem Santo Ermenegildo (no ano de 585). Rolando tinha quatorze anos e três meses.
Beatificação
Após uma série de curas reconhecidas como milagrosa pela Igreja Católica, no dia 07 de janeiro 2006 foi aberta pela Arquidiocese de Modena a sua causa de canonização.
A cerimônia de beatificação, celebrada no último dia 05 de outubro, na cidade de Modena, Itália, foi presidida pelo Cardeal Angelo Amato, atual prefeito da Congregação para causa dos santos.
Leituras recomendadas
Rolando Rivi, da morte pela batina à glória dos altares
Um jovem seminarista assassinado por não deixar a batina
sábado, 8 de junho de 2013
Litaniae Sanctorum e a tradição Católica Ancestral dos Humildes
Abaixo o documentário "Sentinela" de Afonso Nunes
O documentário acompanha rituais pré-fúnebres no sertão da Bahia, registrando a aridez da região com imagens talhadas em preto-e-branco. A passagem para a morte é narrada por personagens reais, que acompanham uma velha senhora em seu leito de morte, entoando cantos religiosos.
A passagem para morte narrada por personagens reais e capturada por diferentes texturas fílmicas.
Prêmio Especial do júri oficial na 7ª Goiânia Mostra Curtas -2007
Melhor curta documentário no Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro - Curta Cinema 2007
Prêmio de menção honrosa segundo o júri oficial do 10º Festival Internacional de Curtas de BH - 2008
Comentários
Incrível a parte em que os cantos religiosos são entoados no original em Latim, algo que muitos nas cidades mais urbanas tem contato pleno apenas nas universidades. Eles tem aquilo na comunidade, resquícios de um catolicismo mais antigo.
A música que eles ficam entoando ao longo do documentário é a Litaniae Sanctorum ou a Ladainha de Todos os Santos.
Segue abaixo a letra
Kyrie, eleison (Kyrie, eleison.)
Christe, eleison (Christe, eleison.)
Kyrie, eleison (Kyrie, eleison.)
Pater de caelis, Deus, (miserere nobis.)
Fili, Redemptor mundi, Deus, (miserere nobis.)
Spiritus Sancte, Deus, (miserere nobis.)
Sancta Trinitas, unus Deus, (miserere nobis.)
Sancta Maria, (ora pro nobis.)
Sancta Dei Genetrix, (ora pro nobis.)
Sancta Virgo virginum, (ora pro nobis.)
Sancte Michael Gabriel et Raphael, (orate pro nobis.)
Omnes sancti Angeli, (orate pro nobis.)
Sancte Abraham, (ora pro nobis.)
Sancte Ioannes Baptista, (ora pro nobis.)
Sancte Ioseph, (ora pro nobis.)
Omnes sancti Patriarchae et Prophetae, (orate pro nobis.)
Sancte Petre et Paule, (orate pro nobis.)
Sancte Andrea, (ora pro nobis.)
Sancte Ioannes et Iacobe, (orate pro nobis.)
Sancte Matthaee, (ora pro nobis.)
Omnes sancti Apostoli, (orate pro nobis.)
Sancte Marce, (ora pro nobis.)
Sancta Maria Magdalena, (ora pro nobis.)
Omnes sancti discipuli Domini, (orate pro nobis.)
Sancte Stephane, (ora pro nobis.)
Sancte Ignati, (ora pro nobis.)
Sancte Polycarpe, (ora pro nobis.)
Sancte Iustine, (ora pro nobis.)
Sancte Laurenti, (ora pro nobis.)
Sancta Agnes, (ora pro nobis.)
Omnes sancti martyres, (orate pro nobis.)
Sancti Leo et Gregori, (orate pro nobis.)
Sancte Ambrosi, (ora pro nobis.)
Sancte Augustine, (ora pro nobis.)
Sancti Basili et Gregori, (orate pro nobis.)
Sancte Benedicte, (ora pro nobis.)
Sancte Ioannes Maria, (ora pro nobis.)
Sancta Teresia, (ora pro nobis.)
Sancta Elisabeth, (ora pro nobis.)
Omnes Sancti et Sanctae Dei, (orate pro nobis.)
Propitius esto, (libera nos Domine.)
Ab omni malo, (libera nos Domine.)
A morte perpetua, (libera nos Domine.)
Per Incarnationis tuae, (libera nos Domine.)
Per sanctam resurrectionem tuam, (libera nos Domine.)
Per refusionem Spiritus Sancti, (libera nos Domine.)
Christe Fili Dei vivi, (miserere nobis.)
Qui in hunc mundum venisti, (miserere nobis.)
Qui in mortem propter nos accepisti, (miserere nobis.)
Qui a mortuis resurrexisti, (miserere nobis.)
Qui Spiritum Sanctum in Apostolos misisti, (miserere nobis.)
Qui venturus es iudicare vivos et mortuos, (miserere nobis.)
Ut nobis parcas, (te rogamus audi nos.)
Ut ecclesiam tuam sanctam regere et conservare digneris, (te rogamus audi nos.)
Ut omnes homines ad Evangelii lumen perducere digneris, (te rogamus audi nos.)
Christe audi nos, (Christe audi nos.)
Christe exaudi nos, (Christe exaudi nos.)
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, (miserere nobis.)
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, (miserere nobis.)
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, (miserere nobis.)
Christe audi nos, (Christe audi nos.)
Christe exaudi nos, (Christe exaudi nos.)
Kyrie eleison, (Christe eleison.)
Kyrie eleison. Amen.
Sobre a Ladainha dos Santos
A Ladainha dos Santos (em latim, Litania Sanctorum) mais conhecida em português como Ladainha de Todos os Santos é uma oração da Igreja Católica, e uma invocação ao Deus Trino, pedido de intercessão da Virgem Maria, dos Anjos e todos os mártires e santos mais importantes da Cristandade. É mais proeminentemente cantada durante a Vigília Pascal e nas celebrações do Sacramento do Batismo e na liturgia das Ordens Sacras.
Os nomes dos Santos invocadas aparecem no Martirológo da Igreja.
É ilícito invocar nomes daqueles que a Igreja não admitiu no Catálogo dos Santos (embora, na prática, muitos nomes falsos ou fabricados são algumas vezes cantados em desafio desta regra, e uma versão conhecida inclui Orígenes, um grande teólogo da Igreja, mas que não é considerado um santo merecedor de veneração pública).
A ordem na qual as pessoas são chamadas é a seguinte: (1) Nossa Senhora, a Virgem Maria (2) Os Anjos (3) Patriarcas e Profetas, incluindo São João Batista, concluindo com os cônjuges Nossa Senhora e São José (4) Os Apóstolos e discípulos do Senhor (5) Mártires (6), Bispos e Doutores da Igreja (7) Padres e Religiosos Leigos (8).
Na versão da língua latina da Ladainha, os nomes de um ou mais santos são cantados por um Cantor ou coro, e a resposta da congregação é, Ora pro nobis (se é apenas um santo) ou Orate pro nobis no plural do imperativo do verbo (se houver mais de um santo). As duas respostas se traduzem em "rogai por nós". No entanto, é permitido personalizar a Ladainha dos Santos para um ritual fúnebre ou Missa, para os mortos, e isto foi feito durante o famoso enterro do Papa João Paulo II, em que a resposta foi Ora[te] pro eo, ou "Rogai por ele."
Após a invocação dos santos, a Ladainha conclui com uma série de súplicas a Deus para ouvir as orações dos fiéis.
Abaixo um coral cantando:
O documentário acompanha rituais pré-fúnebres no sertão da Bahia, registrando a aridez da região com imagens talhadas em preto-e-branco. A passagem para a morte é narrada por personagens reais, que acompanham uma velha senhora em seu leito de morte, entoando cantos religiosos.
Prêmio Especial do júri oficial na 7ª Goiânia Mostra Curtas -2007
Melhor curta documentário no Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro - Curta Cinema 2007
Prêmio de menção honrosa segundo o júri oficial do 10º Festival Internacional de Curtas de BH - 2008
Comentários
Incrível a parte em que os cantos religiosos são entoados no original em Latim, algo que muitos nas cidades mais urbanas tem contato pleno apenas nas universidades. Eles tem aquilo na comunidade, resquícios de um catolicismo mais antigo.
A música que eles ficam entoando ao longo do documentário é a Litaniae Sanctorum ou a Ladainha de Todos os Santos.
Segue abaixo a letra
Kyrie, eleison (Kyrie, eleison.)
Christe, eleison (Christe, eleison.)
Kyrie, eleison (Kyrie, eleison.)
Pater de caelis, Deus, (miserere nobis.)
Fili, Redemptor mundi, Deus, (miserere nobis.)
Spiritus Sancte, Deus, (miserere nobis.)
Sancta Trinitas, unus Deus, (miserere nobis.)
Sancta Maria, (ora pro nobis.)
Sancta Dei Genetrix, (ora pro nobis.)
Sancta Virgo virginum, (ora pro nobis.)
Sancte Michael Gabriel et Raphael, (orate pro nobis.)
Omnes sancti Angeli, (orate pro nobis.)
Sancte Abraham, (ora pro nobis.)
Sancte Ioannes Baptista, (ora pro nobis.)
Sancte Ioseph, (ora pro nobis.)
Omnes sancti Patriarchae et Prophetae, (orate pro nobis.)
Sancte Petre et Paule, (orate pro nobis.)
Sancte Andrea, (ora pro nobis.)
Sancte Ioannes et Iacobe, (orate pro nobis.)
Sancte Matthaee, (ora pro nobis.)
Omnes sancti Apostoli, (orate pro nobis.)
Sancte Marce, (ora pro nobis.)
Sancta Maria Magdalena, (ora pro nobis.)
Omnes sancti discipuli Domini, (orate pro nobis.)
Sancte Stephane, (ora pro nobis.)
Sancte Ignati, (ora pro nobis.)
Sancte Polycarpe, (ora pro nobis.)
Sancte Iustine, (ora pro nobis.)
Sancte Laurenti, (ora pro nobis.)
Sancta Agnes, (ora pro nobis.)
Omnes sancti martyres, (orate pro nobis.)
Sancti Leo et Gregori, (orate pro nobis.)
Sancte Ambrosi, (ora pro nobis.)
Sancte Augustine, (ora pro nobis.)
Sancti Basili et Gregori, (orate pro nobis.)
Sancte Benedicte, (ora pro nobis.)
Sancte Ioannes Maria, (ora pro nobis.)
Sancta Teresia, (ora pro nobis.)
Sancta Elisabeth, (ora pro nobis.)
Omnes Sancti et Sanctae Dei, (orate pro nobis.)
Propitius esto, (libera nos Domine.)
Ab omni malo, (libera nos Domine.)
A morte perpetua, (libera nos Domine.)
