Henry John Stock é um pintor que viveu entre 1853 e 1930.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
sexta-feira, 24 de julho de 2015
A morte do rakshasa Hiranyakashipu
O monumento retrata a morte do rakshasa (uma espécie de demônio) Hiranyakashipu nas garras de Narasimha, um avatar da deusa Vishnu. Hiranyakashipu havia pedido o dom da imortalidade para Brahma, como recompensa por seus esforços ascéticos, mas Brahma disse que nada que é criado pode ser imortal. O demônio então, sabiamente, pediu uma espécie de imortalidade parcial, pedindo que não pudesse ser morto por nenhuma criatura jamais criada, nascida de uma mãe, um pai, gerada por ovo e nem criada de dia ou de noite e que não morresse em canto algum do mundo, seja terra, mar ou ar, e que nem pudesse ser morto por qualquer tipo de arma. E que pudesse ser imune a doenças ou catástrofes, ou seja, ele esgotou as possibilidades das coisas que poderia matá-lo. O demônio odiava a deusa Vishnu e ficou consternado por seu filho Prahlada ser um devoto muito fervoroso da deusa. Tentou matar seu próprio filho de diversas maneiras até que a deusa enviou Narasimha para eliminar o demônio e salvar Prahlada. O avatar era metade homem e metade leão, ou seja, uma criatura jamais criada, ela surgiu do meio de um pilar de pedra, ou seja, não foi gerada por nenhum dos meios conhecidos, e matou o demônio sobre seus joelhos, que não é nem terra, nem ar e nem água.
Rodolfo Souza
terça-feira, 14 de julho de 2015
Características masculinas e femininas de Deus
No Islã as qualidades divinas são nomeadas em dois grupos, jalal (majestade) e jamal (beleza). Majestade é a revelação e autoridade que queima e consome os mundos. É, num aspecto rigoroso, severo e masculino. Beleza, por sua vez, é o feminino; é a síntese da piedade, generosidade, compaixão e todas qualidades análogas a essas.
Deus, segundo essa visão, tem um lado jalal e outro jamal. Possui em si os aspectos da poderosa majestade e da maravilhosa bondade em perfeita comunhão.
Esses dois aspectos também são chamados pelos nomes de Adl e Fadl (Justiça e Recompensa) ou Ghazab e Rahma (Ira e Misericórdia) ou Qahr e Lutf (Severidade e Gentileza).
Apesar do Corão se referir a Deus como "pai" essa união entre características masculinas e femininas em Deus fez com que alguns teólogos muçulmanos afirmarem que Deus não tem gênero nem mesmo metafóricamente.
Inclusive, alguns interpretam que a característica feminina de Deus esteja até mais evidente que a masculina sendo que o próprio profeta Maomé disse que no trono de Deus está escrito "Minha Misericórdia tem precedência sobre Minha Ira".
sábado, 11 de julho de 2015
Delação e denúncia: usos à direita e à esquerda
"Escuta, Zé Ninguém: a miséria da existência humana é visível à luz de cada um destes pequenos horrores. Cada acto mesquinho teu faz retroceder de mil passos qualquer esperança que possa restar quanto ao teu futuro”.
Wilhelm Reich
“Não se ensinam os homens a serem honestos, mas ensina-se tudo o mais.”
Pascal
As democracias podem ser imperfeitas, mas as ditaduras são monstruosas. Como não suportam a pluralidade das opiniões e as críticas que clamam por liberdade, as ditaduras facilmente inventam bruxas para justificar o regime de exceção. Nelas, muita gente inocente foi queimada com brasas de constrangimentos e torturas até à morte, a partir de uma acusação ou delação anônima.
Cony observa que “durante o regime militar, tivemos uma excelente safra de dedos-duros. Alguns exerciam a função gratuitamente, não pretendiam prêmios nem vantagens, delatavam por amor à arte de delatar. Outros, certamente a maioria, delatavam para ganhar alguma coisa: penas menores em certos casos, dinheiro vivo em outros” (Cony, C. H. FSP, 18/08/2005)
Nessa época, o cantor Wilson Simonal, no auge de seu sucesso, foi “queimado” pelo meio artístico como dedo-duro, porque supostamente teria servido aos órgãos de repressão do regime militar. Embora tenha sido absolvido num julgamento simbólico da acusação de ter atuado como delator durante o Regime Militar, o referido cantor morreu com essa nódoa na sua imagem de cidadão e artista.