Per Incarnationis tuae, (libera nos Domine.)
Per sanctam resurrectionem tuam, (libera nos Domine.)
Per refusionem Spiritus Sancti, (libera nos Domine.)
Christe Fili Dei vivi, (miserere nobis.)
Qui in hunc mundum venisti, (miserere nobis.)
Qui in mortem propter nos accepisti, (miserere nobis.)
Qui a mortuis resurrexisti, (miserere nobis.)
Qui Spiritum Sanctum in Apostolos misisti, (miserere nobis.)
Qui venturus es iudicare vivos et mortuos, (miserere nobis.)
Ut nobis parcas, (te rogamus audi nos.)
Ut ecclesiam tuam sanctam regere et conservare digneris, (te rogamus audi nos.)
Ut omnes homines ad Evangelii lumen perducere digneris, (te rogamus audi nos.)
Christe audi nos, (Christe audi nos.)
Christe exaudi nos, (Christe exaudi nos.)
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, (miserere nobis.)
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, (miserere nobis.)
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, (miserere nobis.)
Christe audi nos, (Christe audi nos.)
Christe exaudi nos, (Christe exaudi nos.)
Kyrie eleison, (Christe eleison.)
Kyrie eleison. Amen.
Sobre a Ladainha dos Santos
A Ladainha dos Santos (em latim, Litania Sanctorum) mais conhecida em português como Ladainha de Todos os Santos é uma oração da Igreja Católica, e uma invocação ao Deus Trino, pedido de intercessão da Virgem Maria, dos Anjos e todos os mártires e santos mais importantes da Cristandade. É mais proeminentemente cantada durante a Vigília Pascal e nas celebrações do Sacramento do Batismo e na liturgia das Ordens Sacras.
Os nomes dos Santos invocadas aparecem no Martirológo da Igreja.
É ilícito invocar nomes daqueles que a Igreja não admitiu no Catálogo dos Santos (embora, na prática, muitos nomes falsos ou fabricados são algumas vezes cantados em desafio desta regra, e uma versão conhecida inclui Orígenes, um grande teólogo da Igreja, mas que não é considerado um santo merecedor de veneração pública).
A ordem na qual as pessoas são chamadas é a seguinte: (1) Nossa Senhora, a Virgem Maria (2) Os Anjos (3) Patriarcas e Profetas, incluindo São João Batista, concluindo com os cônjuges Nossa Senhora e São José (4) Os Apóstolos e discípulos do Senhor (5) Mártires (6), Bispos e Doutores da Igreja (7) Padres e Religiosos Leigos (8).
Na versão da língua latina da Ladainha, os nomes de um ou mais santos são cantados por um Cantor ou coro, e a resposta da congregação é, Ora pro nobis (se é apenas um santo) ou Orate pro nobis no plural do imperativo do verbo (se houver mais de um santo). As duas respostas se traduzem em "rogai por nós". No entanto, é permitido personalizar a Ladainha dos Santos para um ritual fúnebre ou Missa, para os mortos, e isto foi feito durante o famoso enterro do Papa João Paulo II, em que a resposta foi Ora[te] pro eo, ou "Rogai por ele."
Após a invocação dos santos, a Ladainha conclui com uma série de súplicas a Deus para ouvir as orações dos fiéis.
Abaixo um coral cantando:
segunda-feira, 9 de abril de 2012
A importância da Igreja Católica no Ocidente
*Texto original de Dom Luiz Bergonzini
Veja também o artigo "A Influência da Civilização Islâmica no Ocidente"
Infelizmente muitos estudantes secundários, universitários e até mesmo muitos católicos, têm uma visão totalmente deformada a respeito da Igreja Católica, sua vida e sua História. Isto acontece por causa da imagem preconceituosa que muitos professores, de várias disciplinas, especialmente História, lhes passam ou passaram. Também a mídia, cujos elementos foram formados nas mesmas universidades, é a causa de uma visão injusta, errada e negativa da Igreja.
O livro “Código da Vinci”, e o filme de mesmo nome, aumentaram em todo o mundo, ainda mais, esta visão de que a Igreja Católica é uma Instituição corrupta, perversa, que inventou a divindade de Cristo, e que sobre este mito criou uma Instituição poderosa e dominadora, e que a custa de sangue sempre se impôs ao mundo. Nada mais errado, perverso e anti-histórico.
É hora de os jovens estudantes, especialmente os católicos, conhecerem o outro lado dessa “História”. Hoje é lhes mostrado apenas as “sombras” da vida da Igreja, mas há uma má vontade imensa que encobre as luzes brilhantes de sua História de 2000 anos.
Gostaria de apresentar um pequeno resumo da grande contribuição que a Igreja Católica deu ao mundo ocidental desde a queda do Império Romano nas mãos dos bárbaros (476). Não fosse este trabalho da Igreja não teríamos a nossa civilização.
Foi a Igreja que moldou esta civilização da qual nos orgulhamos, onde se preza a liberdade, os direitos humanos, o respeito pela mulher e por cada pessoa. Sem o trabalho lento e paciente da Igreja o Ocidente não seria o mesmo.
Nossa civilização moderna foi berçada pelo Cristianismo que nos deu o milagre das ciências modernas, a saudável economia de livre mercado, a segurança das leis, a caridade como uma virtude, o esplendor da Arte e da Música, uma filosofia assentada na razão, a agricultura e a ciência, e muitos outros dons que nos fazem reconhecer em nossa civilização a mais bela e poderosa civilização da História.
E a responsável por tudo isto é a Igreja Católica, diz o historiador americano Dr. Thomas Woods, PhD de Harvard nos EUA, em seu livro: “How the Catholic Church Built Western Civilization” (Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental; Regury Publishing Inc., Washington, DC, 2005). Ele afirma que:
“Bem mais do que o povo hoje tem consciência, a Igreja Católica moldou o tipo de civilização em que vivemos e o tipo de pessoas que somos. Embora os livros textos típicos das faculdades não digam isto, a Igreja Católica foi a indispensável construtora da Civilização Ocidental. A Igreja Católica não só eliminou os costumes repugnantes do mundo antigo, como o infanticídio e os combates de gladiadores, mas, depois da queda de Roma, ela restaurou e construiu a civilização”.
Dr. Thomas traz neste seu livro uma quantidade enorme de referências de historiadores que confirmam o trabalho da Igreja na construção da civilização ocidental.
Falando do papel da Igreja nos tempos bárbaros, Chateaubriand (1960) escreveu que “os mosteiros, como espécies de fortalezas em que a civilização se abrigou sob a insígnia de algum santo... A cultura da alta inteligência conservou-se ali com a verdade filosófica que renasceu da verdade religiosa. Sem a inviolabilidade e o tempo disponível do claustro, os livros e as línguas da Antigüidade não nos teriam sido transmitidos e o elo que ligava o passado ao presente ter-se-ia rompido”.
Todos os historiadores reconhecem com unanimidade este papel da Igreja como defensora da cultura. Nos tempos bárbaros a cultura pertenceu à Igreja e somente os seus filhos se preocupavam com ela. À glória de Deus estava subordinada toda atividade da inteligência; a cultura estava submetida à religião. Imperava o latim e os estudos dos Padres e das Sagradas Escrituras.
A Igreja e os bárbaros
Quando o bárbaro Átila, rei dos hunos, ameaçou invadir e destruir Roma, foi o Papa S. Leão Magno (†460) quem os enfrentou em Mântua; ele foi se encontrar com o terrível Átila, “o flagelo de Deus”, e o fez retornar. O mesmo se deu com o bárbaro Genserico.
Afirma Daniel Rops, historiador que ganhou um Prêmio da Academia Francesa de Letra, que: “Se a Igreja Católica Romana não tivesse tido uma admirável organização temporal como poderiam ter subsistido os melhores princípios do Evangelho?” [“A Igreja dos Tempos Bárbaros”, Ed. Quadrante, vol. II, 1991, SP, pág. 85, v. II].
Firme em torno do “Bispo de Roma”, o Papa, a Igreja católica era o único ponto estável num mundo em que tudo estremecia. O poeta Lactâncio, neste tempo, escreveu: “Somente a Igreja conserva e sustenta tudo” (idem).
Os homens da Igreja souberam dar sentido aos acontecimentos trágicos da queda de Roma: S. Bento de Núrcia, S. Agostinho de Hipona, S. Leão Magno e tantos outros, foram os gigantes da Igreja que, do caos da barbárie, começaram a modelar uma nova Civilização, por amor a Deus e pela missão que Cristo lhes deu.
Disse Daniel Rops que: “O maior serviço que o Cristianismo prestou ao século V, foi o de dar um sentido a seu drama, impedindo-os de permanecer inertes, sós e angustiados, à beira de um abismo para além do qual já não enxergavam” (Idem, 86).
Roma, a “Cidade Eterna” estava dominada. São Jerônimo, cidadão romano, que já estava em Belém, na Judéia, traduzindo a Bíblia do grego e hebraico para o latim, a pedido do Papa Damaso, exclama chorando: “O navio está afundando!” “A minha voz extingue-se; os soluços embargam-me as palavras. Foi tomada a Cidade que tinha tomado o mundo! Pereceu pela fome e pela espada; está em chamas a ilustre cabeça do Império”. Para todos, era inimaginável a queda de Roma.
Santo Agostinho disse: “Talvez não seja ainda o fim da Cidade, mas em breve a Cidade terá um fim”. A sua obra “Cidade de Deus” foi a resposta de Santo Agostinho ao caos instalado pelos bárbaros. “Nas piores circunstâncias é preciso cumprir o nosso dever de homens”. Com a fé da Igreja, Agostinho sustentava os fiéis. A idéia de que todos os acontecimentos, por piores que sejam, obedecem ao desígnio de Deus, foi a grande força do cristianismo para fortalecer os corações.
Os cristãos sempre souberam que “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (1Ts 5,17) e por isso, não se desesperam.
A Igreja sempre teve nos seus bispos e monges uma elite consciente de suas responsabilidades sociais e históricas e muito bem preparados para as assumir; eram homens de primeira linha. Eles souberam enfrentar a longa e árdua missão de civilizar os bárbaros pela amabilidade e acolhimento. Para isso, tiveram inevitavelmente que exercer um papel político além do religioso, porque o bispo passou a ser o representante do povo na noite escura da barbárie.
Ele passou a ser o “defensor da Cidade” até o heroísmo e o sacrifício. Santo Agostinho sustenta a coragem em Hipona, São Nicácio deixa-se matar em sua catedral de Reims (França); S. Exupério de Toulouse resiste aos bárbaros e é decapitado, S. Aide organiza a defesa de Orleans, S. Lobo lidera a resistência em Troyes...