Há ainda o nebuloso Cabo Anselmo, considerado um “denunciador” pelos militares de direita e “delator” pelos militantes de esquerda. Essa diferença foi feita no nosso artigo anterior. Podemos simplificar esta distinção da seguinte maneira: a delação é uma acusação condenatória contra alguém ou cúmplice, por vingança, interesse pessoal ou para aliviar o medo das pressões e ameaças de um grupo corporativo; já o que move a denúncia não é a vingança, nem o interesse pessoal, mas sim, o desejo de fazer o bem para um ser (humano ou animal) que sofre algum tipo de violência. Nesse sentido, a denúncia visa beneficiar a coletividade ameaçada ou refém de um criminoso ou grupo transgressor da lei. Delata-se um colega (como revela o conto de Machado de Assis), ou um companheiro de luta política, um cúmplice, mas denuncia-se um pedófilo, um torturador, um seqüestrador, um terrorista, um narcotraficante, etc.
A história do Brasil está marcada de anti-heróis como Silvério dos Reis, o delator dos conjurados que lutavam para libertar o Brasil de Portugal, dentre os quais, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que dignamente passou para nossa história como o mártir da independência. Silvério dos Reis foi associado pelo imaginário popular à figura bíblica de Judas, e Tiradentes foi associado à imagem de Jesus.
Seria exagero considerar que a história da humanidade é uma história não contada sobre as delações e delatores que ficaram no anonimato? Assim como a tradição dos estudos de história despreza a investigação do cotidiano (Heller, 1992; 2002) privilegiando o papel das revoluções e dos heróis, somente uma história ‘nova’ poderia investigar os indícios e motivos que levaram alguns optarem pela delação e traição, influenciando desse modo o destino dos homens do poder, justificando seu gesto em nome de uma elite, ou de um povo ficcionado, ou, ainda, visando servir a “construção de uma realidade delirante” (Castoriadis, 1987: 207-224), onde é inevitável a difusão da paranoia social. (Os estudos sobre a “Psicologia de massa do fascismo” [W. Reich], a “personalidade autoritária” [T. Adorno], e a “mentalidade fascista” [I. Carone] elucidam algumas das motivações da delação, bem como convida-nos a uma atitude preventiva sobre o “que fazer” para construir uma sociedade com menos infâmia).
Delação-denúncia à esquerda e à direita
A delação sempre foi um poderoso instrumento de sustentação dos regimes totalitários. O nazi-fascismo usou criminosos e mesmo pessoas de bem para criar um clima de medo e de paranoia. O totalitarismo soviético – principalmente no período do “homem de ferro” J. Stalin – fez da delação uma obrigação moral dos cidadãos que eram estimulados a colaborar para o “triunfo do socialismo”. A famosa ditadura “do” proletariado passou a ser a ditadura “sobre” o proletariado, observou Karl Korsh [1886-1961]. No período stalinista os segredos não eram confiados a ninguém com medo de ser denunciado aos órgãos repressivos, com ou sem razão; as pessoas evitavam criticar a gestão socialista que gerava imensas filas, desabastecimento, maquiagens das estatísticas do governo, os privilégios dos burocratas do Partido Comunista, a arrogância e descaso dos funcionários públicos da nova ordem proletária. Talvez o caso mais emblemático foi o garoto Pavlik Morozov transformado símbolo exemplar do stalinismo, com estátuas erguidas pelo país por ter denunciado o próprio pai como traidor dos ideais socialistas e “inimigo do povo”.
Também nos EUA, após a 2ª. Guerra, o período conhecido de “caça às bruxas”, imposto pelo senador McCarthy, levou o país a uma onda de delação de qualquer pessoa suspeita de atividades consideradas “anti-americanas” ou “comunistas”. O cineasta Elia Kazan, por exemplo, seria lembrado na história do cinema mais como delator dos artistas do que pelos filmes interessantes que realizou (ver, abaixo). Em 1999 quando o velho cineasta foi a Academia receber o Oscar pelo conjunto de sua obra, o público ainda demonstrava ressentimento pela sua atitude no passado, não se levantando e nem o aplaudindo.
Em 1951, o casal de cientistas judeus nova-iorquinos, Julius e Ethel Rosenberg, também foram vítimas do denuncismo macarthista. O casal foi acusado, julgado e condenado à morte por ter supostamente roubado e entregue para a União Soviética segredos sobre a bomba atômica desenvolvida pelos cientistas norte-americanos. A execução fatal aconteceu em 1953, sob protestos no mundo todo.
Na mesma época, por conta da Guerra Fria, o químico Linus Pauling (1901-1994), que fez campanha contra os testes nucleares, foi difamado tanto nos EUA como “insuficiente anticomunista”, como também na União Soviética, com o pseudo-argumento de que as ideias do cientista foram consideradas incompatíveis com o materialismo dialético.
Após a reunificação das duas Alemanhas, um dos grandes problemas foi exatamente o serviço secreto da Alemanha Oriental ou Socialista – o STASI. Por quê? Pelo fato de que virou instituição, com muitas informações e muitos informantes prontos para acabar com a vida social de qualquer cidadão. “Houve casos em que maridos relatavam para o serviço secreto todos os passos da esposa. Amigos contavam segredos de amigos. Para se ter ideia de como a coisa era nojenta, os arquivos ou dossiês (que não foram queimados) contando a vida das pessoas foram liberados para visitação. O que significava que a pessoa poderia descobrir quem ‘dedou’ ela. Foi tanto casamento sendo desfeito por conta disso que passaram a avisar do perigo ‘você pode se arrepender de descobrir a verdade’”.
Ou seja, um Estado considerado “policial” acha que tem o direito de controlar tanto a vida pública dos indivíduos como suas próprias vidas íntimas por meio de uma rede de dedos-duros prontos, muitas vezes voluntários que se prestam para servir a “Pátria”, o “povo” a “causa x”, abolindo dessa força a própria distinção entre o que é domínio público e o que é privado. Por isso que H. Arendt conceitua o totalitarismo de “mal absoluto” e C. Castoriadis prefere chamar de “monstruoso”, porque é um regime político que produz crimes “que o homem não pode punir nem perdoar” e em escala inimaginável”.
Por mais imperfeita que seja, a democracia – que alguns com vocação autoritária desqualificam de democracia “burguesa” – tem a virtude de garantir um mínimo de debate, de respeito para com a pluralidade das opiniões, e de investigação, para esclarecer denúncias, averiguar a motivação das acusações, que, quando provadas, cabe a justiça exercer o poder de punir os responsáveis.
O delator é vítima do sistema ou é responsável por sua escolha pessoal?
A delação em si mesma não é um ato moral porque não visa o bem coletivo, como já foi dito anteriormente. Também não faz parte da natureza humana ser delator, embora certas ‘condições’ possam pressionar estruturas psíquicas mais frágeis de encontrarem saída nesse tipo de ato, como forma de sobrevivência.
Jean-Paul Sartre (1978) observa que qualquer sujeito humano é livre para escolher ser covarde ou herói. Usando a mesma linha de raciocínio podemos também dizer que somos livres para escolher delatar ou não, denunciar ou não. Assim como o covarde se faz covarde e o herói se faz herói, também o delator se faz delator, isto é, se o sujeito escolheu ser delator por motivo de vingança, inveja, ou para se safar de uma pressão do grupo ou agradar um chefe, somente ele é responsável pela sua escolha. Nos campos de concentração nazista os que escolheram, eticamente, resistir até o limite de suas forças físicas e psicológicas preferiram pagar com sua vida para não entregar os companheiros. É verdade que a violência – a tortura – tem poder para forçar alguém a dizer coisas contra a sua vontade, ou seja, depende da estrutura psíquica e da formação moral da vítima. Nietzsche dizia que, nesses casos, o veneno que não chega a matar pode fortalecer o caráter.
Muitos delatores não são más pessoas, mas personalidades que fraquejam diante de pressões, ameaças e promessas disso ou daquilo. Muitas delações foram e continuam sendo praticadas em nome de causas justas e injustas como a “liberdade democrática”, a “causa proletária”, a “revolução cultural’, a “supremacia da raça ariana”, os “valores corretos”, a “moral e os bons costumes”, a “guerra santa”, e até de “Deus”. “O futuro de uma ilusão” (Freud), o autoengano e a “razão cínica” são mecanismos psíquicos recorrentes pelos sujeitos convictos de que seu ato é legitimo ou moral.
Parece que o pior delator é o delator moralista e cínico, porque faz desse seu ato infame um fundamento de moral coletiva. O delator cínico se assemelha ao fundamentalista religioso ou laico, porque interpreta a moral literalmente; ele confunde moral e ética, e, entende que “vale tudo” para fazer impor a “sua” idéia de moralidade para todos, custe o que custar.