Não podemos calcular o papel decisivo desses gigantes da Igreja na salvaguarda diante da tempestade dos bárbaros; o destino de nossa civilização teria sido totalmente diferente se esses homens não tivessem feito o que fizeram, afirma D. Rops [pg. 90]. S. Pedro Crisólogo (†450), S. Máximo de Turim (580-662), S. Leão Magno (400 - 461), S. Paulino de Nola (†431), S. Sinésio de Cirene, S. Germano de Auxerre de Paris, foram infatigáveis defensores da civilização ameaçada.
Além dos bispos outra instituição da Igreja que foi fundamental na defesa da civilização foram os mosteiros. Eles nasceram no Oriente com Santo Antão e os Padres do Deserto, no século III, sob a forma eremítica, depois cenobítica (cenóbios) graças a S. Pacônio, e finalmente foi organizado na Ásia Menor por S. Basílio Magno (330 - 369) – bispo de Cesaréia na Palestina. Por volta do ano 400 os mosteiros estão presentes em toda a cristandade. São homens e mulheres que se consagram a Deus radicalmente e que vivem sob uma Regra fixa, uma vida de penitência e oração.
O papel dos mosteiros foi primeiro espiritual; a fé os sustentava e com ela os monges sustentaram o mundo da época que desabava. Os mosteiros foram sementeiros de grandes bispos para toda a Igreja. Os monges atraíram para os mosteiros jovens bárbaros e os civilizavam. Ao mesmo tempo os mosteiros preservaram a cultura ameaçada. Os mosteiros de Lerins e Marselha foram centros de estudos. Em todos eles foram criadas escolas externas – os “alunados” – ficaram famosos.
A Igreja, que sabe que “o Reino de Deus não é desse mundo”, sabe trabalhar as realidades políticas do momento, com fé e tranqüilidade, por pior que sejam. Ela soube assim aproveitar a força bruta dos bárbaros e a transformar aos poucos. Só os bispos se impunham aos bárbaros, e o seu desejo era ganhá-los para Cristo.
São Leão Magno (†460) deu à Sé Apostólica uma autoridade e respeito que nunca mais ela haveria de perder. A Igreja era a única força de resistência aos bárbaros.
S. Leão deixava com freqüência o palácio do Latrão, em Roma, cedido por Constantino, para se ocupar das misérias públicas, erguer as ruínas, dirigir as pesquisas nas catacumbas e distribuir pão aos famintos.
Quando, em 4 de setembro de 476, o Império romano do Ocidente caiu definitivamente sob o rei hérulo Odoacro, já não havia mais Europa e Ocidente, restou apenas um mosaico de estados bárbaros divididos. A queda de Roma desencadeou lutas ferozes entre esses povos pelo domínio do espólio imperial: visigodos, vândalos, francos, hérulos, anglos e saxões, entre outros, queriam sua parte e a única instituição unificada e com algum nível de organização era a Igreja Católica. E os reis bárbaros sabiam disso.
O único princípio de unidade que restou foi a Igreja Católica que continuou a resistir os bárbaros; os papas, os bispos e os monges começavam a gigantesca tarefa de reconstruir o Ocidente, o que levou cerca de seis séculos. Brilhou então a figura dos Papas.
Santo Hilário (461-468), papa, trata de reerguer tudo quanto os vândalos de Genserico tinham destruído. São Simplício (468-483) fez-se respeitar por Odoacro. S. Félix III (483-492) exigiu de Odoacro e do Imperador bizantino Zenão “o direito de a Igreja se reger por suas próprias leis”. S. Gelásio I (492-496) se impôs pela inteligência, energia, obras sociais e defesa dos pobres. Foi ele quem escreveu ao Imperador do Oriente: “Ficai sabendo que quando a Sé do bem-aventurado Pedro se pronuncia, a ninguém é permitido julgar o seu julgamento”. Foi o mesmo que S. Agostinho já tinha dito antes: “Roma locuta, causa finita”.
Santo Anastácio (496-498) alicerçou a unidade cristã ameaçada, e começou a grande e longa jornada de conquistar espiritualmente os bárbaros para Cristo. Com esta garra, já no ano 500, Clovis e Clotilde, reis dos francos, se tornavam católicos e foram batizados. Três séculos depois, outro rei descendente dos bárbaros, no ano 800, o franco Carlos Magno é também batizado e coroado imperador pelo Papa.
Duzentos anos depois, com esta mesma certeza o imperador Otão do “Sacro Império Romano-Germânico” continua a obra dos imperadores cristãos: Constantino, Teodósio e Justiniano. Assim esses homens, na fé de Cristo e da Igreja mantiveram o Império, para eles fundamental para o mundo; e agora a tarefa era integrar nele os bárbaros. E somente a Igreja, o tronco dessa árvore poderia cumprir essa missão.
Os monges salvaram a cultura antiga
Os monges tiveram um papel básico no desenvolvimento da civilização ocidental. O monarquismo começou no século III. O principio fundamental, que sempre norteou a vida deles foi a o ordem de Jesus: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o mais vos será dado por acréscimo” (Mt 6,33).
Por essa palavra, não só os homens mas também as mulheres consagravam-se como virgens para viver na oração e no sacrifício. As freiras vêm dessa tradição.
O monarquismo ocidental surgiu com S. Bento de Núrcia, na Itália; começou com doze pequenas comunidades de monges em Subíaco, a 38 milhas de Roma, e a 50 milhas de Monte Cassino, que se transformou no grande mosteiro beneditino. No não de 529, S. Bento compôs a Regra da Comunidade usada em toda a Europa oeste; teve uma aceitação muito boa porque era mais equilibrada nas penitências.
Cada Casa beneditina era independente da outra e tinha um Prior. O superior de todas as casas é o Abade.
Durante o longo período de grande confusão por causas das invasões bárbaras, que praticamente duraram seis séculos (V a X), as Casa beneditinas foram oásis de paz e ordem, especialmente Monte Cassino. Mesmo tendo sido saqueada pelos bárbaros Lombardos. em 589, destruído pelos Sarracenos em 884, destruído por um terremoto em 1349, destruído pelas tropas francesas em 1799 e pelas bombas da II Guerra Mundial em 1944, Monte Cassino recusou desaparecer e seus monges sempre o reconstruíram.
Até o século XIV a Ordem de S. Bento já tinha dado a Igreja 24 papas, 200 cardeais, 7000 arcebispos, 15.000 bispos e 1500 santos canonizados, 37.000 mosteiros. Tinha inscrito na Ordem 20 imperadores, 10 imperatrizes, 47 reis e 50 rainhas. Vários grupos de origem dos bárbaros foram atraídos pela vida monástica dos beneditinos.
O Prof. Léo Moulin, agnóstico ou ateu belga, reconhece a benéfica influência do Cristianismo e, em especial, da Regra de São Bento na evolução da cultura e da civilização. Mostra como a Regra de São Bento, legislando para os monges, fez transbordar sobre toda a sociedade medieval e posterior certos princípios de disciplina, diligência e ordem no trabalho, que propiciaram a criação de grandes empresas industriais e culturais. revista “JESUS”, dezembro de 1990, pp. 103-107, com o título “Luminosissimo Medioevo!”
Henry Goodell, presidente da Faculdade de Agricultura de Massachussets, no começo do séc. 20, falou do “trabalho desses grandes monges durante um período de 1500 anos. Eles salvaram a agricultura quando ninguém mais poderia fazê-lo. Eles praticavam-na sob uma vida nova e novas condições quando ninguém mais podia cuidar”.
“Nós devemos a restauração da agricultura de uma grande parte da Europa aos monges”. “Sempre que eles chegavam, convertiam o deserto em um campo cultivado, eles desenvolviam a pecuária e a agricultura, trabalhando com as próprias mãos drenando pântanos... Por eles a Alemanha se transformou um frutuoso país”. [T.Woods, 2005]
Os historiadores mostram que cada mosteiro Beneditino tinha um centro de ensino de agricultura para toda a região onde estava localizado.
Mesmo o historiador francês François Guizot, do séc. XIX, que não era simpático à Igreja Católica observa: “Os monges beneditinos foram os agriculturistas da Europa; eles desenvolveram-na em larga escala, associando a agricultura com a oração”.
O trabalho pesado da agricultura era para os monges uma maneira de santificação e penitência e por isso não fugiam deles. Eles enfrentaram as pestes em pântanos sem valor, como desafio, e os transformavam em terra de valor.
O grande historiador dos monges, do séc. XIX, Montalembert disse:
“É impossível esquecer o uso que eles fizeram de tantos distritos incultivados e inabitados, cobertos de florestas ou cercados de pântanos... Embora eles abrissem clareiras nas florestas para habitação humana e uso, eles tinham o cuidado de plantar árvores e cultivar florestas quando possível”.
Onde os monges chegavam introduziam as plantações, indústrias, e métodos novos de produção não familiares; criação de gado e cavalos, produção de cerveja, cultivo de abelhas e frutas. Na Suécia introduziram a cultura do milho; em Parma, a fabricação de queijo; na Irlanda, criação de salmon, e , em muitos lugares cultivo de uvas. Os monges coletavam a água das fontes para distribuí-las no tempo de seca. Na Lombardia os camponeses aprenderam com os monges a irrigação do solo, o que fez essa área conhecida em toda a Europa por sua fertilidade. Os monges foram os primeiros a trabalhar pela melhoria na criação do gado.
Os monges foram pioneiros na produção de vinho, que usavam para a celebração da Missa e consumo, que a Regra de S. Bento permitia. A descoberta da champanhe foi feita por Dom Perignon da Abadia de S. Pedro, Hautvilliers-on-the Marne. Ele cuidava da adega da Abadia em 1688 e desenvolveu a Champanhe através da experimentação com mistura de vinhos. O mesmo processo é usado ainda hoje.
Afirma o Dr. Woods que: “É difícil encontrar algum grupo em algum lugar do mundo cuja contribuição foi tão variada, tão significativa, e tão indispensável como aquelas dos monges da Igreja Católica no Ocidente durante um tempo de perturbações e desespero generalizado” (pg. 32).
Os monges foram também importantes arquitetos da tecnologia medieval. Os de Cister (cistercienses), uma ordem de S. Bento, reformada, estabelecida em Citeaux em 1908, eram bem conhecidos por suas tecnologias sofisticadas. Graças a grande rede de comunicação que existia entre os mosteiros a informação tecnológica se espalhava rapidamente. Encontramos sistemas de propulsão de água semelhantes em mosteiros que estavam a grandes distâncias um do outro, mesmo a milhares de milhas.
Citando o pesquisador Randal Collings, T. Woods afirma que: “Esses mosteiros foram as unidades mais econômicas que já existiram na Europa e talvez no mundo, até aquele tempo”.