Tal como a Fênix, a onda denuncista ou dedurista sempre renasce das cinzas, numa espécie de transe coletivo, causando efeitos danosos nos inocentes, destruindo famílias, amizades e empreendimentos (ver caso da Escola Base, no nosso próximo artigo), banindo o acusado do grupo antes do julgamento, obrigando a suportar a tortura psicológica e os assédios morais do cotidiano. Como nem todos conseguem suportar o “jogo” de forças de um julgamento de um tribunal, não raro o inocente opta pelo suicídio como forma última de libertar do sofrimento e recuperar a dignidade social.
Nesse sentido, vale a pena assistir preventivamente alguns filmes que discutem algumas conseqüências do ato delatório: As bruxas de Salem, Sindicato dos ladrões, A onda, Todos os homens do presidente – o Caso Watergate, Testa de ferro por acaso – de W. Allen, Dogville, Acusação… (veja lista no final). Os filmes sobre a máfia são interessantes para se refletir – e criar uma consciência preventiva – sobre as conseqüências psíquicas e sociais do dedurismo e da traição. O livro “O veneno da madrugada” de Gabriel Garcia Márquez, e filme, previsto para ser lançado em setembro/2005, de Ruy Guerra, embora seja ficção ajuda a refletirmos sobre o assunto. A trama envolve os moradores de uma pequena cidade ameaçados com bilhetes anônimos. Cada cidadão pode ser a próxima vítima. E cada um pode ser o autor dos bilhetes. Seria um alívio se tudo isso fosse apenas ficção…mas não é.
Artigo de RAYMUNDO DE LIMA
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terça-feira, 23 de junho de 2015
A Virgem Vestal de Pietro Saja
As vestais eram, na Roma Antiga, as sacerdotisas que cultuavam a deusa romana Vesta. O grupo era restritamente feminino e formado por meninas de 6 a 10 anos que serviam à deusa durante 30 anos.
As virgens vestais eram vistas como símbolos de pureza, e qualquer atentado a elas representava também um desrespeito aos deuses e à sociedade romana. Durante os 30 anos de reclusão as mulheres eram desobrigadas de casar e ter filhos e, mais do que isso, deviam preservar sua castidade e virgindade.
Acontece que a virgem retratada por Saja quebrou o seu voto de castidade e, por isso, foi condenada a ser enterrada viva. Perceba a expressão triste da moça, bem como a posição dos seus braços e ombros, largados sobre as suas pernas.
A única luz que irradia no ambiente é oriunda de uma pequena janela e ilumina a face da virgem.
segunda-feira, 1 de junho de 2015
Conto Medieval: As doze palavras ditas e retornadas
Era uma vez um homem muito trabalhador e honrado, mas infeliz em todo negócio em que se metia. Tinha ele devoção ao Anjo da Guarda, rezando todos os dias em sua intenção.
Cada vez mais pobre, o homem perdeu a paciência, e um dia gritou, desesperado com sua triste sina:
— Acuda-me o diabo, que o Anjo da Guarda não me quer ajudar!
Apareceu um sujeito alto, todo vestido de preto, barbudo e feio, com uma voz roufenha e desagradável:
— Aqui estou! Aqui estou! Que é que queres de mim?
— Quero ficar rico.
O diabo indicou uma gruta onde havia um tesouro enterrado, e disse:
— Daqui a vinte anos voltarei para buscar-te. Se não disseres as doze palavras ditas e retornadas, serás meu para toda a eternidade.
O homem começou a viver folgadamente, em festas e alegrias, cercado de amigos e de mulheres.
O tempo foi passando, e uma noite ele lembrou-se de que estava condenado às penas do inferno. Só se soubesse as doze palavras ditas e retornadas...
— Isso deve ser fácil — disse ele consigo. — Todo mundo deve saber.
No dia seguinte perguntou aos amigos, aos vizinhos e a todos os moradores da cidade, e não havia quem soubesse o que vinha a ser o que ele lhes perguntava.
O homem afligiu-se muito. Cada vez mais o tempo passava, e ninguém sabia o segredo das doze palavras ditas e retornadas. Largou ele a vida má que levava, fez penitência e saiu pelo mundo, perguntando. Todos diziam:
— Não sei, nunca ouvi falar...
O homem só faltava morrer, com o pavor da ideia de ter de encontrar-se com o diabo e ser carregado para o fogo eterno.