O mosteiro cisterciense de Claraval na França deixou-nos um registro do séc. XII sobre o uso da energia da água que revela como este equipamento tinha se tornado fundamental na vida européia. Os mosteiros cistercienses geralmente tinham as suas próprias fábricas. Eles usavam a força da água para moer o trigo, peneirar farinha, tecer roupas e fazer cozimento; 742 era o número de mosteiros cistercienses na Europa nesse século, e o mesmo nível de tecnologia podia ser observado em todos eles.
O mundo clássico antigo não usou a mecanização para uso industrial em uma escala considerável, mas o mundo medieval o fez em grande escala, especialmente por causa do uso da força da água nos mosteiros cistercienses.
Os monges foram os sábios e conselheiros da Europa após a invasão dos bárbaros. Os cistercienses eram também conhecidos por sua habilidade em metalurgia. Em sua rápida expansão pela Europa foram importantes na difusão de novas técnicas por causa do alto nível de sua tecnologia da agricultura, que era combinada com a tecnologia industrial. Cada mosteiro tinha uma fábrica, tão grande como a igreja e somente a poucos pés de distância e a força da água tocava as máquinas das várias indústrias localizadas neste local.
Os monges trabalhavam o minério de ferro e usavam as cinzas dos fornos como fertilizantes por causa de sua concentração de potássio. Os monges trabalhavam na mineração do sal, chumbo, ferro, alumínio, uso do mármore, vidro, fizeram pratos de metal e não havia atividades que eles não tivessem criatividade e espírito de pesquisa, e o seu “know-how” se espalhou por toda a Europa.
No começo do séc. XI, um monge chamado Eilmer voou mais de 600 pés com um planador. Alguns séculos depois, o Irmão Francesco Lana-Terzi, um padre jesuíta tentou voar sistematicamente, ganhou um prêmio de honra sendo chamado de o “pai da avião”. Seu livro de 1670, “Prodromo alla Arte Maestra” foi o primeiro a descrever a física e a geometria de um artefato voador.
Os monges também foram especialistas em fabricação de relógios. O primeiro relógio que se tem recordação foi construído pelo futuro Papa Silvestre II para a cidade alemã de Magdeburg por volta do ano 996. E relógios mais sofisticados foram construídos mais tarde. Peter Lightfoot, um monge do séc. XIV, de Glastonbury construiu um dos mais antigos que ainda existe e que está agora em excelente condição no Museu de Ciência de Londres.
Richard de Wallingford, um monge prior do séc.XIV, do mosteiro beneditino de S. Albano, foi um dos iniciadores da trigonometria ocidental, e é bem conhecido pelo grande relógio astronômico que projetou para o mosteiro. Disseram que um relógio de sofisticada tecnologia não apareceu nos dois séculos seguintes. Este maravilhoso relógio para o seu tempo foi confiscado do mosteiro por Henrique VIII no séc. XVI. O relógio podia prever com precisão os eclipses lunares. [T. Woods, pg. 36]
Os arqueólogos estão descobrindo a extensão dos peritos monges e suas habilidades tecnológicas. Em 1990 o arqueólogo metalúrgico Gerry Mc Donnell, da Universidade de Bradford, encontrou evidências perto do mosteiro de Rievaulx, em North Yorkshire, Inglaterra, de um grau de sofisticação tecnológica que deu início às grandes máquinas a Revolução Industrial do séc. XVIII. O Rei Henrique VIII mandou fechar este mosteiro de Rievaulx em 1530 como parte do confisco das propriedades da Igreja.
Explorando os escombros de Rievaulx e Laskill, a quatro milhas do mosteiro, Mc Donnell descobriu que os monges tinham construído um forno para extração de ferro do minério (idem, p. 37).
Os monges desenvolveram fornos mais eficientes que atingiram temperaturas mais altas, capaz de tirar mais ferro do minério. Desenvolveram fornos para grande produção o que foi importante para a era industrial.
Um fator importante para o desenvolvimento da ciência, é que os cistercienses tinham uma reunião regular dos Priores a cada ano onde compartilhavam os avanços tecnológicos na Europa. A dissolução dos mosteiros pos fim a essa rede de transferência de tecnologia. Quando o rei inglês Henrique VIII dissolveu os mosteiros ingleses, a partir de 1534, este desenvolvimento foi impedido: o que obrigou o desenvolvimento a esperar ainda por 2 a 3 séculos.
É impressionante o número de padres cientistas na Idade Média. Isto era fruto do desejo de conhecer o universo criado por Deus, e mostra que nunca houve para a Igreja, antagonismo entre ciência e religião, entre razão e fé, uma vez que ambas procedem do mesmo Deus.
Vários homens do séc. XIII mereciam um destaque. Roger Bacon, era um franciscano que ensinou na universidade de Oxford, e que foi admirável em seus trabalhos de matemática e ótica, e foi considerado um precursor do método científico moderno. Escreveu sobre a filosofia da ciência e enfatizou a importância da experiência. Isto ficou claro na sua obra “Opus Maius”, e “Opus Tertium”. Bacon afirma que: “Sem experimentos nada pode ser adequadamente conhecido. Um argumento prova teoricamente, mas não dá a certeza necessária para remover a dúvida” .
Alguns mosteiros eram conhecidos por sua perícia em ramos particulares do conhecimento. Por exemplo, conferências sobre medicina eram dadas pelos monges de S. Benigno em Dijon, o mosteiro de S. Gall tinha uma escola de pintura e gravuras, e palestras em grego, hebraico e árabes eram dadas em mosteiros alemães. (Newman, 1948).
Um gigante da Igreja que muito contribuiu com a ciência foi Santo Alberto Magno (1200-1280); foi educado em Pádua e se tornou dominicano. Ensinou em várias escolas na Alemanha antes de começar seu trabalho na Universidade de Paris em 1241, onde teve um grande número de alunos ilustres como S. Tomás de Aquino. S. Alberto foi provincial dos dominicanos na Alemanha e bispo de Regensburg dois anos.
O “Dicionary of Scientific Biography” diz que era um dos mais famosos precursores da ciência moderna na Alta Idade Média”. Foi canonizado pelo papa Pio XII em 1931 e declarado patrono de quem estuda as ciências naturais em 1941.
Santo Alberto foi renomado naturalista, estudou a física, metafísica, biologia, psicologia, e várias ciências da terra. Escreveu a obra “De Mineralibus”. Assim como o monge Roger Bacon, ele afirmava a importância da observação para a aquisição de conhecimentos.
Um dos homens considerados mais cultos da Idade Média foi Robert Grosseteste, que foi chanceler de Oxford e bispo de Londres; foi influenciado por Thierry de Chartres; e foi o primeiro a escrever um método completo para realizar um experimento científico. O séc. XIII gerou os rudimentos do método científico, especialmente graças a figuras como Grosseteste.
Muitos nomes católicos em ciência ficaram na obscuridade. Nicolaus Steno (1638-1686), um luterano convertido ao catolicismo que foi padre, estabeleceu os princípios básicos da geologia moderna e é muitas vezes chamado de “o pai da estratigrafia”, estudo das camadas da terra. Ele nasceu na Dinamarca e viajou por toda a Europa e foi da corte do duque de Toscana. Além de sua reputação em medicina, deixou grande contribuição sobre os fósseis e os extratos da terra. Escreveu a obra “Discurso Preliminar para uma Dissertação sobre um corpo sólido naturalmente contido dentro de um sólido”.
Ele estava certo de que as rochas, os fósseis e as camadas geológicas contavam a história da terra, e que o estudo geológico podia iluminar a história. Isto não era tarefa fácil porque não existia a ciência da geologia, nem princípios básicos e nem metodologia de seu estudo.
Steno foi o primeiro a afirmar que “a história do mundo podia ser recuperada das rochas”. O primeiro livro de estratigrafia é o “Princípios de Steno”. Em 1988 ele foi beatificado por João Paulo II, enaltecendo a sua santidade e ciência.
As Universidades Católicas
O ensino superior na Idade Média era ministrado por iniciativa da Igreja. Como já vimos, ela fundou as universidades. A Universidade medieval não tem precedentes históricos tanto por sua estrutura institucional quanto por seu papel social e intelectual .
No mundo grego já haviam escolas públicas, mas todas isoladas. Em Roma, somente o imperador Adriano (séc II) pensou em estabelecer um Ateneu que se parecia muito a uma Universidade. Esse projeto, entretanto, somente se realizou e, assim mesmo, efemeramente, no tempo de Cassiodoro e do Papa Agapito I no século VI.
No período greco-romano cada filósofo e cada mestre de ciências tinham sua escola - o que implicava justamente no contrário de uma Universidade. Esta na Idade Média reunia mestres e discípulos de várias nações, os quais constituíam poderosos focos de erudição.
Por volta de 1100, no meio de uma grande fermentação intelectual, surge pelas mãos da Igreja o ensino superior, as Universidades; o orgulho da Idade Média cristã, irmãs das Catedrais. A sua aparição é um marco na história da civilização ocidental que nenhum historiador tem coragem de negar. Elas nasceram às sombras das Catedrais. Logo receberam o apoio das autoridades da Igreja e dos Papas. Assim “a Igreja passou a ser a matriz de onde saiu a Universidade” (Daniel Rops, “A Igreja das Cruzadas e das Catedrais, pág. 345).
Até 1440 foram erigidas na Europa, pela Igreja Católica, 55 Universidades e 12 Institutos de ensino superior, onde se ministravam cursos de Direito, Medicina, línguas, artes, ciências, Filosofia e Teologia. Todos fundados pela Igreja. Em 1200 Bolonha tinha dez mil estudantes (italianos, lombardos, francos, normandos, provençais, espanhóis, catalães, ingleses germanos, etc.). O Papa Clemente V no concílio de Viena em 1311, mandou que se instaurassem nas escolas superiores cursos de línguas orientais (hebreu, caldeu, árabe, armênio, etc.), o que em breve foi executado em paris, Bolonha, Oxford, Salamanca e Roma.
A atual Universidade de Roma, La Sapienza, foi fundada há sete séculos, em 1303, pelo Papa Bonifácio VIII, com o nome de “Studium Urbis”. Das 75 Universidades criadas de 1100 a 1500, 47 receberam a Bula papal de fundação, enquanto muitas outras, que surgiram espontaneamente ou por decisão do poder secular, receberam em seguida a confirmação pontifícia, com a concessão da Faculdade de Teologia ou de Direito Canônico.
As Ordens mendicantes, dominicanos e franciscanos penetram nas Universidades e depois terão grandes mestres como o franciscano S. Boaventura e o dominicano S. Tomás de Aquino.
Para Inocêncio IV a Universidade era o “Rio da ciência que rege e fecunda o solo da Igreja universal”, e Alexandre IV a chamava de: “Luzeiro que resplandece na Casa de Deus”. (DR, pg.348). A universidade de Paris era chamada de “Nova Atenas” ou o “Concílio perpétuo das Gálias”, por ser especialmente voltada à teologia. As universidades atraíam multidões de estudantes, da Alemanha, Itália, Síria, Armênia e Egito. Vinham para a de Paris chegavam a 4000, cerca de 10% da população.
Só na França havia uma dezena de universidades: Montepellier (1125), Orleans (1200), Toulouse (1217), Anger (1220), Gray, Pont-à-Mousson, Lyon, Parmiers, Norbonne e Cabors. Na Itália: Salerno (1220), Bolonha (1111), Pádua, Nápoles e Palerno. Na Inglaterra: Oxford (1214), nascida das Abadias de Santa Frideswide e de Oxevey, Cambridge. Além de Praga na Boêmia, Cracóvia (1362), Viena (1366), Heidelberg (1386). Na Espanha: Salamanca e Portugal, Coimbra. Todas fundadas pela Igreja. Como dizer que a Idade Média cristã foi uma longa noite escura da história?
A História prova que nada é mais absurdo do que certas afirmações que vemos hoje de que o pensamento na Idade Média cristã era estagnado, ou que a Igreja era obscurantista, ou que o pensamento era aprisionado pelo medo da Inquisição. Na verdade era o contrário. As universidades foram centros de intensa vida intelectual, onde os grandes homens se enfrentavam em discussões apaixonadas dos grandes problemas. E a fé era o fermento que fazia a cultura crescer.
Nenhuma outra Instituição contribuiu tanto para moldar a nossa civilização ocidental. Mas infelizmente tudo isto é ocultado pelos que não gostam da Igreja; por isso, é essencial recuperar esta verdade intencionalmente escondida.
Há hoje no mundo todo um anti-Catolicismo espalhado pela mídia e pelas universidades; essas mesmas universidades fundadas pela Igreja. É dito aos jovens que a História da Igreja é uma história de ignorância, repressão, atraso e estagnação, quando a realidade é exatamente o contrário, como têm mostrado muitos historiadores atuais.
Na verdade a Igreja soube aproveitar o que há de bom na civilização grega e romana, não os desprezou, e soube com os valores cristãos moldar a nossa civilização.
É preciso saber distinguir entre a “Pessoa” da Igreja, fundada por Cristo, divina, e as “pessoas” da Igreja que são seus filhos santos e pecadores. Muito se exagera, por exemplo, sobre a Inquisição; e se quer analisar a mesma fora do contexto da época.
A maioria das pessoas reconhece a influência da Igreja na música, na arte e na arquitetura, mas a influência da Igreja foi muito maior.
Muitos, mal informados, pensam que centenas de anos antes da época do Renascimento foi um tempo de ignorância e repressão intelectual, sem brilho, como se fosse um tempo negro onde se imperou a superstição e a magia, como se em nome de Jesus Cristo, a ciência e o progresso fossem banidos. Nada mais errado. A Idade média cristã foi um tempo de grande desenvolvimento religioso, cultural e artístico.
Ainda hoje há livros que apresentam uma visão totalmente errada da civilização ocidental. A Civilização ocidental na verdade tem uma enorme dívida com a Igreja pelo sistema universitário, pelo trabalho de caridade realizado pela Igreja, pelo advento da lei internacional, as ciências, as artes, a música e muito mais.
O Testemunho dos Historiadores
O Dr. Thomas Woods mostra em seu livro já citado que nos últimos 15 anos, os historiadores da ciência – A.C. Crombie, David Lindberg, Edward Grant, Stanley Jaki, Thomas Goldstein, J. L. Heibron e outros – concluíram que a Revolução Científica tem um grande débito com a Igreja. A contribuição da Igreja com a ciência foi muito além do conhecido, muitos cientistas eram padres.
Para citar alguns exemplos da participação fundamental da Igreja católica no desenvolvimento do mundo ocidental, citamos o Padre Nicholas Steno, sempre identificado como o “pai da geologia”. O “pai da egiptologia” foi o padre Athanasius Keicher. A primeira pessoa a medir a taxa de aceleração de um corpo em queda livre foi o Pe. Giambattista Riccioli. O Pe. Rober Boscovitch é considerado o pai da moderna teoria atômica. Os jesuítas se dedicavam ao estudo dos terremotos tal que a sismologia veio a ser conhecida como a “ciência Jesuítica”. Trinta e cinco crateras da lua foram nomeadas por cientistas e matemáticos jesuítas.
J. L. Heilbron, da Universidade da Califórnia em Berkeley, disse que : “A Igreja Católica Romana deu mais suporte financeiro e social ao estudo da astronomia por mais de seis séculos do que qualquer outra instituição”. Woods afirma que “o verdadeiro papel da Igreja no desenvolvimento da ciência moderna permanece um dos mais bem guardados segredos da história moderna” [pág. 5].
Todo mundo sabe que foram os monges da Igreja que preservaram a herança literária do mundo antigo após a queda de Roma no século V, sob o domínio dos bárbaros.
Reginald Grégoire afirma que os monges deram “a toda a Europa... uma rede de fábricas, centros de criação de gado, centros de educação, fervor espiritual, ... uma avançada civilização emergiu da onda caótica dos bárbaros. Sem dúvida alguma S. Bento (o mais importante arquiteto do monaquismo ocidental) foi o Pai da Europa. Os Beneditinos e seus filhos, foram os Pais da civilização Européia”.
Por outro lado o desenvolvimento do conceito de “lei internacional”, é atribuída aos pensadores dos séc. XVII e XVIII, mas na verdade surgiu no séc. XVI nas universidades espanholas católicas e foi Francisco de Vitória, um padre católico e professor que ganhou o título de “pai da lei internacional”. Analisando os maus tratos dos nativos da América recém descoberta, o padre Vitória e outros filósofos católicos e teólogos começaram a discutir os direitos humanos e as relações que deveria haver entre as nações.
A lei ocidental é uma dádiva da Igreja; a lei canônica foi o primeiro sistema legal na Europa, o que deu início ao primeiro corpo coerente de leis.
Segundo Harold Berman “foi a Igreja que primeiro ensinou o homem ocidental um sistema moderno de lei. A Igreja primeiro ensinou que conflitos, estatutos, casos, e doutrina podem ser reconciliadas por análises e sínteses”. (T. Woods)
A formulação dos direitos, que surgiu da civilização ocidental, não veio de John Looke e Thomas Jefferson, mas muito antes, das leis canônicas da Igreja Católica.
Alguns historiadores de economia antiga afirmam que a moderna economia, surgiu com Adam Smith e outros teóricos da economia do séc. XVIII, mas estudos recentes estão mostrando a importância do pensamento econômico dos Escolásticos da Igreja, particularmente os teólogos católicos espanhóis e séc. XV e XVI. O grande economista Joseph Schumpeter considera que esses pensadores católicos foram os fundadores da ciência econômica moderna.
Even Lecky, um historiador do séc. XIX, crítico contra a Igreja, admitiu que, tanto no campo espiritual como no compromisso da Igreja com os pobres, foi feito algo novo no mundo ocidental e que representou um grande crescimento em relação à Antigüidade.
A Igreja moldou a civilização ocidental em todos os seus campos: arte, música, arquitetura, direito, economia, moral, ciência, letras, línguas, etc..
Em todos esses campos ela deixou uma marca indelével no coração da civilização européia e a melhorou significativamente.
O Trabalho da Caridade
A Regra de S. Bento obrigava os monges a dar ajuda e hospitalidade à pessoas. Dizia a Regra que “Todo hóspede que chega ao mosteiro devia ser recebido como se fosse o próprio Cristo”.
Um antigo historiador da abadia de Norman escreveu: “Os monges diziam que as portas estão sempre abertas para todos e seu pão é gratuito para todo mundo”. (Montalembert). Era o espírito de Cristo dando proteção e conforto para desconhecidos de todo tipo.
Em Aubrac, por exemplo, onde um hospital foi criado entre as montanhas de Ronergue no final do séc. VI, um sino especial soava toda noite para chamar todos os viajantes ou qualquer outro que precisasse de pousada. O povo chamado de “o sino dos andarilhos”.
Em muitos lugares os monges tinham mosteiros próximo do mar onde colocavam sinalização para os marinheiros evitarem perigos ou para auxiliar os barcos que naufragavam e dar provisões para os homens. É dito que a cidade de Copenhagen deve sua origem a um mosteiro ali estabelecido por seu fundador, o bispo Alsalon, o qual forneceu comida a um barco naufragado.
Na Escócia, em Arboath, os monges colocaram um sino sobre uma plataforma flutuante em uma rocha; este balançava e fazia o sino soar para avisar os marinheiros do perigo das ondas. Até hoje a rocha é conhecida como a “Rocha do Sino”. Esses são apenas uns poucos exemplos do que os monges faziam pelas pessoas; eles ainda ajudavam a construir e reparar pontes, estradas e outras coisas.
A Palavra Escrita
Um trabalho importantíssimo dos monges foi o de serem copistas de manuscritos sagrados e profanos, o que era uma tarefa difícil: às vezes sob frio rigoroso e fazendo à noite o que não podiam fazer de dia. No séc. VI um senador romano, Cassiodoro, entendeu a importância do papel cultural dos mosteiros e estabeleceu o mosteiro Vivarium no sul da Itália com uma bela biblioteca – a única do séc. VI disponível dos estudantes. Alguns manuscritos Cristãos de Vivarium foram para a biblioteca Lateranense de posse dos papas em Roma.
Na biblioteca do monge e teólogo poliglota Alcuin que trabalhou como “ministro da Cultura” do imperador Carlos Magno, encontramos as obras de Aristóteles, Cícero, Plínio, Statius, Pompeus e Virgílio. Eu suas correspondências ele cita autores clássicos como Ovídio, Horácio e Terence.
O grande Gerbert de Aurillac, que mais tarde se tornou o Papa Silvestre II, mostrou a seus alunos Horácio, Juvenal, Lucan, Persius, Terence, Statius e Virgílio.
John Henry Newman, o grande Cardeal do séc. XIX, convertido do Anglicanismo disse que S. Hildebert sabia Horácio praticamente de memória. O fato é que a Igreja valorizou, preservou, estudou e ensinou os trabalhos dos antigos, os quais poderiam ter sido perdidos se não fosse isso.
Alguns mosteiros eram conhecidos por sua perícia em ramos particulares do conhecimento. Por exemplo, conferências sobre medicina eram dadas pelos monges de S. Benigno em Dijon, o mosteiro de S. Gall tinha uma escola de pintura e gravuras, e palestras em grego, hebraico e árabes eram dadas em mosteiros alemães. (Newman)
Há muitos textos que poderiam ter sido perdidos para sempre se os monges não os guardassem: “Anais e Histórias de Tácito; a “Golden Ass of Apuleius”, os “Diálogos” de Sêneca e muitas outras obras.