Já correra muito tempo desde que deixara o folguedo dos ricos, vestindo com modéstia e dando esmolas.
Uma tarde, ia por um bosque na hora da "Ave-Maria". Ajoelhou-se para rezar, e ao terminar viu um velho que se aproximava dele.
Cumprimentou-o, e foram andando juntos para a vila. Perguntou ao velho como ele se chamava.
— Chamo-me Custódio — respondeu.
Para não deixar de perguntar, falou nas doze palavras ditas e retornadas. E o velho Custódio lhe disse:
— Eu sei as doze palavras ditas e retornadas.
O homem ficou tão satisfeito que abraçou o velho, dando graças a Deus e dizendo que aquilo era um milagre do Anjo da Guarda, sua devoção antiga.
— Como são as doze palavras ditas e retornadas? Qual é a primeira, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! A primeira palavra dita e retornada é a Santa Casa de Belém, onde nasceu Nosso Senhor Jesus Cristo, para nos remir e salvar.
— E as duas palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As duas palavras ditas e retornadas são as duas tábuas de Moisés, em que Nosso Senhor pôs seus divinos pés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.
— E as três palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo não! As três palavras ditas e retornadas são as três pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as duas tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.
— E as quatro palavras ditas e retornadas, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As quatro palavras ditas e retornadas são os quatro evangelistas, as três são as pessoas da Santíssima Trindade, as duas são as tábuas de Moisés, e a primeira é a Santa Casa de Belém.
— E as cinco palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As cinco palavras ditas e retornadas são as cinco chagas de Nosso Senhor.
— E as seis palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As seis palavras ditas e retornadas são as seis velas bentas que estão no altar-mor de Jerusalém.
— E as sete palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As sete palavras ditas e retornadas são os Sete Sacramentos.
— E as oito palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As oito palavras ditas e retornadas são as oito bem-aventuranças pregadas por Nosso Senhor Jesus Cristo.
— E as nove palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As nove palavras são os nove meses que a Virgem Mãe trouxe Nosso Senhor.
— E as dez, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As dez palavras ditas e retornadas são os Mandamentos da Lei de Deus.
— E as onze palavras, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As onze palavras são as onze mil virgens.
— E as doze, amigo Custódio?
— Custódio, sim; amigo, não! As doze palavras ditas e retornadas são os doze apóstolos, as onze são as onze mil virgens, as dez os Mandamentos, as nove os meses de Nossa Senhora, as oito as bem-aventuranças, as sete os Sacramentos, as seis as velas bentas, as cinco as chagas, as quatro os evangelistas, as três a Santíssima Trindade, as duas as tábuas de Moisés, a primeira a Santa Casa de Belém, onde nasceu quem nos salvou. Amém! Estas são as doze palavras ditas e retornadas.
— De joelhos te agradeço, amigo Custódio, essa esmola, a qual há de salvar-me do demônio!
— Custódio, sim, e teu amigo. Sou o Anjo da Guarda que vem perdoar-te pelo arrependimento e pela penitência.
E sumiu-se. O homem, quando chegou o prazo para prestar contas ao diabo, disse as doze palavras ditas e retornadas, e o maldito rebentou como uma bola de fogo, espalhando cheiro de enxofre.
O homem viveu santamente seus dias, e acabou na paz de Deus, salvando-se graças ao seu Anjo da Guarda.
Fonte: “Maravilhas do conto popular” - Cultrix, SP, 1960
Contos e Lendas Medievais
http://contoselendasmedievais.blogspot.com.br/2015/05/as-doze-palavras-ditas-e-retornadas.html
sábado, 23 de maio de 2015
O Cristianismo no Japão - Parte 5 : As Razões da Perseguição
Embora nunca cheguemos a compreender plenamente as razões que levaram os poderosos Xoguns a proibir a prática e difusão da Fé Cristã, temos algumas pistas para entender melhor toda aquela terrível perseguição.
Em primeiro lugar, há o receio da anexação do país como colônia estrangeira, como ocorreu em vários (de fato, quase a totalidade) países asiáticos. Com certeza, as informações sobre esses fatos não eram do desconhecimento de Hideyoshi Toyotomi ou dos Xoguns do clã Tokugawa.