S. Maieul de Cluny tinha sempre um livro em suas mãos quando viajava. Halinard, abade de S. Benigno em Dijon, depois Arcebispo de Lyon era conhecedor profundo dos filósofos antigos.
“Sem estudo, e seus livros, a vida de um monge não é nada”, disse um monge de Muri. S. Hugh de Lincoln, enquanto Prior de Withan, a primeira Casa dos Cartuchos na Inglaterra, disse: “Nossos livros são nossos deleites e nossa riqueza em tempo de paz, nossas armas ofensivas e defensivas em tempos de guerra, nosso alimento quando estamos famintos, e nossa medicina quando estamos doentes” (Montalembert).
Outro trabalho muito importante dos monges, além das cópias dos Padres da Igreja e dos Clássicos gregos e latinos, foi a preservação da Bíblia. Se não fosse a devoção dos monges e as numerosas cópias que eles produziram a Bíblia não teria sobrevivido à investida violenta dos bárbaros.
Assim a admiração da civilização Ocidental pela palavra escrita e pelos clássicos chegou a nós pela Igreja Católica que preservou através da invasão dos bárbaros.
S. João Crisóstomo conta-vos que já no seu tempo (347-407) era comum ao povo de Antioquia enviar seus filhos para serem educados pelos monges. S. Bento instruiu filhos dos nobres romanos.
S. Bonifácio estabeleceu uma escola em cada mosteiro fundado na Alemanha; na Inglaterra S. Agostinho e seus monges criaram escolas por toda parte onde foram. S. Patrício estimulou as escolas na Irlanda e seus mosteiros eram grandes centros de ensino.
Para as pessoas que não eram monges a educação era ministrada nas escolas das catedrais.
Os monges fizeram mais do que preservar a literatura. Eles estudaram as músicas dos poetas e escritos dos historiadores e filósofos. Cada mosteiro e escola monástica tornaram-se um centro de vida religiosa e educacional.
Eles deixaram a fundação das universidades. Eles eram os pensadores e os filósofos e formaram o pensamento político e religioso. Entre outras coisas os monges ensinaram metalurgia, introduziram novas cultura, copiaram textos antigos, preservaram a literatura, foram pioneiros na tecnologia, inventaram a champanha, melhoraram a paisagem européia, socorreram os andarilhos e cuidaram dos náufragos. Quem mais na história da civilização ocidental fez tanto?
As Belas Catedrais - Arquitetura
As catedrais foram por excelência as obras mais representativas da Idade Média cristã; esses dez séculos (IV a XV) onde a Igreja moldou a civilização. Nelas a sociedade humana dessa época exprimiu e revelou toda a sua criatividade, profunda espiritualidade, capacidade técnica e talentos.
Elas foram fruto de muita paciência, esperança, fé, e revelam o ponto alto dessa sociedade cristã. Elas sozinhas mostram toda a riqueza desse tempo (espiritualidade, arte, arquitetura, moral, vida cotidiana, trabalhos, literatura, etc).
A Catedral da Idade média é um marco histórico; com o seu tamanho gigantesco ela domina a cidade e se impõe sobre tudo o mais. Assim são as de Reims, Bolonha, Córdoba, Florença, Gênova, Milão, Paris, Monreale, Nápoles, Roma, Sevilha, Amiens, Beauvais, Chartres, Notre Dame, Rouen, Veneza, Viena, Verona, S.Paulo, etc, admiradas por milhões de turistas e peregrinos hoje.
Muitas cidades podem exibir uma grande catedral construída na Idade Média pela Igreja Católica, símbolo de fé autêntica e amor a Deus. Milhões de pessoas todos os anos visitam essas gigantestas obras medievais e não se cansam de admirar a sua beleza e arte. Avançando para o céu elas revelam as profundas aspirações do homem do seu tempo. Elas surgiram no ponto alto da Idade Média, juntamente com a Cruzada, a Universidade, as Peregrinações e as Sumas.
Poucos sabem que Carlos V foi coroado em S. Petrônio, em Bolonha. E há fatos marcantes na vida dessas obras de arte e de fé. Os carros que transportavam os materiais para a construção da famosa catedral de Chartres na França eram puxados por pecadores que procuravam saldar a sua dívida com Deus. A catedral de Milão é um voto oferecido por Gian Galeazzo Visconti. A argamassa usada na construção da catedral de Viena foi temperada com vinho.
Cesare Marchi viajou pelo mundo para estudar quinze das mais importantes catedrais medievais e narrou a impressionante história de cada uma delas. (Grandes Pecadores, Grandes Catedrais, Livraria Martins Fontes Editora Ltda, SP, 1991).
A Catedral é a “opus Dei”, a obra de Deus, nela tudo é para a Sua Glória, a beleza, a arte, o requinte; é a expressão maior e total da fé. Atrás de cada uma delas há um longo passado.
Raul Glaber, um conhecido cronista do ano mil disse que “o branco manto das igrejas” cobria o mundo. Para isso o homem medieval precisou aprendeu a talhar bem a pedra, a pintura com a técnica do afresco, os vitrais que “contavam toda a espécie de histórias”, a arquitetura, a arte, etc.
A partir de 1050 por toda parte, em todos os países onde a Igreja guiava os homens, houve uma febre de construção de catedrais. As Catedrais de Cremona, de Piacenza, de Ferrosa, de Santa Maria do Trastevere em Roma, de Cambridge, Oxford, Glasgow, Worms, Hildesheim, Salomanea, Coimbra, são contemporâneas das francesas já citadas, bem como as de Assis, Rochester, Worcester, Westminster na Inglaterra; Magdeburgo, Frankfurt e Colônia na Alemanha.
Muitas dessas Catedrais foram construídas no mesmo lugar de outras que, por serem cobertas de madeira, muitas vezes sofreram incêndio. A maioria dessas catedrais é gigantesca porque as multidões as lotavam; o povo todo era católico e fervoroso. E também havia o desejo do povo de dar a Deus uma morada digna e bela. As cidades competiam entre si. Esta fecundidade artística e espiritual tem causas profundas e não é fruto de mero entusiasmo passageiro ou fruto da improvisação. Foram cerca de 300 anos de cultura. As obras não são cópias umas das outras; os grandes artistas estavam presentes.
A Igreja foi a grande inspiradora de todo esse trabalho, o guia que mostrou aos artistas o seu fim. O mundo ocidental nunca será suficientemente grato a ela, pois, buscando louvar a Deus fez os homens reconhecerem “o valor único da arte”, como disse Jacques Maritain.
Os grandes artífices desses gigantescos empreendimentos foram ainda os monges da Igreja. Até o séc. XII a arte foi monástica. As igrejas das abadias precederam as catedrais dos bispos, e abriu-lhes os caminhos.
A Igreja da abadia de Cluny tinha 30 metros de altura e sua nave tinha mais de cem metros, rodeada por sete campanários. Cluny estava na vanguarda da escultura e da arquitetura ocidental; era a arte para o serviço e para a glória de Deus. Eles desenvolveram as técnicas das grandes abóbadas. E também o desenvolvimento dos vitrais se deve a eles. Infelizmente o vandalismo do séc. XIX destruiu a gigantesca igreja de Cluny. Seria impossível escrever os nomes de todos esses monges artistas geniais.
Esta arte monástica durou tanto quanto a Idade Média e a ultrapassou. Tudo era harmonioso nas abadias; ainda hoje os seus claustros são admirados.
Os bispos não estavam só nas construções das catedrais, estava com eles o povo cristão que os amava e admirava. Este povo tinha orgulho de sua catedral, de sua enorme nave, de sua alta cúpula e de seus campanários. Algo que poucos sabem é que a famosa Torre de Piza era o campanário da Catedral da cidade; ambas revestidas de mármore branco, ao lado da enorme igreja dos batismos.
O que é que movia esse povo a construir tantas maravilhas pelo mundo? A resposta é: a fé. Era a mesma fé que levou a Cruzada para libertar o Santo Sepulcro na Terra Santa.
As mãos que as construíram eram hábeis, inteligentes, lúcidas, dominavam um ofício e a uma técnica. Esses arquitetos chamados de “mestres-de-obras” possuíam vasta cultura, sabiam o latim, adquiriam novos conhecimentos em suas viagens. O epitáfio de um deles, Pedro de Montreau, qualifica-o de “doutor dos canteiros”, (“doctor latomorum”). Muitos desses arquitetos eram escultores.
Até hoje o homem moderno não sabe o segredo de fabricação que fazem os vitrais românicos de um brilho admirável, mesmo com as técnicas de pintura no vidro de hoje. Há vigas de madeira na Catedral de Notre-Dame, do séc. XIII, que até hoje não foram atacadas por insetos. Não se sabe que processo de conservação da madeira eles usavam. Muitas técnicas eram guardadas em segredo.
Esses “mestre-de-obras” não freqüentavam escolas de belas-artes, mas havia famílias que se dedicavam a isto. A verdadeira formação se fazia junto a um mestre; a escola era nos canteiros de obras. Começava no corte e polimento das pedras e se completava nas viagens pela Europa.
Esses artistas eram homens de ofício e de fé. Eles não eram como muitos artistas modernos que fazem a arte sacra proclamando que não têm fé. Como pode esta arte ter vida e transmitir alguma beleza?
Entre os documentos que existem sobre as construções das catedrais não há nenhum que mostre conflito de interesses financeiros. Se a construção era de uma Ordem religiosa, o artista era alimentado com os monges e recebia um pagamento anual. Trabalhar para Deus já era um mérito que não podia ser avaliado em dinheiro.
Esses “mestres-de-obra” criaram as formas mais apaixonantes de toda a história da arte, e ainda hoje podemos rezar nas mesmas catedrais que rezaram S. Luiz de França, S. Bernardo, S. Francisco, S. Domingos e tantos mais.
A invenção do arco ogival foi o que tornou possível a bela catedral gótica, um meio técnico para substituir a abóbada românica. Esta técnica aliviou o peso sobre as paredes e localizava as pressões em apenas quatro pontos em que os dois arcos (nervuras) se apóiam sobre os pilares. Pesando menos a abóbada gótica podia elevar-se mais e atingir a altura que desejasse; e nas paredes mais amplas será possível colocar mais janelas e vitrais. A catedral gótica tem uma leveza impressionante, mas seus pilares chegam a 15 metros abaixo do solo.
Jacques Maritain comparou a catedral gótica à Suma Teológica de São Tomás: uma solução elegante de geometria e física sendo que nada há nela de falso. Os campanários góticos atingiam alturas incríveis: 82 m em Reims, 123 em Chartres, 142 em Estrasburgo e 160m em Ulm. As mais importantes são a de Niyon (1151-1220), Lion (1160-1207), a Notre Dame de Paris (1163-1260), a de Chartres (1194-1260), Reims (1214-1300), Amiens (1120-1270) que atinge o ponto mais alto; a abóbada está a 42 m do chão. A luz entra jorrando. A catedral era a “casa do povo”, onde ele gostava de se reunir em grandes massas, para as grandes celebrações. Nelas os reis eram coroados pelos papas ou bispos, e sem isto não tinham o reconhecimento do povo.
As Artes - Escultura - Pintura - Música
Juntamente com a arquitetura floresceu a escultura, na verdade filha dessa, e que vai ornamentar as grandes igrejas e catedrais. É uma arte bela e repleta de mística, de meditação e de fé profunda. Todas as catedrais estão repletas dessas obras maravilhosas, especialmente em Reims, Notre Dame, Chartres, Amiens, Vézelay, Moissac, Beaulieu. Esta escultura, assim como a filosofia cristã colocava o homem no centro do conhecimento, e partia dele para chegar a Deus. A escultura gótica é a única na Europa que pode competir com a grega da grande época; e “nunca mais voltará a este nível. A Cristandade do século XIII deu ao Ocidente inúmeros Fídias”, disse Daniel Rops (pg. 418).
Toda esta plástica não era meramente decorativa, mas religiosa. Um Sínodo em Arras (1025) tinha aconselhado que nas paredes dos santuários se representassem cenas e ensinamentos da Bíblia, porque “isso permitirá aos iletrados conhecerem aquilo que os livros não podem lhes ensinar”. S. Gregório VI, no séc. VI, já havia dito a mesma coisa. Victor Hugo comparou a catedral a “um grande livro de pedra”. É impressionante constatar que aquele povo simples daquela época compreendesse essa linguagem repleta de símbolos e episódios que o homem moderno desconhece.
As paredes formam como que um catecismo onde estão retratados os dogmas da fé, a moral, os mandamentos e a espiritualidade. São milhares de figuras que ligavam o homem à grande obra, onde Deus era glorificado.
O artesão românico ou gótico não precisava, como os de hoje, procurar um programa ou uma ideologia para se apoiar, e sem a necessidade de serem originais, esses artistas usavam seus dons e talentos com liberdade. Eles produziram uma iconografia grandiosa e diversificada.
As cores tinham um papel fundamental nesta bela arte. As catedrais eram todas brilho e resplendor por dentro e por fora. Os pavimentos com ladrilhos de cerâmica vermelha e revestimentos amarelos continham rosáceos, animais, personagens e desenhos. As paredes, e as abóbadas eram uma festa para a cor dos pintores românicos.
O grande meio gótico para utilizar a cor foi através do vitral uma vez que as áreas disponíveis para pinturas eram maiores. Eles dão uma vibração sensível à catedral e tocam as pessoas em oração. Apreciando um pôr-do-sol através dos vitrais da catedral de Chartres podemos notar como a técnica estava a serviço da fé.
A música completava o belo quadro de beleza e harmonia da catedral; especialmente o “canto gregoriano”, estabelecido no séc. VII por S. Gregório Magno, se desenvolvia e se aperfeiçoava. Em Saint-Gall, por volta do ano 900, o músico Notker o Gago, tinha-lhe acrescentado a “seqüência”, um conto escrito do Aleluia. O grande Mozart disse certa vez que “daria toda a minha obra para ter escrito o “Prefácio” da missa gregoriana”. Foi a maior homenagem que o canto gregoriano, o “cantochão”, recebeu. (DR., pg. 429)
Entre os grandes artistas da época vale a pena destacar aqui Giotto (1266-1337). Este gênio da pintura ligou a alma de S. Francisco de Assis com a técnica romano-bizantina. Deixou belas pinturas na Basílica de S. Francisco em Assis. Ele nasceu em Florença, na Itália; e ocupou um lugar na história da arte ocidental. Ele abriu um caminho novo para a arte; nenhum dos seus contemporâneos o igualou na pintura. Logo que seus dons começaram a brilhar ele foi levado para Roma, Sicília, Pádua, Rimini, Nápoles, Ravena e toda a Itália e fora dela. Seu gênio tinha a fecundidade dos espíritos superiores. Era uma alma profundamente voltada para Deus; era um filho espiritual de S. Francisco.
Algumas de suas obras são: o Crucifixo de Pádua e de Santa Maria em Florença, a Madona dos Ofícios, a Virgem de Berlim, a vida de Cristo e da Virgem Maria da capela de Arena em Pádua.
Em Assis, o “Milagre da fonte e a Presença dos Pássaros”, corresponde ao espírito de S. Francisco. No Cristo da “Ressurreição de Lázaro (Arena) e no “Beijo de Judas” pode-se ver a sua genialidade.
Giotto foi um gênio cristão. Foram seus filhos distantes o Fra Angélico, os Signorelli, Michel Ângelo e muitos outros.
Depois de conhecer apenas um pouquinho da grandeza da arte cristã espelhada na arquitetura das catedrais, na escultura e nos vitrais, na música e na pintura, não é possível ficar calado diante daqueles que por ignorância ou por maldade querem negar o esplendor da Idade Média cristã.
Sem tudo isso que relatamos resumidamente, isto é, sem o sal, o fermento, e a luz da fé cristã, a força da Igreja, a presença dos seus grandes monges, artistas, pintores, escultores, músicos e arquitetos, o que restaria? Um grande vazio! Simplesmente não existiria a Europa que hoje conhecemos e a civilização ocidental que desfrutamos. Tudo foi obra da Igreja Católica.
Diante disso dói profundamente na alma assistir a cena deplorável, anti-história e maldosa, quando a Constituição da União Européia se nega a reconhecer o Cristianismo em seus estatutos como a força motriz de sua existência. É um acontecimento semelhante àquele do filho que renega a existência do próprio pai.
Mas a Igreja continua o seu caminho e a sua missão de salvar todos os homens e mulheres de todos os tempos e de todos os lugares. Ela não espera aplausos e condecorações, porque sabe que a sua história foi escrita com sangue.
Postagem original:
http://www.domluizbergonzini.com.br/2012/04/o-cristianismo-e-igreja-catolica.html
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Cavaleiros Teutônicos
| Brasão dos Cavaleiros Teutônicos |
A Ordem dos Cavaleiros Teutônicos do Hospital de Santa Maria em Jerusalém, ou apenas Ordem Teutônica, foi uma ordem religiosa católica alemã. Foi formada para ajudar os cristãos em suas peregrinações à Terra Santa e para estabelecer hospitais no sentido de cuidar dos doentes e feridos. Seus membros ficaram popularmente conhecidos como Cavaleiros Teutônicos, já que eles também serviam como ordem militar cruzada durante a Idade Média. A sociedade era sempre pequena e quando precisava crescer, voluntários e mercenários aumentavam as forças militares.
Constituída no final do século XII no Acre (atual Israel), no Mediterrâneo Oriental, a Ordem Medieval exerceu um papel importante na formação dos Estados Cruzados (Outremer, em francês), controlando o porto de Acre. Após as forças cristãs terem sido derrotadas no Oriente Médio, a Ordem mudou para a Transilvânia em 1211 para ajudar a Hungria contra os Cumanos (povo nômade de origem turca). Eles foram expulsos em 1225 após supostamente tentar colocar-se sob comando papal ao invés da nobreza húngara.
Após a Bula Áurea de Rimini (“bula áurea” era um decreto contendo um ornamento dourado representando um selo editado pelos imperadores bizantinos), o Grande Mestre Hermann von Salza (1179 – 1239) e o Duque Konrad I da Masovia organizaram uma invasão conjunta da Prússia em 1230 para cristianizar os antigos prussianos bálticos durante as Cruzadas Nórdicas. Os cavaleiros foram então acusados de ameaçar o domínio polonês e criar um Estado Monástico independente (Ordensstaat). A Ordem perdeu seus objetivos principais na Europa, quando o país vizinho da Lituânia adotou oficialmente o Cristianismo. Uma vez estabelecida na Prússia, a Ordem envolveu-se em campanhas contra seus vizinhos cristãos, o Reino da Polônia, o Grão-Ducado da Lituânia e a República Novgorod (Estado russo que ia do Mar Báltico até os Urais).
Os Cavaleiros Teutônicos possuíam uma economia forte, contratando mercenários por toda a Europa para aumentar seus domínios feudais e tornaram-se uma potência naval no Mar Báltico.
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| Armas do Grão-Mestre Ordem dos Cavaleiros Teutônicos. |
Fundação
Em 1143, o Papa Celestino II ordenou aos “Cavaleiros Hospitaleiros” (uma organização cristã que começou como um hospital amalfitano* fundado em Jerusalém cerca de 1080 para ajudar os pobres, doentes e peregrinos à Terra Santa) a assumir a administração de um hospital alemão em Jerusalém que, de acordo com o cronista Jean d´Ypres, acomodava um número incontável de peregrinos alemães e cruzados que não falavam a língua local (isto é, o francês) nem o latim.
Entretanto, apesar de ser formalmente uma instituição dos Hospitaleiros, o Papa autorizou que aqueles e os irmãos do domus Theutonicorum (Casa dos Alemães) deveriam ser os próprios alemães, logo uma tradição de uma instituição religiosa com orientação germânica poderia se desenvolver durante o século XII na Palestina.
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| Lago Peipus Reprodução em Cobre |
Originalmente baseado em Acre, os Cavaleiros adquiriram Montfort (Starkenberg), nordeste de Acre, em 1220. Este castelo, que defendia a rota entre Jerusalém e o Mar Mediterrâneo, tornou-se o assento dos Grandes Mestres em 1229, apesar deles terem voltado a Acre após perderem Montfort para os mulçumanos em 1271. A ordem também tinha um castelo próximo a Tarsus na Armênia Menor (Turquia). A ordem recebeu doações de terra no Sacro Império Romano (especialmente na atual Alemanha e Itália), Grécia e Palestina.
* da província de Amalfi, em Salerno, Itália.
** um guia para a vida religiosa segundo os preceitos estabelecidos por Santo Agostinho após sua conversão em 384 d.C., quando doou sua fortuna e levou uma vida de estudos e orações.
O Imperador do Sacro Império Romano Frederico II (1194 – 1250), da Dinastia Hohenstaufen, concedeu ao seu amigo Hermann von Salza o status de Reichsfürst, ou Príncipe do Império, permitindo ao Grande Mestre negociar com outros príncipes mais velhos em condições de igualdade. Durante a coroação de Frederico II como Rei de Jerusalém, em 1225, os Cavaleiros Teutônicos serviram como sua escolta até a Igreja do Santo Sepulcro; von salza leu a proclamação do imperador tanto em francês quanto em alemão. Entretanto, os Cavaleiros Teutônicos nunca foram tão influentes em Outremer como os antigos Templários e os Hospitaleiros.