Em segundo lugar, e talvez a mais temida, é a mudança do comportamento de um cristão convertido: ele ama Deus acima de tudo e, portanto, procura ser fiel às Suas Palavras, o que significa ser contrário ao pecado e às injustiças, mesmo que estas venham do seu superior hierárquico... E o fiel cristão, tendo como meta a felicidade eterna, não teme o sofrimento nem a morte quão terríveis sejam. Esta atitude deve ter chocado de frente com a prática do bushi-do (caminho do samurai), onde o subordinado muitas vezes era obrigado a se sacrificar pelo seu superior, numa atitude idolátrica...
Segundo história, Hideyoshi, visitando Hakata, hospedou-se no palácio do “daimyo” Cristão Arima e, ao 'escolher' as belas jovens para passarem a noite com ele, teve a recusa de todas, cristãs, que preferiram manter a pureza à dar-se ao poderoso deste mundo. Isto o preocupou sobremaneira, pois o fato das “simples” mulheres recusarem o maior mandatário do país num ambiente extremamente machista, era para ele um absurdo.
Assim como Cristo foi crucificado pelo temor dos 'poderosos' de Israel que se sentiram ameaçados pelas Suas mensagens de paz, caridade e fraternidade, os “poderosos” japoneses que viviam numa sociedade extremamente classista e injusta, sentiram ameaçados pelo Seu apelo de um mundo mais humano, justo e digno.
Hoje, os verdadeiros cristãos sentem o mesmo peso e ameaça de um mundo igualmente injusto e excludente, apesar de todo o progresso tecnológico alcançado pela humanidade, pois esta tecnologia que, ao mesmo tempo em que possibilita a democratização do conhecimento, pode se tornar o grande meio de controlar o povo e afastá-lo do caminho da felicidade eterna.
Precisamos refletir mais que nunca os exemplos daqueles que viveram a fé até às últimas conseqüências e convertermo-nos cada vez mais, a fim de alcançarmos a verdadeira meta da criatura humana, isto é, sermos co-herdeiros do Reino de Deus e participantes da natureza divina, não pelo nosso mérito, mas unicamente pelo mérito de Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Redentor.
Fonte
Em primeiro lugar, há o receio da anexação do país como colônia estrangeira, como ocorreu em vários (de fato, quase a totalidade) países asiáticos. Com certeza, as informações sobre esses fatos não eram do desconhecimento de Hideyoshi Toyotomi ou dos Xoguns do clã Tokugawa.
Em segundo lugar, e talvez a mais temida, é a mudança do comportamento de um cristão convertido: ele ama Deus acima de tudo e, portanto, procura ser fiel às Suas Palavras, o que significa ser contrário ao pecado e às injustiças, mesmo que estas venham do seu superior hierárquico... E o fiel cristão, tendo como meta a felicidade eterna, não teme o sofrimento nem a morte quão terríveis sejam. Esta atitude deve ter chocado de frente com a prática do bushi-do (caminho do samurai), onde o subordinado muitas vezes era obrigado a se sacrificar pelo seu superior, numa atitude idolátrica...
Segundo história, Hideyoshi, visitando Hakata, hospedou-se no palácio do “daimyo” Cristão Arima e, ao 'escolher' as belas jovens para passarem a noite com ele, teve a recusa de todas, cristãs, que preferiram manter a pureza à dar-se ao poderoso deste mundo. Isto o preocupou sobremaneira, pois o fato das “simples” mulheres recusarem o maior mandatário do país num ambiente extremamente machista, era para ele um absurdo.
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| Nossa Senhora do Japão |
Assim como Cristo foi crucificado pelo temor dos 'poderosos' de Israel que se sentiram ameaçados pelas Suas mensagens de paz, caridade e fraternidade, os “poderosos” japoneses que viviam numa sociedade extremamente classista e injusta, sentiram ameaçados pelo Seu apelo de um mundo mais humano, justo e digno.
Hoje, os verdadeiros cristãos sentem o mesmo peso e ameaça de um mundo igualmente injusto e excludente, apesar de todo o progresso tecnológico alcançado pela humanidade, pois esta tecnologia que, ao mesmo tempo em que possibilita a democratização do conhecimento, pode se tornar o grande meio de controlar o povo e afastá-lo do caminho da felicidade eterna.
Precisamos refletir mais que nunca os exemplos daqueles que viveram a fé até às últimas conseqüências e convertermo-nos cada vez mais, a fim de alcançarmos a verdadeira meta da criatura humana, isto é, sermos co-herdeiros do Reino de Deus e participantes da natureza divina, não pelo nosso mérito, mas unicamente pelo mérito de Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso Redentor.
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