Em 1211, Andrew II da Hungria (1177 – 1235) aceitou seus serviços e garantiu-lhes o distrito de Burzenland na Transilvânia. Andrew estava envolvido em negociações para o casamento de sua filha com o filho de Hermann, Landgrave da Turíngia, cujos vassalos incluíam a família de Hermann von Salza. Liderados por um irmão chamado Teodorico, a Ordem defendeu a Hungria contra os vizinhos cumanos e assentaram novos colonos alemães entre o povo conhecido como saxões transilvanianos, antigos moradores da região. Em 1224, os Cavaleiros solicitaram ao Papa Honório III para serem colocados diretamente sob autoridade papal, ao invés do Rei da Hungria. Enraivecido e alarmado pelo seu poder crescente, Andrew expulsou-os em 1225, apesar de ter permitido aos novos colonos permanecerem.
Os Cavaleiros vestiam um sobretudo sobre a armadura com uma cruz negra. Uma cruz pattée (uma cruz estreita no centro e larga nas bordas) era algumas vezes usada como o brasão da Ordem; esta imagem foi mais tarde usada para condecoração militar e insígnia pelo Reino da Prússia e Alemanha como a famosa Cruz de Ferro. A figura 1 mostra o brasão dos Cavaleiros Teutônicos.
Prússia
Em 1226, Konrad I, Duque da Masóvia, na Polônia ocidental central, apelou para os Cavaleiros para defenderem suas fronteiras e derrotar os prussianos pagãos bálticos, permitindo aos Cavaleiros Teutônicos em usar a Culmerlândia como base para sua campanha. Sendo esta uma época de extenso fervor cruzado por toda a Europa Ocidental, Hermann von Salza considerou a Prússia como um bom treinamento para seus soldados na guerra contra os mulçumanos em Outremer. Com o Selo Dourado de Rimini, o Imperador Frederico II garantiu à Ordem um privilégio imperial especial para a conquista e posse da Prússia, incluindo a Culmerlândia, com a aprovação nominal papal. Em 1235, os Cavaleiros Teutônicos assimilaram a pequena Ordem de Dobrzyn, que havia sido estabelecida por Konrad.
A conquista da Prússia foi conseguida com muito sangue durante mais de 50 anos, durante o qual os prussianos nativos que permaneceram pagãos foram subjugados, assassinados ou exilados. A luta entre os Cavaleiros e os prussianos foi feroz; estórias da Ordem dão conta de os prussianos serem “queimados se capturados vivos em suas armaduras, como castanhas, diante de um santuário de um deus local.”
A nobreza nativa que se submeteu aos cruzados teve muitos de seus privilégios garantidos no Tratado de Christburg. Após as revoltas prussianas de 1260 – 1283, contudo, muito da nobreza prussiana emigrou ou foi reassentada, e muitos cidadãos livres prussianos perderam seus direitos. A nobreza que permaneceu no lugar aliou-se mais proximamente dos latifundiários alemães e gradualmente foram assimilados. Os camponeses nas regiões fronteiriças, como a Samlândia, tiveram mais privilégios do que em terras mais populosas, como a Pomesânia. Os cavaleiros cruzados freqüentemente aceitavam o batismo como uma forma de submissão dos nativos. O cristianismo ao longo das linhas ocidentais vagarosamente foi incorporado na cultura prussiana.
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| Cavaleiro da Ordem Teutônica |
A Ordem dominou a Prússia sob licença papal e do Imperador do Sacro Império Romano sob a forma de um Estado Monástico, comparável em organização aos Cavaleiros Hospitaleiros em Rodes e, depois, em Malta.
Para recompor as perdas da Peste Negra (1347 – 1351) e substituir a população nativa parcialmente morta, a Ordem encorajou a imigração de colonos do Sacro Império Romano da Nação Alemã (962 – 1806), sendo a maioria alemães, flamengos e holandeses, e da Masóvia (poloneses). Os colonos incluíam nobres, burgueses e camponeses, e os antigos prussianos sobreviventes foram gradualmente assimilados através da “germanização”. Os colonos fundaram numerosas cidades e províncias nos assentamentos prussianos. A própria Ordem construiu um número de castelos (Ordensburgen) a partir dos quais eles poderiam derrotar as revoltas dos velhos prussianos, assim como continuar seus ataques contra o Grã-Ducado da Lituânia e o Reino da Polônia, contra o qual a Ordem constantemente se encontrou em guerra nos séculos XIV e XV. As principais cidades fundadas pela Ordem incluíram Königsberg, fundada em 1255 em honra do Rei Otakar II da Boêmia no lugar de um assentamento prussiano destruído, Allenstein, Elbing e Memel.
Em 1236, os Cavaleiros de São Tomáz, uma Ordem inglesa, adotou as regras da Ordem Teutônica. Os Irmãos Livonianos da Espada (ordem fundada em 1202 pelo Bispo Alberto de Riga) foram absorvidos pelos Cavaleiros Teutônicos em 1237; o ramo livoniano subseqüentemente tornou-se conhecido como Ordem Livoniana. O domínio territorial teutônico estendeu-se sobre a Prússia, Livônia, Semigália e Estônia (países bálticos).
Seu próximo objetivo era converter a Rússia ortodoxa em católica romana, mas após os cavaleiros sofrerem uma derrota desastrosa na Batalha do Lago Peipus (1242), sob o comando do Príncipe Alexander Nevsky de Novgorod (1220? – 1263), este plano foi abandonado. Um destacamento de Cavaleiros Teutônicos supostamente participou em 1241 da Batalha de Legnica, na Silésia, contra os Mongóis.
Apogeu do Poder
Em 1337, o imperador do Sacro Império Louis IV (1282 – 1347) supostamente garantiu à Ordem o privilégio imperial de conquistar toda a Lituânia e Rússia. Durante o reino do Grande Mestre Winrich von Kniprode (1351-1382), a Ordem atingiu o ápice de seu prestígio internacional e manteve um grande número de cruzados europeus e nobreza.
O Rei Alberto da Suécia (1338 – 1412) cedeu a ilha de Gotland para a Ordem como um compromisso, desde que os teutônicos eliminassem a base dos Irmãos Victual, uma irmandade pirata do Mar Báltico, localizada na ilha. Uma força de invasão sob o comando do Grande Mestre Konrad von Jungingen (1355 – 1407) conquistou a ilha em 1398 e expulsou os Irmãos Victual de Gotland e do Mar Báltico.
Em 1386, o Grã-Duque Jogaila da Lituânia foi batizado e casou com a Rainha Jadwiga da Polônia, assumindo o nome de Wadislaw II Jagiello e tornando-se Rei da Polônia. Isto criou uma união pessoal entre os dois países e um adversário potencialmente formidável contra os Cavaleiros Teutônicos. A Ordem inicialmente tentou jogar Jagiello e seu primo Vytautas, Grã-Duque da Lituânia (1401 – 1430), um contra o outro, mas esta estratégia falhou quando Vytautas começou a suspeitar que a Ordem planejava anexar partes de seu território.
O batismo de Jagiello começou a conversão oficial da Lituânia para o Cristianismo. Apesar da cruzada da Ordem terminar quando a Prússia e Lituânia terem se convertido oficialmente ao Cristianismo, os feudos da Ordem prosseguiram as guerras contra a Lituânia e a Polônia. A União Lizard foi criada em 1397 por nobres prussianos na Culmerlândia para se opor à política da Ordem.
Em 1407, a Ordem alcançou sua máxima expansão territorial e incluía as terras da Pomerelia, Samogitia, Curlândia, Livônia, Estônia, Gotland, Dagö, Ösel e Neumark, esta última comprada de Brandenburgo em 1402. A figura 3 mostra a máxima expansão territorial da Ordem.
Declínio
Em 1410 na Batalha de Tannenberg – conhecida em polonês como Batalha de Grunwald e na Lituânia como Batalha de Zalgiris – um exército combinado polonês-lituano, liderado por Vladyslav II Jagiello e Vytautas, derrotou decisivamente a Ordem. O Grão-Mestre Ulrich Von Jungingen e a maioria dos altos dignatários da Ordem foram mortos na batalha (50 de 60). O exército polonês-lituano então cercou a capital da Ordem, Marienburg, mas foi incapaz de tomá-la devido à resistência de Henrique Von Plauen. Quando a Primeira Paz de Thorn foi assinada em 1411, a Ordem conseguiu manter essencialmente todos os seus territórios, apesar da reputação de invencibilidade dos Cavaleiros ter sido arranhada.
Enquanto Polônia e Lituânia cresciam em poder, os Cavaleiros Teutônicos diminuíam sua força. Eles foram obrigados a impor altos impostos no sentido de pagar uma indenização de guerra substancial, mas não deram às cidades suficiente representação na administração de seu estado. O autoritário e reformista Grão-Mestre Henrique Von Plauen foi forçado a abdicar e foi substituído por Michael Küchmeister von Sternberg, mas o novo Grão-Mestre foi incapaz de reviver a fortuna da Ordem. Após a Guerra de Gollub, os Cavaleiros perderam pequenos pedaços de regiões fronteiriças e renunciaram à todas as exigências sobre a região da Samogitia (Lituânia) no Tratado de Melno em 1422.
Cavaleiros da Áustria e da Bavária rivalizavam com os da Renânia, os quais, por sua vez, brigavam com os Saxões da Baixa Alemanha, de cujas fileiras o Grão-Mestre era geralmente escolhido. As terras ocidentais da Prússia do Vale do Rio Vistula e do Brandenburgo Neumark foram devastadas pelos hussitas (cristãos tchecos) durante as Guerras Hussitas. Alguns Cavaleiros Teutônicos foram enviados para enfrentar os invasores, mas foram derrotados pela infantaria boêmia. Os Cavaleiros também foram derrotados na Guerra Polonesa-Teutônica (1431-1435).
Em 1454, a Confederação Prussiana, consistindo de nobres e burgueses da Prússia Ocidental, levantou-se contra a Ordem, começando a Guerra dos Trinta Anos. A maior parte da Prússia foi devastada na guerra, durante a qual a ordem retornou Neumark para Brandenburgo em 1455. Na Segunda Paz de Thorn (1466), a ordem derrotada reconheceu os direitos da Coroa Polonesa sobre a Prússia Ocidental (subseqüentemente Prússia Real) enquanto mantinha a Prússia oriental sob controle polonês. Pelo fato do castelo de Marienburg ser tomado por mercenários em troca de seu pagamento, a Ordem se mudou para sua base em Königsberg, na Sambia.
Texto de Emerson Paubel
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